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Full text of "Memorial das proezas da segunda tavola redonda : ao muyto alto e muyto poderoso rey dom Sebasti~ao, prymeiro deste nome em Portugal, nosso senhor / Impressa pela primeira vez no anno de 1567"

MEMORIAL DÁS PROEZAS 



DA 



SEGUNDA TAVOLA REDONDA 



líEMOEIAL DAS PROEZAS 



DA 



mmU TAYOLA REBOMA 

POR 

JOP.GE FEÍiriEIÍlA DE VASCONCELLOS 

AO MUYTO ALTO E MUYTO PODEROSO REY DOM SEBASTIÃO 
PRYMEIRO DESTE XOME EM PORTUGAL, NOSSO SENHOR 

IMPRESSA PELA PRIMEIRA VEZ NO ANXO DE l.ifi? 
2.* EDIÇÃO 



mmm. 



Tm^mr^ 



USBOA 

TYP. DO PANORAMA 

112— Rua do Arco do B.uideira— M2 

M DCCG LXVII. 



ALGUMAS PALAVRAS 



A RESPEITO d'eSTA NOVA EDIÇÃO DO MEMORIAL DOS CAVALLEIROS 
DA TAVOLA REDONDA 



O revisor desta edição esteve por muito tempo perplexo sobre a 
maneira como devia dirigir a reimpressão desta ol^ra, uma das mais ra- 
ras que se conhecem. * Seguiria escrupulosamente a orttiographia antiga, 
ou apresentaria á moderna o modo de fallar d"um portuguez quinhen- 
tista? 

Mas quem lerá esta obra? Os leitores dos modernos romances? Cer- 
tamente que não. Jorge Ferreira deVasconcellos não é um WalterScott, 
nem um Alexandre Herculano, Rebello daSilvaouC. Castello Branco. Os 
antigos talvez não gostassem dosmodernosromances, seospodessem ler; 
mas bofe que os modernos tãobem se não deleitam muito na leitura dos ro- 
mances dos séculos xv e xvi. 

Quem serão então os leitores do Memorial dos Cavalleiros? 

Hão de ser, com raríssimas excepções, os amantes dos livros portu- 
guezes antigos, que considerarão sempre esta obra como ulil para os 
amantes; da; pureza de lingoagem, para os que gostam de ver os pro- 
gressos que os estudos românticos fizeram em Portugal, para os estu- 
diosos dos antigos usos e costumes nacionaes e para pouco mais. Eis o 
que me resolveo a seguir a orthographia antiga. 

Quem possuir esta edição pode ter a certeza de que possue (com 
insignificantissimas discrepâncias, consistindo estas principalmente do de- 
sapparecimento das abreviaturas) a edição rara. 



M. Bernardes Branco 



* Vide Diccionario bibliographico do sr. Innocencio Francisco da Sil- 
va, IV vol., pag. 470. 



PROLOGO A EL REY NOSSO SENIIOR 



Quanto ao cabo ho tempo tem seu curso (muyto alto e muyto pode- 
roso Rey é senhor nosso). Veese claro no fastio que mostra das cousas 
que ja aprovou: como seja de velhos certo termo avorrecer os exercícios 
de mancebos. Nam cuydo porem que aja algum tam pertinaz e inimigo 
da rezão, que negue a valia dos feytos heroycos, e ho preço divido aa 
boa memoria. A qual sempre fortificou e produzio novos Impérios: o 
que assi entendido de Themistocles capitão Atheniense, per muytas noy- 
tes foy visto passear nas praças de Athenas sem repouso. E perguntado 
porque não dormia? respondeo que ho desvelavam os triumphos de Mel- 
ciades. A este mesmo fim dizia Cipião, que se lhe encendia ho animo 
em belicosa virtude olhando as estatuas dos passados. Júlio Gesar tim- 
bre de Emperadores, tendo pintado Alexandre Magno, suspirou com in- 
veja de este acabar a conquista do universo: e apossarsc da Monarchia 
na idade em que elle a pretendia com os desejos somente. E daqui veyo 
aos poer em eííeito. Donde parece quanto semelhantes exempros com- 
movem e incitam a immitalos aquelles que os contempram e sintem. E 
se os estranhos esta força tem, de necessidade os naturaes, terão muy- 
to mayor jurdição. Considerando pois eu no esclarecido Príncipe vosso 
padre que estaa em gloria, coluna que sostihha as esperanças destes Rey- 
nos, e nos prometia de si ho elTeyto muyto alem do cuydado, por quem 
com muyta rezão todos suspiramos. Ga nos fora norte e claro exempro 
de immitação. E que sendo a summa providencia servida de levalo pcra 



PROLOGO VII 

si em flor, em penhor delle nos deu mais miraculosa que naluralmenle 
vossa Alteza, do que os fados nos prometem gloriosas e estremadas em- 
presas. Pareceo-me de obrigação e necessidade trazer á luz ho torneo c 
mostra que nos delle ficou, pêra que como os que ho tratamos temos 
na memoria viva a dor de tal perda. Os que ho não alcançaram partici- 
pem desta magoa, e pêra vossa Alteza seja o a b c, e principio de suas 
heroycas obras: e juntamente cumpro com o que per elle em vida me 
foy mandado, o que me pode ser desculpa, e ante vossa Alteza serace- 
pta, e respeytando ho enxerir e encastoar ho diamante desta escritura 
em hum engaste de pao, se o parecer ho da historia que com ella apre- 
sento, ao esclarecido Príncipe ja apresentada. Porque como per si a 
sciencia seja huma cousa singular a que Juvenal chama vencedora da for- 
tuna. Aristóteles nenhum^genero delia estima ser mais excelente que a 
que ensina fazer hum bom Príncipe. Esta pedio Salamão por companhey- 
ra de seu Real trono. Esta falando de si mesma diz. Per mim governam 
os Princii)es. A qual sendo hum conhecimento de cousas divinas e hu- 
manas a Príncipes sobre todos necessário, que nam se alcança, salvo len- 
do e vendo muylo, parece nam lhe fazer pequeno serviço quem com pró- 
prio trabalho estrema e escolhe dantre os Chaoos das sciencias os ele- 
mentos e flores da mais necessária e própria a seus reaes espritos, que 
tomados da occupação de suas obrigações nam tem espaço pêra per si 
fazerem a tal escolha: terá a vossa Alteza doutros que receberam mais 
talentos mayor logro. Eu seguindo ho costume dos Persas que nam se 
apresentavam ante a Magestadb Real sem offrenda, á qual ho summo 
Príncipe Chrislo nosso autor confirmou ser divida: em reconhecimento 
da natural servidão, querendo pagar ho foro de meu lavor e trabalho, 
achey.a matéria' heroycajnais apropriada a todo real engenho, por nella 
se tratar qual deve ser ho varão per fama conhecido sobre as estrelas, 
segundo Homero e Vergilio altamente o pintaram em seus Poemas, aos 
quaes os nossos modernos immitaram com não menos arteficio, quando 
não estilo, nas historias dei Rey Artur, de Amadis de Gaula, e muyta? 
outras semelhantes, as quaes muyto sem causa sam julgadas por vaãs e 
sem fruyto (openião leve e vulgarmente concebida). Ca se cremos aOra- 
cio, aquelle tomou a palha que mesturou ho proveytoso com ho doce. 
Claro estaa'pois com quanta melodia nas taes heroycas escrituras se tra- 
ta ho bom da paz, ho necessário da guerra, a virtude de huns, a malí- 
cia douti"os. Einalmunte se moslia a olho a seara das incrinações huma- 



VIII PROLOGO 

nas, seus primores, seus defeitos, e a pintura desta vida, no curso Iam 
differente quanto no remate conforme. E assi se diz de sanctos e graves 
Doutores, colunas da militante Igreja, que nam somente as leram e se 
ajustaram de suas flores enxeridas em sua sagrada doutrina, mas feze- 
ram dignos de suas lagrimas os laes fingimentos dado que vãos, com 
cuja autoridade tomey esta árdua empresa, com entender que me offe- 
reço a muyta reprensão Portuguesa e cortezãa, cada huma assaz áspera 
e pêra temer muyto, e que tem de costume e não de boa consideração 
acanhar os naturaes: o que realmente mais parece fraqueza de engenho 
e condição desconfiada, que sotileza de espritos nem sofficiencia. Como 
eu porem não pretendo louvor próprio, satisfaçome com a minha tenção, 
e juntamente me lembra o que nesta parte sam Hieronymo padeceo : 
pois em sua defensão diz, que chamando alguns aVergilio copilador de 
cousas velhas, por trasladar de Grego em Latim certos versos de Ho- 
mero, respondeo. Furtar de grandes varões, he tirar a maça da mão de 
Hercules. E Túlio lambem foy notado destes furtos, nem ouve escritor 
que carecesse de seu zoilo reprensor: assi que onde os taes se queyxam, 
que posso eu padecer menos, antes mais e com rezão: per o que não me 
desculpo dos erros e atrevimentos de que nesta trasladação do triumpho 
dei Rey Sagramor posso ser reprendido : nem os nego, nem também 
confesso não ser de muyta estima todo Poema bem composto e serem 
sempre lidos e estimados dos doutos e nobres, e hum rascunho de ani- 
mosos e discretos espritos. Seja por tanto fastio da velhice do mundo 
e não ai, ho desaprovar o que nossos passados aprovaram. E vossa Al- 
teza aceyte a tenção fundada em seu serviço, como Artaxerxes aceytou 
agoa das mãos do simprez lavrador, ja que esta esperança de sua gran- 
deza e real humanidade me fez atrevido e minha sorte foreyro. 



CAPITOLO PRIMEIRO 

Como leve principio a Ordem da Cavallaria. 

Querendo contar as famosas façanhas do militar exercido (cujo he ho 
preço das humanas graças) não alheyo da historia, antes divido princi- 
pio parece, huma breve relação da antiguidade e origem da nobre Or- 
dem da Cavallaria, que alem da tal memoria, a curiosos ser aprazível, 
he necessário fundamento (aos que esta mayormente lerem) e per ven- 
tura estimulo de imitação, saberse como foi institnyda per tão podero- 
sos Príncipes notaveys Conquistadores. Qual ho primeyro foi Baco Indico 
filho de Júpiter, principal dos Deoses antigos, e Rey de Creta, que ten- 
do conquistada a mayor parte do universo, por remunerar com liberal 
gratidão (virtude necessária a Príncipes, quanto a toda pessoa divida) 
os serviços que lhe os seus Cavalleyros tinhão feyto na continua guerra 
já que per elles imperava em sossegada paz, disselhes em tal maneyra. 

Amigos estimados companheyros. Doje avante vos faço livres de to- 
do tributo e servidão. Quero e mando que vos chameys Horoes Vetera- 
nos, obrigados a manterdes sobre todos lealdade, sustentar verdade, de- 
fender e amparar as fracas molheres. Per todas as regiões vos concedo 
passagem franca, habitação segura, dos Reis tereys asseniamento e pode- 
reis per vós mesmos castigar á quem de palavra, ou obra vos olfender 
e anojar. 

Per modo que com taes liberdades n"aquellc segre concedidas, e 
compridamente guardadas, ouve aquelles Horoes, que discorrendo per 
diversas provindas emendavão os aggravos e sem razíjes do mundo na 
antiga idade (já porém dç ferro) tanto com as forças do corpo, como com 
o saber da Alma. Dos qunes erão o famoso Alddes, por sua fortaleza 
apelidado Hercules. Seu imitador Theseo, Perito, seu estremado amigo, 
lasam. Meleagro. Peleo. Tideo, Telamão, e muylos outros que em- 

I 



2 íMKMOHIAL dos CAVALKinOS 

prenderão a conquista do vello douro na não Arííos. E daqui parece 
íicaram inda no Ueyno do Malabar que Baco conquistou, os cavaiejTos 
que chamão Nayres, que agora í^uardam os costumes doesta antiga ordem 
(]a cavalarya, per que n'aquel!as parles sani muy singulares, c estimados 
dos l{cys. 

Passados poys grandes annos Alexandre Magno, imitador de Baco, 
confirmando os privilégios já ditos, coricedeolhe mais que podessem usar 
de ouro, purpura, e insigiiias reaes, e quem per modo algum os agra- 
vasse perdesse seus bens, com j)ena de morte. 

Octávio Augusto depoys de iargas guerras, pacifico Emperador uni- 
versal, alem do sobredito, outorgoulhes que comessem a liuma mesa 
com os Reys: c suas molheres fossem perferidas a toda outra. 

Desta maneyra galardoaram estes singulares Príncipes os merecimen- 
tos daijuclles que liberalmente olTereciam as vidas por os servir, grande 
e singular exemplo pêra os presentes não lhe negarem lio divido favor, 
qom que antre gentios se sustentou a tal Ordem em grande estima. Depoys 
llorecendo nossa católica Fé, Artur Rei de Inglaterra e França, orde- 
jiou a Ordem dos Tavola redonda, em que igualmente comiam com elie. 
l'>síes foram os vinla quatro cavaleyros tpie nas cortes de Londres jura- 
rão em mãos da Raynlia Genebra, cada hum por si, e todos em geral 
oííerecerem quando ciunprisse a vida, te pcrdela em soccorro de toda 
Donzella, ou de qualquer pessoa outra (jue á coi'te viesse requerer di- 
reito, e nunca fallarem huns aos outros em todo i)erigo. Dos que os prin- 
cipaes e de mayor nome forão Dom Galvão, Lançarote do lago. Tiistão 
de Leonis, Dom Galeazo, ílector de mares, Troyano. Palomades o pa- 
gão, e outi-os que sostentarão a cavallaria abahsadamente. D'onde com 
sua ajuda el-Uei Artur ganhou largo Império e immortal nome. leixando 
de si tal exemplo, que em sua imitação depois Cario Magno Chrislianis- 
mo l'jnperador, oi'denou os Paladinos de França Ião nomeados, que 
dormião dentro em seu real j)aço : como os cavaleyros da guarda dos 
Calholicos, Belicosos Beys de Portugal. E também forão doze Pares. Aos 
quaes sobre as já ditas premincncias Cario isentou, que só o el-Uei po- 
desse julga los. 

\u de tal fdvor real que he o toque, antes espertador dos exercícios 
n"aquelles tem.pos gloriosos por diversos Heynos, veio em tanto uso a 
ordem da cavalaria, renovando-sc segundo em seu principio, tão alta- 
meníe, que Príncipes e grandes senhores, quaes os antigos da Grécia, 



DA TAVOLA REDONDA 3 

com O gosto tVesta novidade (cevo de juizos liumanos) cs(|aeciJos os de- 
leites e vida descansada, inimiga da immortal fama, escolhião os virtuo- 
sos trabalhos, per que se alcança o famoso nome, buscando per estra- 
nhas terras perigosas aventuras, donde lhes chamarão Cavaleyros d'aven- 
turas, em que huns ganharam immortal gloria com mnyta honra, outros 
morte arrebatada; e muitos eterna infâmia com próprio damno segundo 
for soe eai os casos humanos, que de muytos em hum propósito e pêra 
iium mesmo íim sae sempre diversos, e não cuidados socedimentos. E 
como o tempo, e juntamente as incrinações dos Heys, de quem as vonta- 
des súbditas se regem, atirando ao próprio interesse trazem as cousas, 
foy caso de estremo no em que Artur reynou, como a ordem dos andan- 
tes (que assim também se chamarão por andarem de humas em outras 
provincias) se estendeo por todas as regiões, favorecida de seus sacaces, 
tal he sempre a diligencia humana em admittir novidades, por cuja me- 
moria foy necessário occuparemse muytos escriptores em escreverem 
seus maravilhosos feytos e proezas, cada hum segundo melhoi- pode al- 
cançar. E cVaqui também procederão differenles openiões, íicando a ver- 
dade suspeita, ou tam escura e confusa como as historias que os Gregos 
encobrem em suas fobulas. E de muytos volumes que modernos Autores 
trasladaram das Crónicas íngresas em sua materna lingoagem, naceo esta 
confusão, per que o vulgo tudo nega o credito que se deve a esta tam 
antiga Ordem, que testiíicam Sigisberto Galico, e Guillielmo de nangis 
escriptores latinos: aos quaes imitando, e seguindo Foroneus filosofo e 
Cronista Ingres, desejoso de trazer á luz as cousas que lhe pareceram 
de mais tomo, copilou hum sumario das que passaram em tempos d"el- 
I\ey Sagramor. E começa com taes palavras á letra. 

Aquelle ?tIagno Alexandre, rayo que discorreo por ho universo, como 
açoute dos fados, conquistando a mór paile d'elle, em tam breve (empo, 
que se pôde dizer, antecipar-se ho eíTeito ao desejo, e a obra á espe- 
rança. Chegando â sepultura do soberbo Archiles disse sospirando. Bem 
aventurado mancebo, que cm vida tyveste ."migo qual Patroclo. E em 
paorte pregoeyro, qual Homero, desejando parece ho animoso conquis- 
tador outro tal cantor de seus famosos feytos sabendo que do ti-aba- 
Iho do escritor se colhe a fama do capitão, que per o conseguinte dá 
lustre á escritura com suas obras, quando são taes. E assi dezia dos 
próprios, que via per sua morte fazerse hum grande Epitáfio, enten- 
dendo por a sun historia que escreveram, dizem, trinta historiadores, 



4 MKMOIUAL D08 CAVALEIHOS 

aos quaes se deve a memoria de Alexandre que perecera se lhe faltara 
escriptor. 

Querendo eu por lanto com minlia diligencia, na sorte de meu génio, 
enxei'ir lio oscuro nome, como liga de metal antre as façanhas dos cava- 
leyros andantes que se abalisaram na animosa virtude da antiga ordem 
de cavalaria, despuzme ao trabalho per que tudo se alcança. Fundado 
mais na alta matéria, que confiado do próprio engenho: cupilando hum 
memorial das notáveis proezas dos cavaleyros da segunda lavola redon- 
da do tempo do império d'el-Rei Sagramor, que teve principio no fim 
do d el-Uey Artur, piimeyro fundador d'esta ordem, pêra o que he ne- 
cessária a seguinte resolução. 

Capitulo segundo. Como el-Rey Aiiur [oy Irahido per Morderei seu filho. 

Dino hc de grande estima ho varão que antre os de seu tempo se 
abalisa cm alguma singular virtude; e muyto mais aquelles que sobindo- 
se em estado leixan de si gloriosa memoria, e sam autores dheroycas 
obras: e aprovados exempros pêra imitação dos socessores. D'estes não 
he dos somenos antes hum dos mais notados Artur filho de Vterpadra- 
gão Rey da grã Bretanha, que ora dizemos Ingraterra, e da Rayiiha Iger- 
da sua raolher. E por não se certificar ser seu filho como na verdade 
ho era, ho mandava matar: mas per ordem do sábio Merlim foy criado 
secretamente. Socedendo pois falecer Vterpadragão sem leixar outit) fi- 
lho, salvo,^huma filha per nome Morgayna grande magica. Mo povo de 
Bretanha por escusar dissenções na eleyção do rey ajuntou-se em huma 
igreja, pedindo juntamente todos a Deos com muita devação que lhes 
mostrasse quem fariam rey. Estando assi de súbito cahio do ar antrelles 
huma pedra, e dentro n"ella metida huma espada, com humas letras 
douro que diziam. Quem me arrancar, será rey. Lidas as letras e visto 
ho milagre, deram graças a Deos. E deshi vindo á esperiencia, comença- 
ram os nobres provar sua ventura: mas nhum pode tirar a espada. De- 
jíois os do povo: ate que chegou Artur, que não conheciam, ho qual ti- 
i-ou facilmente a espada da pedra, por ho que sem alguma contradição 
f»y eleylo rey. E como era muy animoso, lançou logo per armas os Saxo- 
uios de Ingraterra que a tinham quasi toda occupada. Depois consquis- 
tou Ilibernia, Fraudes, Normandia, Dacia, Turonia, Ilictavia, Gasconha, 
c gram parte de Fiança. E sendo per si muy esforçado procurou que ho 



DA TAVOI. P.EDOXDA O 

fossem os seus : por ho que de qualquer nação que podia aver algum 
cavaleyro animoso, ho recolhia com largo partido e favor, comendo to- 
dos com elle em huma mesa redonda porque fossem yguais. E quando 
não tinha guerra em que os occupasse. Na paz por atalhar á ouciosida- 
dc, que te no ferro cria ferrugem, os fazia exercitarse em diversos exer- 
cícios guerreyros, ordenando justas e lorneos, seguindo em tudo (segun- 
do se aíTirma) ho conselho do sábio Merlim, e com elle ordenou e ins- 
tiluyo a Ordem da Tavola redonda, cujos principaes preceytos eram trazer 
contino as armas vestidas, por se costumar a soíTrer o trabalho d"ellas. 
Ca o costume tudo faz leve. Acometer as estranhas aventuras, e pocr 
todas suas forças em defender o dereytodos fracos contra os poderosos. 
A ninguém fazer força nem injuria, pelejar por a própria honra e de 
seus amigos. Não se afrontar huns a outros: e por sua pátria olTrecer as 
vidas sem sem temor da morte, estimando a honra sobi'e os bens tem- 
poraes. Por nenhum interesse nem aíTeyção faltar de sua promessa, o 
verdade, o qual traziam por guias de suas obras,^ porque as que d'ella 
carecem, não podem ser lustre, nem se sofrem em espirites nobres, e 
cavaleyrosos falta de palavra. Por ho que sempre foy entre estes cavaley- 
ros ho principal ponto de sua cavalaria, serem muyto verdadeiros, e cer- 
tos em suas promessas, com estas Leys, que observantemente guarda- 
vam em sua Ordem, foy o nome Rey Artur exalç.lTlo polo universo, e tão 
augmentado ho estado, que a fortuna de inveja (parece) não podendo já 
solTrelo, ordenou, que se ensoberbecesse de maneyra, que não sómenle 
negou boa tributo, que era obrigado de longos tempos atras ao Império 
Romano, ipie lho mandou pedir. Mas apresentou batalha ao Cônsul Lú- 
cio, e ho venceo. E levado d"esta vitoria determinou conquistar Koma ; 
pêra o que passando em Itália com grande exercito, leixou governando 
Inglaterra iMorderet, filho seu bastardo; ho qual vendo-se em dignidade 
Real, que adquerida mal sempre foy cega, como era homem sagaz, astu- 
cioso, e atrevido, de tal maneira grangeou os Ingreses naturalmente le- 
vantados, que lhes ganhou os corações pêra se comprometi lem, e con- 
descenderem em sua tenção, que era levantarse com o Reino. A a fiiu 
do que mandou fortalecelo muyto, dando as Alcayderias, e Viapitanias a 
aquelles, de que mais se fiava, mostrandose a lodos aífabil, ií coíiv-;»- 
nheyro na conversação, cevo grande para penhor;;r vcnladiíS, iazeu.Lj 
largas mercês, que sam os grilhões da liberdade. Dando muytas promes- 
sas, que he ho iTigodo das openiões humanas, e como lhe parecco, que 



6 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

tinha tramada a cousa pêra vir ao effeyto de seu propósito, mandou car- 
ias polo Reyno, em que publicava ser el-Rey Artur seu pay morto em 
huma balallia, que tevera com os Homanos. E como elle provera as for- 
ras do Reyno dos que tinha penhorados, e obrigados, facilmente se apos- 
sou d"elle, e foy levantado por rey com geral consentimento: tanto pode 
o interesse particular, que não somente abate a lealdade devida em ley 
Divina, e em primor humano, mas barata vida, honra, e tudo, c fiasc 
da fortuna, por negar sua obrigação. 

Capitolo Terccijvn. Da halalha que el-Rey Artur teve com Mordcrct 

seu filho. 

Errado fundamento he ho dos Rcys, que desamparando o próprio es- 
tado por ir conquistar ho alheyo; occasiam muitas vezes de perderem am- 
bos, ou gaynhar perpetua infamia,e muito peor fim. Yèm-se no que soce- 
deo a el-Rey Artur, por pretender senhorearse de Itália; onde sabendo lo- 
go deste levantamento de seu estado tam injusto, e desleal, culpado 
uos vassalos, e condenado no filho, foylhe forçado leixar sua empresa, 
perder o desenho de sua cobiça, por acodir á conservação do adqueri- 
do: ca não he menos louvado ho conservar, que ho adquerir; por o que 
desapressando Italia,«levou seu exercito a Ingraterra, onde entrando foy 
recebido dos leais vassalos, e informado da determinação dos tredores. 
Os quaes como culpados, que entendião que na sua lança tinham seu re- 
médio, de novo se esforçaram a sostenlar Morderei: ho qual, como era 
animoso, dcterminou-se com lodo seu bando a morrer, ou vencer, pê- 
ra o que lhes fez grandes promessas, e mercês, e ajuntando ho mayor 
exercito, que pode de gente cavaleirosa, e determinada, por lhes tirar o 
valha-couto de alguma desculpa, e desbaratar a esperança do outro re- 
médio, salvo ho das armas, determinouse em sair logo ao pay, e enlre- 
garse á fortuna de huma batalha, antes que ho tempo, ho arrependi- 
mento, e outras causas lhe demenuissem as forças, e dessem novo con- 
selho aos seus. Apercebido pois do ne^esario pêra Iam árdua empresa, 
ordenado seu exercito com a divida ordem, c repartidas as capitanias 
per destros capitães, antes que movesse ho campo, juntos todos, subio- 
se em alto, e fezlhe tal fala. 

Se eu não tevera (animosos capitães, e esforçados cavaleiros compa- 



DA TAVOl.A KKDONDA 7 

nlieyros meus) vossa cavaleria experimentada, e por muy segura vossa 
verdade, não creays, que por openião própria concebera a esjierança de 
reynar, dado que per natureza se me devia morto meu pay. Nem lam- 
bem, se ho tevera por vivo, sou Iam cobiçoso de estado, que intentara 
levantarme com elle ; ordenou porém a fortuna destrebuidora dos im- 
périos segundo seu intento, que viesse a Ingraterra a falsa fama de sua 
morte. Era eu seu divido sucessor, acometi apossarme desta soces- 
são: mais por me sanear de fraqueza, que pur satisfazer á cubira: apro- 
vastes minha justificada tenção. Foy lio socesso conlrairo, donde éra- 
mos inocentes, é louvados, íicamos em culpa obrigada á pena, se quere- 
mos estar por a que nossos imigos arbitrarem. Por certo temos, que 
não hão de ser piadosos; porque os reys não costumam usar misericór- 
dia com aquelles que concebem ódio particular; donde, se determinamos 
segurar nossas vidas, não ha outro meyo, salvo o de nossas forças, e es- 
padas. E quando eu considero as cruezas, e castigos, com que já em seus 
corações nos ameaçam, todo perigo, perque os podemos forrar, ei por 
fácil de vencer : ca sem comparação he melhor moi'rer pelejando, (iiic 
poupar vida pêra escárnio, e vingança de vencedores, e doutra parte 
se ho foi'mos, seguramos nosso descanso, e prosperidade. E íicamos em 
posse de podermos usar com elles da piedade, que lhe não esperamos, 
vista, perlanto, a má sorte que temos, se nos vencem, e a boa se ven- 
cermos, que animo pode aver tão possilanimo, que antes não escolha 
morte honrada, que vida abatida, a vitoria offerece grandes prémios, a 
fi-aípieza obrigase a grandes misérias. Se quereys mandar, e não servir, 
a tempo est^s pêra per vossas mãos fazer a escolha, de mim usay de 
cavaleiro, ou capitão, que este corpo juntamente com a alma se vos of- 
ferece pêra passar comvosco a má, ou boa fortuna, a que estamos of- 
ferecidos. 

Acabando Morderet esta pratica, gritaram todos, que desse batalha, 
e nella saberia, como vinham determinados a passar aníes pola morte, que 
estar á obediência de quem lha podesse dar. Ouvida pois per ^ioiílcret 
sua detei-minada ofterta, mandou logo abalar ho campo com toda ordem, 
e vigilância de bom ca[)itãõ; e avciido três dias que maichavam, levo no- 
vas como seu pay vinha, e estava já duas jornadas d"elle; per o que or- 
denou suas batalhas, e tudo o que era necessário pêra dar huma tão pe- 
ligosa, pois el-iley não estava certo descuydado do que lhe podia suce- 
der. E avisado per seus corredores, e espias de como holilho vinha a pon- 



8 MEMOr.IAL DOS CAVALKIROS 

to, entendeo muyto bem ho perigo cVcssa contenda. Ca imigos culpados, 
e determinados sam difficultosos de vencer: porque antes querem aven- 
turar perder a vida, que padecer a certa pena, e dado que el-rey Artur 
trazia consigo os cavaleyros da Tavola redonda estremados no mundo, e 
muytos capitães experimentados nas guerras de Itália, e soldados caleja- 
dos, e abituados nos trabalhos, como velho sabedor, temeo toda via ho 
desleal filho, de que sabia vir muyto pederoso,e ser animoso cavaleyro, e 
destro capitão; por o que ante de lhe apresentar a cruel civil batalha, co- 
mo quem também tinha em pouco a morte, e queria passar per ella, antes 
que sofrer affronta, ordenou suas cousas como catholico, c prudente prín- 
cipe, mandando, e pedindo a todos seus altos homens, e capitães, que 
jurassem por príncipe socessor de seus reynos, e senhorios Sagramor 
Constantino, hum dos mais estremados cavaleyros dos da tavola, filho de 
el rei Cador de Cornualha, e casado com a infante Seleucia que el rey Ar- 
tur ouve em Liscanor filha do conde Sevauo sua primeyra molher. Como 
pois Sagramor era de todos amado e conhecido por de real condição, e 
magnânimo espirito, liberal e verdadeyro, com voluntário e aprazível con- 
sentimento ho jurarão, com ho que Artur satisfoyto, e descansado por a 
confiança que tinha em Sagramor que não menos acabaria, antes acre- 
centaria seu estado com vingança dos traydores, quando caso fosse que 
olle a não tomasse per si, logo ali assentou em dar batalha, por o que 
lhes falou nesta maneira. 

Muytas vezes tereys ouvido (amigos companheyros de meos trabalhos) 
hum largo e notável conselho, de que dizem ser primevro autor ho an- 
tigo Hisiodo, de quem Aristóteles lio usurpou, e depois usou Marco ru- 
fo Minuncio, segundo conta Tito Livio, ho qual vendose soccorrido de 
Fábio Máximo que a elle e juntamente seu exercito salvou de Anibal ho 
destruir de todo, conhecida sua obrigação disse a os seus. Aquelle he 
varão principal anlre todos: que sabe aconselhar e puer no que cumpre 
segundo a necessidade requeie, e lerá ho segundo lugar o que tomar e 
elTectuar ho bom conselho dos que lho dam e souber conhecelo e extre- 
mar ho homem, porém que nem sabe conselhar nem obedecer, tenha se 
por de baixo e inútil juyzio. E por tal também me condenaria eu, seassi 
como presumo fazer ho officio de bom capitão que he entender aquilo 
em que seus inimigos podem oíTendelo e sabelas contraminar, não este- 
vesse pronto á tomar todo bom parecer que se me oífcrecesse em dano 
de nossos contrários. Com este psuposto, determino dar batalha aos tray- 



DA T AVO LA P.KDONDA 9 

dores, se vos ho contrario parece, diga cada hum íbuto o que entende, 
ca bem entendo que pêra tratar de causas árduas lie necessário carecer 
de ódio, amor, yra e misericórdia, E qualquer destes effeytos abate ho 
juyzo, muyto vai a rezam, muito pode a vontade. E raramente se confor- 
mam onde se encontram, de mim vos confesso que quanto menos me- 
reci aos traydores e ao capitão d'elles selo, tanto mais desejo darlhe ho 
castigo que tais atrevimentos merecerem, de vos bem creyo e sou seguro 
que não sofrereys rainha afronta, como aquelles que antes a padecereys, 
donde eu confiado e certo de tam leais vassalos ey por muy certa a vito- 
ria de meus inimigos e a vingança dos tredores, por o que não tenho 
mais que vos lembrar, salvo entregarvos minha honra e meu estado pêra 
que mo sostenteis, e ho logremos de companhia e quietação, tomada a 
satisfação dos que pretendem desquietarnos, ca doutra maneyra nem a 
própria vida quero. 

Estas palavras disse ja el rey Artur com tal movimento da sua alma 
que lhe saltaram as lagrimas, contendiam parece em seu peito ho Amor do 
filho com a magoa da traição, por que he muy claro sintirse muito mais 
a ingratidão dos que vos devem Amor, que as maas obras dos que não vos 
devem as boas. Como pois os Capitães que ho ouviram entendessem esta 
rezão, e todos desejassem satisfazer hum tal rey, com as melhores palavras 
que poderão se lhe comprometeram, que não averia cousa que lhes tolhes- 
se avitoria sem primeyro lhe sacrificarem as vidas, por tanto que não re- 
ceasse nem dilatasse a batalha, tendo porsiajustiça.e juntamente a von- 
tade dos seus pêra com muito gosto e animo morrerem por elle. El rey 
Artur satisfeito e descansado nesta parte, consultou logo em particular a 
ordem que se avia de ter em dalla, per maneira que sendo os campos 
á vista hum doutro, como se tinham as vontades assi fezeram as obras, 
e dizem que esta foy huma das porfiadas batalhas que se viram no mundo, 
em que dambas partes se pelejou igualmente, e morreo a flor da cava- 
leria de França e Ingraterra. Ca os levantados, sabendo que na própria 
espada tinham remissão de suas culpas, pelejaram como desesperados. E 
os leaes que não sofriam presumir ninguém resistirlhe, tendo elles por 
si a justiça e openião, faziam taes maravilhas, por onde tudo foi sangue 
e morte antre os nobres, morrendo os principacs cavaleyrosda tavola re- 
donda, e muytos capitães dambos os Exércitos, principalmente do de Mor- 
derei. O confuzo povo levado da cobiça do despojo que dos vencidos es- 
perava brutamente baratavam as vidas a troco da leve esperança, embay- 



iO MEMORIAL DOS CAVAI.KIROS 

dor do juizo, c ioqiic das condições humnnas. Socedendo poys na porfia- 
da batalha, estando em peso, e incerta a vitoria, toparamse cl rey Artur 
com o traydor Morderei, a tempo que lio bom Rey via e sintia as mor- 
tes da mayor e principal parte dos seus leays, e destemidos cavaleyros, 
desestimando a vida. Com esta magoa e com ver Morderet esforçar sua 
gente tam animosa, e destramente, que parecia só elle com sua pessoa 
occupar a vitoria, o soster a batalha: tomou huma grossa lansa, esque- 
cido o amor do pay, com aquella fúria vingativa, cousa raramente vista 
e arremeteo aencontralo, pondo as pernas ao cavalo rijamente: ho mesmo 
fez ho íilho, se ho era. Ca muytas vezes sam estas culpas da malicia hu- 
mana, mays que da natureza, ou da cobiça, que nega a própria, e toda 
razão. Do qual deshumano encontro Morderet íicou logo morto no cam- 
po atravessado poios peytos de huma a outra parte, justa pena de sua 
desaforada desobediência. E Artur cahio também ferido muyto mal na 
cabeça; porque Morderet ho alcançou com a espada de hum golpe alto, 
que lhe cortou ho elmo e lhe entrou te o cérebro. Acabado ho encontro, 
de improvizo deceo do ar huma carreta grande, e de resplandor qual 
ho dos rayos do sol, que quatro grifos traziam. E em meyo delles por 
carreteyro huma ninfa de estremada fermosura, cujo vestido parecia ar- 
der em fogo: e decendo junto donde Artur jazia desacordado, sayram de 
dentro dons estranhos salvages ardendo, que ho tomaram assi como es- 
tava em figura de mnrto, e o meteram na carreta. Após isto com muyta 
diligencia foram discorrendo polo campo da batalha, e onde achavam ca- 
valeyros dos da Tavola que ali morreram, como leays vassalos, traziam 
seu corpo á carreta. Neste antretanto que os salvagens isto faziam sem 
aver que lhe resistisse, nem contradissesse todos os que os viam ató- 
nitos, a ninfa com huma voz muy alta, e suave ao som de huma viola 
darco, cantava o seguinte romance, que ho Cronista aqui quis poer pêra 
que se sayba que neste estilo, e per este modo usaram os passados 
celebrar seus heróicos feylos, porque a gloriosa memoria delles assi 
viesse a nossos tempos, e se conservasse, ho que também em Espanha 
so usou muyto, e usarse agora pêra estimulo de imitação não fora mão. 
E diz a leira. 

HOMANCK 

Cram Urelanha desleal 
ao jiielhor Ucv que tcv(.'sle 



DA TAVOf.A f.EDONnA 41 

Dafíora, Ic o fim do munda 
chora quanto bem jjerdt^ste, 

jaz 110 campo, entregue á morte, 
que falsa, ingrata lhe deste 

A ílor da cavalaria 
com que te ensoberveceste, 

A pena Icm ja da culpa 
que lhe assi favoreste, 

Ho traydor Morderei 
porque hum tal Rey vendeste? 

Ho Bretanha desleal 
que grande tray-(;ão fezeste 

A vinte quatro da tavola 
que per Genebra escolheste, 

Aa demanda do Grial 
triste remate poscsle 

Morto jaz de mil feridas 
e tu soberba lhas deste. 

Dom Galvão luíii animoso 
porque mil glorias teveste, 

E matar Dom Galeazo 
ingrata como podeste, 

Que em obras de fortaleza 
não sey se outro igual ouvesl-e 

Pode matarte Bretanha: 
que tu tanto engrandeceste. 

Esforçado Flordcmares 
■que em forças Mares venceste 

A morte que em defenderes 
tal Bey dela padcceslo. 



12 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Oo Animoso Troyano 
nunca lho tu mereceste. 

Mal lhe merecias mal 
ho que dela recebeste. 

Palamedes ho pagão 
que nas armas floreceste : 

Dom Tristão de Leonis 
que por Amores morreste. 

Em não morreres aqui 
ditosa sorte teveste, 

Tu Lançarote do Lago 
que as glorias damor ouveste 

De damas servido, amado 
da dona a quem mais quiseste 

Com dano dos traydores 
Aa morte a que te rendeste. 

Ficaras sem sepultura 
CO a pena que mereceste 

Tu traydor Morderei 
pois tal trayção cometeste, 

Aqui se acabou a gloria 
quanta Bretanha teveste: 

Em pago da qual a Artur 
nem a sepultura deste 

Ca na Ilha de Avalora 
Merlin vergel lhe fezeste, 

Em que vive, e soo salvalo 
de afronta e morte podeste, 

Como amigo que as maas manhas 
de Bretanha conheceste, 



DA TAVOLA lUiDUNDA 13 

Mas nalgum tempo inda Ariur, 
bom Rey que desmereceste, 

Bretanha viraa a vingarse 
da trayção que lhe fezeste. 

Em quanto a Ninfa cantou este Romance, os selvages recolhiam os 
mortos notados, estando os combatentes como pasmados, ho que foy fei- 
to polo saber do sábio Merlim, que inda que fosse morto ho leixou assi 
ordenado. Desta manera foy levado el Rey Artur aa ilha Avaiom tras- 
portado mas vivo, onde deu sepultura a os seus cavaleiros, avendo Bre- 
tanha por indigna de lha dar: pois por sua má natureza fora autor de 
sua morte. A de Artur ora não se sabe, os Ingreses ho tem por vivo e 
esperam, porque morte não vista he mal crida. 

CAPITOLO QUARTO 

Como Sagramor foy levantado por Rey, e vencedor. 

Mãos acometimentos de filhos desobedientes, e vassalos desleaes, 
nunca erram o soceso que Morderei teve cora os seus, de que fica hum 
notável exempro. Vendo pois os tredores morto seu capitão affracaram 
logo do combate, e foram se recolhendo confusamente. Não faltaram po- 
rem capitães que elegeram antre si hum que os governasse, pêra re- 
sistirem a seus immigos, e vencerem, ou tirarem algum partido de que 
se valessem. Os cavaleyros da tavola redonda que ficaram vivos: dos 
quaes ho principal era Dorislão dautarixa, filho de dom Galvão, e seu 
herdeiro do Ducado dalta Borgonha, que nesta guerra, e na que socedeo 
se mostrou estremado cavaleiío, e animoso capitão. Fidonflor de Mares 
duque de Lencastro, filho de ílector de Mares, mancebo muyto galante, 
gentil homem, e especial cavaleyro. Dous filhos gémeos de dom Galeazo, 
e da duquesa de Narbona, chamado ho primeyro Bronsidel de Enantes, 
e ho segundo dom Brisam de lorges, muy apessoados, e de não menos, an- 
tes mays esforço que ho pay, inda que foy estremado. Monsolynos de sulfo- 
cia filho de Palomades ho pagão, que se apelidou também ho cavaleyro das 
duas espadas, porque pelejava com ellas : segundo se conta na historia 
da Demanda dosando Grial. E todos tinhão que se vantajou muyto Mon- 
sohnos do pay, por mancyra que estes e outros, c lodos os capitães juntos 



14 MEMORIAL BOS CAVALEIROS 

levantaram logo por Rcy Sagramor de Constantinopla, o outros Hie clia- 
maram Constantino, ávido por neto de Artur. O qual vendose Rey como 
era destro capitão, recolheo o campo com estremada ordem, apoderan- 
dosc do arrayal immigo, que entregou aos seus em que ouveram hum rico 
despojo. E mostrando qnam sabedor e esperimentado foy sempre nas 
cousas da guerra: em amanhecendo mandou tocar a Arma, e fazer prestes 
pêra ir em alcanço dos immigos, determinando não ler repouso te os não 
esgotar: ca lio capitão ha de saber usar da vitoria quando se lhe offrece, 
e lançar mão da occasião, antes que se volte. Ordenada pois a gente, for- 
nidos os esquadrões, e providos de capitães os a que lhe faltava, fez ge- 
ral do campo Doristão de autarixa : deshi sobido em alto teve esta 
pratica. 

A dor, e sentimento (companheyros amigos meus) da morte daquelle 
famosíssimo nosso Rey Artur. E juntamente a de todos os nolaves cava- 
leyros que na batalha passada vimos gloriosamente mortos, he com tanta 
rezão tam geral antre nós, que nenhum creyo carecer desta magoa, des- 
humana assaz, antes bruto seria ho juyzo que não sintisse tam notável 
perda. Os mortos porem como animosos, e leays vassalos morreram em 
companhia de seu rey, offereceram, e sacriíicaiMin as vidas a sua leal- 
dade cuja coroa receberam ja no ceo, logrando ho premio das valerosas 
obras, e na terra leixam inmorlal exempro de seu esforço. E ho nosso 
bom Rey Artur, invencível, magnânimo, e que de si nos leixa hum eter- 
no dezejo, huma viva saudade, e huma perda sem recompensação pêra 
algum descanso, e melhor fim. Parece, permitiram, e destinaram seus 
benignos fados, que ordenasse o gram sábio Merlim, e seu bom ami- 
go, levalo á ilha Avalom a sepultar seus bons, e amados vassalos: donde 
se he vivo, a lodo tempo que vier lhe entregarey com gosto, e amor 
seus reynos, e senhorios, e com esta condição ficara a meus soccesso- 
res. E porque elle veja não ser necessário presente pêra seu serviço, 
queria eu agora em sua ausência, que com muyto mayor fervor lhe re- 
cuperemos seu perdido estado: e que vindo lho olfereçamos melhorado 
do que nolo leixou. O que assi fazendo, alem de cumprirmos com a leal 
servidão que llie devemos, honra nossa he grande, vingalo de seus imi- 
gos e castigar traydores, porque como se sois autor de males íicais ávi- 
do por mao, assi não vingando com rezão as injurias recebidas, sereis 
tido por fraco, e pêra pouco. Bem tenho cu que nenhum de vos carece 
desta vontade, ja que me aceitastes por comi)anhoyro desta empresa, c 



DA TAVdl.A lilHiO.MíA lèi 

lembrador de tamanha obiigarão, de (•ujobom siiccesso será meu lio cui- 
dado, e vossa a gloria, minha a vigilância, e vosso lio íriíylo. (]a se mo 
sostenlais em ganhardes lio estado em que me posestes, íico eu com a 
obrigação, e vos com a honra: eu com lio trabalho de ho conservar, c 
vos com ho descanso de ho logrardes. Sobrisso vingais a morte de vos- 
sos parentes, e amigos, c sobre tudo ao esclarecido, e grande conquis- 
tador rey Artur que aveis de presupor que volo espera; e não he peque- 
no gosto, antes esperança muy saborosa, sabermos que elle nos ha do 
satisfazer deste nosso honroso trabalho; e que tudo o que fizestes dcba- 
xo de sua bandeira, foy a conta da sua prudente governança, e famosa 
cavalaria, O que agora porem íizerdes comigo vosso principe tudo vos 
sae em virtude própria, e louvor divido, a mim dareis autoridade, aos 
immigos, pena, e ao mundo exempro de leais, pêra abatimento de tray- 
dores. Sigamos portanto, amigos, e esforçados companheyros, com ani- 
moso furor, Ião louvada e divida guerra, desenganemos aos desleais de 
sua ma empresa, recuperemos ho nosso com ho trabalho per que se al- 
cança ho descanso: pêra que também juntamente saibais que tendes prin- 
cipe lembrado de suas obrigações na recompensa delias, e remunerador 
do bom serviço, aos que me seguirem desagora me dou por obrigado, 
e devedor, pêra em quanto ho espirito me governar estes membros. E 
aos que forem de contrario voto dou licencia, que livres e isentos possam 
irse onde lhes melhor vier. Ca de mim vos digo, que ou me vereis se- 
nlior de todo meu estado com victoria, ou morto sem infâmia. Acabando 
nisto el Rey Sagramor, ho exercito todo em voz alta se lhe com[)rome- 
leo, bradando que dessem logo trás os imigos, e cessando a confusa 
grita popular. Dorislão Dautarixa acompanhado de todos os capitães lhe 
foy com elles beyjar a mão, dandolhe em nome de todos a fé de mor- 
rerem por elle pêra ho que estavam muy prestes. El rey mandou i'e- 
parlir per todos copia grande de moeda, com que penhorou as vonta- 
des livres porá terem por mais doce a sugeição de tal im[)erio, que 
toda outra liberdade, notável balisa pêra atinarem os piincipes (]ue [)re- 
tendcm sello de grandes senhorios, os (juaes se ganharam sempre per 
meyo de bons vassalos obrigados de obras de amor; e perderam se per 
lyranias, e isensão, o assaz avarento, c ingrato he ho Itcy que não re- 
parte do que lhe ganha com os aqueridores. E por que el íley Sagra- 
mor entcndeo que ganiiava dando, teve por timbre de suas obras, a 
magnanimidade, tal foy Alexandre lai Ccsar, c lais todos aqucUes que 



IG MEMORIAL DOS CAVALEIliOS 

era estado e nome se abalisavam no mundo. Per modo que levando el 
] ii Sai;; iiTior a gente obrigada de suas grandezas e exei'citada na longa 
guerra, aljalou contra os imigos, socedeolhe de maneira, que em espaço 
menos de anno recuperou todas as terras com que se lUe tinham levan- 
tados. Hl: MS rendidos da pena, e outros de temor, castigando os auto- 
res da culpa, e perdoando ao inconstante povo, e assi se fez total senhor 
dos reynos Ingraterra, e França com algumas ilhas do mar Oceano, com 
tal nome de suas grandezas que escureciam ja as dei rey Artur, e tanto 
que se elle naquelle tempo viera segundo os Ingreses esperam, ja lhe 
pezara por respeito do amor que tinham a el rey Sagramor, o qual sem- 
pre disse que tinha seu estado da mão dei rey Artur, pêra lho entregar 
em vindo, e assim ho leixou. E posto em tanta grandeza não se esquecia 
de ser o que era no principio de sua conquista, antes parecia mais hu- 
mano e franco pêra os que lho tinham merecido, E por afamaquedelle 
soou polo mundo, acudiam muytos príncipes, e altos homens á sua cor- 
te, daqui procedeo ser a de Ingra terra tam nomeada, e allirmase flore- 
cer nestes tempos a cavalaria que precedeo os dei rey Lisuarte dada 
que Amadis, de Gaula a ninguém sofreo parelha, mas foy por ho autor 
da sua historia ter a mais alta composição delia que se pode achar de 
Homero a esta parte. Ca el rey Sagramor cm suas obras a ninguém re- 
conheceo ventagem. Tor onde se vê quanto os princepes, e homens no- 
tavens sam devedores ao bom escriptor, e ho devem favorecer; porque 
a incrinação, e favor dos rcys renova os tempos e apura os engenhos 
e abilidades. 

CAPITULO QUINTO 

Do que ordenaram os filhos de Morderei sabida sua morte. 

Dará fee a terra per todas suas regiijes de quantas vezes huma par- 
ticular offensa ou ho descomedido interesse foy occasião de larga guerra, 
a qual nunca leixa de dar ao vencido grandes perdas, ao vencedor sobe- 
jos custos, e a hum e outro rauvlos desgostos, e se os homens quisessem 
antepor ho honesto comedimento á descomedida vontade, ho mundo con- 
servaria honesta paz as leys aquietarsehiam, não se veriam mãos filhos, 
qual Morderei, c convertersc ho amor do pay em mortal vingança se- 
gundo esta dei rey Artur, o que tudo os poderosos lyranos cometem á 
custa das vidas dos súbditos, e tal hc a simpresa humana, que nem as 



DA TAVOJLA UEDONDA 17 

penas de cada dia, a fas provida, antes incita a inayores erros. Vcese 
nos soccesores de Morderei do qual ncarani dous íliiios, que em el!e 
ouve em Ârnalda filha do duque de Saxonia, que o foram lambem nas 
condições e Iraydor zello, em que os elle doclrinou com sua vida. Os 
quaes estavam em Bolonha de França com ho tesouro do pay ao teinpo 
de seu desbarato que assi ho ordenou elle, com determinação de se re- 
colher com eltes na cidade de que he mui forte, e dali se refazer si-ndo 
caso que lhe fosse fortuna a contraria, segundo foy mais porem do (]ue 
recuidava, não lhe dando a morte espaço pêra se valer- de sua provi- 
densia porque sem permissão da divina, a humana não socede. Sabendo 
pois os filhos logo o que passava na batalha, de gram tristeza foram seus 
corações feridos, e não menos receyo do capitão vencedor, e ho mais ve- 
lho chamado Godifert inda que mancebo de vinte e hum annos, cavaleyro 
de animo pêra todo contraste, e que não da'va costas a (jualquer desaven- 
tura de divino juizo : mas mal acondicionado e pronto a dissensões, e 
sobre tudo cobiçoso de imnerio, não lhe sofrendo o estômago de prínci- 
pe, que cuydava que era, ou pretendia ser, também ho ser neto de! i-ei 
Artur que a ninguém se acanhou, somelerse a vasalo de seu imigo, as- 
sentou consigo temerária, mas animosamente perderse antes de todo que 
dar obediensia, a quem lhe tomava o que per seu pai cria herdar. !'or 
o que falandose com seu irmão Dagobert, disselhe que se fezese forte em 
IJolonha, em quanto elle hia a Saxonia a seu primo ho duque Briantes, 
e outros seus parentes, e aliados fazer gente com que recuperas.^em ho 
perdido. Ca nunca Deos quisesse que perdessem per fratjueza o (|ue ihes 
pertensia per legitima erança e que naquillo pouco aventurava quem ti- 
nha perdido tudo, pois cada vez que comprisse poerse em salvo, [acil- 
menle ho poderia fazer, ou enlregarse com bom partido: mas este avia 
de ser, morta primeyra toda a esperança doutro remédio. Dagobert não 
desconforme de sua openião deulhe sua fé de morrer sobre ho que ello 
ordenasse. Sobre tal consulta ajunlou Godifert, toda a gente que alli ti- 
nha, que era muyta, e escolhida, e fezlhe huma ííila a[)resentandolhe sua 
fortuna, trazendolhes á memoria a lealdade que lhe deviam como a seu 
caj)itão, e legitimo herdeyro dos reynos dei rey Artur seu avô, dizendo. 
Se aletiui leais cavaleyros, me fostes promptos pêra os trabalhos 
agora vos podeis mostrar amigos da minha honra. Te ora pode ser a 
nossa causa injusta. Mas pois a vontade divina, que sempre acerta a 
justificou, a vos remete a execuçam. Ja que nossos fados querem que seja 



iS MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

a força medida dodcreylo, e a guerra ho juiz, ho vosso rey Morderei mor- 
reo por nosso respeyto na batalha que se deu no campo de Salibernias, 
e ho grande desejo que sempre teve de sostentar vosas Mberdades, e ter 
com que satisfazer vossos serviços; ho chegou á morte, e nos leyxou nos 
receyos delia. Ca por muy certo tenho do novo rey Sagramor querer se- 
gurar scíi estado com total destruyção do nosso. Pertencerme ho reyno, 
vos que ho sabcys, mo sustentay: e prosuposto que nos cumpre pe- 
lejar polas vidas. Aproveylemonos das forças que quem nega ho justo 
tudo concede vendo a espada immiga. Tiremos das mãos ho nosso a 
quem nolo quer usurpar, o que ganhardes isso tereys, se me fezerdes 
César pêra vos ho saberey ser, e porque em vossa determinação está a 
minha. Vede o que quereys que tenha. 

Acabando Godifert antre todos se moveo hum mormuro, que não se 
entendia: e por que cometeram a resposta a hum capitão, que brevemente 
disse. Excelente princepe, grande queixa podíamos ter da confiança, que 
de nos mostrays incerta. Mas fique pêra tempo em que as obras a oíTere- 
çam. Agora sabey de todos que tam fácil nos he poer em execução vossos 
mandados quanto nos reconhecemos obrigados a querelos, desponde por 
tanto de nos, e manday, que de vontade sereis obedecido. 

Como Godifert assi soube a conforme vontade dos seus: por lha mais 
obrigar pagou logo aos soldados duas pagas adiantadas: aos capitães fez 
muytas mercês extraordinárias, e aos naturales deu grandes liberdades, 
jurando a todos que tudo queria pêra elles como esperava mostrariiio. 
Deste modo contentes e obrigados, (que assi baratam os homens, liber- 
dade, vida, e alma: per bayxo preço) tanto obriga a cobiçosos a humana 
sede de dinheyro, disselhes sua determinação, pedindolhes com grandes 
promessas que lhe defendessem como leais vassalos a cidade, em qne 
lhes deixava por capitão seu irmão, te elle voltar com grosso soccorro 
ho mais em breve que lhe fosse possível, porque esperava por seu bra- 
ço vingar a morte de seu pay, e recobrar seu senhorio pêra ho repartir 
com quem lho ajudasse ganhar.. Per maneyra que Godifert ho soube a 
arrezoar em termos, que a huma voz lhe prometeram todos obedecer a 
Uagobert té morrerem com elle se cumprisse. E sobre tal fé leixando a 
cidade muy fortalecida, e provida de mantimentos, e tudo ho mais ne- 
cessário pêra hum longo cerco, e Dagobert capitão com seus conselhe- 
ros deputados: e largo regimento e lembrança do (jue devia fazer. Me- 



DA TAVOLA HEDONDA 10 

leose em hum navio com boa gente, e muytas armas ricas com a niayor 
parte do tesouro. 

Partido elle, poucos dias tardaram que Dagobert nam tevesse reca- 
do dei rey Sagramor, que se posesse em sua mercê. E elle ília faria en- 
tregando logo Bolonha: porque pondose em resistirlhe nam escusaria cas- 
tigalo pêra exempro doutros, pêra o que vinha ja per caminho e estavn 
duas jornadas da frontaria de Calez. Dagobert respondeo que tinha aquela 
cidade da mão do príncipe Godifert, que a não avia de entregar senão 
a quem elle mandasse. Por tanto que se vinha, podia ter por certo qno 
lha avia de defender té morrer sobrela. Com a qual resposta el rey Sa- 
gramor que sempre foi diligente em suas empresas, muy era breve veyo 
sobre Bolonha com todo seu poder, e poslhe tam estreyto cerco, dando 
lhe contino combate, que em cabo de seis meses, os cercados venduse 
em tam grande aperlo: e que não lhe vinha recados, nem nova alguma 
de Godifert, ho trabalho da continua peleja, e a pouca esperança di» 
fruyto delia lhes quebrou os espritos, mostrandolhes quam mal se cum- 
pre o que levemente se promete. E da sua facilidade mal provida vie- 
ram a maiores culpas, peytando dous marinheyros que fingiram e juraram 
que foram no navio de Godifert, ho qual dera acosta no golfo de G^noa, 
onde todos foram affogados, salvo elles que em huma ta voa se salvaram, 
andando três dias no mar, que milagrosamente os lançou em Pisa. Da- 
gobert deulhes credito, inda que duvidoso, certa condiçam da morte que 
não se vè. Com isto os principaes da cidade lhe disseram que tomasse 
ho conselho que lhe a fortuna e ho tempo davam, e tratasse de se prey- 
tear com el rey Sagramor, e tirar delle algum bom partido: que isto era 
o que lhe mais cumpria primeyro que elle fosse sabedor da morto de 
Godifert: ou se queria (jue saissem a morrer todos no campo em bata- 
lha de hum dia, antes que viverem sempre cercados. Dagobert dado (jue 
era mancebo de vinte annos, tinha huma sagacidade de sessenta, e ven- 
dose obrigado da necessidade, conhecendo logo a pouca segurança que 
devia e podia ter desta gente: sogigouse á virtude forçada, e disselhes 
que faria tudo o que lhe a elles parecesse bem do povo e commua sal- 
vação, que essa pretendia: ca por si ho seu gosto seria morrer á m^os 
de seus immigos, pois ja avia de viver deshonradoe abatido. E como era 
discreto, em pubrico entrcgou-se ao que elles fezessem, e secreiamente 
tratou logo do que lhe cumpria, tendo la seus meios com peytar alguns 
do conselho de Sagramor per via de parentes que tinha no campo, de 



20 MEMORIAL DOS CAVALEI fiOS 

valia, como pessoas nobres que eram. Assi que se pos em partido com 
el rey, que perdoase livremente a toda aquella gente que por si tinha, 
e lhe desse algum estado, respeytando ho direyto que pretendia no rey- 
no, e lho soltava, com que podesse viuer como quem era: e assi lhe en- 
tregaria a cidade e seria leal vassalo. Sagramor como princii)e zeloso de 
todo bem e muy piadoso, folgava sempre perdoar e lazer obras da libe- 
ral cremencia, antes que executar a rigurosa jusli(;a, e também induzi- 
do poios terceyros de Dagobert, que a íim de seu interesse lhe procu- 
ravam proveyto. per modo que daudolhes geral perdão, sobrisso ho tez 
Duque de Putiers, atirando a alongalo de Ingi'aterra, porque perdesse 
as esperanças delia, e não podesse de presente renovar dissenções e 
bandos. Mas a sua grande liberalidade não pode vencer a malícia e co- 
biça de Dagobert, que se soubera contentarse vivera descansado : já 
fosse por lhe parecer que comprara dos privados o beneíicio recebido 
dei rey: ou porque a magoa da morte do pay em nobres ânimos sempre 
está viva. Assentadas porem suas cousas com real segurança, enlregou- 
se com a cidade, e muyta dòr da sua alma. Reconciliado pois com el 
rey estaria na corte hum mes: e como tinha muyto dinheiro pêra comprar 
vontades cobiçosas fez neste breve íem.po seus negócios segundo lhe cum- 
pria, deshi foysse tomar posse de Putiers, onde vivia muy pesaroso por 
lhe tam mal soceder sua esperança, triste por a incerta morte do yrmão 
en que a tinha, e tendo os pensamentos altos^ e os espritos trenados 
em outra openião: nenhum sossego avia na sua alma cuydando sempre 
em como se melhoraria, por o que se liou em Franca ho melhor que 
pode com aquelles que conheceo autos a sua tenção, e dava do seu li- 
beralmente: sabendo muyto bem que esta he a mais certa caça pêra no- 
br(!S ganharem vontades súbditas: cá ninguém sobio ao famoso nome em 
estado soberbo, salvo por raeyos da liberalidade tirana das vidas humar 
nas. E nestes cuidados viveo Dagobert, te que o desenganarão com o 
próprio damno. 

Capitolo sexto. Como el rey Sagramor armou cavaletjt^o hum dunzel 
que veijo d corte. 

Más empresas dado que tenham bons soccessos, sempre se termaiTi 
em damno dos autores. Viose em Morderet e verá em seus socessores, 
por que a summa providencia se permiíte afronta aos bons he pêra c^ 



DA TAVOLA P.EDOXBA 21 

livrar com mayor gloria, como se vee ao diante no triunpho fiel rey Sa- 
gramor, que pretendendo sostentar a openião da cavalaria dei rey Artur 
fazia muyta mercê e favor aos que a seguiam, por o que muytos cavaley- 
ros leixavam sua natureza por resedirem em sua corte: a qual elle trazia 
muyto nobre, assi de grandes senhores ereys seus vassalos, como de prin- 
cesas e fermosas damas no seu paço, que não era pequena occasião (an- 
tes causa muyto grande) pêra os avenlureyros se estremarem em famo- 
sas obras: em tanto que não ouve inveja ao tempo dei rey Artur. Eeilas 
os faziam exercitarse sempre em justas e torneos, em quecada bum tra- 
balhava mostrar pêra quanto era: donde el rey Sagramor sabia a posse 
em que os devia ter pêra se delles servir: muy necessário a principes 
ter conhecimento e esperiencia dos súbditos, pêra o que cumpre na re- 
partição de seu serviço: ca desta maneyra pode Sagramor ganhar e sus- 
tentar ao diante seu império prospero e muy temido de seus immigos. O 
qua! querendo sossegar seus reynos de todos os levantamentos que a guerra 
passada per elles semeara, determinou visitalos em pessoa, pêra lio que 
quis fazer cortes em Bolonha, onde mandou per suas cartas vir os procura- 
dores dos povos dambos os reynos, Ingraterra e França, e das ilhas: e 
assi lambem dalguns senhores, alem dos muytos que foram presentes 
com os que elle, proveo tudo muy attentadamente. Ga com bo desassos- 
sego das longas guerras andava muyta desordem nas cousas: e a buns e 
a outros fazendo largas mercês, concedeolhes muytas liberdades justas 
com geral aprazimenlo atirando a lhes penhorar as vontades com a obri- 
gação, de que nace bo amor que sostem os estados, que o tiranno temor 
as mais das vezes destrue. Provendo também muy discretamente, e com 
abastança as fortalezas e lugares da raya, em quanto a fortuna lhe dava 
tréguas, porque vindo não podesse tomalo desapercebido. Per maneyra 
que com sua desvelada providencia, e bom conselho dos leaes vassalos 
elle ordenou tudo, tanto a ponto, e em breve, que pareceo ser primeyro 
feyto que cuydado, como aquelle que sabia que a diligencia de César, lhe 
dera a monarchia. E neste comenos armava cavaleyros muytos mancebos 
filhos de senhores que desejosos de se mostrarem ás damas e saberem 
de si se lhe r^ispondiam, as obras á openião própria ; hiamse á fronta- 
ria de Navarra exerdtar suas pessoas contra os mouros de Espanha, que 
ali continuamente tjfiham grandes recontros e guerra muy crespa: por- 
que Miileyzider rey das Espanhasera estremadamente, querençoso delia, 
e mandava contino gente grossa que corresse as frontarias. E a esra 



â2 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

causa todos os filhos dos nobres que pretendiam abalisarse concorriam 
;i esta parte, onde se abilitavam pêra depoys servirem as damas, nos 
exercidos da paz : e gantiavam honra, e vontade a seu rey, que lho 
aceytava, o singular serviço: e desta seara de Martes tirou capitães 
niiiy abalisados qual foi Doristão Dautarixa, que aqui se estremou, e assi 
muytos outros cavaleyros de que ao diante a historia faz menção. Aca- 
badas as cortes, foyse el rey a Londres pêra correr ho reyno de Ingra- 
li'rra. Onde aqueceo hum dia de Paschoa de Pentecostes elle que sahia 
de seu real aposento, a horas de prima, para yra hum mosteyro de nossa 
Senhora do Grial, que estava fora dos muros, decendo polas escadas pêra 
cavalgar com a rainha Seleucia, e suas damas. No ressio que ante os pa- 
ços se fazia, entrou hum cavaleyro era hum cavallo pombo asaz grande 
e soberbo com muytas plumas brancas no topete. Armado de humas ar- 
mas do tal jaez tam polidas que nhuma diferença tinham de cristal, e 
sendo por tais julgadas da vista não no eram menos na fortaleza: a ca- 
beça, e as mãos desarmadas, mancebo de dezoyto annos ao parecer de muy 
grande corpo e membros inda não enformados de todo, mas logo prome- 
liam forças grandes, e grande animo. De rosto tão gentil homem, comen- 
çandolhe brotar as flores da barba, que poderia competir com o fermoso 
Adónis, de humas íeyções grossas não eíeminadas: com huma graça nellas 
viva que naturalmente ganhava os corações de quem ho via. Ti'azia diante 
si dous escudeyros da sua idade em quartaos ruços, vestidos de cetim 
branco, com gentil concerto, hum com a lança, outro com ho escudo. Em 
meyo deiles hum velho muy ancião, com roupas compridas de seda roxa, 
em hum palafrem bayo, ho qual lhe trazia o elmo, e as manoplas com 
muita autoridade. El rey Sagramor vendo tão lustrosa companhia, e seu 
aparato. Pareceolhe que seria homem de estado: segundo suas mostras, 
e levese sem cavalgar te que elles apearam; o que fezerara longe, e vin- 
do autclle com muito acatamento; Passadas as dividas, e costumadas cor- 
tesias, em que el rei não quis dar a mão ao cavaleiro por não saber quem 
era; começou ho velho dizerlhe, com huma voz grave e entoada. Pode- 
roso rey a sabia Merlindia beyja vossas reaes mãos, e vos avisa que aper- 
cebays vossos reynos em quanto a tendes pêra os tempos da guerra que 
vos pode socceder, por que a fortuna não vos possa tomar descuidado, 
se na paz o senhor Deos desposer visitarvos com trabalhos, pêra per elles 
vos sobir a gloriosa fama que alcançam os príncipes providos no descan- 
so, 6 esforçados nos perigos. Ca já a Deusa Belona contra vos traia hu- 



DA TAVOLA REDONDA 23 

ma perigosa conjuraçrio : e porque este donzel qiie pretende ser cava- 
leyro vos será boa columna porá toda afronta: ella em seu nonae vos 
pede, peiíhoiado a volo servir em cousas de vosso gosto, e bem de vosso 
estado: que o armeys oje seu cavaleyro. Ca com esta esperança tem já 
veiadas as armas. E vos certifica, que a ordem de cavalaria, será nele 
também empregada, que em seu tempo ninguém a honre mais. E o fruylo 
ih' tal pranta produzida de vossos real sangue : vos sobi'e todos o colhe- 
reis com graíjde gloria de vossos reynos. El rey que' em estremo folgava 
com as lays occupações, tomando ao donzel polia mão disse. Folgara que 
me requerera a sabia Merlíndia cousa que me fora muyt<» custosa, pêra 
ui'e vira com quanto gosto, e quam levemente a satisfazia. Ca nos deze- 
yos desta amizade, não lhe darey eu vantagem: nas obras me pode ven- 
cei', porque as das tays pesoas não tem em i)odei'io humano a satisfa- 
ção: e assaz claro se ve no que me pede a vontade que me tem, o aviso 
que me dá lhe agradeço muyto, eu terei lembrança, de tomar seu con- 
selho: deshi falando ao donzel diselhe. Eu tenho ben] crido que será ho 
que a sabia manda dizer de vos: ca dessa a postura tudo se deve creer, 
e pode esperar: ao meíios, (disse ho donzel) creya vossa Alteza que tudo 
espero empregar em seu serviço. Estimo eu em muyto, (lhe tornou el rey) 
essa palavra, pello que de vos creyo. Porem folgai'a que não toinareys em 
tão pouca idade como a vossa parece cargo de tanto peso. Senhor, res- 
pondeo ho donzel, sabido he quam pouco podem forças corporais; no es- 
prito está o vigor do homem, e pois me este obriga eu confio, que elle 
me leve a bom porto. Com estas e outras palabras, tentou el rey a ope- 
iiião do donzel. de que cada vez ficava mais satisfeito, porque lhe res- 
pondia muy atentadamente. E perguntoulhe o nome e cujo liiho era. Mas 
elle escuzouselhe com lhe pedir que te o não conhecer polas obras não 
quisesse ter delle outro conhecimento, por que tinha muito per fazer, 
pêra cumprir com a obrigação de quem era. El rey vista sua detei-mi- 
iiação não lhe quis ser pesado; e nelle logo via tudo o que sua presunção 
podia mostrar. Cavalgando pois. assi foramse ao mosleyro, donde se co- 
meçou ho olTicio divino assaz cerimoniado. Ca como Sagi'amor era muy 
catholico Príncipe, trazia grande ponto no culto divino, o que todos os 
Príncipes devem ter umy a cargo. Neste tempo, os olhos de toda a corte 
occupavamse em ver ho bem aposto Donzel, cujo cuydado era enlam en- 
conunendarse pronto a Deos, pedindoilie graça pciu ho sej'vif uaquclla 
ordem com sua honra. 



24 MKMORIAL DOS CAVALEIUOS 

Acnbada a pontifical Missa, el rey se pos com elle e fezlhe hnma bre- 
ve e discreta pratica, pêra ho tal auto; E a fim da qual feitas suas per- 
guníns: tomada sua le, e volo, segundo ho instituto da regra, calçouíhe 
a espora, deshi perguntoulhe de quem queria tomar a espada, quando 
de SLibito soou hum trovão tam grande que pareceo abrirse ho ceo, e 
no mesmo instante entrou pola porta principal do templo hum temeroso 
Drago lançando das ventas espesas chamas de fogo: os seus olhos pare- 
ciam duas grandes tochas, e quanto elle era espantoso, e pêra temer: 
tanto era fermosa, e pêra desejar huma donzela que sobre si trazia, ves- 
tida em huma marlota de cetim cramesi, toda cortada sobre tela de pra- 
ta, com golpes apartes tomados de ricos botões douro: dalto a baixo bros- 
lada, e picada com sotil laçaria de troçaes douro, e prata: os seus dou- 
rados cabellos entrançados ao redor da cabeça: e per antrelles alguns 
diamantes c robis que lustrava muyto. Seu resplandor era tal que não 
Sfjmente vencia os fogos do drago, mas acanhou toda a gentileza das 
damas que ali estavam: Grande foy o reboliço, e temor antre todos. O 
confuso povo espantado fugia por salvar as vidas. Os cavaleyros notáveis 
em que não podia a fraqueza: levando das espadas chegavamse pêra el 
rey: ho qual sem algum movimento com sua espada prestes esperou ho 
perigo. A raynha e dnmas cairam todas esmorecidas, ho novel cavaleyro 
acordada, e animosamente tomando a espada que ali tinha o seu escu- 
deyro, embrançando o escudo. Arremeteo ao drago com huma estocada 
feita, que lha meteo polia boca a empunhadura: com que logo cahio a 
seus pés, não morto, nem ferido; mas obedecendo á vontade da Donzela 
que ho regia, a qual chegando ao Novel, lançoulhe ao pescoço hum rico, 
e asas primo teracolo de peças de prata, lauradas de tauxia com huma 
espada metida em huma baynha de cristal, e os cabos, e punhos do mes- 
mo, sotilmente obrad.s dizendolhe. Os vossos fados, e não minha von- 
tade, esforçado cavaleyro me trazem de longe a vos trazer esta peça, em 
oescoiiLo da qual quero fiqueis penhorado pêra me servir. Nisto de im- 
proviso lhe sahio do peyto huma piquena bicha pintada, que saltando no 
lado esquerdo ao cavaleyro, rompendolhe as armas, entrou pêra elle co- 
mo pilouro, descopela, e sem alguma detença voltou, trazendo o coração 
lia boca, com que se recolheo em sua guarida: o que tudo passou mays 
em breve do que se pode dizer. Ho novel cavaleyro ho padeceo com es- 
forçado animo constante, sem fazer de si mudança, salvo ao sayr do co- 
ração deu hum sospiro em sinal do que sentia. A donzela sem esperar 



DA TAVOLA REDONDA 25 

mays, com tal preço satisfeyta pos se no seu Drago, qne á hora, com a 
passada fnria voltou por onde viera, desaparecendo em breve espaço: ao 
despedir pondo os fermosos olhos no Novel que os seus olhos tinha nella 
fitos, disselhe: buscaime, se me quereis merecer que eu enlre.^ue vou, e 
eile ficou tão saudoso que as lagrimas lhe saltaram com força desta dor 
polas faces. E nam cuydo eu, que Apolo tornandoselhe Daphnis lourey- 
ro, ficou tão magoado, e suspenso abraçandose com o amado troco. El 
rey Sagramor visto como tudo eram figuras de encantamentos que ao 
longe mostram seu eíTeito, creo que fossem obras de Merlindia, por fes- 
tejar o seu cavaleyro com novos mistérios. Porem ella estava alheya dis- 
to, e disselhe: Esforçado cavaleyro que pêra estas afrontas tais, e outras 
muytas mores vos oííerecestes, recebendo tal ordem. E que se vus apa- 
relhem trabalhos segundo parece, a vendo de obedecer ao que vos maniila 
a fermosa donzella ho premio he (tal se o ella for,) que tudo faz leve por 
conseguilo. E folgo passar ante mim tão maravilhosa aventura, que con- 
tado parecera duvidosa: ca de tal principio não pode ja leyxar de soce- 
der notável fim. Seja o que a ventura ordenar, respondeo o novel, que 
forçado sou ao que nisso fizer. Façase a vontade aos fados a que obede- 
ço. Portanto vossa alteza me de lic^ínça pêra logo seguir a rota da mi- 
nha fortuna: e prometome tornar o mais breve que lhe for possível, 
com o que me ella der e tolhendome a morte será minha desculpa. Quanto 
me pesa (tornou el rei) de vossa acelerada partida, tanto folgo da deter- 
minação: e na vontade me dá que ha de ser jornada de muyto vossa hon- 
ra. Ca tam novo aquecimento nam carece de mistério, e porque dezejo 
verlhe o fim sofro partir des vos: Lembrevos o que me prometeis, e com 
\'0ssa prospera vinda quero me pagueis a força que me agora faço era 
vos leyxar partir assi. logrando e sabendo tão pouco de vos. O tempo 
dará tudo, (respondeo o novel,) e despedido: partiose logo com sua com- 
panhia; determinando ir consultar com Merlindia o que devia fazer pêra 
cobrar ho coração que cria ter menos, ou aver satisfação do amor como 
se a dera elle alguma hoi-a sem falhas quem melhor ho serve. El rey deu 
seu recado ao velho de Merlindia a parela de grande amizade; porem que 
não lhe podia negar ficar muito queixoso de quam pouco leyxara lograr, 
ho seu cavaleyro (}ue lhe pedia lho mandasse cedo, pois já lhe dezia que 
teria delle necessidade. E partido ho cavaleyro, elle se recolheo em seus 
paços, mostrando desejar muyto saber quem fosse ho cavaleyro que com 
tam misterioso principiei começava seguir sua ventura: por o que os Ge- 



26 MEMORIAL DOS GÁVALEIliOS 

ineos determinaram secretamente verse com elle,, e per justa oii bataíha 
saberlhe ho nome, e comeste propósito se partiram aquella noute de Lon-- 
dres, mas socedeolhes a jornada desviada delle, como adiante se dirá. 

Capitulo septimo. De himia aventura que veyo a Londres, 
a que foi Fidonflor de Alares. 

Sempre a inveja dos heroycos feylos, K)y louvada, e frutuosa a imita- 
ção dos bons. Sam por tanto os Gémeos di^nios de louvor por inveja 
em ho cavaleyro das armas cristalinas, digno também de ser imitado por 
seus .altos piincipios e soccessos. Por o tpie neste tempo em toda a coi-^te 
de Londres nam se sabia falar, nem -falava noutra cousa: salvo na aven- 
tura do cavaleyro das armas crisíalinas, avendo por sonho tud >, por a 
pi'esíeza com (|ue passara, lançando diversos juyzos: e todos diziam que 
lio cavaleyro xNovel devia íer j^^rande estrelhi, [)ois comegava tam estra- 
nhamente sua peregrinação. As damas poiliavam (jut; como podia hum 
homem viver sem coração: crendo que em verdade Hso levara a donzela 
do Drago, o que nam era peíjuena ma-leria pêra os galantes que as ser- 
viam e lhes allirníavam viverem sem almas, e outros iiiuytos feros damor 
que desta pi-atica se inferiam. Outros porem eram os cuydados dei rey 
Sagramor, o qual não esquecido do aviso que lhe a sabia Merlindia man- 
dou da guerra que ho ameaçava, des[)achou alguns cavaleyros de con- 
íiança sobre irem fazer gente por seus reynos, \n)v a ter prestes pêra o 
que lhe soccedesse: em quanto não sabia donde o mal lhe apontaria, cá 
de Godiíert não se recnava ponjue o tinha por moito segundo fama,, e 
per outros ministros negociou njantimenlos e moiíições per maneyra que 
se apei'cebeo de todo ho necessário sem oppressam de seus povos, nem 
parecer que lio trazia occupado aquele cuydado. Forque era tam gran- 
dioso em seu animo, que quando parecia aver mays necessidade de sua 
diligencia, então tinha ho soíio de Alexandre, estando pêra dará batalha 
a Dnrio. isto lhe vinha de ser sempre tão vigilante e provido no qae 
cumjtria a seu estado e bem de seus reynos, que nenhuma fortuna ho 
podia tomar descuydado. Avendo |)ois dez dias (jue ho cavaleyro das ar- 
mas cris'ialinas pai'tira de i^ondres, el rey determinando niudarse delia 
cedo, poi'(pie (como já a[)ontey) andava visitando suas terras. Hum dia 
vindo elle pêra a mesa, apresentouselhe hum velho de autorizaila pre- 
sença cuberto de luto, em smal do que trazia na alma: os seus olhos ar- 



DA TAVOLA REDONDA 27 

rasados de grossas lagrimas, com hum grave tom de palavras lhe disse. 

Miiylo alto e poderoso Bey, eu venho á vossa real corte por a faina que 
soa de jjélla mais que em outra alguma as pessoas atriliuladas d"alguma for- 
tuna, acharem ho humano socorro que se liies deve. E porque eu velho 
cansado por meus peccados, que pêra isto me dilataram os importunos 
dias, sou ho mais afrontado e abatido homem fjue possa ser visto, e esta 
idade fraca pêra resistir, e dura pêra padescer, poys me sostem em vida 
contra os dereytos da morte, não me da forças pêra mays que pêra re- 
querer e importunar ho favor dos bons e esforçados cavaleyros, busco 
por tanto algum que me valha em huma grande alTronta, de que darey 
conta brevemente, porque valha minha justiça o que eu não merecer per 
mim. 

Na ilha Gocia oriental, fuy eu já a segunda pessoa depoys dei rey, em 
estado e nobreza, do que não cuydo que usey mal, ou fuy causa delie. 
Deume Deos huma filha de tanta fermosura dotada, como mingoada de 
ventura: a qual eu casey a seu aprazimento cora hum nobre da terra. E 
avendo alguns annos que elles viviam muyto conformes, e amigos acaes- 
ceo que Ardalico rey de Gocia veyo ter a huma aldeã minha de folgar, 
por ser ho sitio de grandes bosques e caças. Eu ho agasalhey e festegey 
como leal vassalo, o que meelle agradesceo como tiranno senhor, e man- 
cebo vão, differente do rey passado seu pay, de que eu era sobrinho. Em 
modo que vendo elle minha hlha, encendeo-se no desejo delia, e foy ho 
seu furor tam impaciente como ho de Amon Olho dei rey David, ou antes 
qual ho de Tarquino contra Lucrécia. Porque logo com hum seu falso con- 
selheyro, ordenou fazer ausentar ho marido, pêra poder ter entrada com 
ella: e mandouho a hum negocio a Nodiosia, que he no fim da ilha. Di- 
zendo que tinha aviso que alguns cossayrijs do mar determinavam dar 
nella. Partido Laurenio meu genro, Ardalico per seus ardijs teve meyo, 
peylando huma velha de casa, com que entrou ao primeyro sono com mi- 
nha niha, que jazia em seu casto leyto, com hum seu filho, criança de 
quatro meses nos braços, onde apresentandolhe brandamente ho seu ce- 
go amor, e desenganado por ella que se mataria cem vezes antes que 
consentir em tal caso, Ardalico lhe tomou ho menino, jurandollie que 
lho matéria, aponlandolhe a espada á innocente garganta. A fi-aca mother 
sintida de tal crueza, e obrigada do amor do lilho, por llie escusar a 
morte consentio em sua deshonra. Mas desta culpa a era sua alma salva, 
segundo mostrou por obra. Porque como Ardalico se foy, ella ficou em 



28 MEMORIAL DOS CAVALEITÍOS 

jTiuylas lagrimas estilando sua dor. Das quaes os seus ollios nunca mais 
foram enxutos, sem a mim nem a outrem querer dizer a causa, e Iam 
grande foy a sua payxão que levemente se dera elia á morte, se escusa- 
ra a eterna da aima : e em espaço de hum mes se fez tam difforme do 
seu i)om parecer que nam tiníia figura de molher. Vendo eu que parecia, 
mandey recado a Laarenio, tio qual tomando a posta secretamente veyo 
verse com ejia, actiandoa lai que a nam coniiecia. E perguntandolhe o 
que sintia, ella com rauytos soluços liie pedia que lhe desse a morte, 
porque lha merecia muylo bem. Por Om a seu rogo lhe contou sua for- 
ça. Dizendo que protestava a Deos que a sua alma era limpa de tais 
culpas, porem que nam queria que ho cor[)0 fosse salvo da pena que 
por sua fraqueza merecia. Laurenio ouvido isto com amorosas palavras 
a consolou como aqueiie que lhe tinha gran<le amor, e cria bem sua 
pureza, pedindoihe que lhe vivesse pêra ho ajudar a vingar sua injuria, 
sobre o que logo consultou seus parentes. Mas Ardalico avisado de tudo: 
per seus meyos de alguns tredos, os que nunca faltam. Estando já dali 
ausente, deu sobre nos de súbito com gente grossa antes que nos ílze- 
semos mays fortes, e matando os que lhe resistiram: prendeo meu genro 
e filha. Eu estava desviado, e pude salvarme a unha de cavalo, e per 
c^sas de parentes escondido tive maneyra que me passey á Noruega : 
dali soube que eile sabendo como eu tratava com meus parentes sua 
destroyçam, pubricou ter culpas de meu genrro, e filha contra sua real 
pessoa: as quais por escusar escândalos elle queria poer em direyto: em 
tal maneyra que dando eu cavaleyro que entrasse com elle em campo por 
minha parle, se ho matasse ficaria eu satisfeyto: e matando elle ho meu 
cavaleyro, perdesse eu todas minhas terras, e os presos fossem justiça- 
dos segundo elle ordenasse. Este partido cometeo ho tyrano Ardalico: 
querendo mostrarse muy justificado: porque presume de si que no mun- 
do nam lia cavaleyro que se lhe yguale, eu fundado na minha justiça, 
j)ondo a esperança no summo Deos que abate aos soberbos. Avisado 
disto, dixe que me aprazia, e pedi prazo de seis meses pêra me prover. 
Vedes a(]ui famoso rey a fortuna com que me venho socorrer a vos. Va- 
Jeime por quem soys e pola confiança (}ue me ca traz. Antes que el rey 
Sagramor lhe respondesse, acabando nisto ho velho, que Guirmenides 
se chamava, hum cavaleyro dos presentes se pos de geolhos ante elle, 
pedindo que lhe fezesse merre daquella aventura. Sagramor vista sua 
jíusla píitição, disselhe que folgava muyta aceylalo elle, porque cria que 



DA TAVOLA REDONDA 29f 

lhe daria o devido fim: e a Guirn^tínides, que em estremo lhe pesava 
da suadesaveiitura, porem que se esforçasse em Deos: ca mediante elle 
podia crer que levava com sigo cavaleyro para cousas de muyto mayor 
peso, e por ter delle a tal esperiencia lho d^va: e esta coníiauça que et 
rey mostrava não era sem causa, por ser ho cavaleyro Fidonflor de tea- 
res Duque Dalecastro, ho qual eiu todas as guerras que Sagramor teve^ 
ra se tinha mostrado ser com rezam filho de seu pay; e feyto muyto 
serviro a el rey que lhe linha grande amor e gostava muyto de suas 
cousas ; e tudo elle merescia, porque alem de muy especial cav.-ileyru, 
era gentil homem, gracioso, bera acondicionado, e pêra tratar damas e 
as servir, muy diligente e querençoso: nam pouco ditoso com ellas que 
sempre se incrinam a quem as segue. Assi que com este bom avia- 
mento se partio logo ho atribulado Guirmenides sem querer fazer mais 
detença. El rey ficou falando na tyrania de Ardalico: reprendendo muyto 
Príncipes viciosos, que sempre cometem grandes excessos, donde tam- 
bém muytas vezes padecem grandes castigos divinos: afíirmando ter por 
muy certo ho deste per mãos de Fidonflor. Nisto disseramlhe que te vi- 
nha Lipalda Duquesa de Borgonha, chegada novamente à corte : a qual 
elle sahio receber com grandes honras, e todas lhe eram muy devidas, 
assi por sua pessoa e virtude, como per aver sido molher de dom Gal- 
vam sobrinho dei rey Artur, e sobre tudo may de DoristãoDautarixa, tam 
famoso cavaleyro que a nenhum de seu tempo deu obediência: e trazia 
consigo hum íilho e filha Gémeos, tara parecidos hum 'com outro, que 
em quanto Deyfilos de Xatra (tal era ho nome do filho) nam teve barba, 
nam se dilíerençava no rosto de Pynaflor, que assi se chamava a filha, 
e a Duquesa os criou logo também ygualmente em todo ho exercicio 
das armas: de que Pinaflor nam sahio desigual, antes tara estremada nel- 
las que competia a sua cavalaria com a sda fermosura: da que teve tal 
estremo que raramente achou seu par, e foy comparada a Camila antre 
os Volscos. Per maneyra que a duquesa Lipaldavinha pêra andar na 
corte com estes filhos: aos quaes el rey armou cavaleyros antes que se 
partisse de Londres: e elles tanto que receberam a ordem, sabendo co- 
mo ho irmão Doristão Dautarixa estava na frontaria de Navarra, secre- 
tamenlc se pailuam de Londres pêra elle. Mas agora (juer a historia 
Iralai de (juem lhe doe e a seu tempo cumprirá com todos. 



tíO MEMOiaAL DOS CAVALEIROS 

CAriTOLO OCTAVO 

De hum mouro spanhol gup veyo á mrte desafiar os camleijros 
da tavola redonda. 

Como ver pros}5eros os mãos em suas malícias, he occasião grande pêra 
muytos os seguirem, assi aos bons he espertador de virtudes, ho ver 
os que nelas ílorecem. Donde os Reys e príncipes sam obrigados casti- 
gar a huns pêra temor, e favorecer aos outros pêra imitação. Desta ma- 
neyra ho fazia el rey Sagramor castigando traydores segundo atras ou- 
vistes, e íavorecido Fidonílor de Mares na boa empresa que tomou de 
jr com Guirmenides, do que não leyxou pequena inveja, mas vertuosa 
aos cavaleyros <1a tavola redonda, cujo deseniio contino era exercitarse 
nos lais trahallws. I\)ucos dias porem passaram que não se vissem ne- 
les. Foy poys atísi, indo el rey Sagramor hum dia á caça duas legoas de 
Londres, com a i-aynha, damas, e muytos nobres: desque caçaram e se 
recolheram a huma fonte que estava junto da estrada pêra passarem a 
festa em sua aprazível estancia, onde Epirantes Dolfim de França lhe deu 
3ium magnifico banquete, acabado ho qual, ficando el rey somente com 
a raynha, damas, senhores e cavaleyros da tavola, em quanto a outra 
mais gente se pastava, moveose pratica em que vieram a dar na antiga 
Troya. E el rey Sagramor íouvou mnyto a cavalaria dos Troyanos, que 
se sostentaram com muytas vitorias dez annos de cerco, de tantos e tam 
poderosos príncipes e capitães Gregos: sem tim por poderem tomarlhe 
a cidade, salvo per trayção. Ao que Epirantes dolfim de França que era 
pessoa muy principal, zeloso de todo bem, respondeo. Per hi se vee 
claro quanto os Reys devem estimar a lealdade (3os vassalos, ca lhes se- 
gora ho estado: he virtude não menos principal, por não dizer mais que 
a da cavalaria, })or o que rey que ho for de gente cavaleyrosa e leal, 
não ten» de que lemerse, e pode lazer rosto ao restante do mundo: por- 
que raramente ou nunca se conquista reyno, cidade, e castelo, em que 
aja resistência ho nesta, sem meyo ou favor dos naturaes. E assi lemos 
que Monarchia dos Assírios per trayção de Arbaces vassalo tredo, se pas- 
sou aos Mtídeos, e a destes aos Persas per a de Arpago. Ho poderoso 
reyno Romano per trayções e traydores se desfez, e a mesma Republi- 
ca, c muytos outros. Assi he muyía verdade, disse el rey. Dondt^ os Ro- 
manos tiveiam miiyla razão em ordenar prémios pêra os bons cavaley- 



DA TAVOLÂ REDONDA 3! 

ros e pena pêra os mãos: porque nisto consiste ho decoro real premear 
^da hum sepriindo seus merescimentos. Nessa parte repricou Epirantes, 
acho nos Romanos rara e notável observância. Porque a Oracio Cocles 
que defendeo a ponte, e a Mucio Cevola que queymou a própria mão 
por errar ho golpe, deram terras da Republica, o a Manlio Gapitolino 
que salvou o (Capitólio dos Franceses que ho entravam, deram de seu 
próprio manlmicnto per consentimento de todos, premio grande segun- 
do a fortuna em que Roma estava. Mas depois porque inventou trayção, 
do mesmo Capitólio em. que gaynhara a honra, foy derrubado e mnrto 
sem terem respeito a seus merecimentos: no que parece que lhe foram 
ingratos. Aqui respondeo el rey. Antes muyto justificados, porque tam 
íJivido he ho castigo a culpa. Quanto ao galardão ao merescimento : ca 
doutra maneyra como noísa natureza seja inconstante, os vantajados 
per prémios da virtude tendose per isentos, podiam cayr depois em 
grandes excessos e serem insofrives, pois está claro quam facilmente se 
corrompem os homens empostos em seus dessenhos: como se vio no 
grande Alexandre feyto Monarca, e em seus vassalos socedendo em seus 
estados. Ca se gosto particular ou interesse se atravessa â virtude pou- 
cas vezes fica de vitoria : pêra o que a pena he grande freo, e pode 
agoarse com a moderação, segundo ho bom jnyzo e obrigação. Mas se- 
gundo (disse Epirantes) a boa fortuna de cada hum, qoeesta nas cousas 
liiimanas vemos per a mór parte levar a boya á rezão: ja por ella e per 
sua Pátria se ofíereceo Pompeo: e tendo a causa tam justificada foy ven- 
cido de César que tyraniza a Republica donde parece que dos effeitos 
celestes e força dos planetas procedem nossas obras. Não he boa ope- 
nião essa (respondeo el rey,) porque a natureza sempre se encaminha 
com ordem e a bom fim, e ho juizo humano não he capaz de entendela, 
e assi as mais das vezes erra em sentenciala donde quando em hum par- 
ticular desafio sobre alguma causa forvencido o que parece ter a justi- 
ça, cuyday que pode antrevir a muyta fraqueza a respeyto da fortaleza 
do vencedor, a que seu esforço da a rezão, ou peccado secreto que lhe 
tolhe ho favor divino. Pêra cuja justificação David dizia pubricar sua cul- 
pa. Mas se ouver dous Reys que contendam per sua honra, ambos ani- 
mosos e que justifiijuera com Deos sua causa, que defendem forçados 
do sua olirigação, por sem duvida tenho que sayrá vencedor o que per 
si tever a rezão. Por o que dado que Pompeo vencido a tenha: daremos 
a culpa ai.is [)uccad<)S c soberba da U(.'[)ublica Romana- antes que notar 



32 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

defeyto na justiça divina: a qual tem a cargo não faltar onde importa 
NJda, honra, e alma: e he de crer por tanto que nunca falta sem justa 
causa. E que seja verdade sermos movidos das infrueucias celestes, que 
DOS emprimem compreyssão e incrinação, não creays que Martes posto 
ua casa de Escoí'pião domina, e assi dos outros, pêra que possa forrar- 
nos, e tolher nosso natural des tinto do mal e do bem pêra ho evitar ou 
seguir. Ca ho homem naceo livre, dotado de tal entendimento, quecom- 
prende ao mesmo homem: ho qual comprende tudo, e foylhe dado pêra 
n-ipayro e arma de defensiva e oífensiva, ho livre alvedrio, que pacilica, 
concorda, e vence tudo, quando se despõe pêra seguir a bandeyra da re- 
zão. Donde sediz. Ho sabedor domina as estrelas; e de si mesmo pruce- 
dem também seus deíeytos. 

Nesta pratica estava el rey Sagramor com os seus quando ouviíam 
huma voz alta e suave, de quem vinha pela estrada ja perto, cantando 
ho seguinte Romance, ao modo Espanhol, com genlil arte e disposi<;ão. 



Naquella montanha Ydea, 
que a Frodisia frequentava 

Paris aquelle pastor 
a quem Enone amava, 

Com ella de companhia 
as leras bravas caçava 

As aves de mil maneyras 
armando laços tomava. 

Antre murteyras nos braços 
da Nimfa a sesta passava, 

Donde ter lhe eterno amor 
muytas vezes lhe jurava. 

E de tella por senhora 
comsigo se vãagloriava. 

Aquelle que por ser justo 
de Era os louros coroava. 



DA TAVOLA RKDONDA 33 

Embayxada do Tronante 
Merciirio llie a presentava: 

Pêra julgar aritre as Deosas 
que a discórdia baralhava, 

E de cada Imma delias 
promessas lhe apresentava, 

Riqueza huma, outra vitoria: 
Vénus fermosura dava. 

Ho justo pastor se incrina 
ao que os olhos contentava, 

E quer ver nuas as Deosas. 
que nada ver lhe estorvava. 

Ó desenho temarario» 
que tal perigo intentava. 

Com razão e com desejo 
por Citherea julgava. 

E a Deosa satisfeyta 
da palabra penhorava: 

Enlevado na esperança, 
Enone ja desprezava. 

Lagrimas por seu amor, 
em satisfação lhe dava: 

lio seu descanso amoroso 
Por trabalhos ho trocava. 

Vénus cumpre sua promessa, 
fortuna Enone vingava, 

Com a fermosa Greciana 
a toda Troya abrasava. 

E não lhe valeo Casandra: 
que furiosa ho gritava. 

Que estes sam os galardões 
que amoi' vingativo dava. 



34 MEMOUIAL DOS CAVALEIKOS 

Este Romance ouvio el rey Sagramor com Ioda sua companhia, por- 
que a boz era alta e retumbava, per antre ho espesso arvoredo de hum 
grande soveral que atravessava a estrada, e parecia muyto bem aos que 
ouviam, melhor pareceo porem a vista do que cantava, que era hum 
aposto cavaleyro que vinha com a viseyra levantada, armado de humas 
ricas armas verdes, em hum poderoso cavalo melado: a lança atraves- 
sada no arção, e no escudo que delle lhe pendia, em campo verde hu- 
ma torre, de cujas ameyas caya huma fonte com huma letra que dizia. 

A fonte de fermosura, 
que nesta torre se encerra, 
contra amor sostenta guerra. 

Ho cavaleyro vindo desta maneyra, e descuydado de dar em tal com- 
panhia, enlevado no seu pensamento: acabado ho romance deu hum gran- 
de gemido, como quem parece tinha de que sintirse: nisto sintio a gente 
em que veyo topar, per o que deyxando cayr a viseyra, e informado do 
primeyro que se lhe offereceo, mandou dizer a el rey que era hum aven- 
tureyro Espanhol, que vinha á sua corte com huma determinação for- 
çada, per mandado de quem ho tinha forçado voluntário, se lhe dava 
licença e seguro real pêra jr antele. O que lhe el rey Sagramor logo 
concedeo: ho cavaleiro com esta reposta, concertouse na sella, e reco- 
Iheo a rédea ao cavalo que á hora se pos, mostrando ambos huma va- 
lorosa ufania e prometendo de si tudo o que se lhe esperava, chegando 
pois ante el rey, pos ho cavalo os giolhos ambos em terra, e ho cava- 
leiro debruçouse todo sobre a cernelha, deshi endereytandose. E ho ca- 
valo muy esperto, escarvando a terra a tempos com huma mão, disse 
assi. 

Muyto alto e muyto poderoso Rey, nacemos todos nesta vida, des- 
tinados a trabalhos, huns per fortuna, outros per amor; alternando ho 
doce, e amargo com diversos effeytos e socessos, íense parece, ambos 
conjurados contra ho género humano. E aquella Deosa Citherea que rege 
ho terceyro ceo tem delle tomado posse, que raramente se acha esprito 
claro, isento de sua jurdição. E não sey se está amor sobre ho juyzo 
natural, se debayxo, e se ho homem se guia ou he guiado, se he desti- 
no, se cleyção, huns ho tem por bom, outros por mao. Eu por mim 
digo, que he hum mal doce, c hum gosto triste, que forçado, ou volun- 



t)A TAVOLA REDONDA 35 

tario vos leva sempre ao próprio damno, segundo por esperiencia de 
cada dia vemos, e em mim se prova, ca sendo Espanhol, senhor de Pam- 
plona, e gram parte do reyno de Navarra, jrmão de Salinter rey delia, 
Amor me traz a Ingraterra oííerecido a quantas afrontas passa quem se 
mete antre seus immigos quaes somos os mouros dos Chrislãos, tudo 
entendi, e tudo temi primeyro, ho juizo e os temores venceo amor, que 
quer ser obedecido forçadamente, e se recrea em ser servido a mayor 
risco. Eu porem tenho por muyto leve tudo o que ho escravo corpo 
aventura ou faz por satisfazer a alma, e como desta ho amor se apos- 
sou, e a ella se deve a vida, de ter em pouco ho perdela, tive que nada 
fazia em emprender esta jornada por serviço e mandado da fermosa Arin- 
delia cujo sou : e ho como ho vim a ser vos direy, pêra dizer ao que 
venho. Clearso senhor de Fonte Rabia fortaleza no fim de Guypusca ao 
pé dos montes Pirineos, he hum gigante muy temido per aquellas par- 
tes, e que tem feyto per mar muyto damno em terras de Christãos, in- 
do em hum navio aprecebido pêra seus roubos foy dar na ilha Lipara, 
huma das Eolidas, em que fez cruel estrago e presa: e neste desbarato 
captivou a fermosa Arindelia herdeyra da ilha, moça de doze annos: a 
qual trouxe á Fonte Rabia, onde a tem fechada em huma torre, que tem 
somente huma janela alta contra a banda da terra, guardada de toda 
conversação averá três annos, não se sabe a que fim: dado que se sos- 
peyta criala pêra a vender a grande preço, ou pêra seu gosto. Nestes 
termos do seu conto estava ho mouro, quando viram vir pola estrada 
huma estranha aventura, que fez tal abalo em todos, que lhe cortou ho 
fio, cora muyta rezão: a qual vos daremos. 

CAPITOLO NONO 

Como ho cavalcyro das armas cristalinas matou ho gigante 
do castello da estranha Torre. 

Cousa hc muy sabida, ter amor estremados eíTeytos, e ser junta- 
mente ho escamei de altos espritos, que movidos de seu furor muylas 
vezes acometem e acabam maravilhosas proezas, e se abalisam antro os 
mais animosos, donde por tanto podemos favorecer a openião do mouro 
Espanhol, que amor traz desterrado de sua natureza a ofTrecerso por seu 
respeyto ao claro perigo de sua vida : alta calidade, antes força grande 



3C) MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

(la fermosura das molheres, de que amor usa por arma oíTensiva contra 
nossa soberba, com a qual lambem abateo e forçou tio cavaleyro das 
armas crislalinas, que assi se chamou ho Novel que el rey Sagramor ar- 
mou. Em quanto não se lhe soul)e outro nome. O qual partindo de Lon- 
dres, em propósito de se ver com Merjindia, pêra dela se informar so- 
bre seu cuydado: caminhando com toda pressa, ao segundo dia de sua 
jornada foy a névoa tam espessa, que lhe causou errar ho caminho, e 
dar em huma serra de jjrava penedia, perquc indo sem sal)er a que parte: 
desque tio sol se impinou em seu zenilh, que com ha força de seus rayos 
consumio ho nevoeiro, ouve vista de hum grande castelo situado sobre 
bravo roctiedo: cujo caminho de sua serventia era em voltas estreyto e 
muy fragoso. Parecendolhe pois que devia jr a elle pêra tomar guia, foy 
se per aquella subida: e era eila tal e tam fragosa, que lhe gastou o que 
restava do dia, e parte grande da noute. E quando ja chegou junto do 
casteto não lhe pareceo que llie abririam a tais horas. Gumpriolhe por 
tanto alojarse com sua companliia ho mellior que pode ao frescor do se- 
reno: e como foy menhaã vio que ho castelo, parecendo debaixo edifício 
pequeno, por a altura e aspereza de seu sitio, linha liuma cerca de hu- 
ma legoa em redondo, feyta de áspera penedia, quasi segundo natureza 
a traçara: e em alto de cinquoenta covados pouco mais ou monos, tam 
forte que era impossível fazer nelle mossa artificio humano. E de dentro 
fazia hum raso em torno todo prão no diâmetro: do qual se armava hu- 
ma torre em triangulo, tam alta que parecia participar a região das nu- 
vens. E dos Ires ângulos ou cantos se pegavão outras tantas torres, hum 
terço menos alto, feytas em redondo: e teriam de circumferencia trezen- 
tos passos, e a do mcyo seyscentos, todas de canteria tosca de jaspe. 
Estando pois ho cavaleyro das armas cristalinas com sua companhia, 
olhando esta estranha fortaleza, não sem admiração, abriram huma porta 
do muro que se balava a cima per grossas cadeas, ca taes eram neces- 
sárias, por ella ser de ílno aço tam resprandecente que abatia a vista: 
6 per certo engenho as levantavam e leixavam cayr facilmente. A pos 
isto sayram seys salvages com sabujos de trela, e seus arcos e Coldres 
de muytas setas, os que ho cavaleyro vendo, lançouse do cavalo porque 
não lho matassem: e dizendo aos seus que se arredassem com elle, abri- 
gados dalguns penedos, por que lhe não atirassem os salvages: elles se 
vieram a elle e ho começaram servir de seladas, com muy ta destreza e 
foira, pregandolhas no escudo e armas, que a não serem Iam foi'tes bas- 



DA TAVOI.A REDONDA 37 

taram pêra atravessalo, e algumas lhe chegavam á carne, de que se sin- 
lia como cousa nova, entendendo ja com quanto trabalho e perigo se 
ganha e sostenta ho heroyco nome. E sintindose das obras de seus inii- 
gos a qualquer que alcançava dava sintir as suas. Passado pois algum 
espaço em que elles despenderam as setas levaram de largos cutelos, 
com que cuidaram desfazelo e tomando em meyo ho acometiam per 
todas partes. Mas elle se defendia e offendia como ho bravo lavari antre 
os Libreos, e a não ser de tam estimada ardideza e forças, não fora possí- 
vel não cayr de cansado, per o menos perdido ho alento: mas teveho tal 
que em espaço de huma hora que ho combate durou, os derrubou todos 
mortos de estranhas feridas, o elle naõ ficou sem algumas, e assaz que- 
brantado. E querendo descansar, vio sayr do castelo hum monstruoso 
gigante armado de pelles de onças e liões: e ho escudo de sete couros de 
boy, qual dizem que foi ho de Aiax Telamonio. Na cinta hum largo cu- 
telo que bastava pêra fender a dura penedia, mandado das forças que 
tal corpo prometia : e cuja catadura poderá poer espanto a hum exer- 
cito como Golias. Ho cavaleyro das armas cristalinas vendo ho grande risco 
de sua vida, que se lhe aparelhava, pos os olhos no ceo oílerecendose 
em seu peyto, a Deos sua necessidade pedindolhe socorro, conhecendo 
quam pouco podem de si mesmas forças humanas, e favorecidas das di- 
vinas, tudo lhe he fácil. Deshi pondose a cavalo, e enrestrando a lança, 
nomeando sam Jorge padroeiro dos da Tavola, arremeteo contra ho gi- 
gante, o qual vinha cavalgado em huma besta brava, e assaz forte, se- 
gundo era necessário pêra levar tal peso: arremetendo ao das cristalinas 
com ho cutelo alto, com que tinha por muy certo defendelo; mas ho ca- 
valeyro tomouho com a lancha per huma ilharga, que ho atravessou de 
parte a parte, com que pordeo ho golpe e decco com elle sobre a ca- 
beça da sua besta que lha fez em duas, e com a rayva da morte, cayndo 
sobre seu senhor, ho cavalo do das cristalinas encontrando nella abrio 
poios peytos, e cahio também, ho cavaleyro se lançou delle muy pres- 
tes e ja ho gigante vinha, inda que maltratado da queda, e dá ferida 
do encontro, de que lhe sahia muyto sangue. lio cavaleyro entendendo, 
que aqucHle negocio requeria acordo, e manha por a desigualdade das 
suas forças as do gigante, nam perdendo ponto de seu esforço esperouho 
o começarão antre si huma brava contenda, na qual ho das cristalinas 
se avia attentadamente, pairandose nos tempos, reparandose nos golpes, 
c poupandosc no trabalho, a fim de ho cansai: e depois apeilar com el- 



38 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

le. Foi esta huma das bravas batalhas, que se viram de dous cavaleyros, 
porque o gigante impaciente de lhe assi lium so cavaleyro resistir, arre- 
metia a elle com hum bruto furor de vingança: ho cavaleyro ajudandose 
de sua destreza, desviavalhe os golpes, furtavalhe ho corpo, acometia 
esperto, e feria onde ho via descuberto, punha os pees seguros, guar- 
davase do perigo com muyta ligeyreza: ficando sempre em postura prom- 
pto a oílender seu imigo, e com isto ho trazia tam desatinado, que es- 
cumava, lançando fogo dos olhos, com sanha por não poder satisfazela 
em hum soo cavaleyro como aquelle a que hum esquadrão não fazia 
rosto. Mas ho poderoso Deos que costuma com couzas fracas confundir 
as fortes, deu tal vigor ao cavaleyro, que nelle pos a confiança, com que 
a cabo de três horas que se combatiam, alcançou ho gigante com hum re- 
vés largo, pela junta de hum giolho, que lho cortou cerceo, e cayndo co- 
mo hum sovereyro, foy muy prestes sobrele, com hum golpe com que 
lhe fendeo a cabeça te os dentes, trazendolhe na espada os miolos. Ho 
gigante com mortal furor revolviase na terra como serpe ferida de mor- 
te, a que logo entregou ho bruto corpo ingrato a seu criador desapos- 
sado da fúria com que ousava offendelo desenganou a soberba humana, 
(jue se remata era tal fraqueza, que hum^ formiga tem vigor sobrela: e 
fora leve mal acabar nisto, mas tornarse em eterno tormento, he conside- 
ração de grande espanto, e passo muy to pêra temer, e fazemos afferar 
a humildade, que acanhando soberbos levanta seus secaces, qual ora ve- 
mos ho cavaleyro das armas cristalinas, acabando tam heroyco feyto. Pois 
como elle ficasse cansado e ferido assaz, assentoose em hum penedo, c 
os seus vieramse pêra elle não pouco maravilhados de seu estranho esforço 
e alto principio de cavalaria. E tratando logo de lhe curar suas feridas, disse 
ho cavaleyro que queria jr ao castelo por ver o que nelle avia. E dado que 
lhe elles punham diante os inconvenientes de tal determinação, toda via fez 
asuaindoseao castelo, em cujas portas vinham dar as da fortaleza trian- 
gular, fazondose antielas hum pateo espacioso, ho qual ficava fechado com 
as paredes das duas torres, pegadas dos ângulos estestando no muro : 
e dali se alargava a cerca em circulo pêra trás espaço de legoa: Per ma- 
neyra que a torre principal feyta em triangulo era a serventia das ou- 
tras pêra fora, e íiizia rosto com as portas á do castelo, ou cerca dele. 
Entrando poys ho cavaleyro das armas cristalinas naquelle pateo, sahio 
lhe ao encontro hum velho de autorizada presença, que lhe disse. Apos- 
to e animoso cavaleyro, se ho soys, que eu mais vos julgo por anjo quo 



DA TAVOLA REDONDA 3Q 

Deos mandou pêra salvação de muytos, porque vi as maravilhas de vos- 
so estranho e maravilhoso esforço, vinde comigo tomar posse do que 
tam valerosamente ganhastes, e de nada vos receeys, que eu vos seguro 
de perigo, e ca encima vos inforraarey do mays que pretenderdes sa- 
ber. Ho cavaleyro em cujo peyto nunca entrou temor que se lhe enxer- 
gasse, nem tolhesse acometer tudo, foyse com elle, e sobindo per huma 
larga e chaã escada, mas comprida, foram dar em huma grande e fermo- 
sa sala, onde os veyo receber huma dona, que logo em sua presença 
mostrava ser pessoa nobre, e com ella huma aposta e assaz fermosa 
donzela. Finalmente atalhando a meudezas dos taes recebimentos, e as- 
sentados todos começou ho velho, dizendo. 

Este castelo se chama ho da estranha torre por esta em que estamos 
feyta em triangulo, cousa desacostumada, e digna de aver por estranhe- 
za a sua feyção: foi delle senhor ho gigante Aldemburque que vos se- 
nhor cavaleyro matastes, filho de Burquedal, gigante que el rey Artur 
matou de pessoa a pessoa porque llie pedia a barba, o qual Burquedal 
ouve este íilho da sabia Morgayna mea jrmaã dei rey Artur: e ella per 
suas artes lhe fez este castelo, onde criou este filho, seguro de lho el 
rey Artur mandar matar. E quando morreo deixoulhe por benção que 
conquistasse ho reyno de Ingraterra, morrendo Artur. Ficando elle poys 
mancebo ja de vinte annos, entendendo que soo não podia sayr com sua 
tenção determinou criar neste castelo gente exercitada a seu modo com que 
podesse a cometer sua conquista, pêra cujo effeyto sahia em hum galeão 
que tem em huma enseada do mar, secreto ao pé desta serra, e dando 
nas ilhas dos Saxones a tempos, preava todos os moços pequenos que 
podia, e aqui os criava em contino exercício de armas huns com outros, 
e como chegavam a mancebos os passava a outras torres. Os que tinham 
spritos de cavaleyros á huma, e os de piães á outra. E sua determina- 
ção era fazer cinco mil de cavalo, e dez mil de pé, porque com estes 
presomia conquistar não somente ho reyno, mas ho mundo, melhor que 
Alexandre com os seus trinta mil. E terá já aqui dous mil e tantos ca- 
valeyros: e piães passaram de sete mil, e moços alguns mil: a qual gente 
como entrava neste castelo nunca mays sahia desta cerca. Tinha os sal- 
vages que matastes por guarda das torres, cada dous de huma : dizem 
que Morgayna os trouxe aqui encantados, pêra qua ho servissem, e sa- 
biam á caça per toda a serra, em que ha infindo gado bravo, e todo gé- 
nero de caça: no que lhe grangcavam giaude sonih de mantimento pêra 



40 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

sua gente. E quando os vistes sayr esta menhãa a isso hiam, e eu lhes 
mandey abrir: o vista a batalha que com elles tinheis, avisey Aldemburque 
a fim de vos elle valer: e depois que vi ho como vos com elle ouvesles, 
confessovos que cuidey sonhar ho que via, e chamey essa dona minha filha 
que ho visse: e vendo como ficastes vencedor, muyto mais espantado sahi 
a recebervos, tendo ho que via mais por obra divina que humana. Isto 
he o que passa acerca do que toca ao gigante, do que a mim também 
vos quero dar conta, pêra que saybays que vos fica em que exercitar as 
virtudes do animo, e dar delias não menos mostra da que destes das 
forças corporaes, ca ja sabeys que. nestas nos parecemos com as alimá- 
rias, e nestoutras com ho divino autor de tudo. Eu sou quem não de- 
vera, ou quisera ser, dado que o que a providencia summa despõe do 
nos criaturas suas seja ho bom, esta fraca humanidade, porem leva mal 
nossos defe.ytos, e sofre peor divinos castigos, que confesso e conheço 
merecer por minhas culpas. Ca sempre ellas sam nosso verdugo, e só 
Deos piadoso. Per modo senhor cavaleyro que fuy Conde de Zelanda, e 
lendo guerra com ho gigante Druom morador em Fraudes e senhor do 
castelo Envers, donde tyranniza toda aquella terra, convocou elle Aldem- 
burque que era seu primo com irmão, e dando ambos sobre a vila de 
Canfer, em que eu resedia por ser forte, poseram á espada toda pessoa 
viva: mataramme hum sô filho que tinha, muyto bom cavaleyro, e que 
vendeo sua vida por seu justo preço, e captivaiam a mim com minha 
nora, e huma irmãa sua mais moça, por amor da qual Aldemburque nos 
perdoou as vidas, trazendonos consigo aqui: onde de Valacria que assi se 
chamava, ouve hum íilho, de cujo parto ella morreo: e ja minlia nora 
tinha parido essa filha, de que vinha prenhe de seu marido meu filho. 
E tendonos como captivos vai em quinze annos. E Druom senhor de meu 
estado; ja vedes com que gosto eu viviria: dado que me dava esperança 
de fazer com ho primo que me restituísse parte delie pêra casar minha 
neta, tanto que elle conquistasse Ingralerra a que avia :le trazer Druom. 
E pois ho senhor Ucos abateo seus soberbos fundamentos, e vos desti- 
nou pêra menistro de tam lieroycas obras, e remeteo minhas esperan- 
ças á vossa nobreza, usay delia com hum velho nobi'e e afortunado, com 
huma viuva virtuosa e roubada, e com huma orfãa moça e desampara- 
da, ca nas laes ejupresas apuraram sempre os passados varões heroycos 
sua virtude. Acabando nisto ho casado velho, ho cavaleyro das armas 
cristalinas que atoli ho escuytara prompto, respondeolhe com huma hu- 



DA TAVOI.A REDONDA 41 

mana compayxão natural delle e de nobres corações, que trabalharia 
quanto lhe fosse possível por tudo o que cumprisse a seu descanso, e 
sobre lhe restituyr ho estado poria á pessoa: pêra o que lhe parecia ho 
mais breve e certo meio entregarse ao amparo dei rey Sagramor, cujo 
cavaleyro elle era. Ho conde lhe tornou que em nada sayria do que elle 
ordenasse, por o que se punha em suas mãos. Com isto foylhe mostrar 
as outras torres, e entraram na primeira da mão direyta e tinha hum 
gentil aposento de camarás, que corriam em circulo á teyção dela, das 
quaes sabiam a huma varanda, a qual vinha sobre lium |:írande paleo, 
era que andavam os cavaleyros justando, o que ho das cristalinas folgou 
ver, por quam estremadamente ho eiles faziam, e dali abnyxo avia sete 
sobrados de grande numero de casas em que se alojavam. Acabada pois 
dever os cavaleyros, foranse á segunda torre da mão ezquerda, que era 
da mesma maneyra: e no pateo andavam os piões em sua ordenança, fa- 
zendo caracol e desfazendose: ordenando batalhões, e todo género e in- 
venção desta cousa, o que tudo satisfez muyto ao das cristalinas, lou- 
vando muyto a destreza, e arte do belicoso exercício. Deshi foram á ter- 
ceyra que ficava no terceyro angulo da torre e traseyra, em que andavam 
os moços torneando destra e animosamente, com hum capitão homem 
que os destrava em todo género de armas, e lhes dava os cargos daquelle 
mester, segundo lhes via a abilidade. E antreles avia alguns que se es- 
tremavam dos outros em disposição e destreza. Mas sobre todos hum 
de mayor corpo acanhava todos. Ho cavaleyro vendo seu estremo, e sa- 
tisfeyto muyto delle, perguntou ao Conde por elle, e ho Conde lhe dis- 
se, que era Burquedal da estranha torre. Olho do gigante Âldemburque, 
moço de quatorze annos: e avia dous que ho pay ho posera de assento 
ali, ca dantes consigo ho criava e ensinava. Muyto ho gabou ho das 
cristalinas, e tinha rezão por ser muyto gentil homem apessoado e não 
agigantado, e dava de si altas esperanças nas mostras. Per modo que 
visto tudo isto recolheranse á torre triangular, onde ho cavaleyro das 
armas cristalinas foy curado, e agasalhado do Conde e sua nora, segundo 
se lhe devia. E sabey que a gente de serviço que na torre avia, nada lhe 
pesou com a morte do gigante, porque a dos mãos sempre dá gosto a 
quem os soíTre, e era a mais delia da criação do conde, e vivia captiva, 
sorte que raramente tem amor aos senhores. E a outra gente de guerra da 
mesma ley era: e alem de inda não saber o que passava, não podia sayr, 
salvo pola chave do Conde. Ho das cristalinas a que ho seu cuydado 
nenhum repouso sollVia, não se querendo deter, concertou logo com ho 



42 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Conde que mandasse a obediência a el rey Sagramor, o estevesse per o 
que lhe mandasse, e neste antretanto elle voltaria ho mais cedo que po- 
desse á corte, e ho restituyria em seu estado. E dada esta ordem e re- 
cado pêra el rey, partiose como foy menhãa. Partido elle ho Conde man- 
dou logo embalsamar ho gigante, e salvages: e ordenou sua embayxada 
pêra el rey, que chegou estando ho mouro Espanhol em sua pratica que 
atras ouvistes. E vinha desta maneyra, hum carro de quatro quartaos 
poderosos, de grandes garras nos pês e mãos, topete, coma, e cabo de 
muyta seda, todos malhados: no meyo do qual vinham os salvages em 
pé com seus arcos, coldre de setas, e manchil, como se foram vivos: e 
hum carreteyro vestido de peles de Onça. Após este vinha outro carro 
descuberto que traziam quatro Cavalos muyto grandes murcelos, e nelle 
ho gigante em pé, que parecia huma torre: e por carreteyro hum enão 
vestido de opa de borcado sobre tea negra, acompanhados dalguns es- 
cudeyros. e detrás hum homem de idade e pessoa: ho qual sabendo que 
estava ali el rey, foylhe beyjar a mão, e deulhe a carta de creença do 
cavaleyro das armas cristalinas. El rey muyto alvoroçado em saber que 
era seu, fazendolhe muyto gasalhado mandoulhe dizer sua embayxada. 
I'er modo que contando tudo o que atras ouvistes, e dando a obediên- 
cia do Conde, el rey estimou muyto ho serviço do cavaleyro das crista- 
linas, em lhe matar tal inimigo e dar tal castelo: Por o que mandando 
logo levar os carros a Londres, ordenou como estevesse sobre huma 
porta da cidade, como letreyros que declaravam a historia, pêra louvor 
do cavaleyro das armas crislalmas. E querendo jr logo prover sobre ho 
ai, tornou ouvir ho Mouro a que atalharam a pratica. 

Capitolo decimo. Em que ho mouro Espaniiol 
acabou seu conto. 

Costumaram os Rcys do Egipto mandar escrever os serviços nota- 
veys de seus vassalos, pêra lhos satisfazerem polo tempo, e ter viva a 
memoria delles: no que cumpriam duas obrigaçijes importantes a si mes- 
mos. A primeyra dar causa de serem bem servidos com amor e verda- 
de, [do que pende a conservação do estado real, e a segunda pagarem 
suas dividas, satisfazendo a cada hum conforme a seu merecimento. Vay 
tanto^nisto^que nenhum rey ho usará que não prospere á custa do tra- 
balho^alheyo, ca dos vassalos sostenta ho império, como agora vemos no 
que fez ho cavaleyro das armas cristalinas, por o que foy boa determi- 



DA TAVOLA REDONDA 43 

nação a que el rey tomou, em mandar o que atras mandou, pêra gloria 
e lembrança das proezas do cavaleyro que lhe fez lium serviço tam aba- 
lisado. Usando pois deste mimo com ho natural, não se esqueceo de 
favorecer ho mouro eslrangeyro, mandandolhe que prosegnisse seu 
intento, ho mouro tornando ao em que hia: disse. Não estou senhor 
pouco maravilhado da alta cavalaria deste cavaleyro da tavola redon- 
da, e verdadeyramente não pode ser mayor gloria de rey que ter tais 
vassalos, pois sem elles os grandes estados e riquezas não se soslen- 
tam, nem se adquirem: por onde conheço agora que não ha rey tan- 
to pêra ser invejado e temido: nem cavaleyros tanto pêra ser estima- 
dos: o que confesso porque também agora estimo muyto mais ho ter vin- 
do aqui ao que pretendo: por o que quero concruyr com meu desenho, 
e dizer como vim alcançar ser vassalo da senhora Arindelia, que já disse 
ser captiva do gigante Olearso; e foi assi que vindo eu correndo após 
hum bravo usso per aqueles piryneos alcanceyho ao pé da torre, e de 
huma lançada ho arrecaduy, atravessandolhe bo coração; e pregando a 
lança em terra hum covado. Vendome a senhora Arindelia da janela a 
que levantando eu os olhos fuy dar nos seus tam fermosos, que não cuy- 
do que ho possam ser tanto os da deosa Juno tam gabados, e fiquey assi 
pendurado deles, e enlevado na bela image, que por grande espaço não 
lorney em meu acordo. Ella parece sintindo ho meu enleyo, leyxouse 
estar por se lograr da vitoria. Eu passado este accidente do recontro do 
Amor, esforceyme a falarlhe e disselhe. Se vos senhora hum vencido 
vosso offrecer em reconhecimento de servidão huma alma escrava, será 
possível aceitarlha. Ella com huma voz delicada e branda respondeome. 
Não sey se cuydastes no olTerecimento antes de fazelo, porque dar pa- 
lavras he fácil em homens que não se penhoram delias, mas ho cum- 
prilas he raro e especialidade de nobres espritos. Se as eu, lhe torney, 
desse com liberdade inda assi a não teria pêra leyxar de as cumprir, 
mas se ho sintirme obrigado de huma súbita e alta aífeyção qual se vos 
deve, me obriga dizer ho monos do que sinto, que mandays que sinta e 
que faça, pêra que com obediência testifique minha verdade. Muyto, me 
tornou ella, linha pêra vos pedir, receyo porem chegar a desenganos 
que he grande magoa antro amigos. Finalmente senhor que levemos hu- 
ma larga pratica, e de rezões em rezões me veyo contar toda sva fortu- 
na. OlTerecime eu a poer a vida pêra salvalla de sua prisão: ella pouco 
confiada de poder sei", antes desesperada alongoume a esperança. E avi- 



44 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

sandome que me não visse ho gigante Olearso se despedio de mim. Com 
grande dor da minha alma compadeci a despedida, e Iam sogeyto fiquey 
aos desejos de sua doce conversação e deleytosa vista, que não fuy po- 
deroso de me alongar muyto dali, per maneyra que fiz minha estancia 
e habitação naquelles desertos montes, em companhia das brutas alimá- 
rias dous annos; nos quaes per continuação de vistas e praticas a tem- 
pos, fuy obrigando a fermosa Arindelia, te chegar a me confessar Amor, 
e casi desejo. Não foy pêra mim pouco chegar a este estado, se Amor 
me soíTrera viver nelle eu me contentava, porque na verdadade que ha 
mays que desejar nem pedir, que chegar ho verdadeyro amante a saber 
que he amado per confissão e promessa de quem ama. lie porem nossa 
natureza tam desquieta e incrinada a chegar ao cabo de seus dessenhos, 
que quanto mais me certifiquey da vontade da senhora Arindelia, tanto 
a minha se satisfez menos, antes sintio mays suas fames, por o que es- 
poreado do meu desejo, cheguey a querer de minha Senhora determi- 
nação devida: cila convencida de minhas profias disseme. Amado amigo, 
lusquibel, que este he ho meu nome, pondesme em grande aperto, o 
que vos desejaes eu ho desejo: ho que vos quereys, não ouso querelo: 
ho querervos muyto pedeme que vos satisfaça, ho muyto que em vos 
aventuro não me sofre aventurarvos. Muyto bem sabeys que he impos- 
sivel tomarse esta fortaleza por ser inexpugnável, quanto mays sendo de- 
fendida do gigante Olearso, que soo basta pêra destruyr hum reyno, 
donde ioda que venhaes com muyta gente, uão fareys mais que trazela 
ao talho, e presomirdes vos matar Olearso, não mo soífre ho amor: e 
lambem soys mancebo que inda não tem de si esperiencia pêra preso- 
mir c intentar tanto. Soo hum meyo acho que não sey se vos armará, 
e dirvoloey. Bem sabeys quam exercitada he a cavalaria na corte dei rey 
Sagramor, e ho nome que cavaleyros da tavola redonda tem polo mun- 
do, yvos lá, e procuray tiazer convosco algum de cujo esforço e conse- 
lho vos ajudeys, e quiçá vaíereys. Quando me a fermosa Arindelia isto 
disse, confesso a vossa alteza que me aíírontey e sinti muyto não crer 
cila de mini o que eu presumo, por o que lhe disse. Muyto me pesa se- 
iiliora de me acanhardes a openião, que só por ser vosso se me deve : 
e mal poderey ja crer que tenhays Amor a homem tam desacreditado 
pêra com vosco, e por ho decoro de vossa gentileza, também nam que- 
ro que me queyraes, te que vos eu de mim não dê outro credito. E 
por tanto eu me yrei logo provar com os cavaleyros da tavola redonda, 
de justa e com ho que me derrubar me malarey. Se me vencer pcdirlhe 



DA TAVOLA lílíDONDA ,45 

ey quo vos venha servir em meu lugafr, poys não sou pêra isto. Porque 
nunca Deos permita que tal dama dê a liberdade dalma a cavaleyro que 
não bastar pêra lhe dar a do corpo. E com estas palavras me despedi 
logo, e parti pêra effeytuar minha jornada. E poys a ventura me guiou 
melhor do que eu soubera desejar, de licença de vossa A. desafio todos 
os cavaleyros da Tavola redonda. Cora tal condição que os que eu der- 
rubar na justa fiquem obrigados a se jrem comigo offrecer á senhora 
Arindelia. E se algum me derrubar venhamos ás espadas, e vencendo- 
me vá com os meus vencidos cumprir por mim minhas faltas, e libertar 
quem pretendo, e sendo eu vencedor passará polia ley dos outros. E se 
lhe esta minha demanda parecer pouco justificada, e ma não conceder, 
será necessário pêra minha justificação mandarme dar disto a fee neces- 
sária pêra a senhora Arindelia. Acabando nisto lio mouro lusquibel, os 
(la tavola que ali estavam se poseram ante el Rey Sagramor de giolhos, 
pedindolhe que concedesse ao mouro seu requerimento, porque não po- 
desse jrse louvando de sua ousadia. E foylhe forçado a el Rey conceder- 
Iho. Com o que todos miiyto contentes querião lançar logo sortes antre 
si sobre qual seria ho primeyro que justasse, des lii ho segundo, te o 
derradeyro, porque cada hum presomia de si que em ser ho primeiro 
segurava ho partido mas lusquibel tinha pessoa e opinião, e sobrisso 
obrigação de sangue, pêra na cavalaiia, e em todo outro primor de no- 
breza não reconhecer dominio, se não per seu justo preço: e o que elle 
tinha ao diante se verá. El rey Sagramor que em todas suas cousas era 
muy acordado e de reaes espritos, disse a lusquibel que vinha cansado 
do caminho, e ho dia era gastado: por tanto lhe parecia divido recolhe- 
rense á cidade, e lá se daria ordem pêra as justas: com o que lusquibel 
muy to folgou: presomindo moslrar-se a Londres, que também se cria vão 
fora delia bons cavaleyros. Per modo que sobreste concerto se foram á 
cidade, não pouco alvoroçados pêra as jnstas do outro dia. E porque el 
rey costumava quando vinha da caça dar Serão, ordenou que fosse aquelle 
com todo aparato e galantaria: pêra que lusquibel visse a de sua corte: 
â qual ho mouro notou c gabou com discretas palabras. E perguntando- 
Ihe das damas, se via alguma mais formosa que Arindelia, disse que to- 
das ho eram cm grande estremo mais do que elle tinha visto outras, 
mas que a alma e ho juyzo não lhe soííriam fazer comparação de nada 
com a Senhora Arindelia. Acabado pois ho Serão recolhco-se com Epi- 
rantes Dolfim de França a que el lley ho entregou pêra ho agasalhai". 



46 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

Capitolo xj. Como lio êbvaleyro das armas cristalinas 
topou com liuma donzela que ho guiou a seu fado. 

Favor dos estrangeyros e mercê aos naturaes, he a semente de que 
os rejs e príncipes colhem ho fruyto de Amor e serviço, e hnma obri- 
gação que eterna põe nos ânimos. Tal a tinha el rey Sagramor impremi- 
da no peito de lusquíbel, tal a levava nalma ho cavaleyro das armas cris- 
talinas, ho qual indo do castelo da torre estranha tomar á estrada que 
perdera pêra sua viagem: inda lhe socedeo longe de seu desenho. E foy 
assi, que posto na via que trouxera em propósito de se ver com Merlin- 
dia: com este cuydado tanto caminhou o que lhe restava do dia que lhe 
anouteceo na estrada de hum bosque, e como ho seu pensamento não 
lhe prometia sossego algum, quis passalo por não aver mais de huma 
legoa dali a povoado. liido pois assi per aníre huns altos pinheyros que 
com a lua clara, que lhe entrava per antre ramas, e ho ar brando e fresco 
que os movia, fazendo hum brando murmuro, parecia caçar ali a sau- 
dade espritos contemprativos, começou ho enamorado cavaleyro sintir 
seus arrepiques, e por participar melhor soo daquella saudade, mandou 
sua companhia diante fazer prestes a pousada, e elle enlevouse tanto nas 
saudosas lembranças do seu desejo: que perdida de si a memoria, e pondo 
todos os sentidos no que lhe ella apresentava, dizia indo comsigo. 

Amor que contra mim te conjuraste, 

ja que me assi roubaste 

ho meu coraçam dantes livre isento 

esperança me dá se quer do tempo, 

mostrame onde ho levaste, 

se me ordenas a morte eu aconsento 

ca não quero eu mais vida, 

que porella á perder se ella he servida. 

Mas quem será snhora tam ditoso, 

ou tam presumptuoso, 

que esperasse de vos sequer a morte 

se cuidasse alguma ora ter tal sorte 

não seria queixoso 

mas cm poupar a vida muito forte 



DA TAVOLA REDONDA 47 

por chegar a aquella liora 

de meu sacrincio por vos snliora. 

Com vosso resprandor a alma abrasastes 

sobristo ilida cuidastes 

que era pouco o tormento deste ai'dor 

lagrimas de tristeza e grande dor 

indovos me leyxastes 

matame saudade e mata amor, 

hora avey de mira doo, 

d' duas mortes mouro basta huma soo. 

Contra este^fogo que me lavra o peito 

as lagrimas que deyto 

dos olhos que vos viram e não vê. 

que nam consuma a alma me detém: 

fazme ho dam no proveyto 

na saudade vida me sostem, 

de huma dor outra pede 

no que huma me contenta outra me offeiide 

E se este meu martírio vos contenta 

pêra que logo ho senta 

nam mescondais snhora aquela imagem 

porque fouto farey minha \iagem 

onde Orfeo muy isenta 

estalma de no amor lhe ter vantagem 

na boa ventura si 

questa logo a perdi como não vi. 

Nam me queixo cu de vos snhora minha 

que vos fostes asinha 

nam sou dino d' vos, eu o conheço 

queixomeu deste amor porque padeço 

que em vossos olhos vinha 

sou despojo dquem eu nam mereço 

se merccelo posso, 

venham todos os males seja cu vosso. 



48 MKMORIAL DOS GAVALRIROS 

Nosías contcmprnções caminhava ho cavalcyro das armas cristalinas 
todo infru} do rielias dandollie a sua magoa ho furor com que as ponde- 
rava, ijuando polo mesmo caminho contra elle vinha apressada huma don- 
zela em hum palafrem andador e soberbo: e sendo ja perto delle da mata 
sahio hum Liam, que de hum salto em passando lho escalou polas ancas 
sem fazer danno na donzela: a qual cahio logo com hum grande grito. 
E acordando como de sono ao cavaleyro enlevado na sua dor, elle pon- 
do muy rijo as pernas ao cavalo com a lança bayxa foy por levar ho 
Lião que eslava encarniçado no palafrem: mas elle se lhe desviou de hum 
pulo pêra huma illiarga, ho cavaleyro sem passar por diante voltou logo 
ho cavalo que com medo do Lião fez volta como huma ave: e levando 
da sua boa espada, vindo ja ho Lião sobrelle tomouho com hum revés 
pela vazia, que ho partio em dous tão levemente que mais pareceo dita 
que cavalaria. Feyto isto ficando muyto seguro, deceose do cavalo por 
acodir á donzela: traspassada do temor de seu desastre: e tomandoa pola 
mão disselhe. Esforçay senhora que ja não tendes de que temer. Ella 
tornando em si, e vendo, disse. Senhor cavaleyro valeyme. No que em 
mi for, lhe tornou elle, aqui me tendes. A donzela segurandose, quando 
Olhou pelo palafrem que ho vio morto, e assi ao Lião de hum só golpe 
não ficou pouco maravilhada, e pondo mais nelle os olhos polas armas 
cristalinas que com ho luar resplandeciam conheceo ser quem ella bus- 
cava: e disselhe. Agora esperimentey o que muitos dizem: que lio fim de 
hum grande trabalho qual ho aqui lenho em vos achar pêra o que me 
tanto cumpre : e tomo a boa estrea dardesme já por esta vez a vida. 
Se eu senhora (rosi)onde ho cavaleyro) he principio dalgum descanso 
presto pêra vos servir leio ey a grande dita. Não pode ser mayor que 
a minha : lhe tornou a donzela, que Tiresia se chamava, e como creyo 
que haem vos não menos bondade que esforço em estremo folgaria po- 
der vos obrigar pêra outra necessidade que foy causa de me trazer a 
esta de que me livrastes: porque terey huma certa esperança pêra lam- 
bem lhe ver Iam descansado fim: e vos senhor per ventura outro galar- 
dão, de que não sejays pouco salisfeylo. Mas nam sey se he sobejo atre- 
vimento pedirvos isto. A profissão de meu oíTicio, lhe disse elle, me 
obriga nunca faltac hum ponto do serviço das donzelas: sobristo de meu 
natural sou lhes eu Iam incrinado, que nam lhe saberia negar a própria 
vida, e se me achara agora salisfeylo de hum cuydado, que me tira li- 
berdade de entender noutro: em verdade estimara muito scrvirvos: po- 



Í)A TAVULA llKDO.Nt)A 49 

rem se me nao tayxardes ho tempo falo ey com cemvoíilades. Com !iu- 
ma só serey satisfeyta. Respoiícleo Tiresia: e porque ve.jays que ma de- 
veys, querovos satisfazer no que desejays saber, dandome vossa fè de 
jrdes comigo, ja que venho de tam longe peia vos guiar. Prometeis uie 
tanto, lhe tornou elle, que nam sey que esjiere. Tudo o que desejays, 
disse Tiresia, se me não engana quem me ca mandou, e ouvime agora. 

Muleyzider rey das Espanhas tem huma filha chamada Celidonia: com 
que a natureza [)artio ho tesouro das suas perfeyções tam liberalmente 
que parece que não llie ficou mais: c creceiído em fermosura e discri- 
Çcão, desejada de muytos cavaleyros. Ella com muyla i-ezão. nlium acha 
digno do seu amor: antre os quaes o que a mais segue e tem si-ivido 
de três annos a esta parte, he Muleyzibar rey dos Getulos, que por ella 
leyxou ho assossego de seu grande estado, e hum anno guardou elle só 
a ponte de Merida a todos os cavaleyros que per ali passavam, fazendo 
lhes confessar que no mundo nam avia tam fermosa dama, e em sinal 
de servidão lhe vinham todos os vencidos entregar ho escudo: e no ca- 
bo deste tempo veyose a Sevilha onde el rey eslava, e dandoselhe a co- 
nhecer pediolhe a filha. Mas caso que Muleyzibar he estremauo cavaley- 
ro, gentil homem muy brando na pratica, e pessoa de grande i^speylo: 
e de muytas outras partes boas quanto outro possa ter, he Celidonia 
tara altiva de pensamentos, que ho muyto tem por pouco ante si: por o 
(}ue pondo lho ho pay, que lhe tem grande amor. em condi(;ão, não quis. 
Neste meyo tempo veio também á corte ao faro de sua fama Dricaman- 
dro de Ronda hum mouro de corpo gigante: que dizem ser neto de Ge- 
rião ho dos três corpos que Hercules matou em Yberia, cujas forças pa- 
rece exceder a ley humana, segundo he fama. Este pola openião que do 
si linha, e também em parte desejoso de se matar com Muleyzibar, por 
o que ouvia de sua alta cavalaria, pretendeo pedir Celidonia: presomin- 
do que nada se lhe podia negar: sobre o que se desafiaram ambos e pe- 
diram campo a el rey: ho quelle pesaroso disto por que os queria pou- 
par por amigos, consultou com a filha que os metesse em paz, ella mais 
por lhe fazer a vontade que por respeyto delles: como aquelia que tam 
pouca conta fazia de hum como do outro: mandou os vir ante si, e dis- 
selhes. 

Dizemme Senhores que vos quereys matar sobre mi. Do (jue estou 
assaz queyxosa de ambos: poríjue me fazeys ho preço da vossa fortuna, 
como que ho tivesse eu: uu ho (pii^esse sei'. Com outra openião naci 

4 



50 MMMOKÍAL nos CAVALIÍIHOS 

CU, e oiilra cuydava oii quisera que de mi tevereys sabido, como a dos 
homens fez Deosas Palas. Juno, e todas as outras, e ja que assi he, eu 
vos não perdoarey tam grande oíTensa, salvo com me trazerdes hum ra- 
mo das maçãas douro do orlo das Esperidas. Ca bem creyo se alguém 
em nossos tempos pode entrar nelle como Hercules ja entrou: que qual- 
quer de vos i)asla pêra tal empresa, e ao menos desenganarmey do que 
devo esperar de vos e desta maneyra quero (]ue me mereçaes escusan- 
do antre vos contenda: antes mando se vos posso mandar que amiga- 
mente vades ambos, e per sortes proveys a aventura, pêra que hum me 
seja testemunha do que ho outro me merece. E eu certa que per cava- 
laria e não per maulKi alguma me servistes, sendo caso, então darey ho 
meu amor a quem mo gaiihar. Se isto vos não apraz dagora podeys ser 
deseíiganados que por nenhum outro respeylo ho alcançareys de mi. Tam 
grande era a alTeyção que os dous cavaleyros tinham a Celidonia, ou 
tanta divindade e força teveram as suas palavras: que elles desejosos de 
a comprazerem, postos seus ódios a parte, paríiram logo sobre a de tal 
demanda por lhe obedecer: ficando ella muyto vãagloriosa de si mesma 
e pouco lembrada deles, Daunia sua mãy, sabia muyto da magica: ven- 
do os estremos da fillia, assi na fermosura, como na condição, quis sa- 
berlhe a estrela, e achoulhe per suas artes huma afortunada vida e de- 
sastrado fim, de que lhe avia de ser causa Dricamandro de Ronda. E 
querendolhe evitar os ameaços dos fados: teve maneyra como a encan- 
tou na Povoa de Argançom, gigante que tem hum castelo feylo ao picão 
em huma rocha, a mais forte cousa que pode ser, e des que teve aca- 
bados seus encantamentos, com lhe parecer que ficava a lilha segura de 
Dricamandro. Pouco tempo se passou que ella não falecesse desta vida: 
e leyxoume com liberdade que podesse sayr e entrar no castelo livre- 
mente pêra servir Celidonia do que ella quisesse. E á filha deu huma 
espada dizendolhe que guardasse aquela peça, porque em quanto a te- 
vesse teria sua vida segura. Morta Daunia, Celidonia entendendo seu ca- 
tiveyro que leli não entendia, porque viera enganada, foy a sua payxão 
tamanha que noyte e dia os seus olhos nam sam enxutos de lagrimas. 
Porem como não ha pressa em que Deos não seja, e as cousas humanas 
todas naceram debayxo de huma ley, que liam de ter seu fim forçado: 
aqueceo que em huma coluna vio humas letras que diziam. Se fora pos- 
sível ao cavaleyro das armas cristalinas quando primeyramentc receber 
a ordem em que scra único dos seus tempos, tomar a espada de Ccli- 



DA TAVOLA REDONDA 51 

donia. Este poderá reslituirlhe a perdida liberdade per força de seu bra- 
ço e especial dom de seus lados. Isío leo ella rauylas vezes e como lie 
muy discreta, cuydou tanto nestes segredos que determinou mandarmo 
consultar lio remédio com a espada que llie Daunia deyxara, ao sábio 
Telotique senhor do orlo das Esperidas. O (|ue eu muyto bem soube 
negocear, e indo ter com lio snbio elle me tomou a espada, desque leo 
o traslado da profecia que llic levey. E dali a três dias me disse que 
me viesse com toda brevidade a Londres: e antes de entrar nella acha- 
ria hocavaleyro das armas cristalinas com a espada: e ja vejo que não me 
mentio, que eu coniieço que he essa que tendes na cinta: ho (pia! viria 
em propósito de servir a senhora Celidonia: por tanto que lio levasse 
comigo á Povoa: e poys vos senhor soo e outrem ninguém a podeis poer 
em liberdade per virtude de vosso animo: eu vos venho guiar, achan- 
do em vos a vontade que nos tais he certa pêra molheres necessitadas: 
assi que se quereis empregar bem a bondade de animosa de que vos 
Deos dotou, nesta empresa a vos prometida, ho podeys fazer mellior que 
noutra alguma, e ja pode ser que a senhora Celidonia com tal obrigação 
se contente de vos, e vos dé ho seu amor, e eu que vos ajudarey, e não 
cuydeys que vos prometo nisto pouco eu teria a muyto acabalo com ell.i 
segundo sua condição, o que sendo não vos podia vir mellior ventura. 
Muy contente ficou ho cavaleiro das armas cristalinas por saber ho no- 
me de sua senhora e onde avia de servila lendo por muy fácil todo ho 
perigo que por seu serviço emjjrendesse. Porem elle sabia mal de quam 
longe fazem os os fados sas maçadas contra nossos fundamentos. E 
obrigado do seu desejo sem mays cuydar no que faria, como quem tam- 
bém ja não podia fazer ai, não teve conta com se jr meter em terra de 
immigos, nem com quantos inconvenientes nisto avia, ca lho mandou assi 
amor que tudo ousa e comete, e dando grandes agradecimenlos á don- 
zella Tiresia por ho trabalho da viagem como se por ele ho tomara, obri- 
gouselhe a lho s(.'rvir ao diante, deshi posse a cav;ilo e tomouha nas 
ancas, não pouco ledo de lai cum[)anhia: e assi lhe Iby pergiintautlí) do 
Celidonia quantas meudeza:s hum coração muyto namorado cobiça saber. 
Desta maneyra chegaram onde os seus ho esperavam agastados ja da 
sua tardada, e aquela noyte que ali repousara espedio ho cavaleyro das 
armas cristalinas ho velho mandandolhe que se fosse com hum dos es- 
cudeyros a Merlindia, a que escreveo o que passava, e que acabada aíjuella 
aventura de que sua vida [lendia elle a yria ver e dar conta de si. E tanto 



ri2 MEMOaiAL DOS CAVALEIROS 

que fez menhãa partiose com Calidio seu escudeyro, e a donzella Tire- 
sia no quartáo do outro, que se proveo de seu espaço no lugar, e to- 
maram via de Cabo Dobre: que he hum porto de mar vinte legoas de 
Londres, onde fretou hum navio pêra Bizcaya: e por hora ho leyxemos 
em sua viagem te seu tempo. 

Capito xij. De huma dona que veyo á corte pedir socorro 
a el rey Sagramor. 

Quando as fabulas antigas em que os Gregos poseram seu artificio, 
cujo fundamento he no conto desenhar a moral Filosofia, contam do prín- 
cipe Acteão converterse em cervo, e do esforçado Alcides abrasarse em 
fogos: denotam que ho homem dado a seu gosto, he especia de bru- 
to, e ho entregue ao sensual desejo vem parar em furor que ho abra- 
sa e consume. E no cavaleyro das armas cristalinas por ho conse- 
guinte se nos desenha, hum mancebo sem esperiencia que se vay após 
ho seu apetito animoso, a que não sabe resistir, e por quanto o tempo 
lha deu assaz custosa, com a pena que he ho fruito das taes empresas. 
Leyxemolo seguir seu amor sem fundamento, e voltemos á corte dei rey 
Sagramor, que estava alvoroçada por ver as justas do mouro lusquibel: 
ho qual em sua ufania e desposição, prometia muyto de si, e dava em 
que falar, com ser discreto, galante, e em estremo namorado. E como 
desejava fazer com que satisfezese a sua amada Arindelia, porque tinha 
perdido ho temor a todo perigo. Ao terceiro dia de sua chegada, que 
assi ho quis el rey porque lusquibel se refezese do cansaço da longa jor- 
nada, e não podesse ter escusa contra a fortuna se lhe escacease de su 
esperança. Ho mouro amanheceo em hum ressio que avia diante os 
paços, onde lhe el rey mandou armar huma rica tenda e dous mastos- 
altos a hum deles arrimadas muitas lanças, a outro seis cavalos podero- 
sos e concertados, pêra se lhe fossem necessários: e dentro na tenda to- 
do concerto para hum bom gasalliado, porque lusquibel determinou rc- 
sedir nesta estancia de dia e de noute, te sayr vencedor ou morto. Re- 
colhendose pois nella, em quanto se faziam horas de el rey vir a huma 
varanda de que avia de ver as justas com a corte : como lusquibel era 
Espanhol muito musico á imitação de Achiles, tomou hum laude, e tan- 
gendo boa musica per espaço, por ser nella muito destro, pondo os olhos 
no ceo, e a memoiia e desejos em Arindelia, cantava este romance. 



DA TAVOLA RKDONDA 53 

ROMANCE 

Con lagrimas e soluros 
(los braços de Laudomia, 

Com dor que a alma lho arranca 
Protesilao se espedia : 

A triste por entretelo 
tays palavras lhe dezia, 

Prometeyme meu amor 
e aqui se lhe esmorecia. 

Aprelandose com elle 
acordando estremecia, 

E tornavalhe Amor meu 
isto pedirvos queria: 

Dizemme que vam mil nãos 
nesta vossa companhia. 

Á derradeyra de todas 
seja a vossa nesta via, 

E não sejaes ho primeyro, 
que a praya tome a profia. 

Que ouço dizer d'hum lleclor, 
que toda Grécia temia. 

E cuydar somente nelle 
todo ho corpo se me esfria. 

Mandovos se mandar posso 
peço SC lenho valia, 

Que dcUe vos desvieys 
á conta de Laudomia: 

Peleje lá Menalao, 
que vingarse pretendia. 



54 MEMORIAF. DOS CAVALEIROS 

A VOS lembrevos somente 
tornar a quem vos queria, 

De vos, e de mim cuydaflo 
trazey sempre em fantesia 

E á vossa vida vos lembro, 
que á minha soo consestia. 

Pois sem falta se morrerdes: 
não vivirey hum soo dia. 

Protesilao em ouvila 
a ahíia se lhe enternecia, 

Soltase delia chorando, 
que nem falar lhe podia. 

Embarcandose com pressa 
as velas ja deferia, 

Com os olhos ho vay seguindo 
quanto pode Laudomia. 

Perdendo a vista no mar 
com sospiros ho seguia, 

Enlevada em saudade, 
mal come, peor dormia. 

Chorando passava os dias 
as noutes se adormecia, 

Protesilao como morto 
em sonhos lhe aparecia. 

Com desejos de tornar 
aos olhos de Laudomia, 

Com animo namorado 
primeyro em Troya sahia. 



DA T.WOÍ.A HF.DONDA OH 

Com llector íura cnconlrarse 
como quem nada temia: 

Lexuulhe a vida nas mãos 
leyxoulhe a de Laiulomia, 

Que trazendollie ho seu corpo 
sobrele morta caliia. 

Porque amor puro e hoiicstn 
grande extremo fazia, 

Ditoso Protesilao 
que tal amor merecia. 

Nesía occupação estava ho namorado do mouro lusquibel, atiçando 
com estas mogoas allieyas as brasas da sua saudade e lembranças de 
Arindelia, e não sem algumas lagrimas que testificavam sua dor. E ten- 
do tam perto ho perigo da própria vida que tinha olTerecído â prova dos 
esforçados cavaleyros da Tavola redonda, he tam soffiego ho amor que 
lho fazia esquecer, por se lembrar de quem ho tinha naquelle estado. 
Chegandose pois as horas de el rey vir, lusquibel que ja estava armado, 
pos SC a cavalo fora da tenda encostado á kniça esperando aos aventu- 
i'eyros. Nisto veyo el rey com a raynha e toda a luzida corte de Ingraterra 
em que avia assaz que ver e notar, mas ho tempo he das justas. lus- 
quibel foy gabado geralmente e com muyta rezão em seu asseo, por ser 
muyto bem desposto, membrudo, e que prometia forças e destreza. EUe 
vendo el rey foylhe fazer a divida cortesia com muito ar deshi pos se 
no posto: e el rey que entendia quanto vay no hombridade da pessoa, 
disse. Nhum cavaleiro se descuyde de si: por com íiado i)urque eu me 
allirmo que tem duro adversairo : ho qual se concertou como quem 
determinava mostrar a Ingi-alerra, que a ninguém se acanhava Espanha: 
porque também ouvio hum tumulto e voz de povo, de que cuydou que 
pronosticava vir algum aventureyro. Mas era outra nova aventura asaz 
diferente no gosto, que assi calabrea ho mundo os seus, e com huns 
socedimentos avisa outros. 

i*er maneyra que no ressio entraram humas andas cubertas de luto, 
diante das quaes vinham dous escudeyros em seus palafrens com diuis 
elmos nas mãos, e dctias deles dous cavaleyros de armas i)ietas, de bar- 
bas muyto conq)rldas brancas, e as caliele>ras das cabeças que traziam 



ÍÍG MEMOniAI. DOS CAVAI.rn\OS 

desarmadas, as lanças nas mãos ao hombro, e os escudos embraçados, 
ao que davam muyto ar, por serem muy apessoados. Derredor das an- 
das vinham doze donzelas veslidas do mesmo luto que lhe arrastava, 
postas em cabelo que as cobria: gritando todas tam alta e doridamente, 
que abalaram toda a corte. E detrás das andas doze escudeyres vestidos 
do teor, per modo que deram de si huina tristonha e lastimusa mostra, 
e indo assi decer ás escadas do paço, das andas saliio huma dona assaz 
grave, e de avultosa presença, cuberta também de dó, que ho não cau- 
sou pequeno aos que a viam: os cavaleyros velhos a levaram sobraçada, 
e chegando ante el rey ieyxouse cayr de bruços antelle, cramando em 
alto grito juntamente com as suas donzelas, misericórdia. Cramor tam 
lastimoso de ouvir que não ouve coração tam duro que não se enterne- 
cesse de piedade. El rey Sagramor que tinha de natureza ser muyto com- 
passivo, dote natui'al de real sangue, não pode encobrir os movimentos 
da compayxão; e dizendo aos cavaleyros velhos que lhe disessemda(}uela 
dona quem era, elles lhe tornaram: ella ho dirá, e he pessoa em (jue 
cabe toda cortesia, El rey lomandoa das mãos levantouha, dizendolhe 
(pie lhe não ouviria palavra salvo assentada; e que tevesse por muyto 
certo achar nelle todo soccorro pêra sua necessidade que lhe possível 
fjsse. A raynha Seleucia a recollieo e assentou comsigo com muyto ga- 
salhado e brantlura, como aquella em que nunca lãllou á real humani- 
dade que tanto lu^ilra e tam divida he am toda princesa. A dona quic- 
tandose e niandando a suas donzelas ter silencio, esforçando a voz rouca , 
disse, 

Muyto alto e muyto poderoso rey da gram-Brelanha e França a quem 
ho mundo reconhece e confessa dominio, tee des ante vos, e sou eu a 
desventurada raynha das ilhas bem afortunadas (jue ja foram, mas agora 
povoadas sam de muyta desavenlura, o senhoreadas de seus immigos. 
Kl rey e a raynha ouvido isto a recebi^ram (le novo, e com palabras di- 
vidas a rezão que antreles avia: ponpie ella se chamava Drusianda (ilha 
do Conde Sevano, e jrmãa de Liscananor may da raynha Seleucia: e in- 
da que nos divirtamos parece necessário dar vos noticia dislla antes que 
venhamos a seu caso. 

No tempo que Uterpadragom revíiava em Ingraterra, era em seu reyno 
lio Conde Sevano pessoa nmyto principal e muyto valido com el rey, e com 
muyta rezão, por ser homem muy valoroso de sua pessoa e de grande conse- 
lho, e senhor de grande estado: ho (jual tinha duas (ilhas em todo estremo 



PA TAVOLA REDONDA 57. 

fennosas, e de grande preço, em tanto que per toda a Christandade eram no- 
meadas. Acontecendo pois jr ho Conde ás ilhas Estecadas, de que era se- 
nhor, as quaes estam íVonteyras de Marcelha, no mar Mediterrâneo, levava 
consigo sua molher e filhas, em hum poderoso galeão, e outros seis me- 
nores, aprecebidos pêra lodo trance. E como ho mar he incerto em sua 
bonança, e ho vento que ho manda indomável e isento, deu na armada 
de maneyra que a seu pesar a levou á vista da ilha Cecilia, á sazão que 
huma grossa armada de Cartago, de que era capitão mór Grifando arre- 
negado e destemido cavaleyro, desbaratara outra de Sicilianos, e se vi- 
nha recolhendo vitoriosa. Per maneyra que dando com a do Conde Se- 
vano, como lhe tinha vantagem, dado que procurasse defenderse, sabido 
que eram mouros, foy desbaratado, per virtude de dous cavaleyros Chris- 
tãos que ho renegado ti"azia consigo na sua nao: os quaes tomara na ar- 
mada Siciliana hum delles chamado dom Tanarife jrmão dei rey de Ce- 
cília, e capitão mór da frota, e pêra selo não pouco: ho outro Artur que 
despois foy rey de Ingraterra, mancebo de estremado esforço, grande 
amigo de dom Tenarife, por cujo respeylo viera ah: e indo com dez ga- 
lés na rola do estreyto, pêra ho correrem e prearem algumas de mou- 
ros, foram cercados de liinta que sayram de Cartago ao mesmo respeylo 
contra Christãos- e tendulhe tanta vantagem inda que os Christãos pele- 
jaram bem, foy forçado renderemse, com mortedemuytos:eagalécapi- 
tayna cercada de doze, foy entrada per vezas e morta toda a gente dela, 
salvo dom Tenarife e Artur, que tintos em sangue sós bastavam defen- 
dela sem quererse render, matando grande numero de immigos, per 
modo que se defenderam tam altamente, que Grifando arrenegado ma- 
ravilhado de tam estranho esforço, desejou não nos malar. E disselhes 
que pois viam que de cansados ao menos lhes avia de ser forçado ren- 
derse: que se lhe entregassem á sua fe que elle lha dava de lhes fazer a 
lionra que a tais cavaleyros se devia : Elles conhecida sua necessidade, 
ávido conselho antre si. Disseram que se renderiam a partido, de como 
cavaleyros ho servirem naquella armada pelejando no mar contra toda 
outra que topassem, com condição que quando se recolhessem a Carta- 
go os posessem em resgate honesto. Grifando que de ser muylo esfor- 
çado tinha estimar muylo os esforçados, folgou de lhe accytar a condi- 
ção: e dada sua fé de cavaleyros, os leyxou que andassem com suas ar- 
mas, como livres em sua comi)anhia. E assi vitorioso se vinha na rola 
de cartajo, pêra refazrr sua armada de gente c tornar ao mar as aven- 



58 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

turas: e fuy lai a sua que deu na do Conde Sevano acalmandolhe ho mar: 
e'como ja disse por lio esforço dos dous cavaleyros entraram lio galeão 
do Conde, que ho deíendia animosamente, mas não lhe valeo. Os dous 
cavaleyros quando ho conheceram ficaram muy pesarosos; e disseramlhe 
que se rendesse á sua fé, que eram Christãos, e forçados a pelejar por 
os mouros, e se recolhesse a sua camará fazendose forte nela, ate que 
elles falassem com ho capitão. Ho Conde entregandose á necessidade do 
tempo, fez o que lhe disseram. Os cavaleyros vieranse ao capitão que 
estava na galé pêra sobir, tanto que entendeo que era ho galeão rendido: 
ca ja tinha i"endidas as mais velas, e pediranlhe que poys vira que elles 
entraram e renderam ho galeão: cujo capitão era hum senhor Ingres que 
elles conheciam, o quisesse poer em resgate com todas as pessoas que 
tevesse recolhidas em sua camará sem a fazenda, e elles lhe ficariam por 
elle a cumprirem sem falta alguma. Grifando pretendendo ja grangealos 
a fim de persuadilos a serem de sua má openião: cuydando que com tais 
eompanheyros não averia empresa com que não saysse: disselhes que por 
comprazelos tudo faria, porque lhes confessava a obrigação daquella vi- 
toria: Mas porque não sabia ho numero dos rendidos, e calidade do ca- 
pitão, nem ho queria saber por não se mostrar tacanho, elles liie aviam 
de dar de dentro de hum anuo cincoenta mil dobras zaynas por a gente 
que estava recolhida na camará somente. Os cavaleyros que tinham sa- 
bido do conde que trazia comsigo sua moilier e filhas: visto quanto nelas 
se aventurava concederam ho preço. Concertados pois assi: Grifando pos 
capitão no galeão e gente, e que os dous cavaleyros fossem guardas da 
camará do capitão pêra que ein nada ho podessem anojar. Deshi man- 
dou fazer a rota via de Cartago. Os cavaleiros foram dar conta do con- 
certo ao Conde, que ficou assaz contente em ver tam bom remédio de 
tamanha fortuna, por o que foy logo :om elles consolar a condessa e fi- 
lhas: da vista das quses os cavaleyros ficaram tam vencidos que nunca 
mais foram senhores de seus corações: e logo ouveram por bom seu ca- 
tiveyro, pois fora meyo de salvalas delle. E como logo as recearam, e 
lhe temeram todo perigo, porque ho grande Amor todo lie receyos: dis- 
seram ao Conde que não ai)areces?em em quanto fosse possivcl encobri- 
las, ca muyto cuydado lhes deu su estremada fermosura. Poys ellas certo 
não ficaram isentas do amor que logo nelles enxergaram, vendo suas 
pessoas e obras, por que as da cavalaria sempre teveram preço ante no- 
bres damas, e quis nosso senhor que sempre acode a mayores pressas 



DA TAVOI.A r.F.DOXnA 59 

e favorece bons pensamentos, que ao outro dia em amanhecendo ouveram 
vista de cincoenta galés, de que era capitão lium turco per nome çan- 
franque, cossayro muy nomeado naquelle tempo, e que tinlia competên- 
cia com Grifando. Vendose pois as armadas huma á outra, como dese- 
javam toparse, logo determinaram darse, pêra o que se fezeram prestes 
Grifando deu conta aos cavaleyros de sua determinação, e elles lha favo- 
receram, dizendo que lhes desse a dianteyra, e veria como ho serviam: 
e antre tanto mandasse que ho Conde fosse capitão de seu galeão o ho 
defendesse como seu. Ca doutra maneyra não ho seguravam dos immi- 
gos, o que logo foy mandado. Finalmente os dous cavaleyros deshara- 
taram e renderam ho cossayro Canfranque, pelejando todo ho dia: e foy 
U\ a peleja que dos turcos ficaram cinco galés, e as outras se afunda- 
ram: e dos Cartagineses sete. E os capitães morreram ambos. O que 
visto por os dous cavaleyros, e que ficavam desobrigados da fé que de- 
itam a Grifando com elle ser morto. Levantaranse contra os mouros com 
ajuda dos Cristãos cativos : e com pouco trabalho os renderam e mata- 
ram todos, salvo os que meteram a remo. Desta maneyra vitoi'iosos re- 
colheranse ao galeão, onde lio conde em reconhecimento de tal obriga- 
ção lhe deo logo as filhas por moliíeres: e assi se foram ás ilhas Esta- 
cadas logr'ar de seu amor. E do ai que socedeo se dirá a seu tempo, 
que este he doutrem. 

Cdpit. xiij Como ho cavalpyro das armas cristalinas indo per mar 
clieyou d ilha Curcega e ho que nela passou. 

Gostoso e ditoso he ho trabalho per que se consigne e alcança ho 
desejado descanso e premio, he porém todo o que ho mundo dá tara 
incerto e insconslante, como a Fortuna que ho menea, segundo ao diante 
ho esperimentarão estes Príncipes que ora leyxamos em seus gostos, por 
tratarmos do cavaleyro das armas cristalinas, que os tinha de suas dores, 
inda quando não contente, consolado com a donzela Tiresia que ho guia- 
va a seu amor, embarcandose, como ja dissemos, em Cabo Dobre, na 
rota de Bizcaya: Mas ho vento que nunca se penhorou com algum ma- 
reante, ou oS fados que ho escolheram pêra grandes acontecimentos, ba- 
ralharam ho •«lar com tal temporal que lhe cursou tfes dias, sem lhe 
poderem resistir : E ao quarto em amanhecendo se acharam á vista da 
ilha Corcega, da banda que chamam terra de Nebia, cidade antigamente 



60 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

populosa. E por lio enfadamento passado quisera tomar porto: ao qual 
dilfirindo, passando junto de Pedra Roya, que he hum rochedo que ali 
se alevanta no mar, como ilheo pequeno, pouco distante de terra: no cu- 
me da qual rocha avia huma hermida da advocação de sam lorge, de 
grande romagem. E por este Sancto ser padroeyro da Ordem dos da 
Tavola redonda, quis ho cavaleyro das armas cristalinas ter ali humas 
novenas, em quanto ho navio se apercebia e concertava: Por ho que man- 
dou lançar ho esquife fora: e dada ordem ao mestre do navio do que 
avia de fazer, mandando com eile Calidio seu escudeyro, e á Donzela Ti- 
resia, pêra qua ordenassem tudo e se viessem no navio como fosse apre- 
cebido. E antre tanto ho prouvessem de mantimentos e refresco: e pêra 
lho trazer mandou ho esquife, tanto que ho pos em terra: e foy se via 
da hermida a pé, e não sem muyto trabalho por ho peso das armas, e 
por ser costa arriba assaz fragosa, e ho sol jr empinando, com que a 
calma cahia. Caminhando poys per hum caminho em voltas, ja perto da 
Ermida chegou a huma fonte, cuja agoa parecia hum claro cristal: bro- 
tando de hum tosco penedo, que fazia humas veas azueys e vermelhas, 
ornada de musgo e douradinha: de cujas folhas cabiam humas gotas a 
tempos como ricas pérolas, e estilandose assi, cahia em hum largo tan- 
que, feyto em triangulo, de lageas de laspe polido, que dava de si muy- 
tas cores, todo toldado de altos castanheyros, enxeridos de era, e par- 
reyras com muytas uvas, que ho defendião do sol, que não entrava, salvo 
per manha dos sotijs rayos: ho prado de erva muyto meuda e muyto 
verde, com mezcra dalgumas flores de diversas cores, rico tapete da 
natureza, e estancia por sua fresquidão e rudeza, de muyta recreação : 
ca não lhe faltava ali ho zenido das solicitas abelhas, os asovios do sau- 
doso solitário, os gemidos da solitária Rola, os longes da melroa musica, 
e a resposta do proQoso Rouxinol. E pêra mais ornamento porque nada 
he deleytoso sem companhia, estavam junto da fonte duas donzelas de 
estremada fermosura: que estavam tangendo huma harpa e huma rabe- 
ca: e outra terceyra cantava, tendo no regaço a cabeça de huma moça, 
ao parecer de dezoyto annos, que dormia de papo arriba. E como tinha 
ho belo rosto aíTrontado com ho calor do dia, estava tal que se poderá 
cuydar ser a deosa Diana: as três Donzelas tinham louros e longos ca- 
belos soltos sobre os hombros, atados per meya cabeça com fita douro. 
Vestiam camisas mouriscas lavradas douro dalto a baixo, que lhe che- 
gavam te ho coUo do pé e sobrelas cabayas de damasco branco apedrado 



DA TAVOI-A UKDONDA 61 

douro: Os alvos pés descalços, e juntos deles ricas espartenlms de seda 
tecida. A Nimfa que dormia cubriase dos seus dourados cabelos onda- 
dos, cujo resprandor abatia a vista dos olhos que os viam tinha espar- 
tenhas tecidas de torçaes douro com robijs e outras pedras de preço, 
camisa labrada toda douro e aljôfar; e dalto abayxo cadenelas, tomadas 
com botões douro e pedraria antresachados, e a cabaya de barcadillio 
verde e rico. Desta maneyra estava tam fermosa que não creyo que com 
mays vantagem, antes menos: esperase a Deosa Citherea ho seu amado 
Adónis quando cansado da caça se recolhia a recrear com ella nos vales 
da montanha Ydea. E passando assi a sesta, a donzela lhe cantava ho 
seguinte romance. 

ROMANCE 

De li casto Cipião, 
Sofonista ouvi queyxar, 

Que foste immigo damor 
por querer dela triunfar. 

Na forte cidade Cirta, 
Masenisa fora entrar 

E por teu mandado Sifax 
seu marido foy malar. 

Com fúria e ódio immigo 
nos seus paços fora dar, 

Mas namor força da fúria 
amor ho pode amansar: 

Dos encontros dos seus olhos 
ho seu coração domar. 

De escrava feyla senhora, 
de quem viniia caplivar. 

De eterno Amor dada fé, 
as almas foram trocar: 

Lagrimas e fermosura 
tudo [)oderam acabar. 



62 MKMOIUAI. DOS CÂVALEIÍIOS 

Sabido per Cipião 
que amor não pode abrasar 

(Jom coração desluimaiio 
com razões não de aceylar. 

Á Masenisa escrevia 
que lha mandasse entregar 

Porque era immiga de Roma 
da geração de Amílcar, 

Em grande aífronta se vee 
Masenisa e gram pesar, 

Ho coração não Ibc leva 
á Sofonisba faltar. 

Cuydou hum muy duro meyo, 
pêra aver de a libertar 

lluma copa de peçonha, 
lhe mandou apresentar. 

• Em lugar da liberdade 
que lhe não podia dar, 

Sofonisba muy contente 
a bebeo sem recear. 

Sintindo somente a dor. 
(jue se não pode escusar, 

l-'or amor de Masanisa 
que vive pêra a passar. 

Dizendo por vos Amor 
me quero sacriíicar 

Naõ será doutrem cativa 
quem toda se vos quis dar, 

Malaja fortuna immiga 
(jue la! amor fuy coi'lai'. 



DA TAVOLA liEDdNDA 63 

Este romance cantava a Donzela snavemente: e lio cavaleyro as es- 
teve ouvindo sem chegar a ellas por não interromper sua melodia. Neste 
passo a Niíifa que parecia doi-mir, deu htim ay alto, e tam dorido que 
enternecera corações de marmor, dizendo Ay amigas (jue ditosa sorte foy 
a de Sofonislia em morrer por seu amor tendose já delle lograda: qual 
he ho corarão bom namorado que nam aceyle cem mortes por Imma 
liora de gosto do seu verdadeyro amor: e que hora pode ser esta que 
soíTra querer mais vida, e passala em saudades desesperadas, que tor- 
mento pode ser mór. Ho das cristalinas como naturalmente era com- 
passivo : natureza de ânimos nobres, apiadouse delia, consolandose em 
achar companhia de seu mal. E parecendolhe ler a ninfa alguma dor 
desesperada, a que per ventura poderia ser bom quis ver em que pa- 
rava sua payxão. Ella tomando hum livro começou ler per alto, o qual 
era da historia de Primaleão e dom Duardos, que naquelles tempos foy 
muy tratado, porque tudo tem sua sazão: e como neste a cavalaria ílo- 
recia, todos estimavão muyto as Crónicas dos bons cavaleiros: E sendo 
estes dos que mais nome teveram, eram muy aceytos seus contos, mayor- 
mente das damas, por os terem i)or muyto namorados. Donde socedeo 
antre estas virem em pratica sobre qual foiva milhor namorado Primaleão 
ou dom Duardos e huma das donzelas que cantava, per nome Liandra 
disse. Sou tam bandeyra por parte de dom Duardos, e tenhoo tanto por 
estremo de amor que nem poelo em comparação soíTro, poi-que leyxo 
ja aprova que fez do espelho encantado, que testificou esta verdade: Mas 
tenteando os passos per que Amor ho guiou a seu estremo, mostrase 
claro a muyta conta que com elle tinha pêra ho apurar em sua ley. E 
com quanta força lhe apontou a dourada frecha: pois indo dom Duardos 
com a vontade incrinada ao serviço da Hírmosa Gridonia. tam altamente 
que se offerecia á morte por seu amor, toque hum dos principaes do 
amante verdadeyro, chegando ao ponto, vendo vir a linda Flerida que 
ho jrmão pola mão trazia, á hora lhe rendeo todo outro amor, e por 
ho seu se negou, antes esqueceo ho de Gridonia, a cuja fermosura vinha 
sacrificar a vida sem a posse de tantos dias tolher dala da alma, em hum 
momento, em tam alta maneira que ja não fez a batalha com Primai ião, 
salvo por querer mostrar a Flerida que era pêra servila. Donde tan- 
to que lhe ella mandou desestir de sua contenda, na força da jra, lo- 
go se cruzou á sua obediência, tam infruydo no seu amoroso desejo, 
que nunca mais teve descanso por buscar meyo de satislazela: e tam 



64 MEMORIAL DOS CAVALEIUOS 

soíTrido na sua dor, que tomou ho que lhe mais trabalho podia dar, 
pretendendo merecer por amor ho seuamor. Que não podia ser de mayor 
estremo, que forçar a hum príncipe leyxar natureza e estado, e tomalo 
tam bayxo como ho de hum jornaleyro cavador, pêra daqui sobir a al- 
teza do amor da linda princesa Flerida: vel.mdo de noute em sospiros, 
e de dia cavando por conlemprala e servila. Assi que notados bem os 
estremos de dom Duardos, tenho que nem Amadis de Gaula, nem dom 
Tristão de Leonis lhe chegaram, quanto mais Primalião. Aqui respondeo 
Corcira, que era a donzela que dormia, e senhora de todas. Não estaes 
bem na conta, antes vos digo que tenho ho vosso dom IJuardos por mao 
namorado, porque fez duas cousas muy contrayras ao amor, o qual pêra 
ho ser ha de ter sempre mais respeito ao proveito da pessoa amada que 
ao seu próprio : e não compadece damno ou perda em quem ama, e 
muyto menos força, nem quer merecer per mãos meyos, mas per si 
mesmo. E dom Duardos como amante cobiçoso e mal soíTrido, tentou, 
antes forçou a vontade de Flerida per manha de encantamentos, e fez 
mal a sua senhora por segurar seu próprio bem, o que amor puro não 
compadece: devera merecerlhe per si servindo o que quis alcançar per 
meyos condenados, no que também abateo a si mesmo pois não esperou 
poder merecela per serviços, o que tudo íica em affronta de Flerida, a 
cuja custa de honra e gosto dom Duardos satisfez os seus, saneando a 
affronta de seus auós, quanto ella abatia a openião de seu pay, e jrmão, 
aíTrontando a si própria. Per modo que a perda de Flerida foy ho ga- 
nho de dom Duardos, donde ella amou, e elle foy ho amado. Ho con- 
trario fez Primaleão, que passou per todos os toques do verdadeyro 
amor, sem pretender outra cousa, e com muy ta perda própria, e assi 
ho vereys, que vendo elle a fermosa Gridonia, a qual presuponde que 
era valerosa dama, e constante em sua openião, muy claro entendeo nela 
serlhe capilal immiga, e apostada a tomar delle cruel vingança, por o 
que não avia mayor inconveniente pêra poder ser amado delia, e muyto 
pêra esfriar e desistir de tal amor. Porque quererdes a quem vos quer, 
ou esperays que vos queyra, be esforço grande pêra passar todo traba- 
lho e avelo por leve. Mas quererdes bem a quem vos quer mal, he pro- 
va clara de grande força de amor que vos obriga: este lhe fez empren- 
der cousa tam duvidosa, e ho entregou forçado a sua servidão, não ser- 
vindo por esperança, mas amando desesperado. E juntamente com isto, 
tal era ho amor que ho estremado amante Primalião tinha á immiga mas 



PA TAVULA IIKDONDA G5 

fp-rmosa Gridonia que lhe tinha igual ódio. que desestimando a própria 
vida, e antes offerecendoha ao sacrifício, pretendeo e determinou per 
serviços sanear ho nojo e perda que lhe causou sem culpa: como ho fez 
com mayor logro, e tam desinteressado, que quando lhe cumprio a pa- 
lavra e promessa, dando lhe em satisfação a própria pessoa e hum im- 
pério, posllie a vida e tudo em sua vontade, pêra que visse que só essa 
pretendia dclle. E não tem hum leal amador mais a que clicgar, por o 
(jue lio meu voto he que os jrmãos ambos foram puros amantes. Dom 
Duardos interesseyro amador, e Gridonia vencida de amor. Nesta pra- 
tica estava a fermosa Corcira com suas donzelas, sem saber que a ouvia 
ho cavaleyro das armas cristatinas, que perto a escuytava. E vista a de- 
terminação da porfla, determinou participar de tal conversação. E indo 
se a ellas que ho sintiram e esperaram seguras, chegando, e feyta sua 
cortesia a Corcira que entendeo ser a principal, ella ho recebeo cortes e 
amorosamente: ho cavaleyro que de natureza tinha ser brando e galan- 
te, disselhe. Se vos senhora, parecer atrevido mais do que a humano se 
concede, cuyday que quem vos fez tam singular pêra serdes estimada, 
me deu este conhecimento, e pos em obrigação de desejar servirvos. 
Acodi á doce voz que cantava, por me parecer divina. Vejovos e confir- 
mo minha openião, por que não he capaz a natureza humana de produ- 
zir de si tal fruyto. Vim me ao recramo, como ave que corre pêra sua 
morte, se vos serve não a recuso, nem também a temo pois ho vervos 
basta pêra me salvar delia: e quando não, ganhar muytomais nella. Cor- 
cira conhecendo ser estrangeyro por o que esperava, tornoulhe. Primey- 
ro senhor que vos responda, peçovos por estas palavras per que pubri- 
caes ter eu eu ja valia com vosco, que me digaes donde soys, quem, e 
a que vindes aqui? Ho cavaleyro lhe respondeo. Em tudo ho em que vos 
senhora poder satisfazer ho farey: sou hum cavoleyro dos da tavola re- 
donda, e de tam pouco nome, que por ora não tenlio outro, salvo ho 
cavaleyro das armas ciistalinas por eslas que trago, que ho parecem: An- 
do em cala de mim que me roubou huma donzela: e embarcando em 
Ingraterra com este cuydado, a fúria do mar me lançou n"este paragem; 
por o que em quanto na ilha se refazia ho navio em que venho, deter- 
miney vir em romaria a esta hermida de sam lorge nosso padroeyro, 
bem descuydado de achar tal companhia. Em estremo, replicou Corcira, 
folgo de serdes cavaleyro dos da tavola redonda, (jue tam soados sam 
polo mundo, c vou cuydar que ho senhor Dcos vos guiou aqui pêra meu 



G6 MKMOUIAÍ. nos CAVAI.EIIIOS 

remédio, se ho posso ter: ja que tendes por obrigaçiío soeorcr a donze- 
las necessitadas: qual oa sou. Estimaria eu mnyto, disse ho das crista- 
linas, tudo o em que vos servisse. Mas em quanto e!le irala de compri- 
mentos, quer a nossa historia que os tenham3s noutra parte. 

Capit. xiiij. Do qxie passou no custeio da eslranha torre, 
mandando cl rcy tomar posse dclle. 

Gostosa sorte he a das pessoas que a divina providencia escolheo c 
destinou pêra per ellas destribuyr seus benefícios ao mundo: e desaven- 
turada aos ministros de males, donde todo claro juyzo e lieroyco esprito 
deve traballiar, por endereçar sempre seus desenlíos a obras virtuosas, 
que nesta vida ílorecem com bom nome, e na outra com glorioso pre- 
mio. Tal foy ho cavaleyro das armas cristalinas, que a sua boa ventura 
guiou pêra remédio^ da donzela Coi-cira a que se offereceo, tanto que 
soube ter dele necessidade. Assi também el rey Sagramor vendo a que 
avia, de mandar logo tomar posse do castelo da estranha torre, reco- 
Ihendose á cidade com ho mouro íusquibel. ao outro dia despachou ho 
messageyro do Conde de Zelanda: mandoullie huma companhia de ires 
mil soldados, pêra se lhe fossem necessários, socedendo levantarselhe a 
gente do castelo. E que estevesse por capilão dclle ate vir ho cavaleyro 
das armas cristalinas, com ho qual se determinariam seu? negócios, e te- 
vesse por muy certo restituylo em seu estado arisco do próprio, pêra 
ho qual elfeyto determinava sostentar lio castelo com a gente que tinha: 
e no mesmo estilo de vida: e os que quisessem yrsefazelo livremente, ca 
não queria vontades forçadas: e aos que ficassem faria muyla mei'ce, o 
daria soldo e mantimento e cevaria sempre a criação dos moços com ou- 
tros que mandaria, porque lhe parecia bom ho modo de sua criação, a 
(jue seria pêra melhores effeytos que os da tenção de Aldemburque. E 
seu íilho lhe mandasse logo por ho descarnar de mãos pensamentos, e 
desemealos nos moços com que se criava. Muy to contente íicou ho Con- 
de com este recado, e alojou logo a gente do guerra dentro da cerca 
além das torres, te ver a determinação dos do castelo. Deshi indose aos 
cavaleyros da primeira torre, faloulhes de huma janela, dizendolhes o 
que passava: e como tinha dada obediência a el rey Sagramor: ho quelle 
os mandava poer em sua liberdade, pêra que os que quisessem jrse livres 
podessem fazelo francamente, e os que quisessem permanecer em seu 



Í)A T.WDl.A IIEUONDA 07 

serviço, viviriam no mesmo exercício que linliam: e da(j'ii os levaria a 
suas guerras, e lhes daria cargos de sua profissão, segundo lio mereci- 
mento de cada lium, dandolhes largas esperanças, de que os princijies 
sam muy liberaes em tempo do sua necessidade: e contino mandaria mo- 
ços que se criassem aqui. 

Acabando ho Conde de propror sua pratica, lodos ficaram maravi- 
lhados, de ser morto ho gigante [ler hum só cavaleiro, e não podia cre- 
io, não lhes pesou porém, vendo que cobravam melhor senhor, ficando 
livres, e como não sabiam outra natureza, nem conheciam seus pays, a 
huma voz disseram que fariam o que lhes el rey mandasse. E ho mes- 
mo responderam também os piães, a que logo foy dar a mesma conla. 
E indose á torre dos moços primeyro que nada lhes dissesse, pergun- 
tou por Burquedal pêra ho recolher consigo, e darllie a nova da morte 
do pay em particular, e conselharlhe o que lhe cumpria, porque ho Con- 
de tinhalhe amor da criação, e por sua boa maneyra muy dilferente da 
do pay. E disseranlhe todos que avia cinco dias que ali não andava, e 
que estaria com seu pay. Disto ficou ho Conde muy agastado, por que 
logo entendeo que devia ser fogido per meyo da nora, e assi era. Por- 
que aveis de saber que Burquedal criado na conversação da fermosa Ar. 
tevelda neta do Conde e sua prima com irmaã, querialhe mais que ;i 
própria alma, e de meninos se amavam muyto, sem aníreles avur mais 
que declaração de vontades honestas e puras, e crecendo a idade crecia 
ho amor, e com os annos foram íipontando os desejos: [)orque a natu- 
reza se erra huma, ou algumas novidades, sempre vem a sua sazão. E 
sendo ja Artevelda de quatorze annos, e Burquedal dalguns meses me- 
nos c ambos de claro juyzo e esprlEos altivos, liiase em seus pey tos apu- 
rando ho amor, e fervendo de maneyra que os consumia. Artevelda po- 
rem não se fiando de si era muy cautelada no que cum[)ria a sua hon- 
ra: e como não sabia o que Aldcmburque determinava do filho, tratava 
seus amores muylo a seu salvo. E este he a verdade se as molheres 
quisessem creia e usala. Ca quanto mas se isentam da natural fraqueza, 
tanto sam de mayor preço, e mais estimadas e gostos devassos sempre 
enfastiaram. E por tanto Artevelda querendo muyto a Burquedal, e cren- 
do dele ho mesmo dizialhe, que dos sofírimentos que elle tevesse com 
ella, avia de tomar esperiencia do que lhe elle queria. E Burquedal era 
lhe tam sogeyto, querendo mais a morte que anojala, satisfaziase com a 
contemprar c conversala debay.\o da ley de toda honestidade. Vivendo 



G8 MliMOniAL DOS CAVAI.KIHOS 

poys assi contentes, mas não satisfeytos. Ho pay como tinha em fanlesia 
fazclo Princepe de Inj^Taterra, e liarse com outro rey. Ueceando on en- 
xergando lio perigo desta conversarão, passouho e aposentouho com os 
moços da tcrceyra torre, onde avia seys meses qtie vivia apartado de 
communicar com Ârlevelda: e occupado em exercícios que lhe podiam 
delir seu cuydado: mas tinha se lhe ja apossado do peyto, de maneyra 
que nunca pode perdelo. E como os corações eram conformes, e amor so- 
licito, quanto lho mais tolhera mais se amavam, e buscavam meyos de se 
verem e cartearem, e de huma janela via Artevelda Burquedal estremar 
se antre os outros moços em seus exercícios. Assi passavam a idade es- 
l)erando melhorarse no tempo. Secedendo poys a moite de Aldembur- 
que: entendendo Artevelda que se baralhavam os pensamentos, porque 
não sabia o que el rey desporia de Burquedal, e ho Conde seu avô faria 
delia: determinou avisalo e consultar com elle ho socesso. Era a mai de 
Artevelda sabedor de sua affeyção, porque ha poucas que não folguem 
com as filhas serem amadas. E este atirava a entavolar bem a sua: fun- 
damentos que as mais das vezes arrunham, e que nunca devem admit- 
tirse, por serem muy incertos e perigosos. Per modo que Artevelda com 
ho favor da may teve maneyra que foy falar a seu amigo a huma poria 
de ferro: do que primeyro ho avisou per hum escrito: ho queile espe- 
rava ja não pouco alvoroçado, e passados os primeyros toques destas 
festejadas visitações, começou Artevelda, e não sem muy tas lagrimas di- 
zer. Não estranhaes senhor Burquedal meu atrevimento. Não, respon- 
deo elle, porque tudo acomete e tudo faz amor puro. He verdade tor- 
nou ella, mas estou tam abituada a soffrer magoas, e não fazer vontade 
própria, que nada ousara se me não movera ocasião nova e forçada. Por 
saber isso disse Burquedal, mouro eu ja. Artevelda tornou, lembravos 
senhor que nos temos dada eterna fé? Senhora si lembra, disse elle, co- 
mo quem não vive salvo dessa segurança, e se de mim a não tendes 
manday em que vos satisfaça, vereys com que gosto vos obedeço. Por- 
que disso sou muy certa lhe respondeo ella, vos peço agora que vos es- 
forceys contra a fortuna que nos acomete e entra ja: e no esforço e sof- 
frimento que agora teverdes, verey o que me quereys, e pêra quanto 
soys, o que vos a pouca idade nega o nosso amor volo concede. Nisto 
contoalhe a morte do pay, e a obediência que ho cavaleyro que ho ma- 
tara mandava dar a el rey Sagramor: e darlhe esta conta pêra que a te- 
vesse com o que lhe cumpria, a fezera tam atrevida, porque por ella não 



DA T.VVOI.A nKDONDA G9 

estimava a vida. Grande abalo fez esla nova em Burquedal, e a nature" 
za pagoa logo seu foro á morle do pay, mas com Iiu divido animo e não 
deslmmano, e informouse de como tudo passara meudamente. E neste 
comenos lhe concorreo na memoria a perda do estado, lio perigo da 
pessoa, e a confusão das esperanças. Como porém era de altos espritos 
e claro entendimento, inda que moço: cumprindo com ho primeiro im- 
petu, disse Ora senhora Artevelda, ja que me tendes dito ho ponto em 
que me a fortuna pos, dizeyme agora ho em que me tem amor, antes 
que vos diga o que sinto: no em que vos sempre teve, tornou ella, e 
affirmovos que não cuydey que vos merecia tanto, ou por melhor dizer, 
que era eu pêra tanto, porque ho cuydar que se offerece podervos sa- 
creficar minha vontade, he pêra mim outra nova gloria, que estou deter- 
minada não perder á custa da própria vida. Aqui lhe atalhou Burque- 
dal, dizendo. No mais senhora, que não tenho vaso em que cayba tam 
alta obrigação, e ouvirvos abafame de maneyra que darey os espritos : 
E pois assi he, maogrado á fortuna que me não tirou tanto que mais 
amor me não recompensase: ao qual dou eternas graças: e ja que ho te- 
nho por valedor não ha que temer, ho tempo porém senhora requere 
mais que palavras, e eu quero saber se se me ternia aqui a vida: ja ve- 
des quam poucos dias ha que estava noutro estado, sabeys que me criey 
em openião de príncipe, e delerminagão de conquistar impérios, pêra 
volos olferecer, ca nunca tive que ser senhor do mundo podia darme 
merecervos: a vos só senhora me linha por devedor de me aceytardes o 
que vos queria, e quererdesme o que vos merecia, derruboume a for- 
tuna de senhor a cativo, que ja sou dei reySagramor; esendoho eu vosso 
voluntário e contente, julgay quam incompatível será selo forçado e triste 
doutrem: mas olhay quanto he por mim amor em que espero salvarme 
se me não desamparaes, que de toda minha desaventura a ninguém sof- 
freo ter meu remédio, e só a vos ho entregou pêra justilicação vossa, e 
maior gloria minha: se determinaes por tanto darmo, dirvos hey ho co- 
mo: e senão calarme ey, como me eíitregar a minha sorte, que he ser 
cativo de meu inimigo, desesperado de meu remédio, e a risco de mor- 
rer magoado do meu ainor. Nunca tal será respondeo Artevelda, por 
minha causa, muyto pode a fortuna, mas não chegai-me a culpas ante 
amor, por amor si, ca tudo o que te agora me eu a mim mesma ne- 
guey, a vos so dt^ve, e não volo nego, desponde de vos e de mim, se 
vossa sorte soffre seja com meu decoro, que he ho vosso, estimalo iiey 



70 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

muyto, e quando núo cumprasc com ho amor que pode o que quer. Nal- 
ma, repricou Burquedal, emprimirey essas palavras pêra lempo em que 
as melhor possa festejar e servir. E Iam ufano se achou em ver a pu- 
reza de seus amoi-es, que lhe esqueceo sua fortuna. Finalmente que aca- 
bou com ella furtar as chaves a seu avô e soltalo, porque solto tudo te- 
ria remédio, e pi'eso estava em condição de el-rey Sagramor ho aíTron- 
tir, ou mandar matar. Por o que Artevelda apertou com sua inay e fez 
que tomasse as chaves, e na outra nouíe lhe foram amhas abrir, e de- 
ram pedraria e joyas, e dinheiro pêra seu gasto: eassi se despedio delias 
com muytas lagrlinjis. E por esta causa não achou ho Cqnde do que fi- 
cou muy pesaroso, e receoso dei rey Sagramor tomar dele sospeyta que 
ho soltara. E mandou logo alguns cavaleyros a buscalo per toda a ser- 
ra, e antre tanto fez saber a el rey da vontade da gente do castelo, do 
(jue elle íicou muyto contente pesandoihe todavia da ida de Burquedal, 
porque determiíiava obrigalo com boas obras. E assi ho mandou dizer ao 
(>onde, e que trabalhasse por acíialo, porque lhe queria dar mais do que 
íinba, e telo em conta de íilho. Mas delle a seu tempo se dirá. Agora 
basta saber que ho Conde ficou por capitão do castelo da estranha tor- 
i'e, ate a vinda do cavaleyro das cristalinas, e agente vivendo em sua 
liberdade, lograndose da cerca e da serra. E el rey mandou muytos Uio- 
(;os nobres a criarse com os outros pêra seu desenho, niasho nosso he 
acodir ao cavaleyro das armas cristalinas. 

Capit. XV. Do cabo que ho cavaleyro dns armas cristalinas 
deu d aventura que achou na ilha Corcega. 

De tanto preço he iio amor puro, que não ha fortuna que baste pêra 
abatelo, e ho contentamento que huma alma aífeiçoada recebe de chegar 
á esperiencia d'esta pureza, basta pêra pisar e acanhar todos os dessa- 
l)ores do mundo, e no meyo da tormenta ter bonança. Com esta se partio 
Ibiixpiedal leyxando de si assaz saudade á gentil Artevelda. Tal a tinha 
tandtem a donzela Corcira que atras ouvistes praticar com ho cavaleyro 
das armas cristalinas, e tendo ho penhorado da promessa pcra ho que 
lhe cumpria: começoulhe dar conta de si, dizendo. 

Ho fogo de amor que se acende ao delicado coração de huma nobre 
donzela namorada da gentileza e valor de hum cavaleyro digno de ser 
a;nado, crece scnqu-e e vay tomando mais forças com ho tempo, hora 



DA TAVOÍ.V nHDONDA 71 

seja presente hora ausente: porque nada basta a apagar a amorosa flam- 
ma, antes constante e firme, vivendo e morrendo arde em seu peyto 
contino. Bem entendo porem que se adia rai-amenle hum iam vivo amor, 
e que se soslenta dilTlcihnente, por ser nossa natureza muy escassa em 
produzir espritos puros: mas quanto mais raro tanto de mais estima e 
de mais gosto : e bem aventurada se pode chamar aijiiella que alcança 
lai estado, e se logra com igual amor. Coytada ah triste de mim que 
cheguey á vista delle: e a minha má fortuna porque a minha magoa fosse 
mayor mó somio ante os olhos, por o que nunca serão enxutos de la- 
grimas. E porque julgeys senhor cavaleyro com quanta causa me sos- 
lento delas, sabey que averá dezasete annos que a esta terra veyo ho 
esforçado Troyano cavaleyro que foy dos primeyros da lavola redonda 
do tempo dei rey Artur: e vinha a requerimento de minha may herdeyra 
áo condado de Nehio, que he hum dos bons estados deste reyno de Cor- 
cega: a qual tinha contenda com Arlião seu primo sobre ho dereyto del- 
le, e foy julgado [)or el rey Orbando que dentro em seys meses desse 
minha may cavaleyro por si que cm campo çairado sostentasse seu di- 
reyto contra Artião. E como ella tevesse inda alguma razão de parentes- 
co com el rey Artur, fez lhe saber sua necessidade per huma donzela, 
com a qual logo veyo ho esforçado Troyano, ho qual teve huma perigose 
batalha com Artião, du que se dizia ser hum bravo cavaleyro, e que ja 
vencera dous juntos, em hum desafio, e no mar tinha ávido muytas vi- 
torias, com que se ensoberbecera de maneyra que linha ho mundo em 
pouco em seu respeyto: mas ho esforçado Troyano lhe abateo a openião 
de modo que ho leyxou morto no campo, porque nunca se lhe quis ren- 
der, e ficando muyto ferido, minha may que lho devia ho agasalhou e 
curou com muyto cuydado. E d'esta conversação lhe naceo outro que a 
.lespois enteri-ou, ca sendo moça e muyto fermosa lhe jxjde ho esforça- 
do Tioyauo negar a jnrdição (jue as taes tem sobre corações nobres: e 
sendo elle também muyto para ser estimado pouco fez minha may em 
se lhe entregar. Foy [)orem ho mais (]ue podia fazer, do que socedeo 
leyxarlhe elle a mim em {)enhor <lo S4Hi amor. E sendolhe forçado par- 
lirse por mandadi) dei rey Artur, quando queria passar á Itália, ficou 
minha may prenhe de mim e cortada de saudade, de maneyra que pa- 
rirme e morrer tudo foy hum. El rey Orbanllo (jue era seu primo se- 
gundo, mandoume criar no paço como filha sua, e ahi me criey em con- 
versação do príncipe Damtilor, e foy tal que nus namoramos hum do 



72 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

outro, e com a idade foy crecendo ho amor, que me lio príncipe meu 
senhor testificava de si, per quantas vias podia secretamente: e eu dado 
que liio não tinlia menos, como sempre estimey mais ho preço de minha 
pessoa, que lio gosto da minha vontade, quanto mais affeyçoada me sen- 
tia, tanto mais ho encubria ao príncipe, por não fazer por elle cousa que 
menos cabasse minlia openião, e lambem, não queria escandalizar el rey 
que me criou como pay. He Deos teslimunha de que me fazia lorça, 
que a tempos me parecia espirar de saudade da conversação do prínci- 
pe meu senhor, de que sempre andava fugindo: he iio piincipe mais ve- 
lho que eu três annos; muyto discreto e de esprítos reaes: e dos meus 
olhos me dizia elle que entendia que me devia ho amor que lhe eu ne- 
gava: dizendome sempre. Fazey o que quiserdes e não queyraes outrem: 
ao que lhe eu respondi huma vez. Tam impossível he querer outrem, 
como querer o que não devo, e mais tenho por certo morrer por o que 
quero. E eu, me respondeo elle, não quero viver quando no responder 
a essa verdade com outra ygual. E coatovos senhor cavaleyro este pas- 
so, porque foy pêra mim mais forte que ho da morte, e ho mayor a que 
cheguey com hum tam grande e tam verdadeyro amor. Era eu de deza- 
seys annos, e ho príncipe meu senhor de dezanove, quando elle se ar- 
mou cavaleyro, no qual dia, e oyto seguintes se fezeram justas e torneos, 
de que ho príncipe sempi'e levou ho melhor. Pretendiam também neste 
tempo servirme Brandimão duqife de Alerya cidade nesta ilha, edificada 
per lio ditoso Scila primeyro ditador Romano, e Silomar almirante e se- 
nhor da Mariana, cidade também que edificou ho triunfador Mário. E 
como estes dons capitães Romanos foram ímmigos capitães, parece que 
também ficou assi por herança aos soccessores destas cidades aquelle 
ódio, ho qual incitado do amor que me tinham, como elle nem ho rey- 
nar soffrem parçaria, e cada hum delles pretendia averme por sua: Vie- 
ram a competência antre si de qual merecia melhor servirme, do que 
ho príncipe meu senhor se sintio muyío, e dado que cresse minha 
inocência nesta parte, dizía-me que nom pensamentos soffria. Us cava- 
leyros sabendo que eslava eu longe de ser juyz antreles sobre seus me- 
recimentos, nem ouvilos, chegaram a desafiarse, e morreram ambos no 
desafio. Dom Solizar condestabre e senhor de Corvano, segunda pessoa 
do reyno, com que el rey tinha em pensamento casarme, sendome tam- 
bém muyto affeyçoado, e vendo que lhe não acodia eu á tenção, e que 
linha meus pensamentos altivos, determinou obrigarme per obras efeytos 



DA TAVOLA P.KDONDA 73 

famosos, por o que veyo a este ilheo, chamado Pedra Roya, c na prava 
mandou armar' huma muy rica tenda em que se recolhia, e dali mandou 
hum Cartel de desafia a toda a Corte. lio qual Cartel se pubricou es- 
tando el Rey á mesa hum dia de Paschoa, em seu estado, per que man- 
dava desafiar todo cavaleyro que dissese ser mais pêra servir sua Dama' 
que não elle : Pêra lhe elle fazer confessar ho contrario, per justa, ou 
como quisesse. E sendo caso que o que delia ficar qucyxoso e quisesse 
melhorarse e satisfazerse cem a espada, que elle se oíTerecia a todo tran- 
ce, pedindo a el rey que mandasse que na prava nin:,'-uem snysse, salvo 
ho cavaleyro jusfador, e de barcos do mar vissem. El rey que ho favo- 
recia muyío, e por segurar ho filho do que receava de mim, desejava 
que saysse com honra e nome que me obrigasse, concedeo e mandou 
tudo. E logo á primeira outava sobre a tarde foy ver com toda a corte 
as justas do condestabre, que naquelle dia e noutros quatro seguintes 
sempi-e foy vitorioso, mostrandose estremado cavaleyro, do que el rey 
estava tam contente em pubrico quanto ho Príncipe em secreto pesaro- 
so: porque a peçonha dos ceumes nunca leyxa de laurar no peyto na- 
morado e quanto mayor aííeir.ão menos descanso e segurança lhe per- 
milte. Não desconfiava ho Príncipe meu senhor do meu amor, mas ho 
seu não lhes soííria pretenderme ninguém: por o que vencido desta pai- 
xão, teve maneyra que ao dia de Pascoela em que el rey também avia 
de jr com a raynha e Damas ver as justas, se achou nellas desconheci- 
do: pêra o que dous dias antes se foy á caça pêra andar la dez dias, e 
descuydar el rey de si. E assi foy, que chegando el Hoy per Pascoela á 
praya com toda a Corte pêra ver as aventuras daquelle dia, da banda 
do mar começou a parecer huma galé real com os remeyròs, velas, e 
toldos De damasco encarnado: e ao pé do masto em pé hum cavaleyro 
de armas ricas com huma sobreveste da mesma seda: e no escudo pin- 
tado a Deosa Vénus nua em hum carro que levavam pombas, com hum 
retulo nos bicos, e letra que dizia. A Paris a flor de Grécia, e a mim 
do mundo a gloria, tem prometido a vitoria. E desta maneira se veyo 
costeando ao longo do ilheo, onde desembarcando na prava, lhe deram 
logo hum poderoso cavalo que lhe tinham parece prestes: em ho qual 
se elle lançou l)em desenvolto, em que logo deu de si muyta esperan- 
ça: por o que todos poseram nelle os olhos com mais atenção. Longe 
estava eu de cuydar que me hia naquella batalha a vida : mas levoume 
ho coração mais do que eu costumava a vella, com alguma querença, 



7't MEMORIAL DOS CAVALF.IROS 

por parte do cavaleyro aventureyro: ho qual se encontrou com lio con- 
destabre, e do encontro vieram ambos a terra: mas ho aventureyro ie- 
vantouse muy prestes, e foy sobre feo condestabre que estava debayxo do 
cavalo, e dandolhe a ajuda pêra se levanlar, como ho teve desembaraça- 
do, disselhe. Dom Solizar procuray defendervos. Ca tendes diante vos 
quem ha de leyxar a vida no campo, ou sayr com a vitoria, porque soys 
tam mao e soberbo namorado que quereyssostentar merecer servir vossa 
dama, presunção que não se soífre em amor puro, que sempre se con- 
fessa e conhece indigno ante quem ama: e por tal vos determino pubri- 
car. Vos, disse ho condestabre, tereys re/.ão no que dezis, eu porem te- 
nhoha em ser mais pêra servila que todo mundo, e espero fazervolo 
confessar muy prestes Com isto arrem.eleram hum ao outro combaten- 
dose com mortays ódios segundo as obras ho testificavam: e durou a 
batalha espaço de três horas: No cabo das quaes ho aventureyro deu 
hum golpe ao condestabre que lhe fendeo a cabeça te ho pescoço, com 
que logo caliio morto: e ho aventureyro ficando muyto ferido e fraco do 
muyto sangue que se lhe sabia: assenlouse sobre ho corpo do condes- 
tabre, e tirou ho elmo pêra tomar ar: e sendo logo conhecido, ja vereys 
senhor o que eu sintiria na alma que não podia desabafar. Sahio logo el 
rey em terra com raynha, damas, e alguns nobres, mandando que nin- 
guém outrem desembarcasse. E trataudose logo da cura das feridas do 
j)rincipe: disse el rey que era divido irem dar graças a Deos daquella 
vitoria, e alto principio de cavalaria á hermida de sam lorge que aqui 
temos perto, e velar essa noute nelia, pêra que ao outro dia fezessem as 
exéquias ao condestabre que nella mandou enterrar. E despedida parte 
da gente que ali estava, mandou vir ho necessário pêra a que ficou. Âssi 
passamos aquella noute em muyta festa, de que ho príncipe e eu tínha- 
mos a menos parte, por nos não })odermos communicar, ca ja estáva- 
mos em abito de nos contenlar com nos falarmos ao outro dia, que fa- 
zendose ho oíficio do defunto muy solemne, era se acabando ho Respon- 
so deu hum torvão tam grande que pareceo abrirse ho Ceo e desfazerse 
lio mundo, do que todos caymos como mortos, e assi estevemos longo 
espaço, e tornando eu em mim não vi ninguém, do que fiquey muyto 
mais espantida sem me entender: e descendome á praya acheya só, ven- 
do jr já junto da cidade soma de barcos e galés com gente: por ho que 
cuydey que se foram e me leyxaram assi- só em pena do meu amor acoy- 
mado. Não chorou mais lagrimas nem deu mais grilos ao ar a enganada 



DA T.WnLA REDONDA /O 

Adriana qnc ho falso Thcseo leyxon na ilha Xaxo.E tal foy lio meu pranto 
que de cansada cahi em profundo sonno. E nelle me pareceo ver che- 
gar a mim liuma dona de grave e aprazível presença, a qual me disse. 
Desconsolada e innocente donzela não vos desespereys, que a Cortuna 
pode darvos magoas presentes, mas as estrelas prometenvos longo des- 
canso: ho príncipe vosso senhor foy encantado per quem pretendeu vin- 
gar a morte do condestabre dom Solizar: padece áspero tormento, do 
qual não pode ser livre, salvo per vos a que os fados ho tem prometido, 
porque a magica (pie ho encantou no castelo que fez no cume deste ro- 
chedo, assi ho ordenou: e por lhe tolher este descanso e a vos ho gosto 
da vida, pos tais guardas que vos fosse impossível entralas. com o que 
íhe pareceo le} xar ambos em tormento eterno. E porque não podesseys 
ser socorrida, fez embarcar com força de seus encantamentos el rey com 
toda sua corte: e encantou este ilheo que nliuma pessoa natural da ilha 
podesse vir a elle; e assi desenganou el rey que não esperasse vpr ho 
íilho, salvo se os fados permetissem que do seu amor secreh) ouvesse 
ho desejado fruyto, porque então a j)ranta produzida da flor do amor e 
da lioa da gruta, trazido per elles ao castelo do rochedo, poria em liber- 
dade os dous corações que mais queriam a sua sogeyção, e perderia a 
própria, contente com ficar sogeyto da Hltia dos amores: mas que ho 
poder ser isto, era muy duvidoso, por estarem por nacer os menistros 
da tal obra: e ella avia de poer todo seu saber sobre desviar os azos, e 
possibilidade de tal conjunção o que tudo esta magica fez com dor da 
morte do condestabre, de (|ue tem hum íilho de dous annos que ella 
pretende per suas artes fazer reynai- em Corcega: mas esta openião lhe 
será causa da morte que lhe dará aquelle que libertar os cativos do ro- 
chedo. E porque eu í)er minha sciencia airanço que ho meu sangue está 
destinado das estrelas aver de ser ho verdadeyro socessor deste reyno, 
determíney atalhar á danada tenção desta magica, e socorrervos em vosso 
trabalho, pêra que a nossa venha a elíeyto. K por lanto quando acor- 
dardes deste sonno achareys convosco a companhia necessária pêra vosso 
serviço, e pêra poderdes payrar a vida das bravas hondas da vossa sau- 
dade: na qual passareys os dias, te que os fados guiem nesta parte lium 
cavaleyro estranho, a que per elles esta |)roinetido' vencer a guarda do 
castelo: no qual entrareys sem nenhum receo com toda vossa conq)anhia 
sem elle : e tanso (jue enliardes a j)ene(lia se çarrara sem dar mostra 
da entrada : portpie dentro acliai-eys ho Príncipe vosso senhor em hum 



76 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

grave tormento, de que vos ho livrarcys, o per longos annos vos logra- 
reys com elle em muyto descanso e contentamento, te ho termo que as 
estrelas vos põe pêra alcançardes liberdade: por o que tende cuydado 
que vindo cavaleyro de animo que ouse cometer esta empresa, ho aca- 
beys com elle: e antretanto que não vier lograyvos dosfruytos da terra: 
e eu terey maneyra como sejaes provida do mantimento necessário. E 
porque em tempo de vosso descanso espero vervos leyxovos este anel, 
pêra que quando vos eu perguntar por elle mo deys: e assi sabereys 
quem vos faz este serviço, e ficayvos embora nesta esperança que eu 
vola farey boa. 

Acabando isto foyse : eu acordey e acheyme com estas donzelas da 
minha criação, e todo ho mais fato que tinha no paço, e outras servido- 
res sem homem algum. E vendo no meu dedo ho anel, cri tudo o que 
sonhara preguntando ás minhas como vieram aqui, disseramme que nada 
sabiam mais que acharense sem saberem como, postas na praya da ma- 
neyra que as eu via: e huma dona lhes encommendara que me servis- 
sem e esforçassem a viver, e por cousa desta vida não me leyxasem: ca 
tempo viria em que lhes eu satisfaria com muyto logro todo o trabalho 
que por mim passassem, o que ellas assi me prometeram. Logo nos re- 
colhemos pêra a hermida de sam lorge em humas casas pegadas com 
ella: e vay em hum anno que passamos a vida em caças e musica, e 
as mais das horas em lagrimas minhas, por ho costume, soffrendo ja 
o que Amor não soffre. Vedes aqui senhor cavaleyro toda minha des- 
aventura a que se vos parece que me podeys valer, obra he de vossa 
profissão, eu pedirvolo não sey se me atreva, pois mo não deveys, e a 
empresa bedilficultosa. Confessovos e confessarey a todo mundo que que- 
ro tanto ao príncipe meu senhor, qae se me disserem que enterrarme 
viva basta e he necessário pêra jr vullo, e morrer outra vez e mil por 
elle: não averia gosto que me chegasse a isto. Da minha parte estou of- 
ferecida a entregarme a bestas feias, e vos senhor com ella aveis de 
avelo, segundo de cá posso aventalo, porque algumas vezes vejo naquella 
penedia enroscado ao sol iium monstruoso Drago, que das venlãase olhos 
parece lançar fogo, ho qual nunca sae de junto do castelo, antes de con- 
tino ho rodea, e ho que la mais vay, não ho sey, porque nunca ousey 
passar da hern^ida pêra cima, não por recear perder a vida, mas por 
poupala pêra com ella servir e valerão príncipe meu senhor, se he pos- 
sível, lio cavaleyro das armas cristalinas, bem entendeo que se lhe apa- 



DA TAVOLA HEDONDA ii 

rclhava hum grande perigo, mas não lhe soCfreo ho animo escusalo, nem 
a compassiva condição que linlia desconsolar e desamparar a donzela, 
por ho que lhe disse. Eu senhora também não estou menos prompto a 
vos servir no que em mim for, e não quero dilatalo mais que passar esta 
noute em vigília na hermida de sam lorge, nosso padroeyro, e com seu 
favor espero servjrvos á vossa vontade, e ao menos não faltar por a mi- 
nha. Tam contente e alvoroçada íicou Corcira desta determinação, que 
não sabia com que palavras lho encarecese; E sabey que tudo o que ella dis- 
se que sonhara, era assi reahiiente, e a seu tempo se dirá quem he a sa- 
bia que lhe soccorreo em sua desaventura. Ca parece scr, quando ho 
príncipe matou ho condestabre, a magica Circea habitava naquelle ro- 
chedo do ilheo de Pedra Boyá, onde ho condestabre a visitava mais por 
vício que por amor, e entendendo ella ho que elle tinha a Corcira, era 
lhe mortal inimiga por esta causa: e vendo a morte do condestabre, ta- 
manho foy ho seu pesar, que per suas artes fez ho trovão com que os 
espantou, deshí mandou levar ho príncipe assí dormente ao castelo, e 
pondo mortal temor nos corações da mais gente, a fez embarcar sem 
algum acordo de atemoriçado com tal pressa, como se fugiram de ve- 
rem arrunliar a ilha, só a triste e ínnocente Corcira leyxou por trazela 
ali em longo tormento de saudosa desconsolação, a qual como ja ouvis- 
tes acodio outra sabia de mais piadoso respeyto, por o que também te- 
ve, do que adiante avia de suceder, per maneyra que Corcira consolada 
com a esperança em que a pos ho cavaleyro das armas cristalinas, aquela 
tarde e noute que valaram na hermida ho festejou e agasalhou ho melhor 
que pode. E elle encommendandose a Deos de todo coraçãp, e ao már- 
tir seu padroeyro que terçase por elle, como foy menhãa, disse a Cor- 
cira que ho encommendasse em quanto liia servila, índose ao castelo 
da magica que era huma roclia de alta penedia sem mostrar mais que 
liuma porta, vio junto dela enroscado hum fazanhoso Drago, cujos olhos 
pareciam duas tocha, e as venlãas forja de fogo, e dandolhe os rayos do 
sol nas as resprandeciam como se foram de laminas de fino aço, e com 
ho rabo dava hunia volta per cima da porta á maneyra de arco, per mo- 
do que estava ho mais temeroso monstro que podia verse: Ho cavaleiro 
assi ho receou, mas como seu coração não lhe solTría mostrar ponto de 
fraqueza pondo a confiança em Deos que deu ao homem ser superior das 
cousas do mundo foyse a elle com a espada feyta, e seu escudo diante, 
ho Drago vendoho abrio huma boca tam grande que bastara engulilo in- 



78 MlvMOUlAL DUS CAVALEllíOS 

teyro, mas ho cavaleyro deulhe hum golpe rasgado pelo qucyxo debayxo 
q'ie lho cortou cerceo per junto das guelas, ao qual golpe ho Drago se 
inviou a elle de luim salto pêra levalo nas unhas mas com a destinada 
fúria foy per alio, e ho cavaleyro desviandose com muyto acordo, ao 
passar deulhe pola vazia huma estocada p.rorunda que lhe varou nas en- 
tranhas e a rasgou a pclle ao tirar, o que não fez tanto a seu salvo que 
lio Drago ho não alcançasse com ho rabo, dandolhe tal açoute que deu 
com elle hem longe no penedo como Pella de rechaço, e foy tal a pan- 
cada que ho desatinou amoiandolhe as armas no corpo, e assi ficou co- 
mo morio, e se ho Drago atinara com elle que lhe dera outro sempre 
ho acabara de malar, mas vazandose pola estocada coma rayva da morte 
lançouse pola rocha a bayxo, e foy cayrlio mar, onde acabou de mor- 
rer afogado. Coceira que estava na heimida com as suas em oração, sayn- 
do á porta e vendo cayr ho Drago na agoa e yrse ao fundo de que de- 
pois de morto ho lançou a agoa de si na praya ao outro dia, parecen- 
dolhe que ficava ho cavaleyro vencedor, por o que cila da profecia da 
sabia foysse lá com toda sua companhia, e quando vio ho cavaleyro ja- 
zer como morto, cuydou que tal era, e com doridos gritos seus e das 
donzelas foysse a elle, aos quaes ho cavaleyro espertou algum tanto e 
bolho: Corcira vendo isto, tiroulhe ho elmo que tinha amolado na cabe- 
ça, e dandolhe ho ar abrio os olhos. Corcira lhe disse. Animoso cavaley- 
ro esforçay, que quem tem acabado hum feyto tam estranho não lhe deve 
faltar coração pêra lograr a vitoria, deshi apretandolhe a cabeça, alim- 
poulhe ho sangue que lhe sahia pola boca e narizes, e tomoulhe a cabe- 
ça no regaço com muyta brandura, mandando vir agoas, cheyros, e cou- 
sas com que ho esforçasse, nisto passou espaço de hora em que elle 
cobrou todo seu a::onlo e alento, e mais esperto perguntou polo Dra- 
go, Corcira lhe disse que era morto, do que devia ter muylo con- 
tentamento pois só acometera e acabara cousa que hum esquadrão 
não esperara. Elle ja en todo seu vigor e affrontado de estar assi levan- 
touse, e em lançando ho elmo, disse a Corcira. Se ha mais que fazer, 
acabemos Senhora de vos servir, que do Drago se me tratou mal me- 
lhorado estou pois he morto, per modo que se foram a porta do cas- 
telo, a qual acharam fechada de fora com hum grosso ferrolho, ho ca- 
valeyro não tendo maneyra pêra desfechala e fundandose nas forças e na 
bondade da sua boa espada, disse a Corcira: pareceme que he necessá- 
rio aqui fazer como Alexandre ca tanto monta cortar como desfechar: e 



DA TAVOLA lltDU.NDA 79 

dando alguns golpos no fumllio cortoulio, do (|iiii lirando cansado p: r 
ho qucbrantainento do trabalho, assentonse em luiin penedo por des- 
cansar antes que abrise. Mas a porta se abrio logo, e Corcira com toda 
sua companhia se lançou dentro com huiii impetu denodado, o (]ue não 
fez tam prestes que muyto mais não se çarrassem as portas, fcchandose 
dedentro com temeroso estrondo, e juntamente ouvio liunia voz dentro 
que dizia. Cavaleyro das ai'mas cristalinas podeys jrvos nas boas horas, 
e assi vos satisfaça amor os [lensanieiíios como vos remedeasles as sau- 
dades de Corcira. EUa por ora está satisfeita, e a seu tempo se saberá, 
quando chegar a elTeylo a profecia da sabia, e por que esles segredos 
sam dividos a outros cavaleyros que os fados distinaram pêra eííectuar 
seu desenho, não tendes mais que fazer nesta parte. Ho cavaleyro des- 
enganado desta maneyra foysse á hermida, e feyta sua oração, dcceose 
á praya a que vio chegar ho seu esquife que lhe trazia mantimento, e 
poripie sabia que não podiam desembarcar, meteose nele e foyse á ilha 
corcega, onde fazendoso prestes ho mais breve que pode ser embarcouse 
e foy sua viagem de que adiante se dirá. 

Capit XV j. Como yiulcyziduo Miramolim 'Ic Africa dclominon 
conquistar França induzido por Godifcrt. 

Com rezão se deve confessar ter amor seu aposento no j^eylo feme- 
nino, de cujo fruyto se os houiens logram, e as mais das vezes com in- 
gratidão, e quando as vontades sam yguaes scmpie vimos se a necessi- 
dade ho requere altos eíTeylos, quais ora os de Corcira por ho firincipe 
que lhos mereceo, e que agora passem trabalhos deles vieram ao des- 
canso, como da fortuna se vê a bonança, ho que nos testificara el rey 
Sagramor, do qual se elle não descuydou, antes quando mais i)rospero 
e em niayor estado ho vio, tanto parece que se mais desvelou sobre lho 
contrastar. Foy assi que neste tempo tinha ho império Africano a cabeça 
em Tripol de Berbéria, que era enlão a mais nobre e rica cidade de to- 
da a costa de Africa, favorecida de Muleyzidão Miramolim seu nalural. 
o qual a mayor parte do tempo que não linha guerras. resedia nella. e 
este era hum mouro que dizia ser bisneto de Jugurta ho de Numidia, e 
per sua lança se fez tam grande senhor que tinha sobsua obediência trynta 
e tantos reys mouros, muy temido e venerado antreles: e tido por tam 
cavaleyro que cm toda Africa nam se achava outro que ousasse lerlhe lio 



80 MKMORIAL DOS CAVALlilROS 

roslo dereyío: salvo Patlragonte de Suz que era de mayor corpo e mem- 
liros: agigantado e tam soberbo que ao ceo desprezava seu vassalo e pri- 
mo, muyto valido cora elle: ambos de idade de trynla annos muy espe- 
riraeníados na guerra: mayormente Muleyzidão: que logo parece naceo 
pêra capitão : dom especial de que a natureza be muy escassa, o qual 
desejosso de fazer guerra aos Christãos: sabendo ser morto ei rey Artur 
a que todo mundo temia: tratava saber quanta gente podia ajuntar, e 
andando neste cuydado pêra bo mais incitar aqueceo arribar Godifert 
nesta paragem: o qual partido de Bolonha como atras ouvistes, queren- 
do os fados favorecer seu dannado propósito, diíferente porem do que 
elle cuydava: ao segundo dia de sua navegação deu nelle huma tormenta 
desfeyta que desatinou ho mestre e piloto: e foy necessário entregarse 
ao vento, que com sua força os trouxe pelo mar antre a morte e a vida: 
te que os meteo no porto de Tripol, sem os mareantes lhe poderem re- 
sistir, e reconhecendo a terra disseram a Godifert onde estavam, e que 
não avia remédio pêra sayrem dali com a(juelle tempo: Godifert que muy 
sagaz e sabedor era provido em toda fortuna, e sabia muy bem a Ara- 
via, determinou fingirse mercador que vinha com armas pêra vender em 
Tripol : com esta cautela pondose em abitos do officio, mandou lançar 
bum batel em que se meteo e foyse á terra, leyxando os do navio avi- 
sados do que aviam de fazer, mandando a toda a gente darmas que se 
escondesse debayxo da tolda, e sabendo logo que estava ali ho Miramo- 
lim, íicou muyto mais contente, esperando negocear com elle melhor o 
que lhe cumpria: porque logo lhe veyo á memoria cometerlhe partido, 
se visse por si o tempo, e feyías suas seguranças e resalvas : segundo 
costume dos mercadores: por a cidade ser de grande trato, foy ante ho 
Miramolim, de que com sua boa lingoagem facilmente alcançou, não tam 
sois bcença pêra resgatar suas armas: mas muyto favor pêra que qui- 
sesse fazer mais" vezes aquella viagem por a necessidade que delas tinha. 
Godifert tornandose ao navio fez logo hum rico serviço ao JMiram.olim, 
e outro a Padragonte de Suz, que elle soube serlhe tam aeeyto e ho prin- 
cipal de seu conselho e sobre tudo muy querençoso da guerra, e como 
os mouros sam muyto cobiçosos: mayormente das armas de que mais 
carecem e mais pretendem, ganhou com isto muyto os corações destes 
com que pode de seu vagar negocear sem perigo nem afíronta, e sendo 
elle muy pratico e aprazível, ho xMiramolim folgava muyto falar com elle, 
perguiitandolhe por os reys Christãos e seu poderio: do que lhe elle dava 



DA TAVuLA !,i;UUM)A 81 

iarg;i informação: aíTii-inandoilie a pouca resisleiícia (jiic Iciiam contra 
seu grande poder, o que Muleyzidão ouvia com grande gosto, c assi Pa- 
dragonle, com o qual Godiforl tomou estreyla amizade: cm tanta ma- 
neyra que sobre sua fé osou descobrirle (juem era, em espaço de dous 
meses que ali esteve detendose por lio tempo que lhe nam servia, ou 
porque ho elle lambem assi queria e ordenava. Padragofile que outra cou- 
sa nam desejava senão continua guerra, e lhe parecia que a suas forças 
nam avia resistência: Vendo tam bom azo pêra o que pretendia, e em 
parte aíleyçoado a Godifert, sabida sua fortuna, prometeole logo acabar 
com o Miramolim tudo o que elle quisesse, e sem mais detença dando 
conta a Muleyzidão poucas razões bastaram pêra induzilo em se determi- 
nar na empresa que tanto cobiçava, crendo que Alafoma guiara ali Godi- 
fert pêra guia de seu guerreyro propósito, e de muyto contente e alvo- 
roçado, jurou logo por sua ley poelo em elTeito com grande brevidade, 
por o que quis que Godifert se pubricasse aos do conselho en segredo 
(juem era, parecendolhe que assi convidaria mais aos seus folgarem com 
aquella guerra, da que Godifert prometia liberalmente certa vitoi'ia e ri- 
cos despojos, dizendo que lhes daria Bolonha por estalagem em que se- 
riara muyto bem ospedados, e que tinha muitos parentes que seriam por 
elle no ponto que apontasse com gente em França: e com estas e muy 
las outras esperanças vaãs em que os pimba, fazia tudo muito fácil, e a sua 
openião tudo lhe prometia, pois querendo o l\Iiramolim com tuda bre- 
vidade efiectuar a(]uelles desejos que de longe trazia criados em seu {)ey- 
to: vendo como lhe a fortuna oírerecia ho meyo, nam quis perdelo por 
descuydo, por o que chamando hum dia ao conselho: propôs em tal ma- 
neira sua tenção. 

Amigos e vassalos meus: de eu ler per esperiencia comprendido ho 
estremado amor e leal servidão que me lodos tendes, sabeys vos muito 
bem ho muito que vos eu amo e estimo. Daqui vem desvelarme sempre 
sobre vosso proveyto e honra que hey por a minha própria, porém ella 
nam se ganha em caças e danças festejando damas. (;ia desta maneira 
mal ficará ho nosso nome vivo no mundo : per modo que com nosso 
trabalho podemos vencer as leis tiranas da fraca natureza, que nada con- 
sinte permanecer neste segre humano: os exercícios de deleytes sam sem 
fruito e tam danosos que acabandoselhe acaba ludo. Ficando por jxjna 



82 MK.MOniAL DOS CAVAI. KlHOS 

eterno arrependimento e immortal infâmia, logo parere miiy necessário 
fogirmos da vida oiiciosa: ca ho grande Iiilio césar nam vive inda na me- 
moria dos homens por fazer convites e festas. Mas por ser muy solicito 
e diligente em dar soma de batalhas campaes. E Pompeo então se per- 
deo quando quis viver oucioso, por ho qual vos lembro e peço valoro- 
sos capitães, cujos esforçados ânimos tantas vezes esperimentey em árduos 
negócios. Se agora tendes lembrança da vossa e minha honra. E eu devo 
e posso ter esperança de vos pêra em algum tempo, que sejays conten- 
tes de passarmos em Europa com propósito de nam repousarmos te de 
todo destroyrmos esta seyta dos Christãos os nossos immigos, pêra o 
que se nos apresenta poios fados destribuydores da ventura o melhor 
meyo que nunca : e qual nos não soubéramos pedir, no príncipe Godi- 
fert a que de dereyto pertence ho reyno de Ingraterra: que se veyo a 
recolher a nos e pedir nosso soccorro: obrigandose a nosso tributário 
se lhe restituyrmos seu estado, e daqui com sua ajuda e valia espera- 
mos fnzernos universal senhor de toda Christandade, que ao presente 
está em bandos e muy desfeyta com as continuas guerras: que antre si 
tem. E da nossa banda temos ja a cidade Bolonha que he muy forte, em 
que podemos surgir com nossa armada, e sermos bem recebidos do in- 
fante Dagobert capitão delia, que a tem por seu jrmão esperando seu 
socorro, e assi muitos outros senhores parentes seus que se levantarão 
cim fortalezas e cidades por nossa parte. E assi faremos com pouco 
custo e menos perigo huma famosa conquista de muyta honrra e provei- 
to, e nam a outro fim creyo eu que Mafoma aqui guiou ho príncipe Go- 
difert, salvo pêra me espertar, incitandome ao que eu trazya cnydado 
muytos dias ha, nem me pos neste estado que me todos ajudastes ga- 
nhar com assaz trabalho: senão pêra que nisto ho offereça e arrisque em 
seu serviço, ao que eu estou de todo determinado se me vos nam fal- 
tai'des segundo de vos espero. Por tanto dizeyme logo vossa determina- 
ção pêra eu saber o que posso na minha. 

Acabando nisto ho iMiramolim, como ja Godifert tinha por si ho es- 
forçado Padragonte de Suz, e por elle a mayor pai-te dos outros reys e 
senhores mancebos cobiçosos de guerra a hum voto responderam todos, 
que elle era seu senhor: e os podia mandar no que quisesse: E elles nam 
terem outra reprica senam serem muy prestes em lhe obedecer em tu- 
do, quanto mais em empresa tam santa e honrosa como aquella. Com 
t;il resposta ficou ho Miramolim muy satisfeyto o contente, e assentado 



DA TAVOIA RKDONDA 83 

logo ali ho negocio sobre determinação de se executar com toda brevi- 
dade. 

MaiimetBenaiiíeterey deTimez, que seria bomem de setenta annos e 
tinba agastados os cincocnla na guerra, por o que era ávido por estre- 
mado capitão c especial cavaleyro, e de grande conselho, eantre os mou- 
ros tinba seguro credito com que sempre se incrinavam ao seu parecei . 
Disse que bo seu seriaja que pretendiam execução de tal empresa, coufe- 
derarse com Muleyzider rey das Espanbas, e querendo elle ser partici- 
pante na conquista, fazerlbe todo favorável partido. Ca pêra segurar a 
vitoria era gram terço a companbia de tam poderoso rey fazendosc per 
suas terras entrada em França, sua fronleyra, e quiçá folgaria muyto 
Muleyzider de ter tam bom meyo de se vingar dalgumas injurias: e ódios 
antigos muy ceiMos em reynos vezinhos e immigos. Este conselho auto- 
rizado de muytas razões boas. Foy logo per todos approvado e aceyto 
per muyto bom, e bo ÍMiramolim bo approvou falandose logo em quem 
jria com esta embayxada. Padragonte de Suz por respeyto de seu ami- 
go Godifert, se olfereceo pêra isso. E vista sua boa vontade, por a au- 
toridade que tinba, foy eleyto sem mais detença. Per maneira que pas- 
saram muyto poucos dias que nam partisse tam expediente, faz bo gosto 
suas determinações. Godifert nam pouco contente de tal soccedimento a 
seu parecer ho mais próprio quo bo seu desejo podia inventar, quis tam- 
bém dar aviso desta consulta a Dagobert seu jrmão, e mandou Arisbes 
seu criado de que muyto confiava. Per que lhe fazia saber tudo o que 
negoceara muyto alem da sua esperança, por tanto que se esforçasse a 
esperar as mercês da fortuna que lhe tam prospera ventava, e nam desse 
a cidade por mais alTronta em que se visse. Ca cedo lhe soccorreria, e 
antretanto se carteasse com seus parentes e amigos pêra serem por elle 
porque tudo lhes satisfaria quando se visse prospero, e a seu tempo 
diremos o que este messageyro negoceou, o Miramolim deu logo cargo 
a Maumet Ik-naulete de fazer a mais gente que podesse, e nam esqueci- 
do que Alexandre Magno, a que era muyto alíeyçoado, e presomia imi- 
tar suas obras e avantajarse na conquista, antes deemprender a de Ásia, 
foy consultala com a sacerdotisa de Apolo Deifico, quis também conse- 
Iharse com lio sábio Telorique que naiiuelle tempo era hum notável ora- 
go antre os mouros, pêra o que em quanto Maumet Benaulete entendia 
em ajuntar gente: Elle tomando consigo Godifert e Padragonte, e alguns 
outros senhores principaes e de seu gosto, foyse aforrado correndo a 



84 ^lEMOniAI. DOS CAVAIJCinoS 

costa de Berbéria per terra té Cepta, e daqui despacliou Padragonte pêra 
Espanha qiio partio logo, e ao diante oiivireys lio fVuyto de sua jornada, 
Mas primeyro que vos contemos corno o Miramolim se aconselhou com 
Telorique, vos quer a historia dar conhecimento deste sábio de que em 
seu discurso faz muyta menção. 

Como aquelle que foy grande parte pêra per sua sciencia batalhar 
em diversos pensamentos os dous principaes aventureyros delia. Mas 
como diligencias humanas nunca poderam nem podem perverter a ordem 
em que ho sunimo regedor tem abinitio postas as cousas do mundo: Assi 
lio sábio Telorique dado que comprendesse per seu astranho saber as 
intelligencias e discursos dos planetas, e trabalhasse falsificar seus soce- 
dimentos, e contraminar seus eíTeyto, nam somente pordeo ho trabalho 
e custo. Mas ficou por despojo do seu engano, e balisa de muytos que 
intentam emprender vãas ocupações, donde se pode tomar aviso que ho 
mais certo roteyro da vida: he cruzar ante a vontade divina, e obedecer 
ás leys da sua providencia que nos guia sempre ao que nos mais ctim- 
pre, e querer contrastarlhe: he fazer ho emprego em quantas alTronlas 
padecera aquelles que erram a estrada da sua sorte. 

CAPITOLO DEZASETE 

De quem era ho sahio Telorique, e ho principio 
de Florismarte do Laijo. 

Engodo he da fortuna pêra mãos, no principio de seus perjudiciaes 
desenhos favorecelos, e por íim castigalos. Provase per Godifert que deu 
depois a vida em pena de sua jornada. E ho mesmo padeceo Telorique 
morador do orto das Esperidas, de que contam os Poetas, cujas fabulas 
nam carecem da verdadeyra historia, que nos montes Atalantes que co- 
meçam em Tingitania, e se acabam nos desertos do Egipto, no principio 
delles, que ora se diz Almina, junto a Ceyta, avia este orto das Esperi- 
das, que luno quando casou com lupiler fez de arvores que davam ma- 
çaãs douro. E aqui trazia ho coro das Virgens que a serviam neste de 
leytoso sitio, em guarda do qual pos hum Drago filho do Gigante Tifom 
e Cliine, que tinha cem cabeças, e falava per muytas bocas, e sempre 
velava sem dormir tam soo hum momento. Tudo dentro de huma Cerca 
de claro laspe miiyto fermosa, a cuja entrada Atalante fez hum castelo 



DA TAVOLA RF.COXnA 8o 

qne ho tempo destroydor leyxou agora inda por baiisa no cume. E vivia 
uelie por administrador do orto. Senliorearido dali Ioda Africa. Tam sa- 
bedor na arte das estrelias, que diziam delle que sostiiihahoceonaquella 
parte. Soando pois a fama destas maçaãs per- todo ho mando veyo á no- 
ticia dei rey Euristeo, o qual mandou Alcides Thebano que lhe lOSSi por 
ellas. Elle que por lhe obedecer nam perdoava ao ti'abalho próprio nem 
a perigo algum pos se em caminlio, e foy ter com certas Ninfas filhas de 
lupiter, e de Themis, que moravam em humas covas junto do rio Eri- 
diano. As quaes ho avisaram que prendesse per força Nereo, hum dos 
deoses marinhos, denunciador das cousas, e delle saberia onde era o orto 
das Esperidas. Per maneyra que informado de Nereo foy ter com Ata- 
lante, ao qual pedio das maçaãs douro. Atalaníe sinlindose carregado do 
grande peso do ceo que ali sostinha, determinandoenganar Alcides, dis- 
se que as queria levar a Euristeo. Alcides cayndo no engano, tornoulhe 
que era contente. Mas que queria poer na cabeça huma celada pêra po- 
der soster melhor ho peso. Atalante nam lhe pai'ei'.endo ho conlrayi'o: 
como seja muy certo os que mais enganos tratam sei'em mais vendidos 
e enganados consigo, pos as maçaãs em terra, e tomou ho ceo, e assi 
ficou. E Atnlanta sua filha namorandose de Alcides mostroulhe a livraria 
do pay, per que elle alcançou ho estremo da magica : e em pago disto 
lhe deyxou hum lilho que depois socedeo na erança do avô. Ho qual 
sendo nam menos esforçado que seu pay Alcides, vindo ali Pcrsio filho 
de lupiter no cavalo Pegasseo pollo ar voando, coin a cabeça de Medu- 
sa, com (jue converteo Atalante nos montes que ora se dizem Atalantes 
do seu nome, e em luyta lhe ganhou ho cavalo e ho Escudo de Palas 
chamado Égide: com que depois fez famosas aventuras, leyxando a seus 
socessores ho império de Africa. E ao filho mays moço em que sintio 
grande incrinação das letras e claro engenho, e a que elle em estremo 
era aíTeyçoado, deyxou por herdeyro e guarda do orlo das Espeiidas. E 
E deulhe assi mesmo ho escudo Égide, e ho cavalo Pegasseo avendo que lhe 
lerxava ho Senhorio d.o mundo. E deste per decendentes ficaram sempre 
as guaidas do orto grandes mágicos, com a livraria que ficou de Ata- 
lante no castelo. Desta soceçam foy ho sábio Telorique, quese Iheygualou 
na scieiícia, da qual elle sempre usou sem mao zelo, e com menos per- 
juyzo de partes que podia e de proveyto de muylos. E no cavalo Pe- 
gasseo corria todas as partidas do mundo pola terra e polo ar buscan- 
do as ervas, pedras, e todos os mais accessorios pêra sua arte, em que 



80 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

foy em seus tempos lio mayor homem que se nelia vio: salvo Merlim de 
que era muyto familiar, e seiido assi muyto aíTamado e nomeado pelo 
universo, sem íhe saberem a morada. líuns fhe chamavam ho cavaleyro 
ave, outros ho do Hipogrifo, que quer dizer cavalo Grifo, de que dizem 
que ha alguns nos montes Rifeos de Cinthia, que nacem de ajuntamento 
de Egoa e Grifo, e tomam a natureza dambos, tendo por parte do pay as 
com que voam, e da may ho mais. A verdade porem he segundo Foro- 
iieus nosso cronista, que este era ho cavalo Pegasseo, que ja digo, e que 
perdeo ho nome: e ficou lhe ho de Hipogrifo: no quaí indo Telorique ao 
monte Cáucaso colher certas ervas, veyo po!a terra das Sarmatas que 
entam era senhoreada das Almazonas, onde se namorou de Asteria prin- 
cesa delias, e a roubou no seu Pegasseo, trazendoa ao seu orto em que a 
teve perto de dous annos, e aqueceo paririhe hum filho que só três dias 
viveo, do que Telorique muyto triste, passeando aquelle dia ao longo da 
costa, vio sobre a agoa andar hum berço dourado com duas crianças : 
tendo pois logo modo com que ho tomou, achou que eram tão bellas : 
que em Liões de Ilircania famintos poderam achar humanidade. Viase 
logo nelles ho real sangue de que procediam: ho sábio os levou nos bra- 
ços a Asteria, que folgou tanto com elles como se os parira: consolando 
em parte a perda do filho natural, com ho ganho dos adotivos. Assi 
l)arece ho quis a divina providencia, por o que delles determinava. As- 
teria os ci'iou com tanto amor como se foram seus próprios. 

Telorique conjurando hum esprilo dos Coluros, soube per eile que 
a raynha Genebra molher dei rey Artur sintindose prenhe do seu amado 
Lançarote do Lago, recolhida ao mosteyro de Carliompario de hum ven- 
tre hum filho e filha, de cujo parto morreo: a abbadessa os mandava 
criar secretamente a huma ilha. Mas ho temporal deu no navio que os 
levava tam forte, que esguarando veyo dar consigo naquella costa de 
Cepta, em que se quebrou e somio sem escapar pessoa viva, salvo as 
duas innocentes creaturas, que ficaram no berço sobre a agoa, nam sem 
grande mysterio divino. Nisto acalmado ho vento de improviso fez a tar- 
de branda e serena, que pêra seu remédio convidou Telorique querer 
ver a praya por divertir sua payxam : o qual sabido seu nacimento fol- 
gou muito mais com elles, determinando logo com Asteria que os cria- 
va fazelos estremados na cavalaria, visto serem filhos de pay que tam 
singular fora nella. Este fundamento nam lhe saliio vão, antes tam certo 
como a historia ho testifica. Asteiia desque os criou trcs annos, desejosa 



DA TAVOI.A llF.nONDA 87' 

de sua natureza, tanto impoi-tunou Telorique que era ja velho que lio 
obrigou levala no Pegasseo a seu revíio, levando tninhem consigo a me- 
nina Andronia do bgo: a (lual Asleria criou; e dolrinou como natural fi- 
lha: e saliio de tanto estremo nas virtudes e discreção, como na fermo- 
sura, que nam se alTirmam os escriplores qual teve mayor, segundo se 
vera no proseguimento desta grande historia. 

lio menino chamado Florismarte do Lago ficou com Telorique que 
ho criava em nobres exercícios, da maneyra que ho Centauro Cliirom 
criou ho soberbo Archiles, a quem Florismarte muylo pareceo na cava- 
laria e musica: mas nas condições foy mais humano, sendo pois ja man- 
cebo de dezaseys annos, de muy formoso rosto e gentil desposiçam. Tani 
destro nas armas e tão forçoso que raramente achara seu ygual, acha- 
vale Telorique grande estrela na cavalaria: e per seus juyzos alcançou 
que se avia de tornar Christão por amores de hinna Chrislãa. O que se- 
ria pêra grande danno de toda a mourisma, o dcstrttyçain do império 
Africano, que do tempo de Alalante enlam prosperava, ao que Telorique 
querendo atalhar, ordenou o que ouvireys. 

lie ho sitio do orto das Esperidas casi ilha, cercada em redondo do 
mar Alalantico, salvo huma ponta com que se apega na ten'a: ena(|uello 
tempo era hum parque dos Deoses: Ca entorno per toda a fralda estava 
ho chão cuberto de fayas, plátanos, palmeyras de fruyto, e muytas ou- 
tras arvores variadas e tam crecidas, que com suas ramas sempre ver- 
des participavam os ares dantre as nuves, acompanhadas de grande di- 
versidade de aves, que com suaves e continos cantos, celebravam Amor. 
Per antre este estranho arvoredo avia cristalinas fontes, prados verdes 
semeados de muytas flores cheyrosas, e diversas i)oninMs, matos de mur- 
ta, manjaricão, alecrim: e outras ervas de estima, montas de rosas brancas 
e vermelhas: tecidas de jazmim, que cada hum^a delias vos figurava a 
fantesia, guarida de Napeas, e Dryadas. Pois os troncos das carvenosas 
arvores antigas, nenhum avia que de si não prometesse hum Fauno, hum 
Sátiro, e hum Silvano. E sendo tudo naluial, era tam aililicioso que pa- 
recia querer natureza fingir ali arte. A(]ui também se achava lodo gé- 
nero de caça em ab;is(ança, e criase que a deosa Diana com ho casto 
coro das suas Ninfas continuamente per este deleytoso sitio corrend) Iras 
os cervos, semeava per elle ho suave cheyro da Ambrósia, com (jue os 
ares ficavam tam puros que prometiam immoi-talidade: no cume mais 
alto em circulo se fazia ho orto das Es[)eridas que ja dissemos, cercado 



88 MKMORIAL DOS CA VALEIROS 

de miiy polido e fino jaspe : cuja entrada era ho castelo de Atlante em 
que somente entrava ho sábio Telorique a fazer seus conjuros e tra- 
tar com os livros que nelle tinha, todo outro negocit) de sua vida pas- 
sada de dia e noule per onde mais lhe aprazia naquelle estranho par- 
que, Iam temperados eram ali os ares vitais, que tinham ho lugar em 
eterno verão, logrado Telorique com seu filho Florismarte que em 
grande estremo amava, e trazia animoso, pretendendo sempre des- 
vialo de algum pensamcMito que liie podesse sobrevir de mudar, ou fa- 
vorecer aquella vida Florismarte nesta aprazível coutada caçava contino 
matando ussos, liões, onças, e alguns outros animaes monteses com 
tanto animo que parecia ter natural dominio sobrelles. Este era todo seu 
passatempo qjando vacava doutros exercícios domésticos em que Telo- 
rique ho occupava. Ca nenhuma ociosidade lhe prometia, sabendo bem 
quan dannosa he a gente manceba, ao que Florismarte lhe era Iam obe- 
diente que lhe dobrava ho gosto de ho doutrinar, e rnuyto mais ho amor 
que á obediência sempre adquirio. Poys como ho sábio pietendia leio 
seguro ali, por atalhar a seus receyos e fados: encantou lodo aquelle si- 
tio que ninguém podesse entrar, ou sayr: nem aver vista delle sem sua 
vontade. E querendo também ocupar a de Florismarte com ho brando 
amor de que se mais temia que lo roubasse: Porque nada lhe faltasse 
ali, e assi perdesse ho desejo douh-a vida, como que podesse nesta ser 
ho nosso esprito satisfeyto. Determinou darlhe companhia sabendo que 
sem ella carece ho homem de seu próprio gosto e effeyto da humana 
peregrinaçam. Poderá porem ao sábio Telorique lembrarlhe que nem 
com isto sossegou Adão no parayso deleytoso. Ca como parece, somos 
peregrinos, iiam temos sossego em terra alheya. Mas elle nam via mais 
que o que lhe sua vontade apresentava (certo termo do saber humano.) 
Per modo que reynando naquelle tempo em Cepta el rey Tafilete sogeyto 
a Muleyzidão, Miramolim de Africa que também procedia do tronco de 
Atalante. Tinha Taíilete huma filha só per nome Almina: A qual sendo 
em grande estremo fermosa, era no mesmo vaã gloriosa de sua fermo- 
sura, em tanta maneyra, que ciia de si ser mal empregada na terra, e 
dizia muylas vezes que iupiler ou algum dos deoses antigos deviam rou- 
bala: e colocala antre as estrelas. Segundo Calisto, Adriana, e outras: e 
sobre lodos se pubricava na morada de Martes ho das batalhas: e con- 
tino lhe fazia grandes sacrificios. Vivendo pois assi nesta openião, moça 
de quinze annos: Iam discreta quanto convinha a seus allos pensamen- 



DA TAVOLA REDONDA 89 

tos. Telorique que lhos sabia: apareceulhe linma noute em figura de Mar- 
tes. Ca naquelle tempo a idolatria nam tinha antre os mouros menos au- 
toridade que ho seu Alcoram, porque como ho Diabo hepadroevrodam- 
bas as dannadas openiões: Não lhe dava parece, que as tivessem juntas. 
E nellas vivia também Telorique guiado do bruto apettito sostentador de 
taes erros, per maneyra que per suas vaãs razões deuselhe por vencido 
de seus amores, prometendolhe inmorlalidade: se ella quisesse viver com 
elle no orto das Esperidas, onde se recolhia e deleytava muytas vezes 
quando vacava doutras ocupações. Bem lho soube elle razoar; mas muyto 
pouco bastara convencer Almina, que por cumprir com sua presumpção 
nam ouvera estremo que não seguira, natural das mulheres que pêra seu 
gosto tudo acham fácil e fora delle nada lhes arma, e como este era se- 
gundo ho voto de Almina ella se determinou: nam pouco contente no 
que Telorique azou en nume de Marles: per modo que logo ao outro dia 
sem dar parte a alguém de seu propósito. Teve maneyra como se foy 
ao vergel das Esperidas : vestida em luima marlota de seda de Pérsia 
muy rica : os longos e dourados cabelos feytos tranças, e chegando á 
enirada do bí)sque deleytoso, que per arte e vontade de Telorique 
lhe foy claro e fácil, sem algum impedimento entrou por elle : e logo 
ho julgou digno de ser moradiide deoses. Entrando das primoyras flo- 
res que achou : fez huma ci^a que pos na cabeça, deslii foyse de 
seu vagar passeando com estremado contentamento avendose ja por 
natureza ali inmortal, deleytando os olhos na variação que a usava 
de seus brincos. Occupada porem a fantasia no seu desejo e alvoroço 
da vinda de iMartes: passando pois assi de hum vale em outro. A ho- 
ras ja de noa que a calma mostrava alguma força, dado que tempe- 
rada: á sombra de humas altas fayas foy dar de improviso com Floris- 
marte, o qual cansado da caça se lançou a dormir, vestido de huma ca- 
baya de cetim carmcsun, e sobiu-ila linina pelle de liãit: com as mãos 
douradas que lhe alavam no pescoço, e os i)és prateados q;ie ho cin- 
giam pola cintura: calçadas humas espartenhas de lio douro, e prata te- 
cido em lazaria asaz ai-leficiosa, e do teor huma gualteyra de feyçam de 
celada: a que tinha encostada á cabeça, cujos cabelos crespos pareciam 
hum pinho douro: e jazia assi tam belo que ho não podia ser tanto ho 
fermoso Indimião caçador: a quem a casta Delia, segundo sospeyta amou 
em tal estremo (|ue forçada -sua pureza: do celeste orbe dei;ia abcyjalo. 
a tempos que elle tanilioni dormia nas montanhas: pois como almina lu) 



90 MEMOIUAÍ. DOS CAVALEIKOS 

assi vio pareceollie que via Martes. Ca deste se tirara ho retrato da fi- 
gura em que lhe Telorique aparecera:- e contempraudo nelle: a sua alma 
íicou tam vencida do seu amor, que se fora possivel apreseniarsellie ali 
de novo ho próprio Martes, ella sem duvida ho posposera ao que via. 
Tal empressam fez em seu peyto a vista daquelle mancebo que repousava 
anlre as flores não differente delas: por o que sem algum soíTrimento 
nem lembrança de sua honestidade e primor, se foy abraçar com elle, e 
ho liou qual Salmacis ao fermoso filho de Mercúrio nas brandas agoas: 
querendo per ventura representar no mesmo voto. Florismarte acordan- 
do logo e achando se assi liado de tam brandos liames, pregando os olhos 
na bela ymagem tinta sobre branca neve de côr rosada: verdadeyramen- 
te lhe pareceo ser alguma ninfa do bosque, e dado que pêra elle fosse 
nova vista e estranha conversaçam esta ; a natureza mestralhe deu a hora 
sabela tratar pela ley das vontades conformes: dizendolhe amorosa e 
brandamente. Que estrela minha he esta senora tam liberal de boas ven- 
turas que me pos em tal gloria nunca esperada e menos merecida: quem 
me dará palavras com que festeje tam ditoso aquecimento: que sentidos 
avera tam delicados que alcancem sintir hum bem tam estranho: se isto 
he sonho, segundo eu creyo: aos deoses peço que seja qual ho de Epi- 
menides. Mas seja o que for que ninguém me pode ja tirar ho trium- 
fante premio que dá de si hum mome^ desta bemaventurança. Estas e 
muytas outras palavras meygas dizia Florismarte em braços da linda Âl- 
mina: das que ella diria não foy capaz a indigna memoria, pois abranda 
pronunciação delias. Certo não fora menos suave de ouvir. Mas foy pa- 
rece, a sorte só de Florismarte que logrou tudo, e com esta compa- 
nheyra, ficou elle por entnm tam salisfeyto, que lhe pareceo nam aver 
mais que esperar nos cam^tos Ilisios : e per aprazimento de Telorique 
que ho assi ordenou: vivia com elle muyto contente naquelle parque em 
amorosos exercícios: caçando a tempos, outros colhendo flores. Em nfto- 
do que não ciiydo eu que Paris com Enone na montanha Ydea tevcsse 
mais gostos alternados, nem tam conforme conversação : do que depois 
se acharam letras escritas nos troncos das arvores que Floresmarte es- 
crevia em memoria de seus contentamentos: vão glorioso do seu amor, 
e em huma pedra tosca de que manava liuma fonte: as seguintes. 



DA TAVOLA RICDONDA 91 

Nam be pêra caçadores 
iam doce a calma decendo, 
a fonle clara em avendo 
no prado verde com llores. 

Quanto de Almina os amores 
Florismarte nalma sente, 
nas glorias mais que contente, 
e satisfeyto nas dores. 

No que parece asaz claro quam contentes namorados hum do outro, 
elles ali logravam os seus frescos dias, bem descuydados da pouca cer- 
teza e menos perpetuydade das cousas humanas: mayormente a de muyto 
gosto que sempre sam mais vidrentas, as que elles antre si prometiam 
inmortal perseverança: segundo se mostra per outros versos que estavam 
cortados no grosso tronco de huma fava: que crecendo preleniba sobi- 
los nas nuves e diziam. 

Fez amor da sua gloria 
exempro eterno de nos, 
e nos fados tal ley pos 
que fique eterna memoria, 
de mi senhora e de vos. 

De vos que na fermosura 
fostes estremo nacida, 
de mi estremo em ventura 
por lograr cousa tam pura, 
que faz iinmorlal a vida. 

Estas contas lançava Floiismarte com sua amada .Mmiiia. Outi'as po- 
rem tenteavam os fados, per raeyo da sabia Merlindia que lhe fez a con- 
tramiiia de seus pensamentos, ponpie avendo ja hum anuo que elles assi 
viviam conformes e descansados. Neste comenos .se socorreo Celidonia 
ao sábio Telorique como ja ouvistes: mandandole per Tiseria a espada 
Calibornia: que el rey Artur tirou a coluna, e peiílendoa na ultima ba- 
talha de seus dias atras a[)i)nlada a magica Daunia lha lomuii. Trluriquc 



1)2 me:«oiual dos cavalfihos 

e lançados sciisjuyzos alcançou per elles que com aquella espada podia 
ho cavaleyro das armas cristalinas desfazer ho encantamento de Celido- 
nia, se ella lha desse ao tempo que ho armassem cavaleyro. E achando 
lambem que seria ho principal dos da sua idade: e grande desíroidor 
dos mouros. Cuydou em como ho tornaria mouro: por o que ordenou 
fazer tal encantamento com que elle se namorasse de Celidonia no mayor 
estremo damor que ser podesse, e mandou avisar Celidonia que não con- 
cedesse em seu amor, salvo com condição que se fezesse mouro, se que- 
ria ter vida: e ella assi ho votou e cumprio, e nem isto lhe valeo pêra 
fogir seus fados: e esta foy a causa porque Telorique fez que a fegura de 
Celidonia fezesse do cavaleyro das armas cristalinas ho roubo que ouvistes 
em Londres, que per ho discurso da historia se vera de quanta empres- 
são foy. Disto não era sabedor Merlindia, salvo vista a carta que ho ve- 
lho levou. E informada per elle de tudo o que passava: consultando com 
os seus livros. Soube logo te a dannada tenção de Telorique, da que se 
rio muylo como quem sabia bem a inteyreza na fé do seu cavaleyro: Ca 
quem a tem boa nunca a perdeo.e quem a perde nunca a teve. Com tudo 
vendo os trabalhos a que estava offerecido por estes amores: sentida de Te- 
lorique que fora occasião disto: Determinou vingarse delle na mesma moe- 
da (como dizem:) E como Telorique estava mais descuydado por a amo- 
rosa conformidade em que via Âlmina e Florismarte: ho qual vindo hum 
dia so contra hum ribeyro em que tinha feyta huma presa á sombra de 
muytos caslinheyros, que tecidos de verde era a faziam sombria e não 
tratada das alimárias. Aqui se banhava muitas vezes Alniina os seus mem- 
bros de marfim. Aqui lhos conlemprava Florismarte enlevado em seu 
primor. Aqui também ho esperava pai'ece a sua ventura pêra ho melho- 
rar, e crese: que amor benigno estimando a gratidão com que este ama- 
dor tratava suas glorias, o ordenou assi. Mas estes aquecimentos lerey 
eu que só as estrelas: que os causam lhe sabem ho segredo, e a ellas 
oleyxamos por voltar sobre Florismarte: lio qual chegando a este logar 
delle escolhido : vio que huma Ninfa vestida da maneyra que pintam a 
deosa l'alas. Chegando diante cila a esta íVesca estancia, e pondo a lança 
e escudo, tirou a ceiada. Deshi olhando nas claras agoas soltou os seus 
cabelos douro como que os queria emnastrar de novo: cujo resprandor 
dandolhe ho sol: deu nos olhos a Floriaiiarte : ([uq lhe trasandou a al- 
ma, e ficou como embayda, jior o que elle nam podendo soífrersc ou 
desatinado da alta visão, chegousc dizendolhe. 



DA TAVOI.A ItKDU.NDA 93 

Fermosa deydade perdoayme enterrompervos lio vosso gosto e re- 
pouso. Ca ho faço por os salvar de tara grande perigo como lie 
verdesvos nessa agoa. Ella muyto segura voltando sobrelle os claros 
olhos : antes os rayos que lhe logo abrasaram ho peyto de novo, e 
estranho amor? Uespondeolhe: quiçá profetizais sobre vos: ao que elle 
tornou. E nam será pequena dita. Ca ja agora a sorte de Acleão me 
seria gloria nam esperada. A Ninfa como anojada de llic ello parece es- 
torvar sen descanso : cobrio a celada, e tomando suas armas, disse: 
Pesame que me fezestes perder ho gosto deste parque porque vistes 
sem tempo com olhos mortais. Voume a França fazer minha estan- 
cia em algum outro; e darmey á pena da vossa ousadia com me des- 
terrar daqui, e vos também não ficareis sem ella. Com isto correndo a 
lança pregoulhe os peytos sem elle ser parte pêra lhe resistir nem se 
lhe desviar, e partindose desfezselhe em ar per antre as arvores. Floris- 
marte correndo após ella íicou como pasmado, e entendendo que seria 
trabalho vão seguir os ares: com vozes que sabiam da alma lhe bradava: 
Fermosa Ninfa, ou celeste deosa, porque te partes deste deleytoso lo- 
gar: que em te ver assi partir as agoas se turvam, as arvores se secam: 
com tua saudade parece deu ar corrupto per este bosque que com tua 
graciosa presença florecia cm alegre esperança, pêra mim jagora deses- 
peração triste, tomate ao deleytoso sitio: e desterrarmey eu antes com 
ho meu pesar. lá tenho a pena do meu atrevimento, contentate com 
meu danno, não desampares por mim ho parque qne com tua ausência 
está certo perecer. A estas rezões nam dava a ninfa ouvidos como aquella 
que estava dali bem longe, e tudo era fingido e fantástico: qual ho en- 
cantamento que Telorique fez ao cavaleyro das armas cristalinas. Ferido 
pois assi Florismarte da amorosa peçonha que se lhe aposou da alma per 
arte de Merlindia, que se vingou per esta via. Os socedimentos de cada 
hum pola historia se veram, e a dor que Telorique e Almina teveram. 
Florismarte perdida a esperança de palas: que elle creo ser aquella que 
ho ferio: vendose só e nam de novos e amorosos cuydados: lançouse de 
bruços sobre a fresca, erva: com as lagrimas dos seus olhos acrecentan- 
do ou turvando as agoas a que dizia. O puras agoas cristalinas quanta 
rezão tendes de serdes pêra mim turbas: pois fuy causa que em vos mais 
nam se lavem aquelles delicados membros que vos sagravam. Ó aves e 
alimárias deste ja triste bosque: pouco antes ha tam alegre. Fogi de mais 
beberdes nesta fonte cmponçonhada [lera mim, a deydade que vola apu- 



i)| MK.MOltlAI, DOS CAVALEIUOS 

rava I)ebendo nella. Segundo faz ho unicórnio com ho seu corno: eu vola 
espantey. Por tanio se vos quereis vingar do que vos eu mereço, as do 
ceo vinde picarme estes olhos que merecem ser quebrados, vendo tanto 
bem pêra ho ja nam verem: e as da terra rasgay com vossas unhas es- 
tas minhas entranhas. Ca nam pode ser a dor tal que ellas em si nam 
compadeçam mayor tormento. Mas ay triste de mim que digo: a cruel 
morte me fogira agora porque seria piadosa em me visitar, sempre a 
vida sobeja a quem a avorrece. k que se me ordena doje avante serra 
de saudosos prantos e sospiros desesperados: que deste peyto com eter- 
nos gemidos contino offerecerey a aquelle idola da minha alma: principio 
de muy ásperos sentimentos, meyo de meus solícitos cuydados, fim e 
desengano das minhas esperanças tam longas. 

Nestas e muytas outras queyxas se esteve ho mancebo Florismarte 
debatendo bom espaço do dia: quando com elle veyo ho sábio Telorique 
cansado de ho buscar por respeyto de Almina que por elle sospirava 
Florismarte nam pode tanto dissimular seu descontentamento que lhe 
Telorique nam enxergasse a tristeza de que lhe logo perguntou a causa 
com grande eíTicacia. Florismarte que muy discreto era, entendendo se 
lha descobrise que ho desviaria de seu propósito. Diselhe que nam lhe 
podia negar que vivia muyto descontente: porque se via ja em idade de 
ser cavaleyro e seguir as armas, do que conhecia nelle muyto pouco 
fundamento nem lembrança. Per maneyra que altercando ambos nisto, 
pode tanto aífeyção que lhe Telorique linha: que vencido na profia, pro- 
meteo lhe contra sua vontade cedo ho satisfazer naquelle desejo : com 
o que se lhe logo Florismarte mostrou muyto ledo. Dado que ho seu 
coração ho nam fosse: porem com a esperança de poder ir em cata de 
quem. tinha a de sua vida esforçouse pcrahosostentarmuytos dias triste 
por vir a huma hora leda. Desta maneyra soube Merlindia vingarse de 
Telorique : e levou a melhor, porque as cousas fundadas em bom pro- 
pósito tem sempre ho eíTeyto prospero. Disto foy Telorique muytos tem- 
pos innocente. Ca se ho soubera antes que Florismarte sairá do parque 
encanlado: nunca lhe tal prometira, e cuydava que ho tinha tam penho- 
rado com ho amor de Almina que não avia cousa que lha fezesse esque- 
cer: nem ho logar em que elle estevesse: por o que creo que inda que 
seguisse as armas: ella ho chamaria com seus desejos, de maneyra quo 
sempre tornaria per ella, e como isto he tara natural e tam certo, nam 
linha Telorique pouca rczão pêra ho assi cuydar. Ia que nam sabia ho 



D\ TAVOIA REDONDA 95 

novo amor que só consigo tem respeyto, e assi se foram pêra Almina 
por serem presentes em seu parto: a qual acharam cm liuma clioupnna 
de jazmim toldada de madresilva, e açuc^^na em que pario a fermosa 
LauQlida, a quem os fados trasladaram a vingança da may na conquista 
de Filolaus, e muytas outras vitorias devidas a seu hom paiecer, que 
na segunda i)arte desta grande historia se tratam. Florismaite foy assaz 
alegre com este trasunto de sua fegura: e Almina nam pouco soberba 
em lhe de si dar tal fruyto, que cria ser eterno penhor de sua aíTeiçam. 
Mas tendo tudo por si: nada lhe valeo, porque lhe faltou ventura, pois 
Teloiique também nam ficou certo menos contente. E como ho estado 
do contentamento he muyto mais descuydado da fortuna: leve ella com 
esta occasião melhores azos de cumpiir com os fados. 

C(ip. xviij como ho cavaleyro das armas cristalinas se desviou 
de sua jornada, e o que lhe aconteceo. 

Muyto movem exempros, mas se tentearmos a própria vida do [trin- 
cipio de seu discurso íiunca fundamento cursou conforme aos tentos, 
c ho acerto de oje á menhaã he erro, e ho desejado conseguido enfas- 
tia, porque tudo se vay alternando: assi a vigilância de Telorique sobre 
conservar Florismarte em sua ley, a vaydade de Almina, ho promelerse 
huma a outro eterno amor, vay [lor fim parar em assaz dilTerente dis- 
tribuyção dos fados, ponjue na verdade fundamentos viciosos semi)re se 
termam em magoas: e os virtuosos se erram ho elleyto forranse da pena, 
e se sam custosos tem ho emprego bom: segundo foy ho de Floris- 
marte nos amores da sua Palas. E os que se seguem de Florisbel com 
líelfloris pêra cuja mostra vay proseguindo Foroneus sua histtjria: fazen- 
do diversas pontas por cumprir com todos, e no fim vir ao ponto prin- 
cipal que he a guerra mauritania, que ja vedes como ajuntando suas nuves, 
ameaça França com grande tempestade, e assi conta que embarcandose 
ho cavaleyro das armas cristalinas em hum navio pêra liilbao: nam pouco 
desejoso de chegar a dar libertado a quem lhe tinha a sua, praticando 
continuamente nella com Tiresia que lha sabia bem vender de razões. 
Ao segundo dia de sua viagem começoulhes ho tempo refrescar, e foyse 
o mar pouco e pouco encrespando, de maneyra que escurecendose ho 
ceo com nuves prenhes dagoa, antecii)ouse a noute e veyo com grande 
trovoada: relâmpados, c huma grossa chuva. Os marinheyros perderam 



90 MKMOniAL DOS CAVALKinOS 

lodo lento e acordo de sua navegaçam, não sabendo nem podendo aco- 
dir a velas e aparelhos, e assi se senhoreou ho venlo delles que os le- 
vou Ioda a noute per onde quis, te que ja menliaã clara os guiou a cum- 
prir com sua desenfreada fúria: e deu com elles na costa de Menorca: 
que como tem muytos bayxos, foram cair em hum, onde ho navio se 
esteve desfazendo pouco e pouco, e ali pereceo, salvandose porem a 
gente no batel e em tavoas. Ho cavaleyro das armas cristalinas salvo de 
tal fortuna, informado do piloto da lera, disse a lodos que nam se fos- 
sem a povoado pois estavam antre imigos que ho leyxassem jr desco- 
lorir o remédio, e embreíihados esperassem ali seu recado: e com a sua 
donzella e escudeyro foyse ao longo da prava crendo que ella ho guia- 
ria. Eram isto horas de sexta, e ho dia mostravase mais claro e aprazí- 
vel que os passados: e nam andou muyto quando sobre hum penedo que 
se metia no mar cortando a praya, vio que eslava assentado hum velho 
de muy grave presença: incrinando ho roslo sobre a mão como homem 
que linha algum pensamento que ho muyte atromentava: e Iam transpor- 
tado na sua fantesia que nam via ho cavaleyro senam quando ho elle 
salvou: ho velho llie respondeo cortesmente: e pergunlandolhe ho cava- 
leyro por povoado: vio logo nelle que devia ser homem de preço, e dis- 
selhe que aquella era a ilha Menorca: da qual e assi de Formenteyra e 
Inica era senhor cl rey Brandambur de Mayorca : offerecendolhe sobre 
isto ludo bom gasalhads que liie ho cavaleyro folgou aceitar a necessi- 
dade que linha. O velho que era hum mouro de boas letras e bom ca- 
valeyro: chamado Guaristenes, ho levuu enlam a huns nobres edifícios 
que muy perlo estavam, pelo caminho lhe foy ho cavaleyro das armas 
cristalinas dando breve conta de como ali aportara, indo com aquela don- 
zela que ho levava a Espanha; por se combater com ho gigante Argan- 
çom da povoa, e livrar huma princesa de seu poder, pedindolhe se lhe 
poderia dar ali embarcação. Guaristenes lhe prometeo lodo bom avia- 
mento que nelle fosse, nisto chegaram a huns paços grandes que era 
huma casa de folgar dei rey Brandambur: donde sayram alguns donzeys 
recebelos, dando obediência ao velho como a mestre que de lodos era, 
e ayo de hum que antreles vinha: ao qual parecia lodos servirem: man- 
cebo de gentil disposiçam; e de idade le dezasete annos, assaz fermoso 
de roslo, ho qual fez grande gassalhado ao cavaleyro das armas cristali- 
nas : quando lhe Guaristenes disse que era andante, e o como ali viera 
ter, recolhendose pois a casa foy banqueteado abastadamente: deshi su- 



lU TAVtil.A I!L:D()M).\ 97 

bre comer foranse mostrailhe hum bosque e alguns jardins que ali avia 
tudo cercado: em que tinham muytos canos de agoa e outros diversos 
brincos com variação de invenruí^s, e pinturas muyto pêra folgar do ver, 
de que o cavaleyro das armas cristalinas muito gostou se a este tempo 
se podia dizer delle que gostava dealguma cousa fora do seu desejo que 
lio nam desocupava pêra outro gosto, e em quanto isto passava nam es- 
quecido da sua companhia negoceou com que lhes mandou recado que 
se viessem ali. Nisto se passou aquclle dia, e ao outro vio também os 
exercidos daquelles donzeys, que eram lutar, correr, saltar, esgremir, 
tirar barra, e cavalgar. O que faziam com tanta deslreça que ho cavaley- 
ro folgava veios, e o que mais se singularizava antrelles era Florisbel, que 
assi se chamava ho donzel principal (jue ja disse, e soI)re a tarde foram 
montear ussos e porcos dos que avia muytos no bosque, onde ho cava- 
leyro das armas cristalinas por passatempo quis mostrarse quam destro 
era, matando dous ussos com tanta desenvoltura, e de tam fazanhosos 
golpes da lança, e da espada, que foy julgado de Guaristencs por muy 
singular monleyro, pois Florisbel e os outros donzeis não ficaram pouco 
maravilhados. Guaristenes tomando delle grande openião apai'íouho, e 
disselhe. 

Eu senhor cavaleyro vejo em vos tantos sinais de cavaleyrosa virtu- 
de junto com hum alto juyzo que de vossas falas em vos comprendo, 
que desejey communicar com vqsco huma grande fortuna, a (jue queria 
remédio ou conselho, ambos eu presumo achar por o que em meu con- 
ceplo cuydo de vossa pessoa, e quando nam, ao menos ho bom parece- 
rey por muy certo, nam vos seja nojoso ouvirme ho caso se for ho conto 
cumprido que eu ho jrey traçando, tio cavaleyro lhe rcspondeo que fol- 
garia ouvillo, e que lhe dava sua fé pêra tudo o que lhe cumprisse. Gua- 
ristenes dandolhe as graças propôs em tal maneyra. 

Brandambur rey.^das ilhas Ginnesias qne os Gregos dizem, e ca cha- 
mamos Baleares. Por que nellas se achou [)rimeyro a funda, que sam 
Mayorca, esta Menorca Yuiça e Formenlira fez aqui estes paços sobre 
ho mar a quem vem folgar cerlo tempo do anno, em ho governo de seu 
reyno como no preço das armas he hum dos valorosos que se podem 
ver, gastando a mayor parte de sua idade em guerras de qne tem muyta 
esperiencia, alem de ser de muy gentil saber, e letras, e correndo elle 
pode agora aver alguns dezoyto annos em huma nao ho mar da costa de 
Veneza, foy sua ventura que se topou com outra de Chrislãos. om que 



98 MEMORIAL DOS C.\VAL|.:ilíOS 

virihn lium nobro varam filho de Teiitranes duque de Veneza, chamavase 
elle Fidenio, e levava sua rota para Negroponte, de que tinha a capita- 
nia por dez annos per mandado da senhoria cuja a ilha he. Levava con- 
sigo Fidenia dona de muy grande bondade, e estremado parecer, casa- 
dos de pouco, que por ho muyto amor que se tinham nam se poderam 
apartar, avendo ella por menos ho perigo, e emfadaniento do mar que a 
saudade do seu amor, que nada teme nem estima por cumprir com seu 
desejo, e por este respeyto a sua nao levava mais riqueza que armas, e 
com tudo nam tam desapercebida pêra a peleja que essa pouca gente que 
nella hia nam fosse pêra tudo contraste. Brandambur trazia a sua Iam 
fornida de gente guerreyra e de petrechos necessários pêra a guerra na- 
val, como aquelle que andava em tenção de fazer alguma presa. Per 
modo que topandose as nãos, e conhecendose por immigas de defferente 
ley. Abalroaram huma com outra, e deranse com tais vontades como se 
de longos tempos as teveram criadas naquelle ódio, agente dei rey Bran- 
dambur era muyta e muy destra na peleja do mar, por os mais delles 
serem mouros Bizcaynhos muy usados naquelle mester, e com a cobiça 
da presa que viram ser rica, pelejavam com dobrada diligencia. Os ca- 
valeyros de Fidenio inda que eram poucos com a openião de Troyanos, 
porque dizem que elles com Antenor seu capitam fundaram Veneza, nam 
esquecidos da anligua virtude, pelejavam muy esforçadamente dando a 
vitoria por sua. Mas como os muytos fazem perder a força aos poucos, 
foy assi, e muytas vezes ho tenho ouvido a el Hey Brandambur que nun- 
ca vira homens pelejarem com tanto fôlego. Ca sem perderem ho lugar 
que primeyro tomaram, vendiam suas vidas ao mayor preço sendo os 
mouros dez pêra cada Christão, e no cabo da vitoria achouse com sós 
nove cavaleyros, e estes muy feridos: dos Venezeanos nenhum ficou vi- 
vo. Pois Fidenio, oje em dia aínima Brandambur, que nunca topou ca- 
valeyíX) de cujas mãos temesse a morte tam clara como delle. Ca sem 
duvida ho matara se dous jrmãos Bizcaynhos muy estremados cavaley- 
ros ho nam socorreram, com ajuda dos quais o matou, sem nunca se 
lhe querer render, leyxando porem primeyro mortos os dous Bizcaynhos 
a seus pés, alem de muytos outros. Per modo que nam se lhe rendeo a 
nao sem primeyro todos os Venezeanos renderem as vidas a sua fortuna 
que os ali esperava. Brandambur entrando á nao em cabo de tam cus- 
tosa vitoria, achou nella muyta riqueza, e ricas peças de casa, achou 
lambem a desventurada Fidenia com muytas donzelas suas pranteando 



DA TAVOl.A l'<!:it().\nA '.)'.) 

a morlc do seu caro marido, e as próprias vidas olTcrescidas ao cati- 
veyro, e vendose ante Brandambnr, com miiytas lagrimas lhe pedia que 
por piedade a matasse, porque nam se podesse dizer delia que vivera 
hum dia sem lio descanso, e lodo ho bem de sua via. I'or onde ja nam 
tinha que esperar oulra consolação nem outro remédio nem lio queria 
se nam a morte. EUe conhecendo ser ella a senhora de todas, coníola- 
vaa com piadosas palavras, como aquelle cm que nenhuma cousa boa 
falta, e avendo compayxam delia fezlhe muyta lujura e favor, que os afor- 
tunados sempre acham nos reais espritos. Vindose a Mayorca rico e vi- 
torioso foy rescebido com grande festa, augoada com os gemidos das 
cativas. Ca muy certo he nos gostos humanos aver sempre quem os chore: 
Brandambur entrando em seu real paço. a primeyra cousa que disse á 
raynha ííarayna sua moiher, foy apresentarlhe Fidenia pela mão, por a 
melhor peça que trazia daqnelle despojo, pedindolhe que por amor delle 
que a ganhara com tanto perigo de sua pessoa, a tomasse como compa- 
nheyra muy chegada parenta. Ca ella era tal que tudo merecia. A raynha 
assi ho conheceo logo na maneira delia, e a tomou a seu cargo, e fez 
muy perfeytamente o que lhe el rey mandava. Porem Fidenia nem com 
isto perdia as continuas lagrimas dos seus olhos, nem da sua boca sa- 
biam senam saudosos sospiros, e por que vinha prenhe esforçavase a 
viver por conselho da raynha que lambem andava com esperança de novo 
fruyto. E aqueceo que em hum tempo, e em huma mesma ora da terra 
entraram ambas nas dores do [)arlo, a laynlia pnrio hum {jllio ijue era 
ho primogénito, com que el rey e ella receberam estremado coiilen- 
tamento. Fidenia era ja alta noule e nam podia sairse daipielle trabalho. 
Por fim quando a Deos aprouve pariou huma (ilha em esti-emo ferino- 
sa, e sinlindo a mezquinha mollier a alma desejosa de se apartar do fraco 
corpo que lhe tanto trabalho dava, partiose muy contente em se partir 
deste mundo. Lericia criada sua que a servia tomou a mesma nos bi'a- 
ços, e com doiido pranto a liivoíi á rayiilia (pii' inwyU) siiilio a morte 
de Fidenia, e tomando a criança dissellu!, [)ois lua niay nam (juis nossa 
companhia, lu me llcaras em seu logar por íilha inuyto amada e com- 
panheira do meu íillio como a foste no nascimento, ja nisto profiitizando 
o que os fados parece destinaram. VA rey mandou entei'rar Fidenia cuja 
morte sintio muyto, estimando nam pouco ho penhor que lhe de si ley- 
xava, e vendo as crianças ambas Iam conformes no seu bom parecer 
que pareciam Gémeos, pos nome ao lilho Florisbel, e a menina Helílo- 



10) ímemoíual dos C.VVALKMíOS 

ris, porqiio em Indo fossem yguais. C,i te nos nomes quis a sna venlnra 
qne se conformassem, e sendo criados juntamente com ygual resguardo, 
e amor, despois que os tiraram das amas sempre andavam amhos de 
liuns mesmos vestidos, vindo em idade pêra entrarem em conta com a 
doutrina das artes que muito ajudam ao bom natui'al, el rey me deu 
cargo dambos que os doutrinasse de todas as cousas necessárias a no- 
bres espritos, porque a natureza foyme algum tanto liberal na reparti- 
ção das grans com que se os bomens ornam, e eu que pus o meu tra- 
balbo: ca sem eile poucas cousas se alcançam, assi que desejando mos- 
trar minba soficiencia dontrineios com amor e cuydado quanto em mim 
foy, e elles que pêra tudo tem abilidade, e juyzo. Per modo que nem 
a minba diligencia foy vãa nem bo seu tempo perdido: ca sempre eram 
conformes, quanto mais se biam entendendo, tanto mais punbauí bo seu 
gosto na comunicação bum do outro, tomavam por acliaque a matéria 
dos livros que Ibe eu lia, e tanto que estavam sós tratavam outra pra- 
tica, e como bo tempo tudo descobre não me negou este privilegio, que 
por fim sendo elles em idade de doze annos os fuy topar, já nam tanto 
em praticas amorosas como em deleytosos brincos, dandose nas mãos 
meygamenle, e Florisbel tentando beyjar Belíloris que Ibe fogia com bo 
rosto rindose, e se ella se Ibe mostrava affrontada elle logo se refreava 
não querendo anojala: reprendilbes istí) asperamente. Mas era ja tarde, 
tenbo llies eu bum amor de filbos da longa criação, e obediência amo- 
rosa que me elles tem, com que facilmente dava credito a suas promes- 
sas; como sem ellas ouvera alguma bora verdade. Finalmente depois de 
muytas amoestações que Ibe per vezes fiz, porque andava de aviso so- 
breelles, e acolbiaos muylas, vendo que toda via proseguiam em seu 
amor que trazia as rayzes de longe, e nam se lhe podia assi desarrey- 
gar do [)eyto, |)areceome ja necessário dar disso conta a el rey, períi 
que provesse sobre elles como mais fosse sua vontade, e nam me desse 
despois a culpa, que be muy certo dos pays por tii'ala dos filbos em 
que bo amor que os cega lha não consinle, pesoullie a elle grandemen- 
te, e consultando com a raynba, fingio vir folgar a esta illia Menorca 
neslas casas que pêra isso fez, e trouxe consigo bo íillio, pêra que es- 
tando aqui algum tempo Ibe esquecese a sua amada Belíloris, ocupado 
lambem dos exercícios em que vedes, que bo trago. Ca este remédio da 
ausência sem ouciosidade, be a mais certa cura que este mal tem se al- 
guma pode ler, o que posto logo em eííeyto, ja vede o que a fcrmosa 



DA TAVOÍ.A nKDOXDA lOl 

Belíloris sinlii'ia ost(3 npnrlamonlo erilendida a caii^^a da |)aixaiii do Fío- 
risbel sou cu boa testiisninha. Ca ij('!!e Cíimo aqui fomos, sobre não aver 
mais que doze legoas de Mayorca, não avia nem sinal dalgum gosto em 
quanto seu pay a(]ui esteve que Tov liinn mes, com gram trabalho dis- 
simulava Flori:>bel a sua dòr, e ho seu desejo, o que el rey sintindo 
neile, e que requeria grande vagar a cura desta inlirmidade, disse quo 
queria jr trazer a raynha pêra passarem aíjui lio verão, e mandou 
a Florisbel que bo esperasse, e por nenhuma cousa desta vida se par- 
tisse daqui sem recado seu. Partido el rey, Floiãsbel que he discreto logo 
entendeo que era tudo manha pêra ho apartar do seu amor, e como ho 
impossível he ho mais desejado, e ho que menos se pode aver mais se 
cobiça. Tal Florisbel, quanto mais ausente se vio de iíelíloris, tanto mais 
desejava verse presente, que as mais das vezes a falta de huma cousa 
muyto desejada he a lembrança delia. E a abastança faz fastio ou menos 
estima. Per maneyra qne Florisbel quando estouros fazem mayor festa 
recolherse a chorar em huma camará, se vam á caça aparíase só ao mais 
despovoado por cuydar a seu gosto, os seus olhos sempre os levava 
contra Mayorca, sobese a huma alta torre donde l!ie parece que a podo 
divisar e ali está sem lhe lembrar nem comer, se eu nam vou destrailo, ho 
tempo (jue tudo gasta parece que nelle renova a saudade, e desejos da 
sua BeKloris, e ja ho seu amor nam he de menino, mas de mancebo de 
dezaseys annos que elle he, e vay em dezasete, tinha ho peyto tam cria- 
do naquelle amoroso fogo: que bo seu coração he huma viva brasa, do 
que tudo el rey sendo avisado per mim, vay em dons annos que ho de- 
tém com esperança de sua vinda, tenho eu gi-ande dor na minlia alma 
em ho ver assi sogeyto, porque tandjom me magoa a parte de Belfloris 
que criey como a elle, e por suas virtudes, condição, e perfeyções me- 
rece tudo o que por ella se pode sinlir, e tolheselhe ho preço de sua 
pessoa por nacerem cativeyro. Isto chora também p )r ella Florisbel, que 
inda que agora ho vejays com algumas mostras alegres muylos dias ha que 
lhe outro tanto nam vi. Mas trabalha comsigo por vos festejar e agasa- 
lhar ponjue alem de sua real condição he muy iiicrinado aos cavaleyros 
andantes, por o que folga convosco vivendo assaz triste, do que ho eu 
tamb(Mn sou muito, e sabe elle ora mal o que se lhe aparelha ipie vos 
eu senlioi' quero dizer, pêra que lenhamos algum bom conselho sobris- 
to, antes que ho elle sayba. Ca lhe temo algum perigoso estremo, e será 
mal sobre mal. 



■102 .MEMOaiAL DOS CAVALEIROS 

El rcy (la illia Mal la, que csfá anlre Cezilia e Africa, lie jrmâo 
fia raynlia Zarayna, e tem liiima só filha hcrdeyra do reyno, pretende 
casala com Florislxl que cm nenhum modo admite falarenlhe nisso. 
BrandambhT tentou casar Relfloris: mas nunca ho pode acabar com ella, 
per onde se sospeiía que se tem dado fé de eterno amor, por o que in- 
dignado el rcy começou com cila com ameaços, cousa assaz fora do seu 
costume e nobreza, e não parou nisto. Mas a raynha cega de payxão, 
ordent)u malaia, com causa que parecesse justa. Cia doutra maneyra se- 
ria estranha crueldade, e occasião de Florisbel fazer algum desatino, e 
lambem sabendo dei rey Brandambur que he tam justo que por nenhu- 
ma cousa desta vida consentirá fazerse a ninguém sem rezão alguma: 
mayormente a esta orfãa tam acabada em todo primor que criou e 
tcmlhe aífeyção de filha, e vè bem que he sem culpa em querer hum 
amor tam justo. Porem a raynha como molherapassionada, e que pretende 
lio seu gosto e proveyto no casamento da herdeyra de Malta, vencida da 
jra que nellas tem grande dominio, e do interesse porque negam tudo, 
secrelamente tratou contra Beifloris a injusta morte em tal modo. 

Celebra e! rey todos os annos ho dia do seu nacimento com gran- 
des festas e banquete real, a que os principaes de seu reyno vem ser 
l)resentes comendo com elle a huma mesa per seus grãos, vindo pois 
este dia agora faz oyto. A raynha se falou, segundo em segredo tenho 
sabido, com ho veador que mandasse concertar hum pavão com peço- 
nha: ho qual Beifloris apresentaria a mesa ante el rey, e fazendolbe muyla 
mercê com grandes esperanças que sempre lha faria, nam foy muito con- 
vencelo a que ho fezesse, porque também tinha mortal ódio a Beifloris, 
por rezão que pretendendo hum hlho seus amores com ella. Florisbel 
ho fez deslerrarse pêra Turquia, e lá o mataram. Samuntino (que assi 
se chamava ho veador encobria esta magoa, não vendo como a satisfe- 
zesse. Ago!'a achando azo nam foy descuydado, antes se deu Ioda dili- 
gencia. Estando poisei rey em seu banquete a que me eu lambem achey. 
Samuntino mandou ho pavão á raynlia pedindolhe quisesse mandar offe- 
recer a el rey aquella yguaria que era a mellior que tinha, per alguma 
de suas damas que a autorizasse, e lhe desse a graça. A raynha mos- 
trando disso conlenlamento mandou ho pavão a Beifloris que estava re- 
colhida em sua pousada como quem tinha longe dali ho seu gosto, e 
niandouihe hum rico vestido de sua pessoa com que fosse atabiada, ella 
ilida (jue contra sua vontade forçouse \)0v obedecer ao que lhe manda' 



DA TAVOI.A nr.DONOA 103 

vam, e fezse prestes. Passada era grande parle du banquete: quando Sa- 
munlino acompanhado de nuivtos gnalanles veyo pêra a levar e foy lo- 
go, e assi entrou a fermosa Belfloris vestida de lunn brial cremesi com 
inuylos golpes tomados com botões de pedraria: toucada ú turquesa, lai 
que não creo cu que Guanimedes copeyro de lupiler poderá entrar com 
tanla gentileza ante ho Sagrado Concilio dos Deoses: pareceo enti'ar hum 
novo sol occupando geralmente os olhos de quantos eram presentes com 
resprandor de seu bello vulto. Estava el rey de seus vestido reais as- 
sentado á tavoia em hum lugar alio: e hum grão mais abaixo, os no- 
bres do reyno segundo suas dignidades. Belíloris trazia ho pavão an- 
tre dous grandes pratos douro: e chegando ante elle com hum honesto 
despejo e vergonhoso auto. Ficaram as suas alvas faces debuxadas da 
rosada cor com que Febo em seu nacimento fere as imves, tal devia 
apresentarse Ires messageira de luno quando dava suas embayxadas: e 
descobrindo sua iguaria: como vinha ensayda da raynha do que devia 
fazer, disse em voz algum tanto esforçada de huma delicada pronuncia- 
rão. Muyto alto e poderoso senhor: pois minha ventura me foy tam fa- 
vorável que a raynha minha senhora por me fazer esi^ecial mercê me 
escolheo pêra apresentar ante vossa alteza esta ave de luno: a qual por 
respeylo da deosa que pêra seu serviço a escolheo, merece e está em 
posse que em seu nome seja outorgado hum dom a quem em alguma 
mesa a a[)resentar. Eu assi por esta causa ouso pedir que em mi se 
cumpra também ho antigo costume. Acabada sua petição ao maravilhoso 
i'es[irandor dos seus olhos junto com a suave armonia da pura voz to- 
dos se inclinaram com libei^al vontade. El j'ey não recebeo peipiena vãa 
gloria em VL'rse servido de quem no jiiyzo de todos merece ser servida 
de príncipes nam somente, mas dos deoses se ali se acharam : e bem 
via elle quanta rezão ho filho tem de amar huma creatura (jue natureza 
parece que em especial tomou pêra mostra da sua arte, e não sinto quem 
não cobice ho seu amor mais que hum grande império. Neste comenos 
mandou a raynha recado secreto ao trinchante que fezesse csp(M'iencia 
do pavão em alguma cousa: antes (jue tomasse a salva i)or(iue lhe de- 
ram rebate de má sospeyta acerca dellc El rey respondeo a Belfloris. 
Certamente fermosa Belfloris a vossa fermosura ornada de virtuosos cos- 
tumes tudo merece: e tudo se lhe deve: assi ho entendo e assi ho fai'ey 
sempre; mas por cumprir com ho dereyio de pavão, eu vos empenho 
minha real palavra de que te oi'a nunca faltey por ImMu nem por mal 



10'p ' mi:moiual nos cavaleií^os 

que me viesse : que vos dê por marido ho principal varão de meu rey- 
no. Desta palavra poderá ella lomar bom agouro inda que a tenção dei 
rey fosse diflerente: e quiçá ha tomou pêra comsigo, e de muylas pes- 
soas foram notadas. Mas ai cuidava a fortuna. Ella lhe beijou a mão, e 
elle a agasalhou com amor de pay. Deshi feita sua cortesia foyse: levan- 
do após si os olhos de todos, e creyo que também os desejos por a par- 
cialidade que tem ho pavão ficou ante el rey que ho mandou logo cor- 
tar, ho trinchante por ho aviso que tinha: corlandolhe as pernas lan- 
çouas a huma lebre que junto delle estava, nam pouco estimado de 
el rey : Porque nesta terra costumam muyto os senhores trazer es- 
tes cães que lhe sam leais que i)or nenhuma affronla as desampa- 
i-am. lio lebre em as comendo era tal a peçonha com que ho pavão fo- 
ra conceríado ja pêra aquelle lim: que de improviso inchou: e foy hum 
espanto de ver, ho trinchante que nisto tinha ho ollio: tanto que ho vio 
bradou trayção. A sala a tal voz cessou logo de todos os estromentos 
(jue n'ella soavam: voltos em hum geral rumor: porque ho lebre em pou- 
co espaço arrebentou. El rey licou attonito, e mandando dar huma coxa 
de pavão a hum gozo que alli se achou foy visto ho mesmo: certificado 
pois que era peçonha levanlou-se muy agastado: dando com a mesa em 
terra, mandou logo pi^ender ao cozinheyro mór: o veador, e Belfloris, 
de que tomou peor Síjspeyta: parecendo-lhe que ho queria matar porque 
morto eiie tinha certo casar com Florisbel. Esta presunção lhe confir- 
mou mais a lainha desculpando aos outros que nam havia rezão porque 
tal cometessem, pois lhes linha feyto muyta mercê e neiíhum agravo, e 
que Bellloiis por a certeza que titiha do amor de Florisbel cometeria 
tudo por abrir caminho de vir ao seu desejo, isto aíTirmava com myitas 
lagi'imas mostrando sintir muyto porque tocava na \ida dei rey. Maldi- 
zendo ho dia que mandara ciiar Beiíloris pois ho bem que lhe fizera fora 
jK-ra lanio nDJo: gui-aimente iodos se incrinam a esta sospeyla: de modo 
que com as rezões da raynha e ho favor dos parentes que os outros te- 
vei'am : por ({uanto ambos lançava a culpa desamparada donzela como 
parte mais ÍVaca: e se obrigavam fazelo certo: a requerimento delles foy 
pronimciada sentença logo ao outro dia, e desse cada hum seu cavaleyra 
por si : e nelíloris hum ou dous que a defendesse contra ambos os de- 
1'tMisoi'es do veador e cozinheyro mór, e não avendo quem por ella aceytc 
o i)ai'tido e 3 defenda: Sí'ja condenada, ja que não se podem saber ou- 
ti'us ilididos nem prova: brm se vio a sentença ser favoíavcl aos tredos 



DA TAVOLA P.r.DOXDA • 105 

e dada per letrados sobornados liberais do dcreito alheo : porem como 
todos entenderam onde a raynha se incrinava: ou seja que por alguma 
via se crê que a causa de Belfloris deve ser injusta por a còr que tem: 
ou porque dos abatidos tudo foge. Te ora nhum cavaleiro se o pos por 
sua parte que tem hum mes de termo. Os outros deram logo por si 
huns dous filhos de Samuntino cavaleyros de tam grandes corpos que 
parecem gigantes, muy temidos na corte porque so ambos saquearam 
ja Otranto, e sem receberem algum dano se poseram em salvo, e tem 
feyto cousas muy assinadas, com que sam tam soberbos que não esti- 
mam todo mundo. Eu quando vi Belfloris tam desamparada, e tam certo 
o perigo de sua vida, que bem sey que be a própria de Florisbel: como 
a ambos lhe tenho hum amor de [jay. De boa vontade me olTerecera cora 
hum cavaleyro defender a sua parte: mas com dous não me atrevo por- 
que receo fazerlhe peor. Ca ja nam estou em idade pêra de mim preso- 
mir tanto. Vime com este desgosto pêra Florisbel e conteylhe o que 
passava das festas e nam o seu desastre: quando ontem me topastes no 
penedo eslava cuydando nesta desaventura, e se poderia remedearse quer 
a vida de Florisbel: vedes aqui senhor minha necessidade, sobre quem 
queria de vos que me conselhaseis algum meyo se podesse ser de sal- 
var a innocente, e quando nam pêra escusar o desmancho delle. lio ca- 
valeyro das armas christalinas que desejava mostrarse em tais casos, dado 
que o seu cuydado não lhe dava vagar pêra entender nouti'o, parecendo 
lhe que brevemente daria fim a quele negocio a que era Iam necessário 
ho remédio em breve. Disse a Guarislenes que estimava em muito achar 
se em tempo que podesse arriscar a vida em tal íeyto: por tanto o seu 
conselho era tomar a batalha com os dous por Belfloris e esperava ren- 
delos muy a seu salvo: tendo por si a justiça como lhe certiíicava. Gua- 
rislenes vendo seu animoso coração tomou delle giande esperança, e dis- 
selhe que pois assi era, eile seria seu companheyro, tendo por muy certa 
a vitoria em tal companhia, ho cavaleyro das armas cristalinas o (jiiisera 
escusar daquelle trabalho: mas elle em nenhum modo (juis, dizendo que 
eslimai'ia em muy to acabar sua vida em tal caso: pêra descansar e nam 
ver quantos desgostos se llíe aparelhavam, pci' modo que assentado an- 
Ireles que se pailissem ao outro dia sem Florisbel sabei- peiaoiule: vie- 
ranse pêra elle e recolhei'aiise aos paços. 



iOn . MEMOniAL DOS CAVALEIROS 

Cap. xix. Em que se couta n deslroijção dei rcij 
das ilhas Berna fortunadas. 

Diz hum Poeta gintio, leyxa jr a tua nao per onde os ventos ta leva- 
rem, (jne mais amigos sam os deoses do liomem, qne elle mesmo de si. 
Com muyla mais rezão ho podemos dizer os christãos, por cujo amor e 
respeito se anichilou ho verdadeiro Deos de seu próprio e potentíssimo 
ser tomando forma de servo por nosso remédio, por o que em nossas 
empresas lio seguro e certo he entregarlhe ho cuydado, que elle nos 
guiará melhores eíTeytos do que nos podemos escolher, segundo guiou 
lio cavaleyro das armas cristalinas da tempestade pêra mayor gloria sua 
e remédio de Florisbel, cujo talento foy depois de grande logro, mer- 
cês especiaes de sua grandeza. A qual também nunca se esqueceo usar 
com a raynha das ilhas bem afortunadas sobre sua fortuna. A qual ley- 
xamos chorandoa antre el rey Sagramor; e agora lhe cabe proseguirmos 
seu conto de como ho Conde Sevano recolhido nas ilhas Estacadas, ca- 
sou as filhas, Drufianda que era mais velha com dom Tenarife, filho se- 
gundo dei rey de Cizilia, e Liscanor filha segunda com Artur, que des- 
pois foy rey de Bretanha (como ya dissemos). E passados alguns dias 
que ho Conde esteve nas ilhas, leyxounellas Artur governandoas: e daqui 
fez elle muytas entradas em terra de mouros, em quanto seu pay Uter- 
pandragão era vivo, não sabendo que era seu filho, como despois soube 
per huma profecia que lhe Merlim declarou sendo ja rey. E aqui naceo 
a raynha Seleucfa: de cujo parto a may morreo. Dom Tanarife foyse com 
lio Conde a Bretanha, com cuja ajuda fez liuma armada com que foy 
descobrir as ilhas Bemafortunadas, que ja foram de seu pay rey de Ce- 
zilia, e ho gigante Burquimirão que naceo no monte Ethna, e dizia ser 
da geração de Polifcmo, lhas tinha tomadas manhosa etyranamente, pêra 
a qual empresa lambem levou ajuda dei rey de (^ezilia seu jrmão, que 
lhe deo o dereyto que nellas linha se as tomasse. Per modo que levan- 
do huma boa armada, como era ginlil capitão e animoso cavaleyro, ou- 
vese tam esforçadamente com os immigos, inda que duros que os foy 
gastando: e anlrevindo ho favor dalguns naturaes da terra a que des- 
aprazia a sogeyção do gigante, porque raramente se toma província sem 
alguns naturaes serem medianeyi^os: donde os príncipes devem ler muyla 
conta com que ser amados, e não temidos de seus vassalos, que ho amor 
^az doce a sogeyção (jue ho lemoi' não soffre. Assi dom Tenuiife que ti- 



DA TAVOI.A RF.nnXDA 107 

nha condição e aíTabilidade pêra adijucrir corações, com esta grangearia 
adquerindo os das ilhas, foy conquistando, ora hiima, ora outra: ca per 
Iodas sam sete. E Burquirnirão que residia na mayor, vendose dessapos- 
sado das seys, temendo sua total destroyção; e por a esperiencia que 
tinha do esforço de dom Tenarife, com que se dera per vezes sem se 
poderem domar: e muyta vantagem que lhe tinha na gente, assentou ser 
impossivel resistirlhe; por o que antes que de todo ho desbaratasse, dis- 
simuladamente se foy da ilha com a melhor gente e mais fazenda que 
pode, com fundamento de voltar nalgum tempo sobre dom Tenarife, 
porque tinha sete filhos meninos, cuja morte receou e determinou crial- 
os, pêra com elles homens vingar sua injni'ia, e cobrar seu estado: Indo 
pois com determinação de descobrir polo mar alguma ilha em que se 
recolhese, quis a sua boa ventura que em poucos dias navegando via de 
Norte, deu em huma despovoada, distante das Bemaforlunadas de algu- 
mas setenta legoas do Setentrião pêra ho meyo dia, e viníoytode largo, 
de sitio em estremo aprazível, agoas claras, alto arvoredo, e todo gé- 
nero de aves e alimárias. Burquemirão dando grãas a seus deoses que 
ali ho guiaram, satisfeyto da terra apossouse dela: e teve tal manha em 
povoala que em espaço de doze annos, ou pouco mais. fez sete cidades 
ao longo da praya muy populosas e fartes, criando neste tempo os filhos 
em todo exercício guerreyro. Eram elles tais que seguindo a montaria 
bastaram sós pêra matar muitos ussos, liões, e algumas serpentes, que 
no alto da ilha se criavam. E tendo mais idade, sahiam polo mar, e per 
vezes davam em ilhas e povoações da costa de Africa, de que tomavam 
grandes presas, fazendose tam grandes cossayros, que eram senhores do 
mar: e todo este tempo lhe defendia ho p.iy que se desviassem sempre 
das ilhas Bemafortunadas: tnnto por temer ho poder dei rey dom Tena- 
rife, como por descuyibilo de si. Bímu sabiam elles (jue tinha o pay pro- 
pósito de cobralas, e algumas vezes lho cometiam: elle respondialhes que 
lhe leyxassem esse cuydado, ca não podia perdelo em (];janto vivesse: 
mas tudo tinha ho socedimimlo segundo a sazão em que se empreiídia. 
Pois el rey do:n Tanarife certo nam se descuydou dos immigos. porque 
descuydos sam as principaes armas delles, tendo seus portos apercebi- 
dos do necessário pêra sua defen-;ão, gente exercitnda nis armas, vigi- 
lância em tudo o que podia soceder, e vivendo muito conlenle com sua 
molher Drusianda a que queria muylo. Entrando porem na velhice a que 
dilirem lodos os trabalhos, e se sintem dobrado por a natural IVaqueza 



108 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

que a mocidade com tudo pode: tendo só huma filha de estremada fermosu- 
ra, moça do quinze annos, cuydado grande de hum velho pay, lembran- 
dolhe se morrese sem a leyxar com companheiro que a defendesse, que 
ficava offerecida a muita desaventura, prentendia casala. Mas como tam- 
bém ou mais que tudo os casamentos querem sazão, mayormente os dos 
principes que requerem muita conjunçam, porque nam podem fazer o 
que ho tempo nam dá, linha escrito a eh'ey Sagramor sobrisso, e elle o 
trazia a cargo segundo a rezão e parentesco o obrigava. Neste antre tanto 
como nenhum estado do mundo he constante, e a fortuna a ninguém 
perdoa seu dereyto, traziaho parece em espreyta pêra a velhice que abate 
toda openião per meyo de Burquimirão, o qual como Hão que espreyta 
a preá, vivia muy cuydoso e solicito sobre destroylo: estando muito pros- 
pero com as suas sete cidades, que deu por apelido a sua ilha, e sober- 
bo com os sete filhos estremados cavaleyros, e muito rico com os gran- 
des roubos que elles tinham feito: mandou o filho mais vellio a gran 
Bretanha secretamente, na parte montanhesa e despovoada dela, em que 
avia alguns gigantes da sua geração, e outra muita gente bruta e agi- 
gantada, por ser desta casta, per meyo do qual induzio os mais belico- 
sos com a esperança do interesse a folgarem de virem habitar na ilha 
das sete cidades. Como pois Burquimirão teve esta gente achouse tam 
poderoso que perdeo o receio a tudo : por o que assentando em jr so- 
bre dom Tenarife, comunicou sua determinação com os filhos somente: 
e á outra gente disse que queria dar em algum lugar da costa de Es- 
panha, do que todos foram muy contentes com cobiça da preá. Per modo 
que elle se pos no mar com sete galeões muito poderosos, de que eram 
capitães os filhos, e elle em huma poderosa carraca, e outros navios de 
que os gigantes seus parentes hiam por capitães, que faziam numero de 
vinte velas, em que levavam seis mil homens de peleja gente escolhida, 
destemida e cobiçosa pêra cometer esayr com toda empresa. E assi soce- 
deo que soprandolhe tempo bonançoso, embarcando e tomando a principal 
das ilhas casi foy tudo hum: e desembarcaram na que agora chamamos a 
grãa Canária, em que cl Uey dom Tenarife residia, ho qual vendose sal- 
teado de improviso dos immigos, sahio á praya a tolherlhe a desembar- 
cação: mas os sete jrmãos eram tais que não ouve poderselhe resistir, 
por o que el rey se recolheu na cidade como provido e acordado capi- 
tão com toda a mais gente que pode: e fezse forte dentro dos muros, 
com a qual se defendeo esforçadamente alguns dias: nos quacs foy tam 



DA tayola r.f'Do.\r)A 100 

combatido tani conlino que nenhum fôlego lhe davam, ate que com tar- 
buços, maquinas, e outros instrumentos bélicos daquele tempo lhe ar- 
rombaram a porta do mar, per que logo entraram os combatentes, guia- 
dos dos sete jrmãos, que lhe abriram ho caminho per meyo dos defen- 
sores, fazendo estranhas maravilhas. El rey resistindolhe animosamente, 
e como era já velho e as forras não lhe ajudavam ho animo, ali foy morto 
antre seus vassalos, que ho não poderam defender. IJurquiiuirão vindo 
a pos os fillios bradando que ho matassem, ca em sua morte seguravam 
a vitoria, tanto que ho vio derrubado dissclhes que a seguissem, e se 
apossassem dos paços, e defendessem que lhos não roubass(3m, e dessem 
a cidade a saco, que elle queria satisfazer seu ódio e injurias. E man- 
dando atar ho morto rey ao rabo do cavalo em que veyo a este fim: 
desta maneyra deu huma volta á cidade da banda de fora, dizendo: Assi 
vingou Achiles seu Amigo, e eu as minhas affrontas. Os filhos foram 
dando nos immigos sem leyxar homem vivo: e chegando aos paços en- 
trando na sala acharam a raynha Drusianda com todas suas damas cs- 
cabeladas pranteando sua desaventura. A princesa Antilia sua filha com 
huns cabelos que abatiam os fios douro, pranteando ho pay: qual seria 
Policena nas exéquias de Ilector. E assi o en'eito que a ventura da linda 
Troyana mediante amor fez no cruel Achiles, esse mesmo obrou a da 
fermosa Antilia nos bravos peitos dos sete jrmãos, ca naquelle instanie 
foram abrasados do amoroso fogo que domina as feras alimárias e en- 
ternece ho bruto Polifemo: e ficando como assombrados ih súbita visão. 
Iam altamente os senhoreou que â ora se bandearam por parte daquela 
princesa, que se ho pay quisera affrontala não lho soffreram que anies 
não passaram pola morte, por o que de hum consentimento vollaram logo 
sobre a porta defendendo que nenhum immigo entrase, mandando que 
fossem saquear a cidade, que elles tomavam ho paço sobre si. Deshi 
pretendendo cada hum ganhar a vontade de Antilia e juntamente muylo 
ciosos hum do outro, foramse a ella segui-andoa de aífronta, prometen- 
dolhe perder as vidas por defendíila, por tanto que não se desconsolase: 
mas que mandasse em (|ue (jueria ser servida. Anlilia em que não fal- 
tava a discrição que acredita a fermostn-a, levantou os seus fermosos 
olhos, e correndo poios jrmãos de novo os abraçou, e respondendolhcs. 
Se cm vos cavaleiros ha aquela virtude que vossas presenças í)rometem, 
e sem aquela vossa cavalaria fica sem lustre, e o estado misero acha em 
vossos corações aquela conipayxão que nas brutas alimárias não lhe fal- 



110 MKMDIUAL DOS CAVAhEIUOS 

ta, tendes diante ma{erea pêra executar vossa nobreza, tratando benina 
e cortesmente estas fracas e tristes donzelas, e essa desconsolada raynha 
minha may: e quanto a mim sabey certo que ho menos mal que me po- 
deys fazer, antes a melhor obra, he darme a morte que sobre tudo de- 
sejo, per onde podeis julgar que tenho oíTerecida a vida a qualquer af- 
fronta que intentardes fazerme: por tanto se essa vontade que me offe- 
receys he verdadeyra: vede em que quoreys que vola mereça fora de 
me fazerdes força, que esta ninguém he poderoso pêra ma fazer, pois 
ha morte que atalha a tudo, e anles de nada estimaria saber quem sois: 
porque sayba a quem devo. Os sete jrmãos ouvidas suas rezões, como 
amor treçava em meyo, cruzaram os entendimentos, avendo que lhe so- 
bejava rezão em quanto dizia, e que não avia estremo que feito por 
ella não se lhe devesse: crerá isto quem souber o domínio que Cleó- 
patra teve em Casar e António ; mas que pode aver tam. impossível 
edesarazoado que a brandura e delicadeza de huma bella dama não fa- 
ça possível e arrezoado, antes forçado, necessário e devido. E que du- 
reza de diamão não abrandara huma lagrima de alfojar que mana de 
huns fermosos olhos. Per modo que os jrmãos rendidos á gentileza e 
galantaria da princesa Ânlilia, disseranlhe logo quem eram, e que lhe 
davam omenagem de vassalos : prometendoUie cada hum per si traba- 
lhar por ganharlhe a vontade per serviços a risco da vida, por tanlo que 
descansasse, e fezesse conta que não tinha perdido ho estado, mas co- 
brado outro mayor. E que se leyxase estar ali com sua may e donzelas, 
em quanto tratavam de sua segurança. Com isto tornandose todos á 
parte, disse cada hum que mais que queria ser senhor da vontade da 
princesa: que do reyno. E do amor naceo contenda, e altercando assen- 
taram antre si que acabassem com ho pay que fosse logo conquistar as 
outras seys ilhas: e os leyxasse nesta defendela. pois nela estava ho prin- 
cipal; e neste comenos saberiam de Antilia o que determinava de si e 
deles, e (lue na sua escolha, ja que lhe não deviam nem podiam forçar 
a vontade, estivesse a composição antreles. Com esta consulta, sem da- 
rem conta ao pay do amor que os domava, lhe sayram ao encontro an- 
tes que sobisse a escada, vindo elle ja satisfeyto de ter arrastrado el rey 
Tanarife,e lhe disseram que tinham guardado os paços em que estava ho 
melhor e ho mais forte da ilha: E por tanto elle devia logo dar nas outras 
com toda brevidade, e levase consigo ho corpo do rey morto embalsamado, 
que podesse mostrar a seus vassalos: porque com isto lhes quebraria as 



DA TAVOI.A lUCDONDA 1 1 I 

esperanças, e se renderiam e elles sostentariani com pouca genle aquella 
ilha cabeça das outras, porque os que delas fogissem não podessem tornar 
a refazerse e fazer fortes nella. Ho pay que era incrinado, antes manda- 
do do parecer dos filhos, como todos os pays sam: Sem mais conside- 
ração á hora se pos no mar, e recolhendo a gente leyxando só a que os 
fillios quiseram, ao outro dia levantou as velas contra as outras ilhas, 
em que achou pouca resistência, porque a não tem gente sem capitão: 
por o que em espaço de mes, ou pouco menos se fez senhor delias. Neste 
antre tanto, os filhos partido ho pay, apossaranse da ilha, e aquietaram 
tudo, porque nella não avia pessoa que resistisse, por serem mortos 
todos os homens que ho podiam fazer: e a Antilia ieyxaram em seu es- 
tado, sem lhe tocarem em nada com sua may, e donzelas em seus pa- 
ços, que lhes guardavam e velavam mais de si próprios que doutrem. E 
passados vinte dias pediranlhe huma audiência, dizendollie: que queriam 
saber de si mesmos. Ella sayndo á porta de huma camará em que se 
recolhia com sua may, ho mas velho em nome de todos disselhe. lio 
sermos senhora vencidos de vosso amor, de crer he pois se vos deve, 
e nosso soCfrimento e obediência ho lestiíica, alem de nos negarmos a 
natureza de jrmãos, e ho respeyto que nos devemos por volo ter: ca ne- 
nhum de nos ha que não estime mais vosso gosto que a vida de todos. 
E porque em amor menos se compadece parçaria que em reynar, assen- 
tamos antre nos estarmos por vossa escolha, na que he necessário to- 
mardes determinação antes que nosso pay venha, e tome outra contraria 
a nossas vuntades: por tanto da vossa nos fazey certos pêra sabermos 
nossa boa sorte: Antilia ouvida sua declaração pediolhe espaço de três 
dias pêra lhe responder, do que sendo contentes, ella falou com a may: 
dizendollie que se esforçasse a passar com real animo pêra o que a for- 
tuna desse, que ja não podia ser tanto como verem el Rey seu senhor 
morto, arrastado, e levado pêra a negaça de abater os ânimos do seus 
vassalos, e seu estado possoido de seus immigos que as tinham cativas, 
os quaes ella esperava meter em tal zizania e ódio (pie lhe dessj delles 
vingança : dado que fosse á custa da pi'opria vida de que ja não podia 
ter gosto, salvo ho do viiigar a morte de seu pay. A raynlia que lam- 
bem tinha a morte por ho menos mal que podia sintir, respondeollie 
que entregue eslava a toda desaventura, não sabendo porem ho funda- 
mento de Antilia. A qual determinada consigo a padecer por sua pureza 
quando ai não podcsse, vindo ho dia cm que havia de dar resposta aos 



112 MEMO!'.IAL DOS CAVALEIROS 

jrniãos, vesliose miiyto galante como pêra bodas, e sayndo assi á sala 
moslrouselhes tam formosa que os pos em nova admiração e desejos: e 
com Inmi grave e real asseo, disselhes. 

Eli mais quisera passar pola morte que chegar a esta determinação 
que me não tem custado pouco cuydado estes dias; mas pois me he for- 
çado salisfazervos, direy o que entendo e posso, vos fareys o que qui- 
serdes. Eu não sou mais que esta orfãa deserdada e cativa que vedes, 
a fortuna porem se me lii"Ou ho estado, não pode tirarme a natureza. 
A qual dandome este parecer que vos contenta, deume logo a openião 
que ho abona: com que não ha estado, perigo, temor, nem cousa outra 
que me Ibrce dar ho meu amor, salvo por seu justo preço, que he ou- 
tro tal que mo satisfaça, se ho de cada hum de vos he este sem rezão 
seria fazer eu a escolha. Ca fico ja offendendo a quem devo: sortes não 
se compadecem, por que ho poerme em mercado, por onde não sou 
parte pêra me determinar na vontade particular, devendoa geralmente a 
todos. Hum só meyo acho : mas he Iam duro que ey por escusado di- 
zelo. Os jrmãos muy querençosos apertaram que ho dissese, ca tudo ti- 
nham por fácil em seu respeyto. EUa tornoulhes, farey o que me man- 
days, e ja sabeys que ho mayor preço do homem he a cavalaria, e que 
mais obriga toda molher, por o que ao melhor cavaleyro se deve o que 
se mais estima: se pretendeis approvar a verdade do vosso amor e me- 
recelo, combaieivos hum por hum, e o vencedor o seja de tudo: se vos 
isto não arma, tratay de vos satisfazer com me dar a morte que com 
vida não será; tam vencidos e apetitosos estavam os jrmãos que ouve- 
ram por favorável o partido, por o que logo se foram ao campo, pedin- 
dolhe que os visse. E á vista delia se combateo ho mais velho com ho 
seguddo, c mataranse ambos. Mo lerceyro matou ho quarto e quinto. 
Ao qual ho sexto matou, e dandose com ho septinio mataranse. O que 
tudo passou em breve: p )rque se desafiaram desarmados, com desejos 
de tomarem concrusam em sua sorte. Nesta vitoria de Antilia, de que 
ficou tam contente que dera por ella cem vidas, chegou Burquemirão 
ao porto, leyxando nas outras ilhas seus capitães: e sabendo o que passa 
va, não se pode dizer ho seu pesar, ordenando logo vingarse de Antilia 
que estava constante pêra receber martyrio, mandou embalsemar os fi- 
lhos: e atou Antilia ao corpo morto do filho mais velho boca com boca, 
ctc. como se fora vivo sobrela: e passado hum dia e noute, correu assi 
os outros per toda a somana, pêra que se lograssem todos delia. Esta 



DA TAVOLA REDOlVDA 113 

vida lhe ordenou pêra tormento perpetuo dandolhe comer que a sosten- 
tase, metida em huma torre, de que não sabia. Acompanhada somente 
dos mortos. Neste anlretanto teve maneyra a raynha per via de hum pi- 
loto que fogio da illia e veo socorrerse a el rey Sagramor que lhe valeo, 
como adiante se dirá. 

Cap. XX. como Arishes negoceou em Franca, e ho que fes 
ho 3íiramolim com seu recado. 

Casos grandes e diversos acomete a cruel fortuna, de que muytos 
foram e sam queyxosos, e com muyta rezão. De seus males porem tira 
ho piadoso Deos outros bens que elle só entende e nos rastejamos, ca 
entregando as ilhas Bemafortunadas a seus immigos de castigo de cul- 
pas, cujo desconto he a morte dei rey Tanarife pêra conseguir ho premio 
de seu martyrio, e no de Antilia apurar sua virtude : E a grandeza dei 
rey Sagramor em lhe socorrer, innoceníe do que Godifert cramava con- 
trele (como atras se disse.) Ca tinha mandado Arisbes seu criado visitar 
seu jrmão Dagobert, ho qual ydo via de Belonha ho vento ho lançou em 
Bordeos, onde soube como ja Dagobert estava em Putiers por senhor: 
segundo se disse por a nobreza dei rey Sagramor que lhe elle mal agra- 
deceo : o que per elle sabido nam lhe pesou por ter mais breve a jor- 
nada. Ca de Bordeos a Putiers tinha sós cincoenta legoas, que muy pres- 
tes passou, e dando sua carta de crença a Dagobert, deulhe larga coma 
de tudo o que passaram des que partiram de Bolonha: e a determinação 
e fundamento de Godifert e praticadas meudamente as particularidades 
do negocio: resuscilou Dagobert as esperanças que dava por mortas com 
ter ho jrmão por morto e leyxado ho alvoroço e contentamento da sua 
vida, e as mais meudezas certas nestes casos, passemos ao tronco do 
negocio que despachar Dagobert com toda brevidade ho messageyro, es- 
crevendo ao jrmão que lhe parecia bom conselho vir da banda da Es- 
panlia.ho mais breve e secretamente que podesse: porque antes que el 
rey Sagramor acodisse a aquella parte: se tevesse apossados dalguns lu- 
gares de que depois fariam melhor a guerra: e fazendose assi fortes vindo 
Sagramor com ho exercito pêra lhe dar batalha, elle viria em sua con- 
serva com a mais gente que podesse fazer, de aliados e parentes: e ao 
romper delia se passaria ao Miramolim e seria aausa de desbaratar os 
Cristãos: poreiA que pcra isto cuujpiia muylo que viesse Godifert muy 



114 MEMORIAL DOS CAV^VLr.JROS 

secreto no arrnyal que nam soubessem de sna vinda, porque nam se Oa- 
riam delle. Esta era a sustancia de suas cartas qoe largo praticou coííi 
Ârisbes, e mandando avisado do que avia de fazer se ho tomassem e 
conhecessem por espia. Ficou dando ordem per seus secretos meyos ao 
que lhe cumpria pêra aquelles mãos tratos. Ârisbss que era homem de 
recado com dihgencia se pos em Cepta, onde sabia que ho vieram espe- 
rar ho Miramohm e Godifert com grande cuydado e desejo de sua vin- 
da: e SOS três dias avia que chegaram: sabido pois per Godifert o estado 
do jrmão pesoulhe muyto soltar Bolonlia por a fortaleza delia : doutra 
parte parcceoihe melhor aviamento telo em Putiers : avendo por boa a 
maneyra da entrada que lhe elle escrevia, assi que logo se foy com a 
carta e Ârishes ao Miramolim: o qual vistas as razões delia coiu as mais 
que lhe Godifert disse por fazer bom seu negocio: como sabia pouco do 
poder de Sagraraor e de sua gente. Pareceolhe que nam avia mais que 
chegar e tomar toda França: nam sabia parece que custara eila nove an- 
nos de guerra a lulio César ho primeyro ca[)itão Romano que entrou na 
grã Bretanha : em modo que. enfunado nesta falsa esperança. Dali por 
diante deu muita mais pressa a sua passagem mandando vir toda a gente 
de seus reynos a Cepta: pêra que em viudo Padragonte de Suy com res- 
posta de Muleyzider rey das Eepanhas: que elle esperava conforme a s,m 
vontade: a passasse logo a Gil)raltar, alvoroçado com tal esperança foyse 
logo ao outro dia só à entrada do orto das Esperidas pêra praticar sua 
determinação com ho sábio Telorique, se ho elle quisesse ouvir. Ho qual 
como ja sahia de sua vinda sahio recebelo: e feytos seus calas, tomando 
ho pela mão foyse pêra dentro co elle assentar a humas sombras de fayas.- 
onde antes de ho Miramolim falar, Telorique lhe disso. Magnânimo Em- 
perador ministro do grã profeta Mafoma, aumentador de sua seyla, a 
quem lupiter do seu trono tem em olho: Muyto me satisfaz a determi- 
nação da conquista que comigo vens consultar: por que alem de nisso 
cumprires com a obrigação do nosso alcoi'ão: fazes o que se espera de 
tal príncipe : e de muyto louvor he digno todo aquelle que se desvela 
sobre a obr-igação do seu cargo: porem quanto eu mais isto de ti sey, 
tanto mais me pesa desta passagem em França: e folgaria que a escu- 
sasses. Ca lançadas minhas contas acho neste negocio os princípios íiivo- 
raveis por nos, os meyos em parte prósperos, mas o íim muy duvidoso 
e de mãos pronosticos: por onde lio meu conseiho ho mvi liar tb fir^ 
tuna. Ca melhor he não ser conhecido delia que por casos desaslrados 



DA TAVOLA REDONDA 1 lo 

ser sen fnmilinr: com tudo se estas determinado a nam dar por incon- 
venientes, e a teu risco queres proseguir tua conquista. Eu criey liuni 
mancebo filho de Lançarote do Lago, que foy lium dos mais estremados 
cavaleyros de seu tempo, e tal espero eu que este seja. Ca lhe fiz cria- 
çam pêra isso: e elle nada desbota do pay nas mostras que devida. Sei'a 
agora de dezasete annos: desejoso de servir ja armas, e segundo mos- 
tram as estrelas, nelle esta gram parte da tavola ventura e prospeiida- 
ds. Ca em quanto lio teveres por ti nam |)odes ser destroydo : tem os 
fados seus leuíites nas cousas, pêra se destroyr Troya era necessário ser 
presente Achiles que matasse Hactor. Pêra entrares em França cumpre 
que leves contigo este mancebo qne tenho por filho na criaçam e amor. 
Sabe Deos com que dor da minha alma ho solto de mi: mas sua impor- 
tunação nam me leyxa. e ho desejar servir tcão grande príncipe obriga- 
ine. Sofreme porque sey ja dos fados que a quem os seguiam, e a quem 
lhes foge arrastam: nam posso contrariar as estrelas, o que te enconi- 
mendo he, que tenhas nelle grande resguardo nam se faça Christão: por- 
que te cumpre tanto como aos Troyanos guardar ho seu Paladião: eu da 
minha parte velarey sempre sobrele. Muy ledo ficou ho Miramolim deste 
bom meyo que lhe Telorique dava: e fazendo muyto caso do que fazia a 
seu gosto, nenhum fez do que cumpria ao seu perigo: certa cosa de juy- 
zos humanos guiados do seu desejo, e dandolhe por tudo grandes agra- 
decimentos foranse a hum resio perto dali onde Florismarte andava ar- 
mado de ricas armas sobre hum cavalo melado justando com hum grosso 
Sovereyro, e quebrando algumas lanças muy certo onde apontava. Deslii 
saltou delle muy desenvolto, e pêra exercitar sua ligeyreza deo algumas 
voltas per cima do cavalo: outras vezes lançavase na sella com tanta des- 
envoltura que ho Miramolim folgando de velo estava espantado de l.d 
destreza, a sendo estremado cavaleyro: pareceolhe que i)jssava a esjje- 
r;)nra iiumana ser tam manhoso: Pois chegando a Florismarte, que vendo 
seu amo veyo se a elle com muyta cortesia: Telorique lhe disse. Amado 
filho vedes aqui ho nosso Miramolim, (jiie lupiter muyto ama: e ho pro- 
feta Mafoma conslituyo defensor da sua seyta: a qual elle como animoso 
príncipe determina á força da lança semear per todas as terras, e vem 
saber se ho quereys ajudar e seguir nesta sancta em.presa, eu pareceme 
que he muito cedo pêra vossa idade: doutra parte cansame vossa conti- 
nua inportunação, vede vos agora o que determinais, que ho aaior que 
vos lenho e me faz recear vosso trabalho, e ptM-igo, esse mesmo me obri- 



MG MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

ga satisfazervos por vos não ver descontente. Florismnrte a qncm bo sea 
coraçam toilo perigo facia fácil, e ho trabalho descanso, nain sendo ho 
seu desejo outro senam verse em França pêra ter azo, e liberdade de 
buscar lio seu amor, que encobria de Telorique, porque nam lhe ata- 
lhasse per suas artes, foylhe em todo estremo aprazível esia nova, e hu- 
milhandose ante ho Miramolim, pedio aíincadamente que ho não leyxasse 
alli, que elle slntia em si forças e animo que supriam as faltas da idade: 
com que presomia não dar vantagem aos que lha tevessem nos annos, 
ca seu pay Telorique com ho amor (jue lhe linha tudo lhe receava: mas 
sabido estava que filhos muito mimosos pêra nada prestam, e pays af- 
feyçoados ao que nam devem os destruem: e elle lhe prometia servilo 
de maneyra que lhe merecesse a mercê que lhe agora faria em ho tirar 
donde nam tratava senam cora brutos animais, destas palavras ficou ho 
Miramolim muylo satisfeyto, e feslejoulhas com grandes honras, e logo 
ho ali armou cavaleyro, que assi ho quis ho Sábio entregue as magoas 
do seu receyo, deshi disselhe, ora vamos senhor e vereys a esperiencia 
deste cavaleyro, e indose iodos á entrada do parque onde viera receber 
ho Miramolim, chegaram dous cavaleyros andantes, apercebidos pêra 
todo contraste: com sós os seus escudeyros, traziam as armas assaz asi- 
nadas de suas obras: hum deiles de, gentil disposição quanto elle visse 
outro de conforme estatura: o outro de tam grande corpo e membios 
que parecia gigante, os quais feyto seu cala: ho de menor corpo disse 
contra Telorique, que logo em sua idade caã e habito conheceo ser quem 
elles buscavam. Virtuoso sábio, secretario do segredo das estrelas, de 
que temos por noticia que só logras e posues ho vergel das Esperidas: 
nos somos dous cavaleyros mouros servos do amor: que pêra mandado 
da fermosa Gelidonia herdeyra das Espanhas, vay em dous annos que 
partimos delias: pêra lhe levar huma maçaã douro que Hercules daqui 
levou a Eurisleo: scbrisío temos passados longos trabalhos, em íini dos 
quais soubemos que tu as podes dar. Se para isto he necessário pelejar 
com ho Drago das cem bocas, e passar per todo outro mayor perigo: alu- 
do nos ofÍLírecemos com lai que nos concedas este dom per que esperamos 
merecer e valer ante a senhora Celidonia que se aja por servida de nos, 
pêra que assi fiquemos abiltiados a poder esperar a escolha da sua von- 
tade: por tanlo se em ti lis c;queHs humanidade que essas graves e hon- 
radas caãs de si promeiem, danos reinedio, ou meyo delle: e seja a todo 
risco de nossas peásoas. 'felorique ouTida sua demanda de que nam es- 



DA TAVOLA REDONDA i!7 

lava alheyo, respondeolhes, antes senhores cavaleyros que vos salisfaza 
como por fim farey: porque costumo servir aos bons. Sabey que ho pri- 
meyro perigo desta aventura he justardes com este cavaleyro, e quebran- 
do tantas lanças te que hum de vos perca a sela. Qualquer que ho delia 
desaposar: a este será dado acabar a ventura, e sendo caso que vos elle 
ponha em terra em nenhum modo vireys ás espadas. Mas estareys por 
o que vos eu disser, os aventureyros mostraranse satisfeytos do parti- 
do, e lançaram antre si sortes tendo que em quem ella cayse seria pêra 
tudo. Porem socedeolhes longe do que cuydavam : porque sendo ho 
primeyro encontro de Muleyzibar, que era ho de menor corpo, segun- 
do ouvistes que elle e Dricamandro vinham nesta empresa e tinham cor- 
ridos os montes Atalantes passando grandes aventuras que aqui nam se 
contam porque nam fazem á historia, te que acertaram vir a este lugar: 
Esta foy a causa de sua detença tanto tempo que os aviam por mortos, 
e chegando á hora tam asazrtada como Telorique a quis pêra mostra de 
Florismarte: apartarãose hum do outro ho campo necessário, e correram 
encontrarse: quebrando as lanças fermosamente sem receberem nojo. 
Mas logo foram julgados por estremados justadores, muy corrido ficou 
JMuleyzibar do pouco que fez. Florismarte certo nam ficou menos ma- 
goado : e tomando lanças, que ali Telorique ja tinha, tornarãose encon- 
trar com dobrada yra, a que se quebrou com elfts^ndo grandes reve- 
ses nas selas. Ho Miramolim folgava em estremo de os ver, os cavaley- 
ros alfrontados de nam se derrubarem desejosos de averiguar á profia: 
correndo a terceyra lança derãose dos corpos e cavalos de tam furiosa 
força, que ho de Florismarte pos as ancas no chão e esteve perto de 
cayr, elle perdendo a rédea e estribeyras tevesse as comas: porem Mu- 
leyzibar foy a terra e ho cavalo sobrelle. Ho sentimento que de seu de- 
sastre teve ficou ouro e fio com ho gOsto de Dricamandro, que lhe pa- 
receo ficar seguro. Florismarte tornando em si fez sayr ho cavalo por 
diante. Deshi concertandose tomou huma grossa lança. Ca bem entendeo 
que lhe avia de ser Dricamandro mao de mover, nam que ho seu inven- 
cível animo leyxasse de lhe prumeter toda dovidosa vitoria, per modo 
que correrão três lanças sem vantagem, e com grande espanto dos que 
ho viam: na quarta dandose os cavalos dos peytos: ho de Dricamandro 
com ho peso delle junto com ho trabalho do caminho. Abrindo per elíes 
cahio pêra huma ilharga : com lhe levar huma perna debayxu embara- 
çada na estribeyi-a: ho de Flurismarle desmentiu huma co.xa e alornien- 



118 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Utdo da pancada cahio morto arrebentando pelos illiais: porem FIo" 
lisinarte lançouse primeyro delle, e íoy ajudar Dricatriandro antes que 
recebesse danno na perna. Ca era pesado e ho cavalo jazialhe sobre- 
la em peso casi espirando : e hum nem outro podiam bolirse. Ho mou- 
ro com tal ajuda desembaraçado, disse. Cavaleyro confessovos que soys 
bo melbor justador que cuidey ver, farmeis a melbor obra do mun- 
do desenganarme também da espada, por vos servir, lhe tornou Floris- 
marte; tudo farey. Telorique lhes atalhou, dizendo (jue nam consintiria 
tal. Ca primeyro lhe dera ley, e quanto a sua demanda: verdade era que 
elle tinha a seu cargo ho vergel em que Hercules leyxara huma profe- 
cia, que diz, Do fruytO'que guarda ho vigilante Drago ninguém será par- 
ticipante : te que ho filho de Marles e Palas emparelhando sua Gloria 
com a nossa, ganhe com elle ho Amor da invencível Alalanta. E porque 
eu sey, dizia Telorique, que este a que he prometida esta aventura, esta 
l»or nacer inda: Vos desengano e conselho que vos leixeys desse cuyda- 
do: e entray noutro, que ao presente vos mais cumpre pêra ho serviço 
que pi'etendeys de Celidonia que não sey como volo agradecera: Mas ja 
quando vos voltardes per aquella terra de França a achareys em huma 
grande necessidade em que podereys mostrar vossas forças: tanto ou mais 
que nesta aventura se vos valer. Os dous aventureyros acabando de ou- 
vir Telorique íicamn*tnuy tristes por servirem tam mal quem elles de- 
sejavam. E como luiham ho sábio por muy certo orago em suas respos- 
tas deiamse por determinados no que lhes conselhava. Do desengano de 
huma esperança vaã tomando de novo outi'a: certo termo de fundamen- 
tos humanos por o que nam quiseram dilatar mais sua partida. Porque 
ho Miianiolim informado per Telorique de quem eram: estimando muyio 
tal conhecimento: por lhes fazer os devidos gasalhados: deleveos á força 
de importunos rogos oyto dias, e indose logo com elles á cidade. Flo- 
rismarte ficou com Telorique em quanto ho Miramolim se fazia prestes 
pêra sua joiíiada: do que era innocente a namorada Almina: mas ho tem- 
po que tudo descobre nam lhe negou como adiante se traia, e eiilaui 
soube quam ditíerentemente correspondem fuiidameulos vaus a humanos 
desejos. * 



DA TAVOLA nKDtlNDA ii9 

Cap. icTJ. Como Doristão Dautarixa a reqaeriíuenlo de liaina donzela, 

soccorreti ovtra. 

Revolvese tudo (diz ho Filosofo) em contendas, c recrease ho mundo 
delas, como ho cunto ati"as testifica, e quam custoso seja lio friivlo de- 
as, i)rovase no que destas se collieo, outro logro lie o das vertuosas 
empresas: qual lio teve Doristão Dautarixa que resedia neste tempo na 
conquista de Navarra: fazendo sempre obras dignas delle: ganhando cada 
dia iiig.ires e fortalezas aos inimigos, assi por ser siiigular capitão como 
estremado cavaleyro, e tam nomeado era, que autre mouros e Christãos 
Dão se falava senão em suas cousas, porque nenhuma acometia por mais 
perigosa que nam saise com cila vitorioso, e a esta fama aqueceu que 
vindo a Bayona de Burdeos \\}',-áe com Bai-basiandíj governador dela. que 
era tanibem gentil capitão pêra ordenar com elle hunia entrada em Biz- 
caya passeando ambos liuma tarde ao longo da pi"aya : viram contra si 
vir huma donzela com Imm escudeyro que de ledea ti-azia hum cavalo 
fouveyro em estremo fermoso e grande, a donzela emparelhando com 
elles: como ja poios sinais ho conhecia: disse a Doristão. Animoso ca- 
valeyro, eu venho a vus mandado de huma fermosa dama, a qual ouvido 
ho grande nome que de vos soa, vos manda esle ginete em sinal de 
amor, e vos pede por o que deveis á ordem de cavalaria que i'ecebes- 
tes: lhe queirays socorrt^r a huma grande necessidade em que está: o 
que fazendo, ella tem por muy certo lio remédio em vos, e vos fazeys 
o que soys obrigado, no que vos avisa que nenhum inconveniente ou 
escusa dalguma outra ocuparam que podeis ter ponhais. Ca se muy em 
l)reve lhe nam socorreys, ella se queyxara de vos a todo mundo, e crei'a 
que nam soys quem a fama pregoa. Doristão que sempi'e foy muy que- 
rençoso de nam faliar onde Ibsse necessário: niayormente a donzelas, e 
também obrigailo de slsis ameaços. Caso que ho seu cargo lhe pudera 
ser justa desculpa, disseilie ijue se oíferecia a tudo o que delle mandas- 
se, l'] sobre sua pala\ra íitlgaria: não tendo ella nisso peji), (lue lhe dis- 
sesse onde era sua jornada, e pêra que, por comprir com Baibasiando: 
a doírzela lhe tornou. l'alo liey senhor por vos satisfazer, e por também 
vos obrigar mais sabido ho preço desta empresa, e assi começou. 

Avera quarenta annos ponioalmente que na Província de Tornay que 
he huma das (jualro deste reyno de França: aijueceo o que vos senho- 
res contarey ao pé da verdade: porque ho tenho per escriplo: junto do 



i^O MKMOBIAL DOS CAVALEIROS 

rio Licos veyo n sahia Ifranasa edificar huma torre muy forte, a que per 
deniro fez muy artiíiciosos ediíicios: na qual vivendo alguns annos, em 
liuiu costume assaz estranho como logo ouvireys: tendo já huma íilha 
que seria de doze te treze annos de muy gentil parecer e desposiçam, 
acertou que andando ella sobre a tarde com Masllia (que assi se chama- 
va a filha) passeando ao longo do rio, e com ella muylas outras donze- 
las ricamente ataviadas, e de honesta gentileza, chegou ali hum cava- 
leyro andante armado de humas armas pardas semeadas de pampilhos 
douro em íuira cavalo melado, ao que elle com sua boa disposiçam dava 
estremado lusU'o: por o que foy de todas muy notado. Elle como parece 
viu! ia oucioso vendo huma companha tam aprazível: chegouse a partici- 
par de sua conversaçam, e sem porem tirar ho elmo, íalouihes cortes- 
mente e desenvolto, como homem costumado a tratar damas. Ifranasa 
fazendolhe sua cortesia: pergunloulhe se mandava alguma cousa: servir 
vos senhora, disse elle. Se eu posso valer tanto : como os homens sam 
liberais de comprimentos, lhe tornou Ifranasa, e quando vem a cumprir 
suas palavras tomam por galantaria íicarem em falta com as molheres: 
que não he pequena bayxeza. Senhoi'a disse ho cavaleyro, que isso assi 
sejíi, não he tão geral que nam aja alguns que antes lhe faltara a vida que 
faltarem do que dizem, e se de mim quisésseis a esperiencia estimalo 
hia eu em muylo: bofe senhor, respundeo Ifranasa. Se vos quereys que 
vos diga a verdade, logo vos eu occuparia em hum negocio de assaz 
peso e muyto meu gosto: se cresse que vos nam pesasse occuparvos, a 
isto lhe disse elle tam má senhora he a muyta desconíiança, como a su- 
beja contiança, vede o que de lui vos cumpre: e mandayme. Ca vos em- 
penho minha fé que noniiiuna cousa leyxe por tentar inda que me custe 
a vida por vos satisfazer: tirmays isso tanto, tornou ella, que me obri- 
gays deytar mão de vossa palavra : mas queria primeyro vervos ho 
rosto, pêra saber com quem ho hey, ho cavaleyro tirou logo ho elmo, 
dizendo: Ia farey tudo o que quiserdes, e mostrouse tam gentil homem 
que Ifranasa íicou em estremo namorada delle. Pois Masilia sua filha que 
ella [)ola mão trazia, cerlo não ficou livre desta aífeyçam: antes tauí ven- 
cida ijue nunca mais iio perdeo da memoria. Ifianasa fazendo logo muyto 
fundamento do cavaleyro, disselhe que se decesse. Ca de vagar lhe que- 
ria diU' siias contas. Eile ho fez aa hora: lançandose muy desenvolto da 
sela na terra: o que ludo foy pêra encender mais os corações da may e 



DA TAVOLA REDONDA i21 

filha: pois assentandose ellas no verde prado: e ho Cavaleyro em meyo. 
ifranasa começou contaiilie. 

Vos avejs de saber senhor cavaleyro que eu venho da geraç.am da 
sabia Medea á de Colços per longa socesam, e que nam lhe herdase es- 
tado algum, herdeylhe lio saber per descendentes com Imma livraria que 
me delia íicou: com que per minhas arles me vim da terra dos Medos 
que delia se nomeou: habitar nesta regiam que achey do meu gosto: on- 
de ha cincoenta annos que vivo prospera e a meu prazer: e edifiquey 
aquella Fortaleza que vedes tam forte, em que me podesse defender, de 
quem presumisse olíenderme. E lendo acabado este edilicio muy em 
breve, e assentado meu estado. Nam passaram dous meses que per af|ui 
veyo ter Eurimendom de Áustria: e vendome namorouse de mim. Era 
ílle muyto especial Cavaleyro, gentil homem, e coniiado de si: pur o 
que me declarou logo seu desejo. Eu que de sua cavalaria nenhuma es- 
periencia tinha, tendo de mi grande presumpçam: disselhe que seria muy 
contente de lhe dar ho meu amor: mas que mo avia primeyro de me- 
recer: guardando este passo hum anno a todos os cavaleyros que por 
aqui passassem. Fazendolhe confessar per força darmas que eu merecia 
ser amada mais que quantas damas ha no mundo, e sendo caso que al- 
gum viesse que ho vencesse. Este tal ficase em posse de minha pessoa: 
« sostenlaria ho costume té vir outro que ho desapossase. Foy Eurime- 
dom de Áustria contente do partido, e deume logo sua fé de sostentalo 
té á morte, e eu lhe dei ho meu amor. Do que elle muy penhorado: diziame 
depois, que folgava em estremo manter ho passo, porque alem de crer que 
tinha por si a justiça: recebia grande gloria em apurar minha fermosura: 
pêra que soubesse todo mundo que nam avia cavaleyro mais ditoso pois lo- 
grava a mais fermosa mollier delle. Porem a sua fortuna coi'toulhe este gosto 
porque avendo hum anno que elle com muylas glorias sostentava minha 
openiam. Socedeo vir por aijui Guicardes de Landas jrmão dei rey Uter- 
padragom, e teve huma perigossa batalha com Eurimedom, em que ho 
matou: por o que ficou posuidor do preço da contenda, e mantendo ho 
costume como jurara, durou nisto três annos. em fim dos quaes veyo 
Ti'eulcio meyo gigante e estremado cavaleyro que ho dessaposou, vin- 
gando a morte de Eurimedom com lha dar, e ficando com a posse que 
logrou alguns dez annos: fazendo nelles estremadas proezas, e ja me a 
mi parecia que não viria cavaleyro que ho vencesse. Mas parece os tem- 
}>os sempre acodem de idade em idade com ho seu fruyto, per maneyra 



122 MEMOaiAL DOS GAVALEiROS 

que vindo aqui Tantalides filho se{,niii(lo dei vey de Ungiria, teveram hu- 
ma duvidosa batallia, no fim da qual Treulcio íicou no campo morlo, e 
Tantalides senlior da fortaleza e da seritiora delia, porque iicste pus eu 
todo iio meu Amor tão de verdade que vedes aqui ho frnyto: que !)e 
esia filha: traslado do rosto de seu pay, na niorle do qual eu recebi a 
pena deste mao costume, que avendu cinco annos que com elle vivia de- 
sejosa de morrer em seu poder, trouxe a minha desavenlura a este passo 
III) gigante Sicambro que mo pos meyo morlo ní'sí.es braços eni(]ue me 
acabou de espirar, mosirandose me assaz saudoso em tam dura partida: 
e bem tomara eu naquella mingoada hora manterlhe companhia: do qiie- 
nam estive nniy Innge: mas a dor nunca matou. Ca dizem que nam da 
Dr'Os tanto mal ao homem que elle pêra mais nam seja. Sicamijro apos- 
souse logo (Je mi, e avera oyto annos (|i]e me sostenta com maravilli()sas 
mostras úà sua alia cavalaria, e nam cuydo que ja pode vir cavaleyro 
que me tire de sen poder, e confessovos que si eu dos amigos passados 
tive algum contentamento e fuy muylo estimada: deste vivo tamdescon-, 
tente (jue passa ho desgosto por quanto j^razer passey: e quando a(jui 
cliegastes vendo vossa boa disposição tomey alguma esperança no que 
ella de si promete. Mas destjue vi ho rosto (|ue paira vossa pouca idade 
perdi ho íiindamento. Ca vejo que soys mais pêra tratar com damas (]ue 
com Cigaaíes; e por escusar vosso j)erigo que eu ja agora estimaria por 
meu, tenho cuydado hum bom meyo: e he, que dispais as armas, to- 
mando a ca!)a do vosso escuílevro: e direys que sois donzel que vos ides 
armai' cavaleyro á corte de França. Desta, maneyra podereys passar co- 
nosco esta nonte que eu estimai-ey muylo: porque vejaes as obra& do 
meu aposento (]ue vos ham de parecer estranhas. !si.o porem lhe dizia 
ja Ifranasa com mais dannado pro[)osiio do que as palavras mostravan>. 
Ho cavaleyro que estava mais cobiçoso da sua filha que delia: disseliie, 
que elle por nenhum perigo avia de negar sen ser: (pianto mais por te- 
mor de hum giganie, e querendo prosseguir per suas rezões. chegoulhe 
hum recado de Sicambro, que dizia nam ser contente daíjuella convei- 
saçam que elle queria ter com a senhora Ihanasa sem primeyi"0 merece- 
la: [)or tanto que se fezesse prestes: ca ja lhe vinha declarar a iey da 
da terra se a elle nam sabia: após isto viram logo sayr da fortaleza hum 
gigante de muy grande cori)o sobre hum cavalo ruço queymado : qual 
conqtria pêra [loder tracer tal peso. Armado de humas armas emcaiiui- 
das ; e viniia pai-ecendo liuma grande torre, lio cavale}ro respondeo a 



DA TAVOLA REDONDA 123 

quem lhe dava ho recado que de presente lhe daria resposta. E caval- 
gando de hum salto concertouse pêra batalha. Ifranasa que grandemenle 
lhe estava ja affeyçoada, íicou cortada de hum frio temor em ho ver na- 
quella alíronta de que lhe esperava a morte muy certa. Pois a fermosa 
Masilia certo nam sintia menos esta dor: antes muylo mais. Ca tinha ho 
coração tenro e ferido do primeiro amor, que sempre faz mayor empres- 
sam. Ho cavaleyro inda que Sicambro vinha muito pêra ser temido: não 
lhe ouve medo pêra leyxar de ho acometer com seu estremado esforço, 
sem mostrar ponto de covardia: indose a elle muylo seguro. £ chegando 
hum ao outro. Sicambro com huma grossa voz disse : pai'eceme cava- 
leyro que vos prezais de saber conversar damas. Não fora bom une re- 
gistrareis primeiro comigo pêra saberdes se era eu coiítente dessa ami- 
zade que sem mi quereis tomar em minha casa. Uo cavaleyro lhe tor- 
nou. Eu Sicambro não costumo dar desculpas per força: mayormente onde 
uam sinto culpa, se vos olTendi arjui me tendes: que eu também ja que 
me Deos aqui guioa polo que soy obrigado ás armas. Hey de trabalhar 
desfazer ho mao costume que aqui sostenlays, nam porque pretenda ho 
preço da batalha: mas pola sem rezam que se faz aos caminhantes. Nova 
arte he essa: disse Sicambro. Inda eu não vi cavaleyro Iam justificado, 
e pois assi he vejamos como defendeis vossa openião, com isto travaram 
antre si huma mortal peleja, na tim da qual ho cavaleyro ho matou, fi- 
cando elle porem em termos de moi'te, que sem duvida não escapara segun- 
do estava ferido: se lhe ifranasa logo não acodira, e vendo que inda ti- 
nha espirito, muy prestes ho desarmou com todas aquellas donzelas: e 
ho seu escudeyro que ho pranteava, poys os olhos da linda Masilia não 
estavam certo enxutos, padecendo ho seu coraçãi) não luuna mas muylas 
mortes por a que temia .lo cavaleyro, o qual sendo desarmado e aper- 
tadas as feridas tornou algum tanto em si. ífi'anasa ho mandou levar á 
fortaleza nos braços das donzelas, onde laçando em hum rico Icyto: ella 
per sua mão ho curou como quem ho bem sabia, e curado ho leyxou 
que repousasse,""^ namorada delle em grande estremo: mas muylo mais 
ho era a hlha que visto seu gentil parecer e alia cavalaria. Assentou con- 
sigo que a nenhum cavaleyro podia dar seu coração em quem fosse tam- 
bém empregado: e como amor nam sollVe companhia, tinha grandes r'e- 
ceyos que lho tomasse a may: (jue claraunMite confessava terlhe amor, e 
estar muy contente de ho trocar por Sicambro. Porem Masilia jxinha a 
esperança no cavaleyro que a que leria antes: porque lho enteiidei'a no 



424 MEMOIUAL DOS CAVALEIROS 

f. OUÇO espaço qne com ellas praticara: em que nunca tirava os olhos delia 
com mostras de aíTeyçam. líVanasa que logo atentou nisto, assi por ser 
muyto discreta pêra ho entender: como por por a desconfiança que ja 
de si lhe dava a ydade. Fer maneyra que começaram criar antre si aquei- 
les ásperos ceunies e mortais odi(!s, que em tanto estremo atromentam 
as ahnas affeyçoadas que us padecem, e guardar se huma da outra como 
de inimiga. Vencida a natural obrigaçam do amoroso furor. Ca desta 
maneyra tyraniza ho furioso Amor nossos corações, e cada huma em seu 
pensamento passaram aijuella noute era cuydar como segurariam ho seu 
ilesejo. A outro dia como foy menhaã: por irem ver ho Cavaleyro, am- 
bas se levantaram. Ifranasa nam foy contente da deiigeiícia da filha, mas 
soíTreose por aquella vez: e indo visitalo, que ja estava acordado. Elle 
parece nam querendo ser ingrato aa boa vonlura que se lhe offerecia, 
<]uis mostrarse sobejamente a Masilia, que era muyto pêra ser amada: 
ílo que nada aprouve a Ifranasa: que delle nam tirava os olhos, por o 
que líie ({ueria, e por ver onde os incrinava. e quanto se ella disto car- 
regava tanto folgavava Masilia, dandolhe de si humas brandas e cobiço- 
sas mostras de consentimento do seu amor, como aquela que pretendia 
ganhalo, e por nenhum descuydo queria perdelo. O que muytas vezes 
íaz muyto danno ás mulheres, e he causa de serem menos estimadas. 
Ca os homens querem antes delias despreços e esquivanças que sobejos 
favores e desenvolturas. Porem isto nam descobrem elles senam depois 
de satisfeitos, que ao principio sempre mostrain e queriam ser favore- 
<'idos, por isso estava ho cavaleyro muy conlente das esperanças que 
lhe Aiasilia de si dava per honestos geytos. IlVanasa do que delles en- 
tendeo, desque ho curou, foyse com a filha, e tornaiidose depois pêra 
elle ja a nam trouxe consigo. Ho cavaleyro entendendo logo a causa, 
pola segurar nam lhe perguntou por ella. Ifranasa desque praticou com 
elle em civ.isas de sua saúde nam se pode soffrer sem vir ás do seu de- 
sejo: receosa de se a íilha antecipar, e disselhe. 

Em estremo me acho senhor cavaleyro ditosa com vosso conheci- 
mento. E agora vejo quam escassa a fortuna he em nos dar suas boas 
venturas. Ca primeyro nos gasta a mayor parte da idade que nos dè ho 
triunfo de nossos trabalhos. Digo isto porque quem me vos dera por 
lio primeyro cavaleyro que conheci e mmca conhecera outro: a huma 
l)orque ho nam onvera no mundo jiera vos vencer, e a outra que nam 
poderá eu mudar hum amor tain bem empregado: com tudo dou muy- 



DA TAVOI.A nS-DONDA 125 

tas graças a meus fadus. Ca dado que tardaram, sonlhes miiy devedor 
em me guardarem pêra lio derradevi-o qíiartel da vida hum dom tam 
estimado qual pêra mi será vossa companhia que iuda me tomais em 
idade e desposição pêra tudo. Ga nam sou iam velha como per ventura 
parecerey quebrada de muytos trabalhos e desgostos mais que dos an- 
nos, e que diga isto nam cuydo que estou pêra engeytar: mas porque 
vejays quanto estimo cohrarvos por s^Mihor. Doje avanie nam quero que 
se guarde nem guardeis ho costume que sosientaram os passados, por 
vos escusar esse trabalho e perigo. Eu mo dou por satisfeyta convosco, 
em tanta maneyra que vos não trocaria agora por ho fíroprio Hector 
Troyano: por mais que delle digam que era amado das molheres. Ca 
por muy certo tenho que ho soys vos, e com mayor rezão, de mi eu vos 
afllrmo e dou a fé que nimca soube que cousa era Amor como agora. 
Por tanto folgay de mo ter que sobre toda vossa saúde eu porey tal di- 
ligencia que muy cedo sereys são. lio cavaleyro como discreto que era, 
e parece nestes negócios práticos: vio que lhe era necessário nam des- 
enganar Ifranasa, antes diirlh.e miiytas esperanças. Assi polo que cum- 
pria ao remédio de suas feridas, como ao do seu desejo porá com Ala- 
silia, por o que mostrandose alegre do que lhe ella dizia, disselhe. Se- 
nhora he tam grande e Iam sem [)reço a mercê que mercê que me fa- 
zeys, que seria esj)ecia de ingratidão querervos dar agradecimentos per 
palavras, pois nam ha serviços que cheguem a tanto: No que eu porem 
faltar com os que vos espero fazer: soprira vossa nobreza que nam se 
leyxa satisfazer, aceptando de mi os desejos per obras, e porque sou 
mais delias que de boas rezões atalho a quantas podia ter. Remetendo- 
me ao tempo que me nam negara sendo eu são, servirvos como eu po- 
der: ja que nam pode ser segundo queria, e se vos deve. Com tam apra- 
zível resposta ficou Ifranasa tam satisfeyta que nam cuydou aver no ca- 
valeyro outra vontade, parecendolhe que inda lhe durava a sua estrela 
que teli tevera sempre de ser muyto amada de todos seus amigos pas- 
sados. Assi que ficando ir.uyto vaã ^;crioca de si soltouse com elle em 
rauytas palavras de sua vaydade e ccníen lamento, Com isto ho beyjou na 
face com algunias rcegr.icos impróprias ia nólia: por o que liias ho ca- 
valeyro soffria com muySro trabalho po^qr.e G;if;nto as branduras dehu- 
ma dama moça e formosa aprazem e iam 3 huma alma, tanto aborrecem 
e enfastiam os brincos de huma veíhs. mayormente porque querem ser 
nelles sobejas: querendo encobri*' toiu a conversação a faita Ja [)essoa. 



12G MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

e íis cousas lodns nnm tern ho preço salvo em seu tempo e sazão. Ca se 
ho ÍVio IJezemhro desse os frescos pepinos ninguém os estimasia: e se 
em Idlho nacesscm «s castanhas nam se colheriam: lais eram os amores 
de Ifraiiasa ja sem tempo, porque elía seria de cincoenta annos; caso que 
com as agoas e oinfeyções se refrescava em modo que nam parecia de 
quarenta: e como fora em moça muy ferraosa sostentavase inda em al- 
guma openião: mas tudo ja era mostrado que fora. E junto da fillia fi- 
cava taiH acsnhada (jue cegos foram os olhos que ho nam enxergaram: 
e assi os do c;ivaleyro cheos da moça davam pouco vento a velha, a 
qual com a su;*(.'sperança que de suas palavras tomou : muyto leda de 
dia e noiíte trahalhava sobre sua cura, gastando a mayor parte do tem- 
po com elle em convei'saçain de muytas graças e mimos com que cuy- 
dava ol)rigai(j, e poderei ho fazer segundo era discreta e outra Cleópa- 
tra de meyga: se tílle não levera a vontade ocupada: por o que quanto ella 
nia-ís pretendia telo satisfeyto tanto mais o enfadava e lhe aborrecia, por-, 
que naai trazia consigo a tilha. Ca dado que dissimulava nam entender 
sua tenção: pesavalhe e tomavalhe mayor aborrecimento. E algumas ve- 
zes lhe perguntava descuydadamente por ella, aceytando suas desculpas 
sem mostr<u^ que o sintia. iMasilia quanto lhe a may tolhia mais vello : 
tanto lltô dobrava ho amor e desejo: ella Unha suas maneyras furtadas: 
que nunca, falta a vontades namoradas com que lhe dava algumas vistas 
de que eIJe tomava certas esperanças falandose com huma donzela que ho 
servia teve meyo de mandar aJguns recados a Masilia que lhe ella fesle- 
jou com conformes respostas. Ca ho nam queria perder per dilações muy 
certas nas molheres em seus desejos por sua autoridade: E passados dez 
diris em que ho cavaleyro esteve em cama desejoso de ver Masilia con- 
tra o que cuiíí[)ria a saúde de suas feridas levantouse por ter azo de a 
conversar dizendo (jue se enfadava muyto no leyto, e foy causa de não 
sei' tam asinha são pedindo a ifranasa que lhe mostrase seus edifícios 
que são mariivilliosos. Ella folgou fazelo no que foy necessarit) por o não 
escandalizar levar consigo a íilha a seu requerimento. Nisto e noutros 
passatempos que ho cavaleyro sabia requerer a íim da sua conversação 
passaram hum mes: era que Ifranasa todo o seu cuydado era contenta- 
lo. iMas elle nam acabava pouco consigo em dissimular ho aborrecimento 
que lhe tinha: e fazi;jse muito mais fraco e enfermo do que era, por di- 
latar desengaiiala. e ter algum meyo de satisfazer ao amor de Masilia. 
l*ore:ii a may tnizia tam grande olho nella (jue pêra nada lhe dava tem- 



DA TAVOLA nEtíOXDA 1^7 

po: Com tildo como nas molheres nunca faltaram snlijs ardijs. nosfes 
casos se ho dcsojo as obriga: lá levo maneyra com que deu entrada Iiii- 
jna ínoLite ao cavaleyro em liuma casa junto da camará em que dormia 
com a may: E em quanto ella estava ocupada do primeiro sono : ali se 
conversaram os dons namorados a sen prazer, lio espaço qne poderam: 
E socedendolhes como queriam: quiseram continuar ho furto: satisfa- 
zendo seus amorosos desejos : de ([ue íiam lhes tardou muito ho des- 
conto. Ca ííostos illicitos sempre tem ho fim triste, e dobrado desgosto, 
qual per longos annos padece Masilia: Porque das mollieres he sempre 
a peor parte. E foy assi que a terceyra noute Ifranasa os sintio, porque 
acordando achou menos a íilha da cama e chamou por ella : que como 
culpada tornouse e nam lhe acodit) tam prestes como devera pêra lhe 
nam dar de si sospeyta.. Ho cavaleyro foyse logo sem ser visto })era a 
sua camará. Ifranasa sentindo algum rumor e a filha embaraçada da con- 
sciência desimulou que entendia ou temia: e traspassado ho seu coração 
dos mortais ceumes, falandose com os seus livros alcançou logo o que 
nam soube, ou nam pode evitar, e com muytas lagrimas coinprindo com 
íKjueJle acidente; cuydou muyto no que faria por nam se determinar em 
cousa que depois sintisse mais. Mas dado que teve este juyzo ao prin- 
ci[)io nam perseverou te ho fim, porque a venceo sua payxão namorada 
pêra esquecer lodo outro respeyto. Podendo ali ho amor vicioso mais 
que ho natural e devido: tal he semj)re a fraqueza humana em suas de- 
terminações, mayormente em tais negócios: assi que Ifranasa movida 
d.iquella fúria com que iMedea matou os próprios filhos, depois de hum 
longo cuydado nam lhe permetindo grande amor inii' tinha ao cavaley- 
ro, tomar vingança delle por a esperança (jiie nam quis perder de inda 
bo conversar, assentou tomala da filha poi' tii'ar de meyo tal enconve- 
niente. Per maneyra que per suas artes tomando Masilia pela mão a le- 
vou a huma torre e dízendolhe primeyro, filha da minha dor, que por 
minha má ventura pari e criey com tanto mimo, do que me tens dado 
tal gualardão. Ca bem se dirá por ti que criey ho corvo, mas por que 
sejas exempro pêra as tais, eu tomarey de ti a pena nam com coraçam 
de may, antes com entranhas de immiga, no que cuydo que fazo muyto 
o que devo pêra que outras filhas nam sejam ousadas cometer seme- 
Ihaiiles treyções contra suas mães e porque dilatar tal castigo he que- 
bi;ir a;à leys da rezam espera, nisto fechoua dealro da torre, deshi leo 
bum g''a;ide espaço per hum libro, e em cabo de seus cuujuios apare- 



1Í8 MEMOIUAL DOS fiWALEinOS 

ceo hum es!ran,!io encaiitainento que te ora ninguém vio, e nas portas 
da fortaleza somente se leni humas letras que dizem. A vengança de Ifra- 
nasa terá termo, al)rindose estas ao cavaleyro a que os fados em satis- 
façam de seu trabalho tem prometido ho fruito da trayeam: desta ma- 
neyra satisfeita a sabia de sua yra contra a íilba, ao outro dia ardendo 
em fogos do seu amor: e nam repousando com a mc.[;oa que tinha, foy 
se visitar ho cavale3To perguntandolhe per s;:a desposiçam: sem querer 
mostrarsclhe sabedor de nada, elle vendoa tara segura assi lho pareceo 
dado que também cuydou tudo ífranasa querendo vir a sua tençam via 
lhe as feridas que achou muy agravadas, e curandolhas, disse que esta- 
vam saãs. Deshi tomandolhe as mãos antre as suas, proposlhe os seus 
desejos apertadamente, d.zendolhe que nam podia deyxar de crer dell& 
algum ab irrecimenlo. e desamor se lho neguasse. Elle escusavase, por 
mal desposto, e nesta porfia passaram alguns dias te que elle de todo 
são, nenhuma escusa tinha; e nam podendo saber de Masilia por ho- 
grande resguardu que ífranasa nisso trazia, nam se pode em si soffrer 
tanto que llie nam perguntasse por ella : com se lhe queyxar, e dizer 
que nam sabia o porque assi a escondia delle. Ella vencida a paciência, 
disselhe. Senhor cavaleyro nam fazays de mi tam tola que nam entenda 
bem que pretendeys ho amor de minha (ilha, e se eu nam tevera a al- 
ma penhorada do vosso: e das vossas palavras folgara satisfazervos nesta 
parte. Mas como quereys vos dè a outrem o que pêra mim desejo: com- 
privos comigo segundo vos quero, e depois eu vos nom tolherey tudo 
o que mais quiserdes. Bem entendeo parece ho cavaleyro amanha, 
e determinando em se partir dali quis chegar com tudo ao cabo viu- 
gandose no ijue podia : que foy desenganala de si. Ífranasa sintindose 
por muy aífrontada, foyse logo delle, dizendolhe: que nam lhe visse mais 
ho rosto, e que desesperase de m.ais ver ho de Masilia de que se ella 
tinha bem vingado; e que inda mal porque ho grande amor que lhe ti- 
nha a nam leyxava tomar delle outra vlugança, e meteuse muy agastada 
no seu estudo, o cavaleyro aborrecido destas cousas sem mais esperar 
partiose logo, o que nam poderá tòzer livremente como elle cuydava, 
senam fora por Merlim que devia cer seu amigo, e ho salvou das artes 
de ífranasa, que ho queria encanla.' pêra se servir delle a seu pesar: ja 
que lhe nam poderá ganhar a voíííade: pêra o que estando em seus dia- 
bólicos conjui'Os entrou com ella ho sábio Merlim: e tomandoa pelos ca- 
belos com certas palavras que lhe disse a u-utisfoMiiou em huma serpe 



T>\ TAVOLA HKDONBA 129 

Iam teinerosa como a Idra, Deslii, disselhe: assi estarás segundo tuas 
o! 'tas iiieivcein, e ja não cobrarás tua fegura, salvo quando luas vin- 
ganças levefein Qrii com lu» raâ vida, desta mantíyra ficou â viciosa 
líranasa. duido Cirandes geuiiddS ú porta <la torre em que Masilia está 
eiic;ui'a(!a: sem Ja mais se bolir dali nem cesssar de suas queyxas, lio 
s;\\m teylo isto entregou lio casteio com tíxía sua riqueza a Vulleyo meu 
p;!y que era veador da casa de IfVanasa. E disseJhe que estt'vesse de 
posse daquella fazenda, e administrandoa como sua te que a Jinda Lau- 
disea cobrasse sua liberdade, e a minha may llisia disse: qu« dali a nove 
mesi'S acharia em seu leyto liuma menina a que poria ho tai nome qui^ni a 
criasse como íillia de .Masilia sua senhora. Ca por ella seria posta em estado: 
jtnrtido ho sábio e comprido ho termo do tempo que «lie pos: cumprios(i 
também o que elle disse, e minha may visto ho raysterio, e criança ser 
íi mais belia que podia a natureza dar: leyxou de criar a mim que seria 
■de dous aiáuos e criou ha como natural filha, e tudo se neila emprega 
item, he elía agora moça de treze ânuos mas não pode casar te namaver 
cavaleyro que entra na torre erjcantada: ouve alguns que ho quiseram 
í<en\av, e nam poderam: e avra seys meses que chegou ahi Astribonio 
duque de Milão com tal propósito e nam lhe vaJeo: por o que determi- 
nou defeader a todi^ cavaleyro que viesse á prova da aventura: dizendo 
que nam quer ver outrem mais ditoso que elle, e sobristo tem vencidos 
inuytos cavaleyros, porem a iinda Laudisea desejando sua liberdade que 
lhe e!le deu em parle tolhe: e ouvida a fama que de vossa alta cavalaria 
soa: mamlasH socíi-rrer a vos se-Jior com esperança de remédio, por tanto 
pois me destes vossa palavra: e eu vos satistiz no que quisestes saber, 
fiilgay senir a gentil Laudisea, e minha fé vos empenho, que desque 
a virdes folgueys com todo trabalho que por seu respeyto tomardes, e 
<]a sua parte vos peço que partamos logo sem mais detença. Doristão 
Yoltaridose a Barbasiaiido, disse: Ia senlior vedes que me força esta se- 
nhora, e que nam posso í/jyxar de cumprir com ella, no que me manda, 
assi lio e&crevey por me fazer mercê a ei rey Sagra mor, pêra que sayba 
com quanta causa faço esta jornada, a minha volta será ho mais em breve 
que me for possível, anti-e tanto vos com vossos filhos sostentay ho meu 
cargo : (jue era volo entregar vou bem descansado. Barbasiando depois 
dalgumas rezões, vendo (|ue ho nam podia desviar de sua determina- 
çam, disselhe que ho faria como ho elle ordenava, e assi ho fez. Ca par- 
tindose logo Uorislão, elle escreveo a el rey Sagramor que lhe pesou 

9 



130 MRMORIAL nos CAVAI.F.moS 

muyto, e mostronse mny qneyxoso de Doristão, por o qiip mnnfloii a 
Barbasiando: que fosse geral da frontaria, e a repartisse pei- seus lilhos 
e vindo Doristão nain lha etUregasse: mas ho tempo que ordena a seu 
prazer trouxe tudo a bom fim. 

Capit xxvij. Do que oqueceo aos Gémeos que parfiram de Londres, 
por se verem com ho cavdlcyro das armas crisluhnas. 

Tam desaforado lie ho amor sensual que abale ho natural dos filhos 
segundo vimos em Kranasa e convertese em crueza, por o que quanto 
a vertuosa Fêmea he digna de estima, tanto a devasa se deve iviííir, 
porque de sua conversação sempre se colheo afiVonta, (jual a cruel IlVa- 
nasa pretendeo fazer a seu amigo, e oulra peor socedeo a Hiansidel de 
Enanles, e dom Brisam de Lorges (que ja dissemos como partiram da 
corte de Londies por conhecerem ho cavaleii'0 das armas cristalinas) co- 
mo lhes elle levava casi hum dia de ventagem de jornada embarcou pri- 
meyro que elles chegassem ao porto de cabo dobre. Pois sabendo elles 
ho como ali embarcara, meteranse também em hum navio (jlie os lançou 
a seu pesar em Greda no porto de Gu.ilipoli, que he no estreyto do 
Ilelesponto, a que Xerxes quis fazer ponte: e enfadados do mar sairanse 
em terra com determinação de correrem toda a província, em que pas- 
saram per grandes aventuras, fazendo muylas cousas dignas de inmortal 
memoria, e a esta causa eram tam nomeados que per todos os reynos 
Gregos, nam se falava senam nos Gémeos: e tinham este apelido alem 
de ho serem, poi-que traziam ambos humas armas quarleadas de roxo, 
e pardo, com estrelas de ouro, nos escudos em campo celeste pinta<lo 
ho sino Geminis de Polus e Castor: filhos de lupiter e Leda, que em 
seu tempo (juando antiguamente começou a Ordem de cavalaria: foram 
também especiais cavaleyros e tidos por inmorlais: aos quais elles pre- 
tendiam parecer e assi eram conformes nas vontades e ubras, fazendo 
muylas muy notaves, antre as quais conta Foroneus que andando elles 
em Tesalia ao pé do alto monte Olimpo, que dizem passar as nuves, es- 
tando hum dia passando a sesta junto a huma clara fonte: chegou a el- 
les huma donzela que sem se apear, lhes disse. Animosos cavaleyros, 
tam altamente soa ho vosso nome per esta regiam, que a todos os ne- 
cessitados da esperança de remédio pêra suas foiiunas, esta me traz a 
vos, ou me manda quem de vos tem necessidade e vos deseja servir e 



HA tAVOLA REDONDA 131 

con1i\ecer, e j>nis geralmente vos nam neguays a quem vos requere, mun 
seja eu a que [>ossa só jr qiieyxosa. Bransiciel de Enaiiles que nacei-a 
pciífteyro, Ilie disse, gentil senliora assaz IVaco juyzo seria o que muyfo' 
nam evStmiasse comprazei-vos, por tanto vede o que de nos mandais que 
n víHítade proinpta a tudo faz fácil. Pois que assi he: lhe tornou elia. I']u 
senhor voiçho inMlirvds da parte de huina fermosa dama que a querais 
Ver pTM'qu<* h(í deseja nuiyto, a lim de seu desejo vos nam saherey di- 
xer; sey que « veiiturais nisto pouco por a jornada ser breve, e a causa 
merece muylo, c a nos respondeo dom Hrisam de Lorges. Bastanos (|ue 
h(i maiídais víís a (pie f<ílgamos muyto ol)edecer, por tanto podeis guiar, 
com islo se p(íseraiii logo a cavalo: e seguiram a donzela, e nam tí.M-iam 
andado muyto quando viram atrevessar a estrada hum cavaleyro em hu- 
ina egoa assaz ligeyra com huma donzela nas ancas, a qual com grandes 
grilos lhes hradou (jue lhe valessem em quanto teve vista delles. Bran- 
side! de E^anlCsS que traria hum cavalo muyto ligeyroatrevendose nelle, 
d"isse a d(>m Hr?sam, pareceme que tem aquella donzela necessidade de 
S(K:con'0, será grande fraqueza leyxala padecer a mingoa : idevos coii 
essa senhora, o« me esperay aqui te que eu volte. Com isto pos muy 
rijo as penias ao cavalo per onde vio contra a serra levar a donzela for- 
çada, partido elle» a outra disse a dom Brisam vos senhor que determinais 
fazer, lhe tornou elle o que me mandardes, eu respondeo ella, nam me 
queria deter: ca nam me cumpre, pois sigamos, disse elle, nossa via, o 
mandando a Tihurcio, escudeyro de Bransidel, que se fosse trás elle, e 
lhe dissesse (jue se es[)erassem em huma fortaleza que leyxavam alias 
três legoas, foyse com a ditnzela Bransidel indo a rédea solta trás lio 
cavaleyro rouhador que se lhe alongava muyto per huma costa arriba, 
lanto correo o que lhe íicava do dia que anoutecendolhe ja ho vio jier 
huma cumeada melerse em huma rocha, longe quanto lhe a vista devi- 
sava: com o que folgou pareceiídolhe qu(^ ho tinha ali. Porem ho clie- 
gar la custoule mais trabalho do que elle cuydou. Ga primeyramente lio 
cavalo cansado do grande econtino correr abifou e cayollie em huma bar- 
roca levandoho debayxo, e tratando o tam mal que o leve sem falia bom 
espaço, e a ser de menos Esprilo ali também abafara. Mas tornando em 
si : tanto trabaliiou debayxo que se tirou com nam poder bohr a peri;a 
ezíjuerda, salvo com grande dor, e passando boa parte da noute neste 
trabalho, esforçonse ho melli()r que pode caminhando contra onde vira 
meterse ho roubador e atinando onde lhe ho sentido divisava, em lom- 



irii MKMOniAf. nos CAVAI.ÍIÍKOS 

peiídõ a menhaã se achou junto a huma cova em que se ho cavalerra 
recolhera, porem Bransidel hia lai da perna que eslava mais pêra cama 
que pêra contenda, e assi contava elle depois que aipii perdera a ope- 
nião de si: e se conhecera homem fraco re<:eando al;j[um desastre: mas 
como era de estremado animo entrejíouse a sua fortuna, tomando Io^mj 
a [torta da cova em que se leyxou descansar te que os rayos íIosoI ven- 
cedor das trevas entraram per ella dand(»lhc claridadi* pêra po<]er vero 
que avia dentro. Bransidel lançou os olhos e vio que era miiy espaçosa 
e entrava muyto per bayxo da terra: a liiuna parte estava a e.i^oa do ca- 
valeyro, e a outra hum grande lião preso per hunia {grossa cadea, e pen- 
durados muitos dardos e frechas, e quanto a luz mais se apossava da 
cova tanto descubria mais per dentro: hem (piisera Bransidel entrar per 
ella; mas nam se atreveo na perna de (pie não era senhor. Nisto ho ca- 
valeyro roubador sintindo a clara menhaã sahio ao claro [)ara [u-over de 
mantimento as alimárias, descuydado doulro algum aipiecimento, mas 
pondo oihos na porta ^io Bransidel assi-íitado: por o que muy prestes 
se recolheo pêra dentro, e sem muyla drlença voltou armado ea ponto, 
e vindose ao lião soltouho da cadea toínandoho per hunia trelta de se- 
das: Bransidel como nam tinha enlauí desenvoltura pêra saltos: ley.xoii 
ho fazer tudo sem ho acometer (salxj Deos com (|ue dor da sua alma), 
e levantandose de seu assento pos se da !)anda de foia á poria aperce- 
bido, ho da cova vendo que o esperava, disselhe mandais alguma cosa 
de mi cavaleyro, ou como viestes ter atjii? queria, lhe r(\s|M)ndeo Bran- 
sidel saber de huma donzela que ontem sobre a tarde trazieis nas ancas 
daquella egoa segundo eu cuydo forçada: ora vos digo, lhe lontou elle 
rindose confiado, que tomastes hum escusado trabalho: mavoíanente se 
ca viestes a pé como parece, nam sey que rezão tendes pêra estimardes 
Iam pouco vossa pessoa sobre cousa em que nada vos vay: antes muy- 
to, lhe disse Bransidel, pois ho professey e tenho por obrigação. Bom 
esta isso, repricou ho roubador: mas he pêra outro lugar onde os ou- 
vintes tem mais paciência que a minha, e certo eu nam sey em que vos 
fundastes : íla se cuydays dobrarme per rogos ou moestações: devereis 
pi inieyro saber de mi mays, que alem de ser duro dos fechos, sou muy 
avarento ilas lais presas, e se per armas vejovolo muy mal parado. Pois eu 
disse Bransidel, nam determino yrme daipii sem saber delia se tem de 
vos algumas queyxas, ho da cova tornoulhe, e quando as leyxaram ellas 
de ter de nos. .Mas se as tever que remédio lhe esperays vos dar? o que 



DA TAVOr.A nF.DONDA 133 

ella quiser, respomleo elle. E mais folgarey que seja a vossa custa por 
lio trabalho qup me destes, nam vi tamanha graçi, tornou ho roubador, 
como virdes vos com essa confianra acordar lio cãn que esta durmindo, 
ora querovns desenganar antes que me enfadeis, Dizendo isto soltuu ho 
líTu» qiio de hum salio arremeteo a elle. Bransidel ho esperou com a es- 
pada alta: r deceiído com ho <?olpe deulhe per huma orelha levniidole 
mcya qucyxnda a terra, e ferindoho muito mal sobre a espadoa, ho lião 
abrarouse com elle muy foile pondo força pollo escalar. Mas nam pode 
entrar com as fortes armas, e deu com elle no chão grande pancada, da 
que Bransidel se siiitio inuyto: ho roubador carregou sobielle por aju- 
dar ao seu lião que com grandes urros de rayva da sua ferida trabalhava 
^spcdaijar seu inimigo, ho qual como era estremadamente esforçado e 
vivo nos perigos em caindo levou de huma adaga, com que ho pregou pellos 
pcytos, per duas vezi's. acabando de ho matar: no qual ho tempo da co- 
va ho sérvio de duros golpes com que lhe desfazia as armas, e alguns 
descobriam sangue. Porem Bransidel levantandose começou desenvolverse 
com elle: dandulhe a resposta que lhe merecia: com que ho ferio miiyio 
mal pei" algumas partes, ho cavaleyro achandose mal do partido e co- 
nhecendo qiKí tinha «luro adversário querendo ajudarse delle mais a seu 
salvo, foyse diMilro e trouxe huma maça de ferro com que fazia muyto 
d.uiiio a Bransidel <pie como nam se ajudava da perna não podia d(!S- 
viaiselhe. e padecia grandes pancadas. Porem a dor e jinitamenle a ira 
bo fez determinarsc consigo ou com sua perna, e assi lhe compiio, per 
modo que fazeiídolhe huma estocada aos olhos sem lhe poder chegar 
porque lhe recuou, lançouse a elle muy prestes com hum pé diante e 
vôlfoiílhe com hum revés [)elo pescoço: que lhe apartou a cabiíça do 
Cor{>o. O (jiie não pode fazer sem também receber outro golpi; da maça 
S(ibre ho elmo: que lho amolou lodo nos cascos, e bo derrubou miis 
morto que vivo, lançando p(pla boca tanto sangue pisado que parecia nauí 
ler mais nas veas, e assi esteve grande espaço esmorecido, te (jiie ali 
chegou Tiburcio seu escudeyro que bo perdeo de noute: e por gram dita 
veyo tei' com elle. S.Tiain ja horas de se.\ta: porque a batalha din'oa 
mais de (jualro horas, e como ho assi vio pareccndolhe que era morto: 
coíueçou prantear tal perda, e indose a elle tiroulhe ho elmo e adio iliic 
a '•abeça que tnda m/rojava sangue fiisada. Mas dandolhe o ar abrio os 
olhos ípie com dor lhe <pieiiain saltar fora: acordando como de sono tarn 
quebrantado e fraco: que nam [xidia bulirse, c cobrando mais algum es- 



134 MKMORIAL DOS CAVALEIROS 

pirito conheceo tiburcio: a cujos gritos sahio da cova n donzela rouha- 
tia, e quando vio o seu roubador morto: nam ficou jkjuco contente: e 
com lagrimas de alegria dizia mil bens a Bransidel. Mas muylo mais lhos 
rogou quando Tiburcio disse como viera a aquelle estado por seu res- 
peyto, e provendo logo sobi'e sua cura, Tiburcio bo curmi tio melhor 
que pode, e ho lugar permetia com que se sii)lio esfurgado, porem não 
mandava a perna, pêra cujo remédio foy necessário yrse em bi^eve a 
jjovoado: e em quanto Tiburcio selava a egoa, a donzela contou a Bran- 
sidel que lho perguntou ho seu caso des ho piincipio, dizendo. Kste 
civaleyro que me roubou, dizem que avera cinco annuis que veyo aqui 
ter nesta serra tomando esta cova por guarida, porque parece ser l't>y 
c:ii)itão dei rey de Ungria em humn fortaleza ipie linha em Ásia contra 
mouros, a qual deu liuma moura de que se namorou: ^lepois ei/adado 
de. la como os homens apetitosos em seus desejos costumam, aiTejXía- 
dido do que fezera matoua: e receando ho castigo dei rey por sua Iray- 
ção veose a esta montanha em que vivia de roubos, e saltos fazendo muyto 
(lanno. E era tam fouto (jue ]a se vio entrar em aldeã de mil vexlinhos, 
tomando dantrelles as molheres, e o que mais (jueria sem receber al- 
gum nojo, e polas estradas fazia grandes presas: mayonnenie de donze- 
las que de[)ois querem dizer que vendia a mouros, e assi (juis minha 
(lesaventura que vindo eu em guarda de dez cavaleyros, saltou conoi^co, 
e matando os quatro: os outros llie fogii'am mal feridos com temor da 
morte que em suas mãos tinham certa, t^lle não curando seguilos to- 
moume nas ancas daquella egoa que mais parece voar que correr, e 
Iriuxenie a esta morada, onde usou comigo muyla cortesia, dizendome 
(jue inda nam vira donzela que lhe também parecesse : \xn' o (pie mww 
queria de mi gostos forçados: antes determiniiva ganh;«'me a vontadi\ 
per muytos serviços, e muytas outras ra/.ões brandas em (jue [)ass()U 
comigo a mayor parte da noyle. Pietendendo estancar as lagrimas em 
(]ue eu a passey toda: olferecendo ao senhor Deos os gemidtis que elle 
por quem he me quis ouvir. Guiandovos a lugar tam desviados em que 
somente esperava ho divino socorro que per vos senhoi' me veyo. Por 
tanto se vos a vertude que seguis obriga, ja que por me salvar vos of- 
ferecesle a tal perigo: acabay o que começastes Icvandome onde sereys 
( urado e servido segundo se vos deve. liransidel lhe disse ijue mandasse 
ella tudo o (|ue ouvesse por seu serviço (pin vMc. folgaria obedeceiihe 
assi que pondose iiransidel na egoa com maylo trabalho, Tiburcio a lo- 



CA TAVOLA niíDONDA 135 

mon nns ancas rio sen palalVem e forâuse pelo rnslo que troxeram á 
esliada e dali guiou a don/.e!n pêra liuma fortaleza desviada três legoas. 
Onde cliegaiido inwm recebidos do senhor delia (]!ie era seu pay com 
grande conieiitnnuMito. Braiisidel foy curado coui amor ipie se llie devia, 
e em cabo de quinz.' dias que se achou pêra pinJei- caminliar. vendo que 
não vinha lio jiiiião nem recado seu, porque esta era a ÍJrlaleza em que 
o aMa de espc.i^ar. Deternuiiou jr saber delle e [larlinJose com esle [iro- 
1»; silo: a(|Ui'ceo favorecerlho a boa ventura, de maneyra que chegando 
ao vali' onde a priuieyra donzela os achou tendo a sesta: vio huma com- 
panhia de cavaleyros que se deceram junto a luins alemos: e davam de 
comer aos caviilos pêra parece tornarem a seu caminho passada alguma 
ora de de fitlga. Bransidel que de nada tinha rezeyo Iny se per junto 
d. •lies coni tenção di; jusla se lha pediseem: e chegandose vio huma íer- 
iiiMsa donzela assenlada no verde prado: com as suas brancas mãos aper- 
tadas iunna com a outra, e antre muitas lagiimas que dos seus bellos 
olhos estilava, dava alguns ays tam doridos que a lirutos sentidos i)ode- 
ra fazer piadosos: perto delia estava hurti cavaleyro de gi'ande corpo ar- 
mado de ricas armas, e tirado ho elmo: que falava com elia como (jue 
a consolava, mas ella nam lhe dava ouvidos: e tinha a visla li!a sem a 
mudar em outro cavaleyro (|ue [)erto d.jste jazia uuiy ferido, com espon- 
jas nas mãos, e nos [lés fortes e grossos grilhões, o qual estando em tam 
com(jassivo estaihi. mostrava sintirse mais das lagiiuias da donzela «jue 
da dor de suas feridas, inda que eram muytas, Hiansidel que somente 
pos os olhos na donzela mu 'to pêra ser visla e desejada, sem fazer conta 
do cavaleyro que com ella falava, disselhe. Apassionada seidiora quereys 
me fazer digno do causa dessa tristeza. Ca nam pode leixar de ser gran- 
de segundo ho sentimento mostra: e se posso prestar pêra vos servir 
com ho remédio: prometovos tpie ho nam leyxe por toda a vida. Ho ca- 
valeyro que a consolava alTrontado deste atrevimento levanlonse. dizen- 
do. Dom Sa:ideu ante mim qnereys vos ser tan] atrevido. E querendo 
proseguir. Bransidel que nam soíTria aílronta atalhoulhe com dizer, ante 
Ví)s dom covardo farey eu tudo o que me ella mandar: valhavos estar- 
des sem elmo, e sobre tudo ho comedimento que devo a esta senhora, 
a quem nam sey se, dessirvo im\ vos castigar. lio cavaleyro (que Lico- 
fontes se chamava) correo a enlaçar ho elmo e enfrear ho cavalo. E que- 
rendo alguns dos outros que seriam per todos cincoenta, faziir ho mes- 
mo. .\landuulhes que Jiam se bulisem, e ho ley.xassem dar per sua mão 



I3G MESrorviAT. nn>s cwALEmos 

ho c.Tíí^ffí^n' íí rrqiTeTIív SanileiT- quiça hafariasesudoásTiacuífts, CTnqnmita 
eilt'^ bio Iciziy, (jue Iby miiy ©■íb l>reve. A dattztla em que avia a [)HmI;i(1í) 
thívfd.-í ã sua fermosuivi, ói^se ai BtTtnsidcl. Ciivaleryo pondevos eiii salvo 
com tempo que lerales muylo^ sonlr» vo& e leyxavíne padecer lio (|u.e 
oifik[i;í.r mifih';» des-aveiíilur», senhora, Hie tofítou elle, ISessii vos (j,ut'i'0 
eu .ícompaiiliar: (jue i>a mna me dá que vola devo, e maU ki^vla vcrvos 
peia folgar perder » vida em vosso servi(;.o: a doii7x'l» vií^la. sua deler- 
íftiiiaçam julgouliO' poí' «ie^as-j&ado' et» emprender cottleudL* tam duvido- 
sa. |x>nei' «■lie couío *e'mpre leve o» coração nwyor <iue ;? possilíilidatKs 
a\k!rcdniO se ímílo cou-lrií seu imiiiigo; (jue era mais duro do ty^t' oile 
cuy(u>va. O cjuai pondose a cavalO' ;MTemeleo a elle, e encoulransc. de 
maiicyra (jue (pt.el>ra!.id(i ;>s lançasv BsTí^usklt,'! penleií liuma eslnbeyra,. e 
recelk o lnm> ;íâ-[)ero eiicoiilro,- Poreiíi meleo a latuja a seu ct>ulrayro pt.T 
liuuia ilhargíí (^ue lUa passou dando^ çom elle em terra, ttí oulros cava- 
k'yros levaiilai-am. giaude gri>la! cuydamlo (pie era morto ; coreudo logo 
todos a eulVear os ciívalos pêra virem sobrele. Licofonleir lauto (jue ca- 
hio tevautouse utuy prestes^ e leviviMlo tta espaib, seu escudo embraça- 
úo Ibyse » seu immigo por lhe cortar ars pei"uas á egoa que era de muyio 
pre^o. Mas- Biaiísidel se lhe uesviou p^r a necessidade que linha de a. 
poupar, e assl llie deu ;izo de cobrair ho cavalo. A este tempo vniliauí 
]a o^s oulros em hum Irojiel coulra Brausidel, ipie coiu. animo esíoira(h): 
faziMidose forte na sela com a esi)ada alta os esperou, e a>lgtms (juebia- 
ram nelle as laiíças couio em huma tw-re. Mas ao que elle alcançou de- 
eendo coiri hum revés perdeo a s^la junlan^Mde com a vida. Deshi me- 
tendo^ awtrelles volt(Ui solire duiro qutí achou maiS' perlo, e drulhe pela 
cabeça ([ue lha fendco. e laiis^ado sobre ho percoço tU) (.■a\alo Iby »:ayr 
junto da donz-ela: a leuipo que ho cavaleyro lerido linha ya quebr.ido es 
fc! ros conv ajuda de Tibureio que conheceo ser dom Hiisam de Lorges. 
l*ois achandose elle solto: inda que eslava mais pêra ho leyto que p> 1% 
vsar das arnias. Tomou a espada e escudo do cavaleyro que ali caliio 
moiío, e pondos(3 no cavalo íoyse a juular com lii'ansidel que and;iv3i 
anlre seus in»mig(vs fazeudo maravilhas digftas delle, e naiu esperadas 
de hum só cavaleyro. As que dom lirisauí imitou com nam menor es- 
Ireuío, antes niayor por eslar Iam ferido. Mas pai-ece com a luria da 
esca! auiuça viiMam lhe novas forças: e ouvindo Licofonles dizer aos seus. 
Ah cavaleyros que grande covardia sendo tantos não podeides matar ou 
prender hum só. Como lhe linha a vontade que lhe elle merecia: .\ire- 



p\ Twni.A nrDOND.v 137 

metfo n ollo. dizpnílollip. A}?nra trayílor prigarns Ina maldnde. Por modo 
(jiic Icav.iiidose liuiii com lio oulro. correspondendo ns oliras aos ódios. 
ÍIo lim de sna prolia foy leyxar Licofonles a vida nos lios da espada d(3 
dom Brisam : pois Dransidel certo riam estava oucioso, anles Ira/.ia os 
conlrayros Iam escandalizados qiifi nam lhe liiiham rosto: raso que lio 
Ita/.iam cercado dandollie per todas pails com desejos do morlal vin- 
gança. Ponpie os mais (Idlcs andavam assinados dtí sua mão: aloia os 
innil;)s porem nam sey (|ii:iiil(» lhe v,-ilera ho seu esforço (|iie ao menos 
de cansado corria risco: mas d >m Hiisam deu per nieyo delles com tal 
furor (jiie cansou a Hransidel poer os olhos nelle : e como ho coiilie- 
<*eo nas armas (pie lhe vio linlasíMn saii^Mií'. Acreceiíloiillie esta ina^oa a 
yia que log:o de novc) e.\i;cuto;i em tal maninra nos Immijíos que i^m 
espaço de duas horas tinham amhos descartadas as vidas aos trinta, e 
põ.stos os outros na haralha. per modo (jue desta, sós cinco escaparam 
que poseram a esperança em seus cavalos. Klles nam curaram sejíuilos: 
satisfeytos com a vini^ança que foy Iam arriscada tpianto nunca dons ca- 
valeyros fezeram. E licando miiylo cansados e feridos, deram logo oídem 
com que se foram á fortaleza em (pfe Bransidel ja estevera, levando con- 
sigo a donzela, onde chegando foram hem recebidos, folgando ho senhor 
da fortaleza e sua íilha, [)or fazerem todo serviço a B;ansidel: nam es- 
quecidos do que lhe deviam. Ca nos hoiis sempre eslá viva a boa ohia 
recebida: e aíiuelle dia chegou também ali ho escudeyro de dom Biisam 
que vinha ilizer a Uransidel S(;u desastie, e ser causa delle a donzela 
rioresinda, que assi se chamava a (pie IJransidel achou em companhia 
de dom Brisa»), ao diante a sabereys: que agora entra lavola a Padra- 
gonte. 

Ccip. xxiij. Coinu Padraíjouif de $uz foij á Espanha, e o que nello 

lhe soceilfo. 

Km Iodas a? obras humanas ha bom e mao socesso, culpa e louvor, 
gli>ria e pena, segun(b) a tinia tpn' lhe bo eíTeyto dá, socorie Hr.in idel 
a huma donzela roubada pêra premio de vorludes, K dom Ibisim a ou- 
tra pêra pena e occasiãode culpas por onde se prova quanto vay da boa 
Ji m;'i: mas himi coração alTcyçoado sal>e mal fazer escolha ponpje amor 
nlo obedece a leys. antes força peytos isentos (como vereis no que se 
s.gue) ca [larlindo Padragonle de Suz muy (pierençuso de fazer bui» ne- 



138 MKMORIAL DOS CAVALKIROS 

^'ocio em Espanha i)or respeyto de seu amigo Godift-rt, e tnmbem por- 
(pie desejava em todo estremo aqiiella conqnisla em que pieleudia mos- 
tiarse. Como aquelle que presomia de si que fora pouco Golias coiiU'a 
ds lillios de Israel em comparação do que elle avia de ser contra os 
G 11 islãos, e passaiidose com sós dous escude) ros a Gihrallar. Ali soube 
(omo el rey Muley/ider eslava em Toledo a que foy per suas jornadas: 
lio qual por a lama que delle tinha sabendo sua vinda lezliie grande re- 
cubiiuenlo, moslrandolhe fogar mu} to com elle. Mas muylo mayor goslo 
tev;' desque soube ao ijiiij vinha, e mandou ho a[)OS(uilar coíh Gidena- 
(ere rey de Granada niuilo seu privado, e fazendo logo seus mcsagry- 
los a todos 'S reys seus súbditos, per que os chamava pêra consullar 
CO 11 elles liuma cousa de tanlo [jeso, e que elle em lodo estremo deso- 
j iva. Ga como era fronteyro á França recebia muylas vezes grandes da- 
nns delia: e [)relendia vingarse. Assi (pie em espaço de hum mes foram 
j.inlos. N.,'ste meyo tempo, l^adragonte pousando com el rey de Gi'ana- 
da sinlio nelle viver descontente, e hum dia praticando de huma em ou- 
tra cousa: veyo perguntarlhe a causa (h seu desgosto, elle enchendose 
l!ie os olhos de lagrimas, di>selhe. Goniarvolo hey senhor porque nam 
luc pesa (pie sayba lodo mundo mmha magoa, ao que ao menos achaia 
gerai piedade ja (|uj não tem remédio, e ho caso he este. Quis a for- 
linia (|ue ordenasse eu em Granada humas festas, antes tristezas ca tais 
filiam ellas pêra mi, á fama das quais correram muytos cavaleyros Es- 
l^uihoes: dos que foy ho gigrnie Grifaiiio: com ter por muy certo ho 
pnçi) das juslas: que eram humas estribtsyras que tinham de ouro cinco 
mil cruzados. Os cavaleiros que aviam de justar sabida a determinarão 
de (iiifan.o neniium ouve que ousasse cometelo, por o que todos me 
pediram cpie ho ouvesse por escuso |)orque elles nam justavam com 
monstros da naturoza. Eu vista sua rezão, pareceome que a tinham : e 
mandey p(,'dir a Grifiuiio: ho qual pousava no campo, que quisesse ver 
as justas e não participar delias, e se contentasse com lhe todos confes- 
sarem vantagem grande: mandoume elle dizer que tinha pouca necessi- 
dade de tal contentamento, ponjue queria mais ho precedas justas, tpie 
elle antes de partir de sua casa prometera a sua molher pêra humas 
inanillias, e ja nam ousaria tornar a ella sem isso: ca o teria por fraco, 
cousa (jiie mais destriie os homens pêra com suas molheres: e mais 
t-t'iido feylo ho custo, alem do trabalho da jornada que nam cometera 
poi' desejo de honi'a mas por cobi(;a de dinhevro, por o que se eu que- 



I)A TAVULA ItKDONDA 



d3í) 



ria que nam justasse que lhe desse ho preço das justas, on a sua valia, 
e desta maneira ficaria clara sua vaiitngeui. Ca doutra elle iiaui perderia 
ho seu : Respondilhe eu, nam sem alguma payxão da sua pouea corte- 
sia, que a mi nada me faziam fazer por fiMca, e por rezão tudo. \í {jor- 
que nesta parte elle a não tinha que se podia yr muyto embora, (pie eu 
no meu costumava mandar, e não ser mandado, e por ho Iraballio e 
gasto da jornada, maiideylhe Ires gineles com três bedens de seda: di- 
zendolhe que os aceytasse de mi como de grande ímiigo pei'a tudo o que 
lhe cumprisse, e quanto eu estimava aquella honra de elle virás minhas 
lestas sabelo hia quando me requeresse. Grilanio despre/.andoine tudo 
e não mo aceytando, antes avendose por alírontado, jurou logo por hum 
seu Ídolo, trabalhar anojarme no que podesse, e se partia portjue eslava 
em meu reyno: mas que após hum tempo vinha outro: e íingiiidose par- 
tido, foyse embrenhai- na serra nevada, o ide tsleve espaço de dous me- 
ses, e trazia sempre hum escudeyro seu em Granada (jtie lhe dava aviso 
de tudo o que se nella fazia, tbyme a mi necessário visitar meu reino e 
parlirme de Granada leyxando nella huma (ilha (jue tinha, moça de dez 
annos: avera isto dous, tam beHa como ho sol. A qual depois da parti- 
da, saliio com sua may e outras mouias, a folgar nas fraldas da serra: 
levando suas tendas e alhaymas [lera se recolherem Disto teve logo ho 
gigante aviso do seu escudeyro: em mod(j que saltou c^m ellas huma 
noule ao primeyro sono, e como eia cruel e deshumano, passou [)ola 
esj)ada toda pessoa viva que podesse dará nova. Somente leyxou minha 
liliia, cuja grande íermosura nam Iam sois amansou sua brutal fúria pêra 
nam lhe fazer mal: mas pêra lhe querer grande bem: acabando nislu sua 
crueldade, por encubril-a, lançou a gente morta em hum algar muyto 
fundo que ali avia, e com ho de>{)ojo foyse com miiih.i lillut no colo, nam 
m liando das ancas do cav;do, e fez sua via tam escusas estradas que 
ninguém pode saber delle: leyxando ho escudeyro. ho (piai lançou íaina 
que Christãos fezeraiu a presa: eu sabida a desavuntura, assi ho cuydey: 
iif.o me paiecjiido que Grilanio podia fazer cousa tam secreta: inda que 
sempre sospeyley ser elh; ho autor: Km dous annos nã(} pude sjíber nova 
alguma, salvo de dous meses a esla [)aile, ijiie hum cavalcNro Gianadim 
foy ler comigo em Honda: e c(»ntouine mais como trazendo Giifano nii- 
nha IJlha Trizbea ao seu Castelo UoipKivro, (pie tem contra a provincia 
Lusitana: onde se ajunta hum ribeyro com ho rio 'lejo, disse a Alham- 
bia sua molher que lha cnase muyto mimosa: poríjue esiterava por ella 



IW MEMOIUAL DOS CAVALEIROS 

lium rico resírnste. Porem sna tenção era a fim do amor que lhe linlia;, 
do que a iiiollier iuiiocenle: jmr lhe f;izer a vonlade, e atirando ao inli- 
ressc: ílomeçoti criala como |)ro[)iia lilha: a menina conhecendo sna for- 
tuna, souhcssclfie dar com l,un amorosos e obedientes meyos que lhe 
ganhou a vonlade cofuo se vint.; ve/es a parira: porque nrio ha tam hi-iila 
condição que huma obediência meyga não obii^^ue a humanidade, crecia 
ella em fermosma e rm discrição tan> amada da <:i^Nanla que não sabia 
momento estar sem ella. Porem e.s e amor era peqiK no em conqjaração 
do (juedriraiiio lhe linha que se revia neila soslentando lio seu desejo r,a 
esperança do lenq>o, delerminado em se declarar com tila como Tosse 
de mais idade, e pai'ece Trizbea por ho immi^M) ódio (jue lhe em seu 
{RMlo fera. goslando pouco dehe, s.-mpre lhe loy esquiva, escusandolio 
mais que podia sua convefs.ição, e entrando ja nus Ireze annos, como 
be de },Mande corpo diz ipie paiece molher de vinle. Grilanio tinha dons 
íilhos (pie avi.i .ilf^Mins anruis (jue andavam em liuquia e outras partidas 
de Ásia se^mindo as aventuras, e tendo passado per muytas de ^rinde 
perigo com vitoria, sem acharem ja cavaleyro que Iííi s esperasse em 
caiU{>o: vieramse i)era seu pay. Onde chegiiiido e vendo Tiizbea a hora 
foy lio caraça. t damhos tiaspassado do seu amor. Tal lie seu bello pa- 
recer (jue não será visto de juyzo claro (jue logo iiam se lhe enlregiie. 
Grifanio miiy couienie com os lillios lezse mu\ to mais sob tIw), em mo- 
do que lyraiiizava lodn a comarca: e como amor lie sospevloso e b(»m 
de entender de ijuem ho siiite e Iraz nisso ho tetito: Knti ndeo loíro ho 
dos lillios, (jue loy pareilí; liinn trabaliioso cuidado, com ho qual inven- 
tou [)era se segurar delles, mandar fazer no cabo de huma ponte que 
ali atravessa ho Tejo: huina torre toda de c:in ária iro i eyri do seu cas- 
telo com (pie tolhia a passagem K d sselhes ([ue peia nam passarem a 
vida oijciosa, que nunca deu velhice h.iii.ada, e peia ajuda de seus gas- 
tos (pieria (pi.* ellts pousassLMii iiaíiueía lorre guard.indo ho passo a lodos 
os cav;!l(;yros. (pie nenhum [lassasse sem leixar aé armas, ou pagar |t(»r 
ellas liimi marco de praia, d) (pie elles que sam da condiçam e maneyra 
soberba do piiy, loram muy coiktes, não caindo (pie ho fazia elle por 
desvijios da conversa(;flo de Tri/.bea. Km modo (pie íeyta a fortaleza muy 
em breve. Klles jiassados a ella: come(;aram soslenlar est;i lyran a. (jue 
lhe el i(*y .Mnleyzider consente por serem muylo parentes .seus: e tmi- 
bem folga poupalos por a o[>enião de sua cavahiria, e mais elles fazense 
folies no seu Castelo, (|ue ho lie muvto, e não temem ho mundo lodo. 



DA TAVOLA nKHONDA. ÍM 

Grifaiiio desque assi os teve apartadas: avisou Altinmbn qne .i7n;inlas>e 
Trizliea delles. Ca entendia qne a cohi(;avam. e querendo vir á concru- 
s;im com ho seu Amor, disselhe que por escusar estes inconvtMíientcs, 
queria levala secretamente a vender a França. Alhambra que lhe cpieria 
mais que se foia sua natural filha, disse (jue em nenhuma maneyra con- 
sinliria lai que naisi passasse anies por cem mortes. Ca não se atrevia 
ja viver hum só din sem aijuella lillia de sua alma. .Has (jiie seria bom 
casa^i com hum dos filhos. Ia vede como lirilanio ac(*jlaria isto, e ven- 
do que tinha mao i-emeiii.» j)er esta via, e que n^m ILe podia fazer forra 
por respeylo dos íilhos, nam sabia ipie lizese. Descotirirse a Trizbea nam 
ousava por o que delia cria: ho Amor lua lhe gastando ho solTrimento, 
e raais com os ceumes dos filhos: \>er modo que revolvendo alguns dias 
estes pensamentos (jue nenhum descanso lhe premeliam. como ho Amor 
dos velhos seja menos solTrido. e tuais descoidiado, Ueterminouse em 
matar a molher com i)eçonha e ca^^arse per foiça, ou per vontade com 
com iriz-bea o que soube fazer per Iam secreto modo que Alhambra 
morreo em poucos dias sem lhe eri'ender de que, pois como se elle vio 
desembaraçado declaroiise logo òora Trizbea : A qual posto que se vis- 
se seu poder nam pode com ella ho lemor que a voiilade nam acey- 
lava porque a alma constante nos temores se esforça. Assi (pie escusando 
se lhe brandamente com muytas lagrimas. iJizialhe que ho linha por |)ay, 
que nam quisesse Oeos (]ue ella errasse aos ossos de sua um' Alham- 
i)ra, que a criara com tanto .Vmor. Estas rezões lhe desfez íírifanio, com 
outras que lhe a sua alfeyçam notava, mas per longos e importunos re- 
querimentos nada pode acalrar com ella. E nam sendo parte pêra lhe 
fazer força: Ca lha tolhia ho Amor: tentou fazeriíie medos: ao (pie ell.i 
11. e respondeo, que soubesse certo que a mais leve alfronta que pêra ella 
avia, era dar^e morte per suas mãos. Elle que lho creo, ponpieho Amor 
nam sabe descrer, e vendo que nada lhe valia, diz (jue esteve em con- 
dição de se matar ali antela: porem solTreose com lhe lembrar quanto 
ho tempo e prolia acabam, consolandose que a tinha de sua mão, que 
per branduras e meyga obediência lhe poderia ganhar a vontade. E fe- 
chando a na mais secreta camará do Castelo, contentavase com lhe po- 
der apresentar seus desejos, e dizer suas magoas. Os íilhos nam na po- 
dendo ver, sa!)endo como In) pay a tinha, não leyxaram decu\daroque 
]>n(lia ser. E ca. ia hum sem communicar com o outro ho seu mil cui- 
dava em como cum[iriria com ho seu cuydndo. Almonte ip;e he lio mais 



i42 MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

moço, esporeado parece mais da côr, determinou emtrar com ella huma 
noató e ver se a [)0(1i;\ convencer a sayrse com eile: e pondobo em obra 
foyse com biima escada per grande oscuro só ao pé do castelo: a qne a 
pos. .Mas em começando n querer sobir, acertou que Grifariio com alguns 
receyos, ou do seu lado que l)o trazia a pena de suas oljras, veyo per 
ali, como «utras vezes costunuiva: e achando naquelle traio Almontenão 
que ho conhecesse por a oscuridfio da iioute: Saltou com elle acometen- 
dtíiío de mortais goli)es: elle também sem conhecer que fosse ho pay, 
começou defenderse e oííendelo morlalmenie: e como estavam desarma- 
dos, e suas forras eram grandes, a poucos botes se feriram muyto mal. 
AInionte deu hum golpe a Grifanio que lhe levou meya queyxada e 
escalouho per hum hombro te os peytos, de que logo cahio dando 
hum grande grilo dizendo: matasteme traydor. Âlmonte conhecendo 
qne era ho pay : íicou pêra se matar, e tomando ao hombro levoulio 
ao castelo, onde em poucas horas entregou a alma ao eterno tormen- 
to. Porem antes qne espirasse conhecia a tenção de Almonte, por se 
vingar delle como podia : e de Trizbea que fora causa de tudo: lan- 
çou por benção a Alconele (que he ho outro tilho mais velho) que lhe sa- 
crificasse Trizbea sobre sua sepultura (segundo Neotolamo fezera a Po- 
licena) em vingança de sua morte, e da de Alhambra sua may que 
elle matara com peçonha por amor dela: pêra que suas sombras po- 
dessem passar a barca de Acheronle Com isto faleceosatisfeyto em crer 
que sob pena de sua maldição ho lilho cumpriria o que lhe elle manda- 
va. Tanta he ja a maldade dos homens que com os dereytos divinos que- 
rem cumprir as humanas sem rezões: porem ho alto L)eos que pêra mais 
bem deve guardar a(juella em que pos tanto: ordenou que Âlconete ven- 
<íido do resplandor dos seus olhos: perdeo as forças e vontade de ano- 
jala com dobrados desejos de a com[)razer e servir, e tendolhe entregue 
ho coração : mais pretendeo obedecerlhe que ofTendela, por o que lhe 
disse logo o que passava. Porem (jue ella se quisesse aver por servida 
do seu amor, elle se lhe olíerecia perder a vida e cem vidas por defen- 
der a sua. Trizbea vendo ho perigo de sua honra e pessoa, como he 
discreta não lhe faltou cautela pêra espaçar suas esperanças, tendoas em 
Deos e no tempo : e querendo lambem detelo nellas, disselhe. Senhor 
Âlconete, se me vos tendes aíleyção segundo alfirmays, não deveys que- 
rer de mi cousa forçada, e se quereys Amor per obias delle deveys al- 
cançar ho meu e cer'tiíicarme do vosso, que eu nam sou a molher que 



DA TAVOLA REDONDA lií? 

assi levemente hey rle crer o que per longos tempos lie mno de conhe- 
cef nos homens, se preleiídeis olirij/iwiiie a vontade, por essa que me 
vos agora oITereceys fazey por vos logo tanto (jiie vos diíey Iwj como. no 
que nam cuydo que faço pouco, pois vos ponlio em caminho de nam fa- 
zerdes cousas que va fora do primor dos tais cavaleyros, doutra maney- 
>'a crede de mi que estimo muyto [xmco a vida a respi ylo da honra, e 
se cudays (pie por temor me podeys convencer ao que nam devo ou 
nam quero: logo á hora ante v(js me sacrilicai a minha castidade. Ou me 
lanrarey por abreviar desta torre ahayxo. Ca nam queyra deos que eu 
[)or fraqueza humana desbote do real sangue que me geerou : humana 
sou pêra aceytar amor, e me obrigar per elle: deshumana pêra não es- 
timar a morte quando me cumprir. Senhora Trizbea, lhe tornou Alco- 
nete, convencido das razões que ella acompanhava de piadosas lagrimas, 
douvos minha fé de cavaleyro que nam aja |)erigo que estime: nem cousa 
que não acometa fouto e contente por vos satisfazer, por tanto desponde 
de mi e manday segura que me fazcys muyta mercê: ella lhe disse en- 
tam. Nem de vos se deve crer ai. E tal soys vos que per essa via ti. do 
podeys esperar: eu tenho ca em meu concepto huma determinação que 
a nam cumprir nada farey de mi. l*era isto são me necessários huma 
somma de cavaleyros: Se vos espaço de hum anno nessa {lonte que gua:- 
days, nam leyxardes passar cavaleyro sem primeyro me vir dar sua fé 
de fazer o que lhe eu mandar a todo tempo que me' cum[)rir, em 
cabo deste termo, eu vos direy a que fim isto faço, e vos salisfarey. 
Alconete a que amor obrigava nam entender nem saber fazer se- 
nam o que ella queria, aceytou ho partido, com lai que ella nam sa- 
hisse daquella torre em que pos grande guaitla. Disto nada aprouve 
a Almonete, e querendo antes morrer a mãos do jrmão que viver hu- 
ma hora sem esperança de Trizbea, desafiouse com elle, e como amor 
soffre mal companhia entraram ambos em batalha: na qual ja muyto fe- 
ridos : obrigandoos ho sangue, ou também temendo a morte, Alconete 
cometeo a Âlmonte que ho ajudasse a defender ho passo. E cumprido 
ho anno lançassem sortes sobre qual seria ho possuydor do premio de 
seus trabalhos, ou viria pella escolha delia, e em desconto da vingança 
da morte de seu pay, prendessem todas as donzelas que por ali passas- 
sem sacrificandoas sobre sua sepultura. Ca com lio innocente e puro san- 
gue delias comprariam a vida de Trizbea que se devia ás almas dos pays. 
Aprouve isto a Almonte, e pondo grande guarda em Trizbea, hum do 



144 MEM»)niAL DOS CAVALEIROS 

outro a vellam conlino, teiidoa fecliad;) no caslelo Roqneyro: sobre que 
l<3in Doiiltí e (lia tíniide rcs^nianlo Klles aposeiilarãose na lori-e ([iie 
^■uaitiain aveia Ires meses, ou quatro: em (jue tem vencido jíraiide nn- 
niivrií ide cavalcyros: que ja não jw-íjun outro tisbulo, salvo irem dar sua 
le a iVizIwM, (> assi teuà morlas uíuvIjis donzelas sem alguma piedade, 
dizendo que coui ellas aplacam, ou amansam aá aimas dos pays, ja que 
lião c«m(M-ii'am seu mandado. A estas crueldailes e a suas soberbas con- 
dições, lie ti'i/J)ea tarii conlrayra que llies tem mortal ódio, segundo me 
iiilojínou bo cavaleyro meu víissalo, que passando por ali, foy dos seus 
veiiiddo, e per grande djta sendo conbecido per ella, pode brevemente 
daiilie tal coíjta, peytando liuma guarda (|ue elles tem sempre com ella, 
l"»i(jne sayba o que falia com os c.ivaleyios. Ora como eu isto soube 
vimiiie á corte requerer a el Rey Muleyzider, não se acaba elie de de- 
Im. ninar comigo no que fará dado que me da boa palavra, e desta dila- 
iMin vivo quam descoiàteiittí Deos sabe. Promplo ouvio Padragonte a el 
fey Cidenacere: e teve a grande fraqueza consintirse tal tyrania por bo 
<,ii!e miiy indignado: como aijuelle que carecia de paciência: sem mais 
esperar, jur^u [)or Mafoma, nani des[)ir as armar te não quebiar Iam 
ínao costume, e armandose logo pedio a Cidena:ere que em quanto elle 
f.izia aijuelJa jornada negocease por elle com Muleyzider, ponjue elle bo 
ticscansaria muy prestes. C.idenacere vendo a vontade com que empren- 
dia negocio tam duvidoso, pareceolhe (|ue devia ter grande animo, e co- 
uio PadríigoMte era agigantado prometia <le si o que sua soberba pubri- 
€ava, por o que posto em alguma esp^erança. promeleolbe também aca- 
bar com Muleyzider quanto bo Miramolim queria, e mais se ihe livrasse 
sv;i iWh.-^. ífiK! lha daria por molber, e bo fieyno de Granada de queella 
eia herde} ra. Com estn palavra se partio i*a(lragorite ao longo do Tejo 
rio ab'!yxo (^ue lio guiou onde elle desejava. 

CupHnlú. xxiiij. Como Ito cmaleyto das armas cristalinas 
salvou de inoric Belfloris, com ajuda de florisbel. : . 

Quanto seja de estimar a vertiide femenil, e juntamente discrição com 
que a conserva per exem[)ros antiguos he muy sabido, e per este de 
Trizbca assaz claro: pois sendo tain moça teve animo pêra resistir ;i so- 
berba do bnivo (Irifanio, e saber pêra payrar ho furioso Amor dos filhos, 
cuja iuna domou com sua branduia. Iam pudeiusa lie a jurdição e posse 



PA TAVoI.A IIKDDNDA 143 

d.is frncns inolheros. sobie os crtieys e iliiros liomons, fracos em resis- 
tir -i') Aiíior j)!)r lortes (jue sej;iin no a!, [iai^eco que ho Ibrtu Amor não 
Iciii lorgas contra a fra<]ije/.a deilas, que no ai fincas as lem conlrele, e 
CDiílra nos: de inancyra que menosprezamos a vida em seu respeyto co- 
mi» se vè cm Florisbel, porijue a(]nela nonle que lio cavaleyro das ar- 
mas cristalinas linha concei'lado com Guaristenes partirem ao outD dia 
p ra .Mayorca: leyxaudo lio seu escudeyro com Tiresia que bo esperas- 
seiíi ali com toda outra gente do navio que ja viera, aqueceo chegar ao 
porto huma galé em que vinha hum criado de Florisbel per que secre- 
taineníe se visitava com Belfloris, ho qual trazia carta delia contandollie 
o (|n(.' passava, e caso que Guaristenes andava sobre aviso, que não vies- 
se á ilha quem desse nova a Florisbel. Este seu escudeyro que era muy 
esperto e auto pêra grandes negócios soube partir de Mayorca sem ho 
verem, e entrando em Menorca huma hora despois de meya noyte, 
falou com Florisbel sem Guaristenes ho ver nem saber delle. Sabido 
pois per Floiúsbel tam desastrado aquecimento: traspassada sua alma 
desta dor, passou consigo grandes fraquezas e esteve em condição de 
se matar, e desqiie algumas horas cumprio com os acidentes e movi- 
mentos da sua pena, fazendo a pryxão termo, fo}se ter com Guariste- 
nes ipie vendoho assi aa desoras, no coraçam lhe deu seu mal. Florisbel 
cheos os oIIkjs de lagrimas com suspiros e soluços pronuciando mal as 
palavras, disselhe. Não cumpre encobrirme mais miutia desavenlura, sa- 
bido era que não se me podia desviar muyto tempo, consultemos ho 
remédio se ho le-n, e senão nam quero mais vida. Ca não me levara 
vantagem, ho Uiicense Gatão em me dar a morte: ao velho lhe saltaram 
as lagrimas gi-ossas pelas graves caãs, ouvindolhe isto. e tornoulhe. Es- 
forçay que eu lhe tenho ja buscado meyo de salvação, e por isso volo 
encobi*ia. Florisbel mais em si com tal esforço pediolhe que lhe dissesse 
tudo. Guaristenes lhe contou ludo o que tinha assentado com ho cava- 
leyro das armas cristalinas, de que cria que era pêra aquelle feyto : o 
pêra outros mayores. Florisbel disse que assi lho parecia. Porem que 
elle era ja muyto velho e nam eslava em idade pêra cousas de tanto pe- 
ri<To, por tanto que ho leyxasse ser companheyro do cavaleyro. Ca se 
inorres>e nam queria mayor gloiia í|ue perder a vida por a sua Helllo- 
ris, e vencenilo licava com tauí hom-adn principio de cavalaria, e pas- 
sadas antrelles algumas pnilias sobristi». lurou Florisbel que i)or nenhu- 
ma cousa leyxaria de ser naipiela batalha: e Ibranse ao cavaleyro das 



146 MEMORIAI. DOS CA\ AÍ.KjROS 

armas cristalinns <1 quem Florisbel disse. Vos senhor lenfles oíTcre^ido 
darme vida em querer salvar de quem ma da, por quem viv(j. Eu seiin 
sempre tiisíe se me nam achase convosco neste traliallio. Por lauto 
fazeyme mercê que me aimeis cavaleyro, e consenli em vos eu ncom- 
panliar p',.'ra testemunha de vossas obras, que em nenhum modo soííie- 
rey que se faça sem mi cousa em que me tanto vay. lio cavaleyro 
das ciistalinas lhe deu algumas rezões pêra que nam era hem me- 
terse em tal perigo, porem por mais que lho contradise com Gua- 
ristenes nain \m poderam tirar de sua determinação. Assi que foy for- 
çado fazerliie a vontade: por que ho cavaleyro das armas cristalinas so- 
bie presumir de si que delle nem doutrem linha necessidade pêra ho 
tal eííeylo, pareceolhe de Florisbel que inda que nam tivesse idade, li- 
nha corpo, forças, e esprito pêra tudo Per maneyra que assentado eni 
se partirem na guale que viera, sem os donzeis saberem delles, elle ho 
armou cavaleyro em quanto Guaristeues deu ordem á partida, Deshi 
embarcando com suas armas e cavalos, aquelle dia singraram as doze 
legoas que ha a Mayorca, Cuja terra tomaram ja aiti) noute desviados do 
poito, e foranse lançar em hum bosque que estava fiegado coni a cida- 
de, donde mandaram ho escudeyro de Florisbel que soomeníe levavam 
consigo: que fosse informarse do que nella passava, e lhe trouxesse a;l 
larga informação de tudo: ho escudeyro (pie iniiy sagaz e diligente era: 
foy e soube em breve o que cumpria, (>om o que voltando a elles, con- 
toulhes como ho dia antes: dous cavaleyros estrangeyros entraram em 
caií/po com os filhos de Samuniino por parle de Belíloris, e foiam ven- 
cidos: por o que ella era condenada que morresse degolada: e ja fora 
da cidade estava armado hum cadafalso, e nam tardaria dons horas que 
a nam tirassem a justiçar, nam se pode dizer quanto esta nova trasi)as- 
sou os corações de Florisbel e Guaristenes, porem ho cavaleyro das ar- 
mas cristalinas lhes disse, que nam avia que sinlir como a tevessem no 
campo, porque elle a tiraria do meyo dos immigos a seu pesar: se al- 
gum delles se atrevesse poela em salvo: em quanto os elle detinha e 
embaraçava. Florisbel que era muy animoso e não estimava perder a 
vida sobre salvar Belfloris, dandolhe os agradecimentos disselhe: que elle 
morreria, ou a salvaria. Muyto pesou a Guaristenes desta determinação 
e de lhe sayr ho negocio tain desviado do que elle cuydou, e vendo que 
ja os nam podia desviar deíeiTiiinouse em passar per onde elles passas- 
sem. lio cavaleyro das armas cristalinas e Florisbel hoqueiiaiu escusai-, e 



PA TAVOI,\ UKDONDA Tl 7 

ellp Pm npnlinm modo quis, per manevrn (jiie se foram mny apressada- 
mt'Mte via da cidade [ter antre liuiis olivais, e pello caminho liia Guaris- 
teiies dizendo a Klorisbel. 

Amado nilio vos lereys tal aviso em acometer os inimigos que tra- 
lialheys tomar a parte mas alta do campo, j)or que indo contra elles os 
diviseys prirTK^yro que elles a vos. Ca os Gregos foram vencidos ponpie 
os TrnyaiKis tinliani ho lugar mais alto Guaiday nam vos [)ou!iays fron- 
teyi-i) a os raujs do sol (pic vos cegam os olhos, que Anibal em Apúlia 
datido as cosias ao sol venceo aos Homanos que ho tinham defronte, 
nem vades contra ho vento que levanta ho poo e da na vista, ponjue 
lodos estes inconvenientes sam mny perigosos: quando arremeterdes aos 
inimigos de lof.ge levay ho cavalo com hum galope folgado sogeylo da 
rédea, pêra (jue sendo perlo delles apertado da espora arremeta com 
mayor inipeto: ponpie as forças do cavalo sam mayores no [)rincipio, e 
iííinandoihe a rédea vny mais forte pêra o que acometendo nam cumpre 
darllia toda. Ca leva ini-nos loira com ho pescoço frouxo, e !udo se es- 
força contra a resistência. Correndo a encontrar nam ponhays logo a 
lança em reste : pêra (jue vosso contrayro nam possa entender, donde 
deve desviaise. E também nam vos canse ho braço. Mais primeyro olhay 
se podei'des como vos aveis de reparar do seu encontro. Oeshi sendíj ja 
junto emrastay a lança com destreza, e trabalhay apontala antes na gar- 
ganta do inimigo ou no peyto que no elmo. Ca os encontros bayxos la- 
z.;m mais daniio, dado que os altos sam mais fermosos, quando cum[)rir 
enconlnrdesvos tende grande tento e aviso: que ho peyto do vosso ca- 
valo iiMin se encoiure com ho do immigo, salvo quando nelle conhecer- 
des e sintirdes lerlhe grande vantagem: e que a levara. Mas nam sendo 
de mais forças ao enconírarse ho desviay de maneyra que tome com os 
peylos a espadoa esquerda dó outro: que assi podereys levar a mellior 
delle, (les(pie quebrardes a lança levando mny prestes da esi)ada nam 
cureis de esgreinir muyto, e dar muytos golpes, mayormente em vfio 
que cansareys asinha ho braço, feri (piando virdes ho tempo: e em des- 
coberto vosso immigo, nam vos leyxeys vii a braços se vos nam sentis 
muyto forte das [>eriias, sendo caso que vos abiaceys nam vos afa.li- 
giieis por logo ho derrubardes, fazeyvos forte na sella te que elle en- 
fraqueça. E podervos eis assi lograr mcliioi' de vossas forças, sobre tu- 
do vos recalay de todos os mnos enganos e golpes manhosos. Cn vos 
cum[>re ler muytos olhos e ser miiy acord;ido: Kumor, ou grita de im- 



148 ' MKMOHIAI, DOS CAVAÍ.KIliOS 

rnigos, ou do povo nam vos espnnto, ou sobresalte: Mostrayvos sempre 
muyto seguro e sem medo, em companhia he bom dar a tempos gritas 
esforçaibjs porque com lio vosso esforço lio deys aos vossos, e atemori- 
zeis aos immigos: não sejays dorido dos golpes que receberdes: salvo 
pêra vos incitar yra, por feiidas nem vitoria de vossos conti'ayros não 
desmaeis, que a vida deuse á honra, e por a fama não se estima a mor- 
te, e mays muytas vezes se vio serem os vencidos vencedores que ho 
coslume de bom Espanhol he nunca dar costas ao immigo: e desbara- 
tado pelejar com novo esforço. 

Desta maneyra doutrinava ho bom velho Guaristenes a Florisbel que 
ho hia ouvindo muyto prompto. E ho cavaleyro das armas cristalinas 
não lhe pesava certo ouvilo, louvando antre si a esforçada velhice: E 
assi foram té chegarem dous tiros de beesta de Mayoi'ca: onde se fazia 
hum ressio grande e no meyo viram ho cadafalso armado de [)anos pre- 
tos: a cuja vista se elles poseram perto esperando o que viesse: concer- 
tando antre si como aviam de acometer e recollierse juntos pêra a es- 
pessa mata do bosque que leyxaram abalisado. Guaristenes que sabia 
bem a terra se oíTerecia aos poer em salvo como aqui fossem. Estando 
pois neste concerto entrava ja ho dia em horas de terça, per aquelle 
campo começou enxamearse ho confuso povo que concurria por ver a 
cruel justiça, em pouco espaço foy coh:'i'to de genlo: após isto não tar- 
dou muyto que sahio da cidade hum esquadrão de sesenta cavaleyros 
armados, antre os quais vinha a ferm;>sa iíellloris toda vestida de luto 
(tal devia aparecer Prosérpina Eclisada quando a roubou bórico Plutão) 
em hum palafrem cuberto de panos pretos que arrastavam pello chão. 
E ella com as alvas e delicadas mãos atadas, soltos os cabellí)s: cujo res- 
)>land()r abatia ho do sol. Ho qual cul-orto de escuras nuves aquella me- 
iiliaã não quis mostrar ho seu claro vulto, e ho ar empedido da triste 
jievoa parecia chorar de piedade da innoceiíte Helíloris, que com os olhos 
1 legados no peyto, perdida a cor do seu fermoso rosto se desfazia em 
lagrimas, não avia antre aquella varia confusam do vulgo tam deshuma- 
nas entranhas que de dó delia não quebrasse a dureza de seus corações 
em piadosos choros, como aquelle era ho dia que dizem das alabanças: 
andavam os ares cheyos de duridas vozes díjs que a nam podiam ajudar 
com outra cousa, todos huns com os outros praticavam sobre ho cstra- 
iilio aiiuecimento. Dilicultoso era c!'erse de BelHoris i)or a conia em que 
tinham, que cometesse tal li'ayção. Aias que Samunlino tinha a culpa, 



BA TAVOLÂ REDONDA 150 

chega\Tíra com a sospeyta à verdade: porque tudo se entende e se sabe. 
Nani faltavam outros que a condenavam, tais e tam incertos sam os juy- 
zos dos homens, poucos porem avia que se poderam ajudala nam fol^ía- 
rnm tomar as ai'mas por dar a vida a tam fermosa creatura. Ca natuial- 
mente ho Imm parecer ganha os ânimos sem maisconhecimenlo, e tam- 
bém por o que salíiam que Florisbel sinliria. Direyto he ja antigo que 
os piincipes tem nos corarões dos súbditos, pesarlhe do seu pesar, e 
folgarem com ho seu goslo (jue Ih.e todos procuram. A raynlia quando 
vio a concrusam da senlen(;a, nam pode tanto ho profano interese que 
a humana piedade nam senhoreasse ho real peyto, e tal foy a sua dor e 
arrependitnento. que se com sua honra poderá descobrirse federão: l*o- 
«em iiingueuí he Iam justilicado que negue a si mesmo por a verdade, 
?. (pie sempre coiilrastari} falsos inconvenientes. Mo sentimento dei rey 
Ihaiidíuiibur era sobre todos, om tudo dando credito á Irayção de Bei- 
finris por o que lhe diziam como líte tocava na vida. Principal cousa que 
piincipes mayormente sobre tudo estimam, á real piedade dava lugar 
a [Hira justiça, e bom he isto se a todos fosse ygual. Mas padecem sem- 
}u-e os Fracos por a pouca deligencia dos que julgam sobre inquerir a 
Nêrdade. E desta maneyra se salvou ho traydor Samuntino, em o qual 
siMuenle e em seus lilhos se fez a deshumana crueldade asi forte, nam 
l<\vxando chegar as suas traiiqueyras nenhuma mosca de compayxão de 
I}<'lfIoiis: porque os mãos sempre se prezam da maldade por a fazerem 
iiiayor, e indo este por capitão e autor da cruel justiça davase pressa 
em chegar ao cadafalso receoso de toda tardança. Os três cavaleyros que 
tudo podiam ver estando muy perlo, dividiranse desviados hum do ou- 
tio, e foranse per antre a gente pegar com ho cadafalso, cuydando to- 
dos que eram dos da guarda. A este tempo vinha Samuntino com os 
lilhos arredando ho povo, e os sessenta cavaleyros tantos da huma i)arte 
como da outra: em íio faziam huma larga rua, e em meio traziam Bel- 
íloris: Ho algoz que a avia de degolar diante dela em hum cavalo cu- 
berto também de dó, e levava de rédea ho palafrem da triste donzela. 
Tudo isto eram affrontas que se faziam ao coração de Florisbel, e com 
as lagrimas (pie per força lhe rompiam os olhos dizialhe antre si (juando 
a vio. Alma díísla minha alma vencida: que mortes posso eu ja passar, 
nem a que perigos uk^ posso olferecer por vos, que baste pêra desconto 
(!<■ tam grandíí alTronla como esta em que vos vedes por mi: desaventu- 
rado eu nacido pêra mal tam grande: qual he sintirdes por minha causa 



150 MEMORIAL DOS CAVALEIUOS 

algum leve nojo quanto mais tal trabalho. Mais ditoso seria eu, se pon- 
(lovos em saivo perdesse sobriso ávida, ficando a vossa sugui-a, pêra que 
assi pagasse alguma parte de tam grande divida. En porem mereço rauyta 
})ena pois vos vejo nessa, e de dor nam se me desfaz lio coração em 
])ailes, grave magoa lie esta que nunca de mi perderey, e mayor lio sa- 
J)er (pie não lia emenda que de mi nem desses Iredos jiossa lumar em 
vingança de tal treyção: o que posso farey, e nam será o tpie desejo : 
que !ie ja ley de que vivo. Em quanto Florisbel esl;sva nestas e outias 
lezões magoadas consigo esperando tempo, não leyxava de notai' e ou- 
vir Belíloris que vendose tam chegada ao remate de seus fados, dizia. 
Oo fortuna falsa quem soubesse se acabarás comigo per esla morte, eu 
a soffreria contente: se ci'esse que nam ha de doer uuiyio ao meu ver- 
dadjyro amor, por quem sou e folgo ser chegada a este termo, diloso 
estado, gloriosa morte, bem enijiregada vida sacriíicada a tal amor. Só 
liuma magoa levo que não mouio ante os olhos do jirincipe meu senh.or, 
que a minha anua fora descansada em lhe oílerecer [iresente lumia vida 
tam ali'ibulada. Ca muyto pouco lie isto pêra lio muyto que lhe quei'o. 
Esta queyxa tenho da minha saurlade, e sayba ho mundo que eu nunca 
liz nem cuydey cousa cunlra ho estado real : nem vida d>'l rey meu se- 
nhor, a minha morte eu lha pei'(lô, que inda que sua injustiça mo não 
mereça a gloria delia compra todo merecimento, dos traydores (pie me 
tal infâmia asacaram, a Deos e ao príncipe meu senhor peço vingança, 
jiorque per ella se sayba averdade da minha innocencia. Isto dizia Bel- 
íloris a vozes altas que feriam nos coiações de quantos acercavam e ou- 
viam, e na alma do seu Florisbel, ho qual nam podendo mais soffrer 
ouvila, dizendo em alta voz : Mouram os traydores, arremete a encon- 
trar hum dos filhos de Samuntino que da sua banda andava fazendo ho 
campo, e deuUie tal encontro pelos peytos (jue ho levou a terra mal fe- 
rido: porque ho tomou descuydado. Ca ta! Cavaleyro era elie que nam 
perdera a sela assi levemente. Alas levantouse logo com grande esforço e 
de hum salto tornou cavalgar ari'emetendo juntamente com os outros Ca- 
valeyros a Florisbel, ho qual tanto que ho dei'rubou nam parando foyse a 
Hellloiis, e levandoa nos braços, disselhe: não temais senhora, esforçay 
que este lie vosso Florisbel que vos livrara destes traydores a pesar d(d- 
les e do mundo todo. E a este tempo tinha ja ho caviileyio das armas 
cristalinas encontrado ho outro filho de Samuntino que lhe caliio em sor- 
e, e tomouiio com a lança per antre ho goijal e ati^avcssandolhe ho 



DA TAVOLA n^DONHA l')l 

pescnro rlcn rom elle morto no díão e slmii (jiichrnr ];v,vi^ arremeteo ao 
ao OMiro dos sessenta, que isso mesmo arremeieram a elie: eòeulliemi- 
ti'o tal (lesj)ai:.l\o, e per esta ley médio cincoantesipe a quebrasse. Dislii 
levando da l)oa espada ('.aliborna começou dai' cmn ella os seus go![ies 
que Iam temidos e nomeados foram no mundo, [)0!(j!ie foy lio cava!eyro 
das mayorus forças de seu tempo antre Chriitãos. Ho bom velho G:ia- 
ristenes tendo lodo seu tento em Flurisbel, como ho vio arremeter a 
Belíltiíis, correo com elle a aquella parte polo defoiíder: e íoylhe item 
necessário, porque Samunlino acodio ali bi'adaiidn aos cavaieyros. per 
maneyra que carregaram todos sobielle que liiiiia ÍícIíIoí-ís mais muita 
que viva diante si no arção dianíeyro, incrinada a cabeça siíbrc ho In aço 
esquerdo, e Florisbel cubrindoa com lio escudo porque lha nain ferisem, 
com a esí)ada a defendia. Era Florisbel grande de cni'po e forçoso, e 
assi foy hum dos abalisados de seu t.em[to: porem poucn lhe valera sea 
animo se lio logo iiam socorieia Guaristenes: a que a idade irsda iiani 
tirara ho e.>fo.'ço, e acordo com (jue lio ajudava. Mas valeu lhes soliristo 
lio cavale;» ro das armas (Cristalinas que em tudo trazia ho ollio, corno 
muy acordado que era nos perigos, e junlandosí; logo coííi ciles fazia 
nuiiavilhas quais nam f.^z ilercuies nas biigas dos Cen'auros quando rou- 
bavam L)ia;ijra, porque não dava golpe que lhe cavaleyro esperasse ho 
segundo, e assi os derrubava como se foram corpos conlrafeyíos, e com 
tal valedor teve Florisbel mais azo de se poder jr recolhendo com a sua 
amada Bellloris, porque lu cavaleyro das armas ra'istalinas e Guaiisíe- 
nes ho ro.le.ivam, sjs eiulo em si ho impetu dos conirayros : e em es- 
l)aço menos de hoi-a liniiam mortos mais de vinie (favaieyros, e os ou- 
tros tam escandalizados que os acometiam muy fi-acamente Mas isto não 
era tanto a seu salvo ipic! ja ho bom Guaristeiíes nam andasse tinto em 
sangue. O que visto per Morisbel parecendolhe que nam teria elle fôle- 
go pêra tanto traballio, chegandose a elle bradoulhe que lhe tomasse 
lielfluris e fogisse com ella a lodo correr. Ca elle com ho cavaleyro das 
armas Gristalinas dtderia os inimigos que lio nam seguissem, pois dou- 
ti'a maneyra nam se poderiam sa\r com a enqiresa. Guarisienes sinlin- 
dose fraeo das feridas pareci'oihe bom consellio. poivjue vio que Floris- 
])i'l linha inda as anuas saãs e eslava folgado peia poder jiflejar, e to- 
mando Bellloris. di>si'lhes (pn; não se enfrascasem na peleja e se fossem 
reliaindo que elle não se avia de alongar muyto delles, e tomando hum 
gai(q)e foyse ^allldo. Samunliiio que ho vio desviouse, ])fi!-que não te- 



152 



MEMoniAT. nns cavalethos 



vessem nelle olho e foyllie segnido ho alcance, e podeo fazer porque lio 
ílllio que Klorishel deiriibara, desejoso de se vingar arremeteo a e!le: e 
como era estremado ravaleyro começou ferilo mortalmente. Florisbel inda 
que era novo no oííicionam fazia senam cousas de grande espanto, e bem 
se poderá ciiydar que amor pelejava com elle. Antre tanlo que assi mos- 
ti-ava seu esforço ho cavaleyro das armas Cristalinas andava com os ou- 
tros como lobo antre ovelhas, os immigos receavam tanlo seus podero- 
sos golpes que nam ousavam melerse com elle, e fazendo os dous com- 
líaniiryros tam Uíaravilhosas obras, Samuntino seguia Gnaristenes que se 
Ília ja metendo no lios(]ue pêra embrenhar iielle Belfioris, e voltar em 
aiiuia de sua compaidiia. Mas vendo vir perto ho traydor: pos a ella em 
lerra. e disseihe que se escondesse no mais espesso da mata. Deshi vdl- 
tou ;! Samuntino dizendolhe, porque ho conheceo: Agora veras ti'aydor 
com»^ tua maldade te ti'az a receberes a [)ena delia, e começaram antre 
si liuma brava l)atallia. Ca Samuntino era especial cavaleyro em esforço 
e nam em verlude, e ('esejava vingarse deBeIfloris, ede todos os (jue lhe 
socori iam. Magoado de novo cosn a morte do íillio que lhe ho cavaleyro 
das armas crislaliiias matou. Guai-istenes inda que titíha soffrido grande 
trabalho, e esla\a cansado e ferido: deuse com elle como quem pelejava 
por a vida que ao menos qneiia vender por seu justo preço, la a este 
tempo el rey Brandambui- Ci-a avisado desta escaramuça, e parecendolhe 
que deviam ser alguns amigos de Florisbel, acodio pêra saber ho (pie 
passava, e castigar os cul[)ados. Floiisbel linha morto ho íilho de Sa- 
muntino, e com seu companheyro desbaiataram todos os cavaleyi'os: 
que como nam teveram quem os incitasse e obrigasse a pelejarem, vendo 
que de sessenta nam eram ja nrais que (juinze lorãose assaz feiidos pêra 
a cidade, pondo a esperança da vida no correr dos cavalos. Os dons 
conipniiheyros vicrãose a seu paço pêra onde tinham gizado, não sabendo 
o (|ue passava de Gnaristenes, porem el rey os vinha ja tomando ciuii 
inuyta cavalaria. Elles não se confiando em seus cavalos recolhiãose ao 
bosque, e na entrada deile acharam Gnaristenes a braços com Sanumli- 
no, que feridos míníahne.nle e liados cabiam dos cavalos abayxo. Gran- 
de foy a doi' d(! Floilsbí'1 em assi ver por seu respeylo ho bom velho, 
e mais nam vendo a sua Delfloris, e inda que el rey com sua gente era 
ja peito: e casi os toinava, não estimou o que lhe cumpiria por fazer o 
que devia, e disse ao cavaleyro das armas cristalinas. Senhor recollunvos 
ao bosque onde vos podeys salvar, que eu inda que me custe a vida hey 



DA Twni.A nrnnxnA 153 

de ver se a tem meu ayo. encomendovns Belílnris: ílocnvaloyrolhedis-. 
se: que visse se estava vivo pera que lio levassem, que elle não no avia 
de desamparar a tal lempo. Florisbel chegandose a Guarislenes tiroultie 
ho elmo, e logo tornou em si, e abrindo os olhos que ho vio: disselhe 
corii voz fraca. Filho nmndo eu estou uo ultimo termo: aqui vereysquam 
faro custa fazer vontade ao Amor, vos ao de Belfloris, e eu ao vosso: 
ella esta nesse bosque embrenhada, alii a podeys buscar, este corpo en- 
tre.cíay á sepultura se podeys a vosso salvo, e se nam pouco vay eui ser 
manjar de aves e bestas feras, sabey agradecer ao cavaleyro eslraugeyro 
o que fez por vos, (icayvos embora que nos campos Ylisios vos espero, 
lá a minha alma servira á vossa. Floiisbe! vencido do Amor, e quantas 
obrigações lhe tinha: como ho b^u coraçam era tenrro, estava fraco do 
muyto sangue que lhe sahio, ficou tam traspassado (pie cahio casi mor- 
tal sobre Guaristenes que espirava. Belfloris que miiy perto se escondia 
antre a mata, vendo assi cayr creo que também era morlo das feridas, 
que pera todo oulro cavaleyro de menos espirito poc'eram ser mortays, 
e desatinada qual a lioa que sae da cova a morrer com os filhos, correo 
a elle com altos gritos, e sendo junto cahio esmorecida. Florisbel acor- 
dou e nam cuydou logo, senão que alguém lha matara ali, e dizendo 
I)era que he mais vida pois isto assi he, foy por se malar: mas ja a este 
tempo era cora elle ho cavaleyro das armas cristalinas, que ho leve e re- 
prendeo sua determinação por gram fraqueza, a este passo chegava el 
rey Brandambur, e em caso que vinha com impetu de vingança: quando 
vio os cavaleyros a pé em que a seu parecer não avia resistência, dis- 
selhes: atrevidos cavaleyros que engano foy ho vosso, e que vaã ousadia, 
cuydardes sayr com tam duvidosa empresa : matastes os meus que eu 
com vossa morte nam dou por vingados, dizeyme logo quem soys, e en- 
tregaynos a minha mercê: se nam quereys que vos castigue asperamente. 
Florisbel disse a seu companlieyro que ho leyxasse responder a el rey, 
e disselhe. Manhanimo senhor nos somos dons eslrangeyros a que jus- 
tiça que com esta innocente usays moveo aventurar a vida por salvala, 
quando isto acometemos logo lançanios ho dado com a fortuna que nos 
viesse, porque nos obriga a ordem <le cavalaria morrer por donzelas, e 
jKir verddade, sabemos muylo bem que sem ella he condenada esta da- 
ma, e isto poderoso rey defenderey eu só c ambos se cumprir a tjuantos 
cavaleyros ho contrayro disserem, e pois te agora vossas obras foram 
sempre ornadas da piadosa justiça, nam queirais por huma vontade 



154 MKMORIAL DOS CAVAI.FJROS 

apassionafla, e má iiiformarão usar da injuslira cruel. A í^sfe íempo Sa- 
iniinlino que lidava com a morU3 tirou lio elmo, e sirilJudo em si espe- 
(lirselhe a vida, bradou que lio ouvi.^sem, e clie^randose lodos disse, líey 
Uraiidambiír, eu por que ja tenho a peíia da minha maldade de que por 
gualardão terey lio perpetuo tormento, que he ho frnyto delia, quero 
remediar o que posso Ueshi jurou que Belfioris era sem culpa, e que a 
tinha (ju^Mii elltí não podia nem devia dizer. Nisto deu ho espirito em 
mios de sua vertude. Em grande estremo folgou el rey saber a innocen- 
cia de Belfioris que muyto estimava, e logo caliio na sospeyta do nego- 
cio: e falando aos avenlureyros diselhes. Esle ja pagou sua treyção, Vos 
caaleyros por amor de mi que vos vades comigo pêra serdes curados 
dessas fei-idas. e por vosso respeyto quero usar com Belfioris em des- 
conto da aCfronla que tam iiijuslamenle lhe liefe\ ta: liuma magnifica obr^a, 
se algum de vos por seu amor se ai"iiscou por ella a lantf) e a quiser 
]ior molher eu farey ho mayor senhor de meu reyno como lhe a ella íe- 
n''io prometido. Florisbel vendo Iam bom azo pêra o que desejava adian- 
touse logo: Casi também re.:eoso do cavaleyro das armas cristalinas, que 
amor solicito nada leyxa [loi- cuydar, e assi por temer, e disse que fol- 
garia tomalla se lhe desse sua i-eal palavra que por neiíhum res[)eyto lhe 
faltaria delia. A que el rey de boa vontade deu logo e jurou compiir, e 
assi quando cuydou que de todo a tirava a [-"lorisbel então lha entregou. 
Desla rnanevra sabe ho Governador do mundo fazer o que quer quando 
bo nos menos (jueremos, por o que he trabalho vão resistir a nosso des- 
tino: eu modo (pie satisleyto Florisbel de tal pi'omessa por a ceileza que 
sabia do pay em suas palavras, tirando logo ho elmo foylhe beyjar a mão. 
El rey quando ho conheceo llcou maravilhado de tam alto principio de 
cavalaria, e dado (pie folgou com isto em todo estremo não menos lhe 
prometeo, e sabido ser Guarislenes mo. 'to grandemente bo sintio, poi- 
qne se criara com elle, e estimavaho na conta que ella merecia, e logo 
bo mandou levar á cidade pêra celebrar seu mortorio, e aos outros que 
os (jueymassem naquelle campo. Tratar das honras e palavras que el rey 
teve com ho cavaleyro das armas cristalinas, he sobejo: basta saber que 
todos tinham que falar nas cavaleyiosas proezas que fez naquella esca- 
ramuça, dando com tal principio de si a esperança das obras que per 
lenip »s mostrou, e com tam vitorioso tim se recolheram todos com el 
rey a cidade, em que Belfioris entiou com differente fortuna da que, 
poucas horas avia, tinha. 



DA TAVOLA nCDONDA 155 

Capitolo. XXV. Do snccorro qae el Ueij Sagramor 
deu aa liiujnfia Drusiamln , : . 

Falta grande he e niiiy usada do inundo, dii^^na de reprensam, poer 
lio preço da pessoa nos bens que possue lempoi"ies. dos na(ui'aes não 
fazendo conla, segundo vimos (|ue a não tinha el Hcy Brandanibur com 
os dotes da gentil Bellloris negandollie lio nieiecimenlo de suas jteríev- 
ções, sem as quaes se tevera esíado unindano a esliniai.T, tenha porem 
lio mundo suas más leys, estimaiia eu antes ho abonado da naUireza, em 
cujos dons forluna não tem jurdieam, ca nestoutros ella os dá e os tira, 
e he simpreza eslinialos, [lois nunca eirain gi-andes quebras, e osnatii- 
raes não podem falsilicarse. Ca por fim Ueldoris perseguida da simpreza 
(lo mundo alcança o que [)er rezão se lhe tleve, e a forluna pode cansar 
os bons: mas não vencelos, como verevs no que se segue da raynha 
Drusanda, a qual segundo atias ouvistes, esca|)ando do poder do gi- 
gante Burquimirão, e leyxando a vertuosa Âniilia sua lilha em seu [lo- 
diT, em martyrio tam contiiio como era ler de noute e dia nos biaços 
immigos mortos, e contando a el rey Sagramor toda sua desaventui'a, e 
ho estado em que leyxava a iillia: não ponpie estimasse a vida, mas [lor 
ver se podia socorrerlhe e livrala de tal esjiecia de morte. El rey mo- 
vido de piedade pêra tamanha crueza: Uecolheose logo com ella e a 
j'aynlia Seleucia pêra ter conselho sobre ho socoi'ro. jieia ho (lual se lhe 
logo olfereceram seus vassalos nolires, e cavaleyros da Tavola: todos muy 
querençosos de tal empresa: mayormente poi" ser cousa que tanto tocava 
á raynha Seleucia: ja que era alíi'onta de sua tia a raynha Di'usianda. 
l*er modo que a corte se alvoraçou toda: tratando cada hum de se apre- 
ceber. íusquibel quando teve entendido o (jue passava licou descontente 
liarecendolhe que se lhe des\ lava ho clleylo a que viera, e foyse aos juy- 
zes do campo pei'guiitarHie (jue ihe mandavam ínz.T: elles ho Ibram sa- 
ber dei rey. lio qual sabendo a condiçãíj dos mouros (jue todas nossas 
obras julgam segundo sua malicia sem aceytarem nossas justas descul- 
pas, mandoulhe dizer que lhe pedia (jue por aijuelle dia solirese : pois 
via lio inconveniente que soceuera tam contrario a outros gostos, ca 
liassados alguns oyto dividos ao sentimento d:iijuelle trabalho lhe res- 
ponderia a seu propósito, foy [lois assi: Que do conselho saiiio que se 
fezessem prestes trinta velas com dez mil homens escolhidos, porá que 
repartidos em sete capitanias dessem junlamenle em todas as ilhas por- 



j^6 MKMonivr pos cvvai.kuíos 

que nlío se pniesscm valer luimas á outras, e ou^ro capitão fosse dar 
na ilha tUis sete cidades, pêra (ine ho gigante Bunpiimirão carecesse de 
toda guarida. Assentado isto, nomeados os capitães, e dado ho avia- 
mento pêra ;?e aperceberem, deuse tal presa nisso que em espaço de 
quinze dias esteverain a picpie, nesite antre tanto não se esquecendo el 
rey Sagramor de cumprir com lusquibel, assinoullie ho dia das justas, 
per modo que elle as esperou, e o primeyro que lhe sayo foyÂngelario 
Duque de Equilania, cavaleyro novt'1, que el rey armara novamente pêra 
jr na armada, e com elle Estinto Conde de Lotoringa, Guidos de Trever, 
IJivião de Aste: todos qiiatro mancebos nobres que começavam entrar 
nos trabalhos de sua obrigação, com os quaes lusquibel correo algumas 
lanças: mas por fun os abateo de sua oi)enião: não porque não se mos- 
trassem genLijs jiisiadores: mas ho mouro era espeiimetando na(]uelle 
mester, e miiy duro de domar: por o que naquelle dia derrubou alguns 
vinte aventureyros, a mayor parte novéis: mas cavaleyros que polo tempo 
mostraram saberem tratar as armas, e vencer com ellas seus immigos, 
desta maneira soslentou lusijuibel ho campo dous dias com vitoria e 
gi"ande nome, do que el rey Sagramor ja se allrontava, receando triun- 
í;ir no mouro da sua corU^ por quanto não linha nella os principaes, e 
íi alguns da lavola que eram presentes, disse que olhasem por sua hon- 
ra, não leyxassemjr lusquibel a seu salvo, e elles que assi ho determina- 
vam: mas não llie íby tam fácil como presomiam, porque ao terceiro dia 
ihe sahio Camandrim de Lobayna que se tinha por dos abalisados: e na 
terceyra carreyra«achouse desemganado de si: E muy pesaroso de não 
poderse melhorar da espada. lio mesmo aconteceo a Morivão de Tebisa, 
1'risandor de Bondimaigne, e (]ami)esino, Duque de (^locestra: todos es- 
tremados Cavaleyros da Tavola redonda: os quaes como tinham grande 
openião soílriam miiyto mal verse abatidos de hum mouro por ser bom 
justador, desejando cada hum delles matarse com elle. Pois el rey Sa- 
gramor certo não estava menos aíTrontado, quando na liça entraram dous 
íiventureyros assaz apessoados e ayrosos, e logo em sua ufania ho mouro 
os receou: tomando hum cavalo folgado e huma boa lança. Os cavatey- 
í"(ts chamando himi pagem falaram com elle: Ho qual se foy ás damas, 
<■ disselhes. Aqiielles aventureyros não sam tam conliados de si que não 
leceem passar jjola fortuna dos outros: cuja alta cavalaria he tam sabi- 
da. Tem entendido que ho mantedor se sostenla em virtude de sua da- 
ma que ho mandou favorecido, de cujo Amor faz tais obras, e poríjue 



DA TAYdLA lIF.DiAflA d '^7 

(le. VOS Senhoras crem ijiie venceys ns iIp todo miinflo, pedem qiifi ])or 
lioiírn (la Corte, decoro de vossn opciíião: mandeys que em víjsso nonii? 
acometam ho mantedor, e por que vejacs que nesta ctiníianra tudo llu-s 
he fácil, e tem por certo hn vencimento, pedem com isto juntaiiienlo 
que antre vos lanceis sories de qual deles ha de ser o primeyro que 
juste, porque este espera escusar lio segundo sob pena de desmerecer 
servirvos. As damas festejaram miiyto o recado, e a raynha lhes man- 
dou que satisfezesem os manledores: por o qise ilie responderam que 
estimavam muylo qneierseeiles valei' delas e !:ie ontrogavam todo seu 
poder: e que em seu nome justasseíu, e lhe encomendavam (jue ho sos- 
tentassem de man(\vra que vise Arindelia e seu servidor (pie se devia 
obediência de todas as daiuas ás da corte de Iniíralerra. e quanto as sor- 
tes tomaram hum rico lenço e m-indaram dizer a lusquibel ho requeri- 
mento dos aventuieyros. e que lhe pediam (jue elle desse ho lenço a 
qualquer deles, pêra qi:e esse- fosse ho primeyro: ho mouro respondeo 
lhe. Dizey a essas senhoras que le agora não me temi de nenhum averir 
tureyro, por ser verdade o (pie estes entenderam, ipie em nome da senhora 
Arindelia me defendia, e (hulo que espero (pie me não hade faltar, tod;i 
via me receyo que por serem muy'as iratem mal huma. lio que eu hey 
de defender com a vida : ho ai (^ue me mandam farey logo, e tomando 
ho lenço foyse passeando contia os cavaleyios, e elles sayram a i-ecebo- 
Iho : ho mouro disselhes. Aquellas senhoras mandanme que lance esia 
sorte: e porque espero de comigo ganliar Iam pouco ho pi'imeyro, como 
ho segundo: não cuydo que em dala a hum agravo ho outro, Irabalha- 
Iharey que vades ambos yguaes: com isto cunijuiíey com lodtjs. l:^ assí 
deu lio lenço a hum (pie !lie disse: Prometovos senhor lusiinibel de vos 
reconq>onsar esta boa obra. Venhamos ás más, tornou ho mouro, que 
estas liam de teslificar agora nossas vontades, e indose ao posto coia 
muylo ar, sem mais tardança correram a encontrarse hum contra ho oi> 
tro, e foy tal ho encontro que se deram: que lusquibel se aeiíou em 
teiTa com ho cavalo sobre si, e ho aventureyro lambem a teyjou: Mas 
levantouse muy prestes, e levando da sua espada esperou que se des- 
embaraçasse ho mouro, o que elle fez bem desenvolto, inda que m;iíi 
tratado: ho aventureyro lhe disse, .\gora iiisipiibel vereis (ju.uito vai Ir) 
favor das damas de Ingiat.-Tra: por tanto proeiíray valervos da favoi" d.» 
vossa amiga Arindelia. lio mouro apassionado consigo do (pie llie acae- 
cera, não curando de oalavras, res[)oii(leollie com moilais obias carre- 



158 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

gandoho de duros golpes : mas lio aventiireyro lhe respondeo com ou- 
tros de que <Hle loi^o enUnidco qne linha as()ero adversário: E desta ma- 
neyra se comhaíerain espaço de duas horas sem se lhe euxergar melho- 
ria liem tomarem lolego, e vindo a hraros trabalhando por se derrubar 
andaram bom pedaro te que de cansados se ai^aitaram, e sem se falar 
esteveram luim pouco descansando. Deshi ho avenlureyro tornando con- 
tra íusipiibel, disse. Não sey se caymos em culpa com as damas em nos 
pouparmos, ja que em seu nome pelejamos. Pareceme que si, respondeu 
ho inoui'0: porque (juerem ser servidas a muyto custo. E começando co- 
mo de novo sua batalha, duiaram nella huma hora, andando ja muyto 
feridos. A que lhe mandaram as damas, mandadas por el Uey: que ce- 
sassem da contenda: mas lus(piiltel disse que lhe era forçado não sayr 
da ley que lhe Arindelia dera: Por tanto que avia de vencer, ou ser ven- 
cido, lio avenlureyro disse, que ja confessava desmerecer st rvilas em 
não telas satisfeytas: mas que ou se salvaria de culpa, ou receberia a 
j»ena logo, e |)arece ijue lhes entrou nos corações novo furor com que 
se acometeram, de maneyra como se começaram então. Nisto foy lus- 
quibel afracando por muyto sangue que lhe sahia, e quis apertar com 
seu immigo aíites que entrase em mais (Vaf|ueza: Ho aventureyro co- 
nhecendolhe a fúria, payroidha por ho cansar e poupouse. E des que 
assi eníraípieceo, por ho não malar, çarrou com elle e levouho debayxo 
de si, e da (pieda ho cansou de todo que licou sem fôlego, e tirandolhe 
ho elmo poslhe a [)onta da espada nos olhos, dizendolhe. Rendeyvos ani- 
moso cavaleyro, (|ue Ikj Amor nam se serve senam de rendidos: ho mouro 
tornando mais em si, disselhe. Tal padeça quem se lhe rende: não de- 
vei'a porem ser vencido doutrem, quem ho he da senhora Ai-indelia: mas 
pois ho ella assi (juis eu sou vosso, e lembrevos que me flcaes obrigado 
por vossa palavra. Eu a comprirey, disse lio aventureyro, em tudo o 
que vos cumprir. Nisto vieram os luyzes do campo que os levaram ante 
el rey : onde ho aventmeyro foy conhecido, que era Monsolinos Duque 
de Sulfocia, hum dos abalisados da Tavola, filho (como ya dissemos) de 
Palomades ho pagão, e seu companheyro era Leonces de Henel: her- 
deyro do (bondado de Guiana, seu primo: que não presomia menos de 
si. Os cavaleyros se recolheram e foram curados, e de maneyra que em 
dez dias estavam pêra acometerem toda alíronta. E porque a armada 
estava aprecebida, quis lusquibel saber de Monsolinos como estava no 
seu nt'gocio. .Monsolinos lhe disse que da sua parte prestes pêra ho ser- 



DA TAVOLA nKDONDA 159 

vir, e nssi ora, qnc liiilin luim galeão miiylo poderoso em fjne determi- 
nava jr (!om lusqiiihtíl e os seus vencidos (|ue eslavam obrigados a jr 
com elle: mas leceavase Monsoliiios (pie os não quisesse el rey escusar 
de jrem n(» socorro da raynlia Drusianda: ()or o que consultando o que 
fariam: disse lio mouro que se queria nlTerecer a el Hey pêra ho jr sei- 
vir na(|uella armada, e acabada a guerra da bolta veriam sobre Fon- 
te Habia. Islo parecen bem e inílo lusipiibel a el rey, a Mo;isolinos 
foy muyto contente. Pei" modo que dali a cinco dias que a armada se 
fez á vella, Moiisolinos se embarcou com lus(juibel e alguns cincoenta 
Cavaleyros vencidos de lusquibel todos de preço, charnandose ho galeão 
dos aventureyros, do qual iM nsolinos era capitão isento de obedecerão 
da armada, e com liberdade de jr onde quisesse. Ho Capitão mór eia 
Dragonel de Andalia Duque de Ruão muy esperimentado: mayormenie, 
na guerra do mar, ho do galeão que lua pêra a ilha das sete cidades 
era Leoiices de Renel, e dos outros a quem eram repartidas as ilhas 
Uondinel de Embrejj, Guarlot de Salibernias. Bondimartes de Goinia, 
Carliaiites de Forages, Orontes de Clarit, Taulancio de Molinas: e outros 
tie menos sorte dos mais navios, E toda era gente luzida, desejosa de 
servir seu rey. Partindo pois esta armada com toda boa ordem e vento 
bonançoso, foram surgir ante a ilha principal em que estava ho (roei 
Hjii'qiiimirão muy aprecebido, coroo aquelle ípie por a raynha Drusianda 
se salvar, tinha entendido que vria buscar socf)rro a el rey Sagramor, 
em que estava certo darlho: e logo se receou dos cavaleyros da tavola 
redonda: mas como tinha alguns gigantes e toda a mais gente muyto 
giierreyra não lhe parecia possível que algum podei' ho entrasse, e cuy- 
dando atalhar a fortuna, mandou também fortilicar a ilha das sete cida- 
des, com tenção de se recolher a ella, se caso fosse que se vise em ne- 
cessidade, e passou a ella por mais a desesperar a i)rincesa Antilia, que 
estava em seu conlino martyrio em poder da giganta molher do Burqiii- 
mirão: Que magoada dos filhos javereys que companhi.ilhe faria. Surgin- 
do pois a armada na ilha, Monsolinos pedio a dianteyra pcra desembar- 
car, e foyllie concedida: e ho capitão mór Dragonel de Andalca repar- 
tindo as velas necessárias pêra as outras capitanias, mandou aos capitães 
que partisem logo cada hum pêra sua empresa tanto que ho vissem des- 
embarcar, ho que elles assi lizeram. Burquimirão sahio á praya com al- 
guns dez gigantes e miiyta gente outra bem desposta e vaioiíil, tal (]iio 
fazia muy (lu\ idosa a desembarcação Monsolinos (pie semjire foy deste- 



100 MRMOIUAL DOS C.WAI.FJnOS 

mido, quando vio mais certo ho perigo (íiilão iio comeíeo com mayçH' 
Liosto. e metendosu em dii;)s l;uicli;ir;js com os ciiicoeula nvenliiivyroíí, 
jdeleiídeiido cada hum ser ho primeyro que saltasse na piTiya, Coymuylo 
[)cra vei" a inveja e pressa com que alguns se lançaram na beyra da ag(i;> 
siin lerem paciência jiera esperar mais: ()oniiie queriam mostrar a íus- 
quihel que se os vencera na justa não era poi' fraqueza, pois ho moura 
não se llies acanhou: mas saUando apar com Monsolinos que foy ho pri- 
meyio que tomou teira, começou fazer maravilhas. E querer contar as 
que se fezeram nesla batalha: seria poer em sospeyta a verdade, e com 
p>'(.juena ocupação da imaginação se pode alcançar gram parte, visto que 
defendiam a pi'aya bravos gigantes e gente bruta que não estimava a 
nKjile, e trabalhavam tomarlha animosos cavaleyros a que a honra obri- 
gava a mais de que as forças soffiiam: Per modo que o que menos se 
esiimava e mais se baralava eram as vidas que muytos ali leyxaram em 
prova de sua o[)enião. Monsolinos e lusquibel foram acometidos de dons 
gigantes coníiados ein cuydar que tinham nelles [lequena presa: mas sa- 
hioihes desviado ho pensamento na reposta que nelies acharam, e foy tal 
que inda que fosse com muyto perigo e custo de suas pessoas. Os gi- 
gantes licaram na praya mortos servindo de pontes pêra os que desem- 
barcavam Dragonel de Andalea capitão mor querendo fazer caminho aus 
seus, t;imbem se deu com outro gigante, e tanto ho apertou que lhe ti- 
rou a vida na ponta da espada, não ficando a sua muyto segura: mas 
obedecendo ao animoso esprito forçava ho fraco corpo sostentarho alento 
com que guiava os (jue ho seguiam imitando suas obras: porque está 
muy claro que pelejar ho capitão he grande terço da vitoria: e assi foy 
giam parle dela o que Monsolinos fazia diante todos: e lusquibel que 
com elle hia teudo com todos os aventureyros: por cujo esforço a des- 
einbai'carão foy franca aos bigreses com morte dos gigantes que a de- 
fendiam. O (|ue visto per líurquimirão que andava animando a soslendo 
os seus, desesperando de sostentarse: teve maneyra como se embarcou 
com alguma genle esiiolhida em hum navio que ja tinha prestes pêra se 
lhe fosse necessário, e pode yrse a seu salvo, perque os Ingreses tra- 
ziam ho cnydndo no tomar a cidade por ho saco que lhe ho capitão mór 
tinha concedido: e Monsolinos com os aventureyros levavam seu desfi- 
nho nos paços por livrarem a princesa Antilia, e cuydando Dragonel do 
Andalea que se recoliíera Hnniiiimirão á cidade pin-a nella se fi)iliíicar: 
bradou aos seus que trabalhasem por enliala e segurar a vitoria. i*er 



DA T.WOLA RKI)ONn\ 101 

líianrvr;» que niirqiiimirãa s(3 p.irtio iniiy a sen salvo via da ilha das sele 
cidadfs. i.:ii:n() iiiie os que defciidiain agram (.-aiiarea alVacaram logo não 
sabendo do capitão, qne os desan»paroit como falso c sagaz. Per maiievr,-) 
(| i(^ a cidade foy tomada e saqiieada com mo!"te d.e todo-s os que se de- 
fenderam. }'] Monsoliiios apossandose dos paços com os de sua compa- 
nhia, líiíscou Antilia. e nam na achando piTguntoii sem achar quem lho 
Soubesse dai- novas delia, anles lodos lhe diziam que era morta: porque 
es':i íania tinha Burijiiimirão lançada, parecendolho ({ue assi segurava não 
ser buscada, a Dragonel de Andalea, e a Monsolinos lhes pesou em estre- 
mo de não achai'em Antilia, e per ventura com algum virtuoso funda- 
mento ; e teveiam que era morta: por o que ho seu martyrio não era 
pêra se soíTrer muyto com vida. Ho capitão mór assocegando e fortaU^- 
cendo a cidade, teve consulta sobre onde se lançaria Hurquimirão, de 
que souberam que hia com gente, e pareceo que devia tomar alguma 
das outi'as ilhas pêra lhes socorrer, ou fazer gente com que voltase sn- 
breles poi'(}ue não saberia dos capitães qne hiam sobrelas: por o que 
Dragonel de Andalea disseque queria mandar alguma geiUe em socorro, 
e .Monsolinos lhe disse que se fezesse forte pois não sabia se tornaria 
Bur(juimirão logo. e elle com seus companheyros, de que morreram al- 
guns dez. Iria soccorrer as ilhas, e ajudar a ipiem delle tevesse necessi- 
dade, e assi se fez: mandando também recado a el rey do que passava. 

C(ipilo[o. xxcj. Da que acaeceo a Deijilos de Xa[ra, e Pinaflor. 

Vece ja ho inundo parece em variar os casos e acontecimentos longe 
.sempre do que em nossas contas os desenhamos, e desta variaçam se 
sostenia porque todas as cousas humanas pedem delia. Assi também Fo- 
roneus nosso escritor nesta historia trabalha proceder sempre alternada- 
mente por não enfastiar ho gosto dos que a lerem com a continuação de 
Imm só conto, no que tem tal ordem que dando a cada hum seu lugai-, 
ho tempo os iníla em seu propósito: porque nam iby sua tenção tral;;r 
de hum soo cavaleyro como poderá do das armas cristalinas a quem se 
devia por suas obras, leyxando os outros agravados, antes pretende fa- 
zer huma viva memoria de tudo o (jue alcançou saber dos da Tavola re- 
donda dei Hey Sagramor, e por seu respíjyto doutros (jue ho nam era:n. 
Nam tirando ho loM.vor aos estranhos que ho mereciam, por ho dar aos 
natuiavs, e assi exilando de esforçado Cavalevro das armas Cr;stalin:is 



■IG2 iMEMORiAí. nos f:.\v\f. Finos 

altos prinripios rio sna estrcni;K];i cnvnl.iria, segundo lin qiiP passou em 
.Miiynrca. Louva lambem rmiyío a de Florisbel, e levtí iniiyta i-ezauí pciM 
íjizer delle liiiiyto caso por lio fruyto que de depois deu, e a esli-einada 
amizade (jue teve cojii ho Cavaleyro das armas Cristalinas te a morte 
antecipada (]ue por seu caso passou. Mas leyxando a elles, trata de co- 
mo Deililos de Xatra, e a famosa Pinaiior tomando a via da frontaria de 
Navarra pêra imitarem seu jrmão Uorislão Dautarixa, í^ftndo ja em Gas- 
conlia lium dia a horas de vésperas cohriosellies ho Sol de oscuras n;i- 
ves e fez ho dia Iam oscuro que se viam as estrelas tam cl. iras como na 
iioule. A[)os isto começou ho ceo com grandes relâmpados e trovões, 
lançar de si gi'ossa pedra com vento que cegava os olhos, c foy em tal 
crecimento e durou tanto que lhes causou errar ho caminho e seguirem 
per outro bem desviado de sua viagem: pelo qual caminharam toda a 
noiíle nam achando lugar algum de abrigo, e com tanta pi-esa que quando 
amanheceo estavam dez legoas donde partiram, levando os cavalos mny 
cansados e elles com pouco descanso, e resando a chuva com huiiia né- 
voa espessa: 'foram inda assi te' horas de meyo dia, em que lio so! com 
sua força acabou de gastar aijuelies grosi-;os vapores, e ja ho ar claro, 
conheceram que não levavam estrada; .M;;?; iião (pie soubessem atinai' etn 
que liai te csavam; chegando pois a hum ribeyro que decia de huns 
montes per hum vale, apearamse pêra tomarem algum repouso: e ho 
darem aos cav;ilos e á companhia. Ca Pinafior alem dos escudey!'os Iím- 
zia sempre consigo huma donzela que a vestia. Pois estando assi refa- 
zendose do trabalho, passado espaço de huma hora; viram vir huma don- 
zela pela serra abayxo em hum palafrem tam cansado (|ne nauí [)ot!Ía 
consigo, e alem desta fadiga outra sintia ella em seu peyto que a mais 
cansava : segundo pubricavam os seus olhos vertendo muylas lagrimas, 
e chegando assi a elles tornou em si mais esfoirada e salvou os e elles 
a ella. Deshi pedirãolhe que desse ali fôlego ao [)alaíVv'm pêra que a po- 
desse servir em sua jornada, Ella folgou fazelo, e peiguntada i)or a causa 
do seu sentimento que mostrava ter grande, lhes disse. 

Pouco he senhor o que eu mostro pêra o que na alma sinto, emuyto 
menos o que sinto pêra ho muyto que devia sintir: Mas não queyrais sa- 
ber minha dor pois lhe nam podeis dar remédio, e não escusais terdes 
magoa se a souberdes, quanto ella mais encareceo ho caso: tanto os ca- 
valcyros cobiçaram sabelo. E Deifilos Ifie disse que nam devia esperar 
ho remédio. Ca pêra todas as cousas ho avia, e tevesse por muy certo 



DA TAVOI.A nKPONDA IO 

qiip adiaria nellcs vontade o deligencia prnmpfa a tudo o qne lhe cum- 
jirisse. A (1(i[)/.ola agradecendollies lio oHerocimenlo tonioiillies (jue por 
?í(jiiolle bom desejo sem outra esperança folgaria contarllie sua fortuna, 
ja qne tanto robiravam satiella, e a[)erlando as mãos piadosainente, de 
novo rcnovon suas lagrimas como se entan-i as come(;ara derramar, di- 
zendo aníre sului/os grandes. 

Na iiha Cândia reyna ao presente r)ei[tiro poderoso rey que laniliení 
sentiiií-ea aigunias illias comarcaãs. heste lie lilho lio Priíicipí! Arislan- 
dor, ho qual sendo muy estremado em Iodas as partes boas (jue hum 
gentil oavaleyro pode ter, era com muyta rezão muylo amado do pay. 
Neste mesmo tempo tinha Krmolilo rey de Kpiro huma (ilha de e^tre- 
líiada fermosura cliamada Kiorisa, desejada e pedida de muytos l^rinci- 
|)i's Gregos, ella por a openiam (jue de si tinha pedio ao pay (jue a não 
casasse, salvo com ho cavaleyro que por ella mantevesse na sua cidade 
K[)iros Ires dias justas com quantos pretendessem ganhala, prosuposío 
que haviam de ser príncipes ou senhores de estado que a merecessem. 
Disto foy ho pay uiuyto contente, e logo ho mandou pregoar per toda 
(íre^ia, e no Peloporieso e principais ilhas Ciciadas, ho preço das justas 
era muy cobiçoso e com isto ho contrapeso do desejo de honra (jue vai 
ninyto com esprilos nobres, convocou muytos a yrem provar sua v>jn- 
tiira em tal empresa. lio primeyro que veyo a Epiro foy Pandaristo rey 
da morea, lio (piai mandando armar huma rica tenda com niuytas lanças 
á porta recollieose dentro pondo de fnra hum escudeyro c(jm huma cor- 
neta que lhe fazia sinal em vindo algum avenlureyro. Era isln na pi-aya de- 
fronte dos paços dei rey Ermotiio: (jue de luimas varanilas vio com sui 
ÍJÍha tudo o que passava: á vista delles se mostrou Pandaiislo, especial 
juslador contra muytos que lhe sayram, e de maneyra que se cria ja 
delle (|ue levaria ho [ireço quando no porto ao segundo dia surgio Aris- 
taiidor [iriiici[)e de Creta, cpie he Cândia, e vendo como Tandaristo es- 
lava vitorioso, não (juis dilatar mais a sua sorte. Per modo que sem 
alguma detença entrou no campo armado de humas armas verdes com 
esperas de prata, em hum poderoso cavalo de muyUis malhas: com t d 
ar e dis[)osição que logo lodos poseram nelle olho. Esperando alguma 
mudança da fortuna de Pandaristo, e assi foy (pie á lerceyra lança (pie 
ci?:'reram: Pandaristo. perdeo a sela: caindo ho cavalo sohni elle e Ira- 
laiiddho tain mal que dali ho levaiam cm colos de homens aleyjndo da 
p('r!ia ezijuerda. Al■l^tandol• íicandu em [losse da lenda e escudos (jue 



1G4 MKMoniví. nos cAVAí.Kino.s 

l^nidnristo ganhara: porque tal era a oídenaiiça, que ho vencedor ficase 
com ho despojo do vencido: começou manter justa tam cavaleyrosamenle 
que não lhe sahio cavaleyro que não derrubasse com tanta destreaa e 
desenvoltur'a que parecia fazer nada, e tralando deste mo(io ho negocio 
iiiliou seus competidores tam em breve: que quando veyo ao terccyro 
dia ja não avia cavaleyro que lhe sayse. E por mais abastança, esteve 
inda oylo no campo sem achar quem bo desapossasse da sua honra, e 
tendo ganhado ho preço das justas, el!e se foy a el rey Ermoliio ijue 
achou com sua filha a inflnUa Fiorisa, e apresentandolhe os escudos dos 
vencidos. Disselhe se avia mais que fazer pêra merecer o que per de- 
ref to se lhe devia, pareceme (|ue ho vejo agora estar tam gefilil homem, 
que depois dizia Fiorisa muytas vezes que vencido ho escolhera antes 
que todo outro vencedor, e eu a vi dar muytas graças ao .senhor Deos 
por lhe soceder a sorte tam prospera pêra ho seu contentamento : po- 
rem os fados votaram ho contrayro do seu parecer, segundo em casi to- 
dos nossos gostos aquece, pois el rey Ermoíilo certo nam hcou menos 
satisfeyto delle, e disselhe. Animoso príncipe vos ganhastes como esfor- 
çado cavaleyro o que per todas vias mereceys, e eu volo concedo : p^u' 
maiíeyra que logo ali foram desposados, e per ordem dei rey x^ristandor 
se foy pêra Creta sem ter da sua amada esposa mais que honesta con- 
versaçam, porque seu pay nam quis que a lograsse senam em sua casa. 
l'ai-!iose elle com estremada saudade das ahnas que amor alou com noo 
de eterna affeyção. El rey ordenou mandar logo a lillia com grande fausto 
como quem nam tinha outra, dado (|ue tem lilhos, o que pondo em con- 
crusam: mandoua com grande armada em huina [)oderosa na(j bem apre- 
cebida de gente de armas e muyta riqueza e outros navios e galés. Âssi 
partimos com grande alvoroço de Fiorisa que não via a hora em que se 
visse com ho seu amado Aristandor. mas os duros fados ordenavam ou- 
tro fim desviado de nossos desejos: porque ao segundo dia de nossa via- 
gem deu em nos hum temp ral tam grande que alagou a mayor parte 
úi\s galés, e aos navios espalhou huns dos outros muy longe sem pode- 
rem valerse. X nossa nao em que Fiorisa vinha levada do vento sem al- 
guma resistência veyo dar consigo no mar de Espanha, e correndonos 
fortuna deu com nosco á costa na paragem de Alonjuy, onde se esteve 
desfazendo em huns penedos salvandose primeyi'o toda a gente: e gram 
]iarle da fazenda, e estanilo nos assi dando graças a Deos que nos livrara 
de lai tempestade. A dcsaventura nam salisfeyla ordenou outra muito 



DA TAVOI.A REDONDA Ifio 

mayor, trazendo per aqiiella prava dons gigantes de infernal figura: cha- 
mados Goliandro. e Gelpandaro: cavaleyros em dous usos de estranlia 
grandeza, e tais eram necessários pêra moverem tal peso, pareciam duas 
grandes torres : A nossa gente tanto que os vio pos se toda em armas 
f.izendo liinn corpo pcra resistirem aquelles monstros da natureza que 
ti'veram : bem pouco ti-ahallio em os desbaratar e matar em a mayor 
jfarle. Aos que se lhe renderam conhecendo que nam linha resistência, 
n^zeram carrt»gaise da [)roi»ria fazenda : tratando a Fiorisa por sua fer- 
inosura: e a todas suas damas que não careciam delia, com muyta cor- 
tesia, consolandonos que folgássemos vir a seu poder que elles nos tra- 
l.iriam amigamente: e a pesar nosso com muylo trabalho foy necessaiio 
seguirmos per onde nos elles guiaram per aquelles montes Pirineos pe- 
los quais sobimos três dias ann muyta fadiga, té que ao quaito ã laitle 
chegamos a hum castelo em estremo forte, situado no mais alto monte 
em huma rocha. Leyxo senhin-es de vos contar os esmorecimentose pian- 
los de Fiorisa em todo este temiK): porque sam muy certos e não im- 
l)ortam ao proseguimento da histona que vou traçando por vos não en- 
fadar. Ia podeys cuydar o que tmlas também sintiriamos neste caíivey- 
ro : Mas Fiorisa sobre tudo sinlia perder a esperança de mais ver seu 
esposo. Com muyto trabalho e cansaço do cor[)0 e mayor pena da alma 
entramos no castelo, onde nos ajKtsentaram as molheres todas em huma 
alta torre, sem alguma janela: salvo frestas pequenas com grossas gra- 
des de ferro: e por telhado huma abobada que fica em eyrado per que 
jiodiamos andar a prazer e ver lio mundo. Tam alta he ella que parece 
poderse diversar dali todo. Aqui vivíamos providas do necessário em 
muyta abastança, sem communicação de nenhum dos nossos homens que 
andam pi-esos em hum pateo do castelo, donde nunca saem e estam em 
fontino serviço: A causa de sermos tratados tam humanamente, e fuia 
(lo costume e condição dos gigantes: he que se namoraram ambos da 
esti'einada gentileza de Fiorisa. E como cada hum a deseja pêra si: Ira- 
balhain ganharlhe a vontade fazendolhe todos os serviços que podem e 
pubricandolhe seus desejos, requerendolhe que se sirva de hum delles. 
C-a por escusarem dilTerenças entre si tem posta a sua esperança na es- 
colha delia. Fiorisa parecendolhe que só em os ouvir parecia oITender a 
lealdade (pie devia a seu es[)oso. Querendo antes passar per cem inoi'tes 
(jue lhe saber tais pensamentos, quisera desenganalos: mas a meu rogo 
dissimulou com elles dilalandolhe de dia em dia com boas rezões sua de- 



lOG MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

tcrniiiiacão. A estn causa traziam ambos granrle vella hum do outro so- 
bre a nossa torre: nam se liando de si: por o que íicava Fii.srisa segura 
de receber afíronta delles, fjue se faziam com nosco bandos pêra que fa- 
lássemos por elles a Fiorisa. Nislo linhamos com toda nossa fortunas 
íírnnde passatempo. E parece que no estado em que vos põe: vos da bo 
soflVimí^nlo (jue vos be necessário pêra a sobVerdes e seus desconios. 
Scys meses se nos passai'am nesta vida pêra todas triste, e pêra Fiorisa 
especia de longa morte; quando Arislandor ab veyo ter, e foy desta ma- 
neyia. Sabendo elle em Ci"eta que a tem[)eslade desbai-atarr» a fi'ola em 
(]ue bia.sua esposa. Logo se meteo em bum navio poio mar pêra saber 
delia. E correndo todos os portes, em Barcelona achou lium Hiai-inbeyro 
(pie só escapou da nossa perdiçam, e ília contou. Aristandur iníarmado 
do caslelo qiie per força de armas era escusado cometelo : (ífUerminou 
luaniiosaineníe saíjer per si mesmo a desposição do higar. Permaiíeyra 
(pie v(.>stido em pobres e rotos trajos muyto cujo com a baba jíclas bar- 
l)as desconcertadas: e lio rosto cheyo de poo: íingiose parvo e miido: 
vindo á porta do castelo como a pedir esmola, lançouse a domur no 
chão. Desta maneyra andou alguns dias tomando conhecimento da casa: 
sem delle fazerem algum caso. ('.a os gigantes tem grande familia, e an- 
ive muylos ruins sempre avia alguns bons (pie lhe davam díj pão e /.om- 
bavam com elle: servindose a tempos úo afortunado príncipe: lio qual 
linha desviado do castelo meya legoa bum escudeyro com suas armas e 
manlimenlo que antre dias bia visitar, em cabo |)ois de bum mes que 
elle neste trabalho andava. Aqueceu irense os giganbjs fazer presa como 
linbam de costume: e tardaram nisto oylo dias, leyxando porem bo cas- 
lelo tam a recado como se elles foram presentes. Neste comenos teve 
Arislandor azo que chegando eu a buma grade tomar bo comer que nos 
davam, per acenos se me deu a conhecer, nomeandose. Dissimuley eu, 
e recolhendome dey conta a Fiorisa que íicou mais moila que viva em 
sabelo, fazendo muyto mayor pranb) que (juando a catisaram, sinlindo 
sobre tudo a dura sorte de xVristandoí-, esfoicey a eu, e disseihe que mo 
atrevia metelo de noute ria torre, sem alguém bo sintir. Ella dado que 
bo desejava em todo estremo, no mesmo lemia ho perigo de Arislandiir, 
(' tendo nisto muytas fratpiezas: eu a fi)rcey tentar sua fortuna, aflirman- 
dollie que bo podia ler ali escondido cem annos, ao que me ella dizia, 
se isso pode ser: em que inferno posso eu estar com ho meu Arislandor 
que nam viva muyto contenle. i'oreni prouvera a l)eos que nunca eu tal 



DA TAVOIA nr.DONDA 1C7 

concelho u^\Qv:\ pois nvia de ser pêra tani m.K» fiin. Fiivilnni^nte Fiorisa 
S(.' eiii regou ao (jiie eii fezesse. Fiz eu enlfio lium escrito (pie dentro de 
liinn pilo laiicey a Aristaridor. Em (pie lhe dizia que me desse huuia 
corda pei" que soliisse de noyte á nossa forre dandolle a ordem. Não luy 
(.He dcsruydado em a catar, e de pedaços que per sua [)arte ajiuitdu, e 
ou pela uiinlia ; daiidouios per vezes a fezemos Fiorisa e eu. Pode sor 
islo [Iorque a fortuna lio azou [larece assi, por lio [louco i'i's,i(uardo (pio 
d^llc >iiiliam e [lor esta causa pode elle também leyxarseesipiecer a dor- 
mir ao pé da lorre do nosso aposento. (>a mal peccado tais eram sempre 
os lu.iía'-es do seu repouso. Vindo pois as horas dos l:iis furtos, eu llie 
liiicey de cima a corda que pêra mais seguro aley em huma ameya. 
.Aristaiidor atandose pela cinta com ella, como he leve e lii^evro, des- 
tramente sobio em cima. Onde cuyday vos senhores ho coíileníamenlo 
q'!e teriam pessoas que se lauto amavjim, e juulaniente ho receyo e lo- 
niiir dí) pei'iyo em (pie se viam. Ca gostos humanos nunca carecem de 
seus descontos. Vencendo porem a alegria presente ao temor duvidoso 
tomavam o que lhes ho tempo dava o!íerccidos ao ([ue lhes socedesse: 
que avia a desavenlura de fazer. Sós duas horas lograram seus deleyles 
amorosos. Quando em amanliecendo os gigantes chegaram ao castelo com 
granile presa de cativos e mantimentos: levantouse toda a gente. Vny 
necessário a Fiorisa irlhe dar vista de si: ficando Aristandor na cama, 
os (ligantes mostrandoscllie imiyto saudosos delia. Aflincadamente a re- 
quereram que tomasse concrusam com algun» delles, ipie nam podiam 
ja solTrer tam longas es[)ei-an(;as: ella dizialhe (pie ho fezei'a : mas (jue 
não se atrevia descontentar hum por satisfazísr ao outro. Neste debate 
passaram muytas horas: nas quais huma arronegadi (pie estava em nossa 
companhia por espia de nossas vidas e guarda nossa: acertou espicytar 
a camará de Fioiisa i)assaiido per ella: guiada [larece do demónio (pie 
não [)0(lia ser ai, c vio Arislandor que acartou levniilar a cal)i'('a daiitre 
a rou[)a. O que visto calouse. e teve lento (juando Fiorisa veyo j-ecolher 
se na camará com acliaipie ih? mal desposta, e entendendo muy claro 
(|iie eslava ociqiada. deu logo conta aos gigantes de sua sospeyla. Fra 
islo ao sol i)os(o. Files magoados na alma sem soIlVimento entraram na 
lorre, eu poi' o cpie linha feylo andava esperta a todo movimento e sinti 
logo ho nosso mal, incitada mais do temor (pie da ousadia, sayme antes (jue 
por mim oliiasem naíjuella envoíia fora do Castelo, (pie acertou nam ser 
inda lechade. lio senhor Deos deparoume á porta este iialafivni em que 



1G8 MKMOIlfAI. DOS CAVALEIROS 

vim ídí^inílo. Es!n lie Unh a ininlia dcsaventura. lio fim dclle? nam sey: 
mas rlioiaiuy ja em quanto viver: porque fuy azo de todo lio mal que 
ilies vicM". Lslo liam j)odia a donzela pronunciar com soluços. Osjrmãos 
que os aceylavam com grande magoa, querendo pro:uraillie lio remédio 
a ([lie eram muy pionqtlos em todas necessidades do mimdo. Disserão 
lhe ([lie os guiasse ao castelo: e partissem logo ponjue chegassem se 
fisse possível antes de Arislandor padecer algum danno: porem ella 
('.issciiies (pie era leiílarcm a Deos cuidar que podiam achar nos (íigan- 
1>'s alguma cmlesia. Ca per foi'ra hum gi'am exercito nam baslavii ím- 
zerllia, Dciíilos lhe disse que sobre tudo era i)eos e sua miseiicordia 
si)l)!(í Iodas suas obras que per fracos menislros faz muylas vezes as 
suas maravilhas, (^omo [ler hum i^equeoo pastor, qual ho moço David 
q,ieh:anlara ;•. soberva de Golias: a quem todo lio povo de ísi-ael temia. 
l'er modo que esfoi^çada a Donzela per suas boas rezões dissellies que 
(5s g. liaria como lhe mandavam. Ca nam estimava a |)ro[)ria vida. Porem 
que siiiliiia muylo pi.Mderem se elli-'S em pago de tam virtuosos desejos. 
rina!iii;,'nte que cavalgando tomaram ))er onde ella guiou com a mays 
deligencia (jue [(oderam, e foy la! (pie amanheceram á porta do Castelo 
dos (íignntes, e de um campo largo que ante elle se fazia vii'am huuia 
gi'andc fogueyi-a: nam sabendo ho pêra que podia ser caso que ho sos- 
jieyíaram, desyiarãose pouco te verem em que parava. .Mas nam estevt;- 
jam umyto esjiaço ouciosos. Porem a Historia chamanos a outra parle. 

Caiiitolo. xxuij. Do qiif acontecem a F\'lom{lor de Mares 
iihlo iiii r.ííi da illia Gociu. 

Teveram os gentios muyto respeylo á fortuna, e porcpie como care- 
ciiim do conlieí-imeiíto da verdadeyra prima causa, podense desculi)ai': 
1)0! que na veidado he a viagem desla nossa peregrinação Iam baralhada 
em mudanças, Iam lial)alhosa nos discursos, e Iam incerta nos estados, 
quií i-oder nem saber humano basta pêra os segui^ar. E cada dia vem a 
g!oi'ia de .\ris!aiidor em a.cançar a sua amada Fiorisa, e logo ho descayr 
na s;i;i desave:il;ira. A is!o chamaram os antigos forluiia: da (jiial [toucos 
se siilvaram e miiylos se tpieyxaram. Nos tudo alribuymos a distribuição 
divina, e he divido ob<.'dec(!rmos a sua ordem, e junlamenle velar, jiois 
nada [)ei;naiiece neste iiiúiido, e só das boas ol»ras lemos certo ho |»re- 
liiio : Vv.v onde sam dig!ii)s de louvor os cavaleyros da Tavola: cujo in- 



DA TAVOLA l^EPONDA 1()9 

tonlo foy sofTiiir ns meyns delle: No qual lua Fidomílor de Mares de 
Londres, com lio honrado Guii'ineiiidos. Conta pois Foroneus que indo 
clles polo mar na segunda noule se lhe mudou ho tempo pelo olho 
eiu tanta maneyra que fm' necessariti entregarse á furiosa vonlado do 
Kolo, que os lovou arrcir.iladamente te os meter polo porto do liuma 
ilha de que ho Piloto nenhuma noticia tinha: Mas depois souberam ser 
<!elas hnma das Ciciadas do mar Kgeo. onde Iby ho templo de Apolo 
<]!ie nolla naceo. FidomfltJr, enfadado do mar sahio em lerra [xir lam- 
fiom tomar conhecimento d-olla, armadu e a cavalo com só ho seu escu- 
tloyro que lhe levava hum arco lurijuesco pêra atirar á caça. Ca vio no 
t>itio desposiçam pêra a ler, e assi foy que ?, poucos passos achou huma 
manada de cenos que lhe foram fogindo per huma Iresposta. Fidomílor 
<lesojos() de forir algum tomoulhes ho vento, e seguios te que os tomou 
a tini e derribou hum: do que elle muv alvoraçado pos muy prestes as 
pernas ao cTivalo poi" lhe dar com a lança antes que se lhe alongasse. lio 
cavalo meteo a mão em huma cova, e quebrandoa cahio de focinhos: 
lançando de si Fidomílor longe: Da qual queda, elle esteve hum i)ouc.o 
como embaçado. Nisto acodindolhe hoseu escudeyro ouviram hum grande 
íom de cousa que vinha quebrando arvores como furioso vento, Fidom- 
ílor nam seguro do que podia ser levantouse muy prestes e embraçando 
lio escudo com a espada feyta esi)erou ho que viesse: e logo vii» hum 
monstro tam grande como hum Alifanle. Tinha ho focinho de Grifo e ho 
c^)rpo de Drago com hum rabo muy cum()rido com que vinha acoutan- 
do ho mato, e cortando as arvores como hum machado. Arrasando tudo 
como se foram cem atalhadores de exercito. As aas eram muy grandes, 
e debatendoas fazia lium temeroso movimento no aar. Pelas ventaãs vi- 
idia lançando hum fumo que secava tudo o que alcançava Era Iam te- 
merosa cousa de ver, que Fidomflor caso que nacera isento de todo te- 
mor, toda via lhe teve grande receyo. Porem como era animoso e de- 
torminado, esperou ho coberto dosou escudo. lio monstro vinha deroyto 
a elle, e como se vio porto levantouse no aar com as aas duas varas em 
alio: |ior se doyxar cayr sobre elle, e ho levar nas unhas. Fidomílor nam 
jtoidendo hum jtonto do seu acordo. Em elle decendo desviou se lho 
dando hum gram salto pêra huma ilharga, e meteolho huma estocada 
jtolo pescoço que lho passou. Porem ho monstro ho lançou cora ho rabo 
huma lança de si como huma pella. Amolandolhe as armas no corpo per 
onde ho to.mou com o açoyte, do que Fidomflor se sintio mnyto. F lo- 



d70 MEMORIAL DOS CAVALEtnO*? 

vanlandose com muyis presteza pos se em posftíra eonfra lio monstro 
que veyo sohrelle com ho hia), e deullie Inl pii';iíla no escuiln que lho 
possoii: e alravessoullie ho braço. (]nm isto ho(i;igioc!)in horaho, aper- 
taiidoo Iam rijo ijiie lhe fez sallar ho san^nie |)isaili) pelas veniafu^e [)ela 
l)()ca. Fidomflor lhe deu outra estocada com (jue ho loinou pelo peyto 
(jiie lhe meleo a espada te a empunhadiu'a e liraiidolhe per cila saliiolhe 
hum torno de san},'!ie, como iium «írosso cano dagoa represada ipie lhe 
tin<,Mo as armas todas. (]om a dor líesla ferida ho l;?nçou ho inonslrode 
si soliafido ho raho como pedra que sae de hmda, e foy dar com eíle 
em hum penedo (jne lhe amolou lodo ho elmo na cabeça, licando ;>lor- 
di)ado e casi morial. E quislhe bem a sua ventura: que ho monsiro des- 
nliitado coui a dor da morte que sinlio da estocada (]ue lhe [)assou ho 
coração, cahio es|)()jaiido se no clião. fazendo lais vascas como peyxe 
que cae em lerra: e derrubando ab^umas arvores com givandes ni^ros foy 
voando cayr no mar (pie nam estava lonjro: onde acabou ílo" espirar, ilo 
escndeyro de Fidomllor jazia embrcnliado: porque se lhe espantou b.o 
lialaíVem, e f()<,dndo com grandes saltos lançouho de si. E elle ho lomoii 
a boiu pai'ti(h), e recolheose anire lio maio donde pode ver o que pas- 
sava : e ja seguro acodio a Fidomllor (]ue julgou por morlo. Mas como 
lhe tirou ho elmo que lhe deu ho ar logo tornou em si, e abrindo o^ 
olhos pej-guntou a llircano ((jue assi se chamava ho escndeyro) por ho 
monstro, e sabido que era morlo descansou do esprilo: .Mas do corpo 
eslava Iam (juelirantado e pisado que uão se podia bolir. Hircano le aper- 
tou a cabeça de (jue se muylo doliia, e desfjue assi passaram bom es- 
paço tomou Fidomllor mais fôlego, e assi lhe foy necessário pêra se tor- 
nar a sua conq)anhia. Ca ho seu cavalo nam se pode mais mover dn 
queda, e ho palah'em de llircano fogia. Per maneyra que a pee se foram 
aa praya i)era atinarem com ho porto: ao (piai chegando com assaz tra- 
balho, acharam certos islenhos (}ue estavam em guarda do navio, e Guir- 
mcnides com todos (js de sua companhia eram presos e levados á ray- 
nha da ilha (pie tinha sua povoaçam dentro pela lerra hurna legoa. E ho 
caso foy que partido Fidomtlor (como atras se disse.) FJiegoii á praya 
hum capitam com gente de armas que os prendeo. e levou á raynha Hi- 
lionea Ante a qual chegando Guirmenides lhe disse. Poderosa senhora, 
nos tomamos os vossos portos forçados dos ventos, e sem lembi-ança 
de anojai' a ninguém. Oliiay a nossa riv.am de mais perlo: ca nam Ira- 
zemos foiça [lera vencer : nem ha tanta soberba nos vencidos e alribu- 



DA TAVOLA HKDOM)A 171 

lados: ho mar nos lançou aqui, que género de grenle lie esta, oit que 
lerra tam barbara que lai coslume sostciila? que iwis (iiiereiíi loMter a 
hospedaria da área, íe que ho venlo nos permita se^juir nossa rolíí. Em 
tani pouco tendes ho género liumano, ou em tal aborrecimeiíto, que- por 
hum erro que não he culpa: os quereys privar da liberdade com que 
naceram. E ja que assi (luercis, antes nos privay das vi!{as: mas es[>iTav 
e crede que Deí^s he lembrado assi tio mal cómodo bem: nosso ca[)it;M}i 
em vertude e esforço nam tem par. Se »?s lados bo gu^mlam vivu, nunca 
vos pesará ser a pi'imeyra que conieçastes obrigalo trom nobres o\v.-iv>: 
cobiçoso da caça fo\se [)ela M.'iTa. E se foi^a pieseiit^ a nossa fortima 
quiçá nos valera: mas se nossa saúde he [)erdida, e ih>"S nam fica es-ixi- 
rança de remédio. S(í esla piedade vos \wc() que com me dar a nnw1e 
vos ajais por salislevla da [)ena destoulros inocentei. Acabando nisto 
Guirmenides, Ililinnea que tinha lio coraçnin brando e real, movida da 
sua miseiia a n(jbre humanidade, disselbe. Ilom-ado velho perdey ho 
medo de vosso coraçam, lançay de vos esses cuydados. Nam temos ne^^la 
terra os corações tam duros : nem ho sol aparta os seus cavalos tam 
desviados delia que nos íalte conhecimento das necessidades humanas: 
antes abituada a elles. Tenho ;q)reii(lido nunca íaltar com ho favor aus- 
miseros, a causa de vossa [irisaui he jusla e necessaiia: nam pêra. vosso 
danno: mas pêra nosso remédio. E [»or(jue vejays a verdade disto quero 
mandar em cata do vosso ca[)ilam, e a elle apreseiitarey minha descul- 
pa. E assi ho fez á hora, informandose de Guirmenides do (]ue mais lhe- 
cumpria. Antre tanto passou Fidomílor o (pie atras ouvistes. E achando 
no navio as novas da prisam de Guirmenides : tomou consigo hum dos 
islenhos que estavam em posse: liOs quais nam achou resistência; ma:^ 
toda boa resposta, e folgaram guialo á povoaram. Assi (|ue tomando ho 
caminho com muyto trab;ilho de Fidomílor, chegaram a hnma fortaleza 
tam graíide que bastava pêra ser po])ulosa vila; edilicada sobre huma ro- 
cha. Os muros em estremo fortes e tam altos que parecia i)articiparem 
da região das nuves, cercada de huma cava de largura de hum tiro de 
besta cheya de agoa muy funda. Passavase a eíla em hum barco grande 
de remos : que estava i)reso a huma cadea junto de hum postigo tam 
pequeno, que com muylo trabalho enlrava per elle hmn homem em |)é. 
Fidomílor licou maravilhado de tam forte cousa. E chegando jmilo da 
cava como foy visto logo vio sayi- da fortaleza alguma gente que se me- 
teo no barco. E era a que ililionea mandava em cala de Fidomílor. E 



i72 WF.wnRiAi, íios c.WAr.F.mos 

em poucas remnrlas foram com elle, e daiulolhe ho recado da raynha ho 
tomaram no barco e se tornaram á forlalexa. Onde entrando eindoaiile 
Ililionca. Ella que ja saíjia \mv Giíirmenides quem elle era llit; fez a di- 
vida cortesia. Deslii antr^ que Fidomílor falasse lhe disse. Esforçado 
cavaleyro primeyi'o (]ue vos jK-ça que me pei'doeis a prisam dos v(js- 
sos. Quero vos dar ciiuta de mim pêra que sayhays a causa que me 
obriga hospedar tão ma3 os estrang^^yi-os a (pie he divido todo bom ga- 
salhado. Nesta ilha que he a de Delos, aniigua natureza de Aimlo- Deos 
<ia medicina, avera cincoenla annos que reynou Corfinio: ho qual de Im- 
ma NinHi Marinha ouve hum lilho, a que chamou Apolyneo que lhe so- 
•cedeo no reyno. K a que a may descohrio a livraria de Apolo que tinha 
t;scondida nesta rocha em que esta fortaleza está fundada, com que Apo- 
iineo se fez nuiy sabedor nas artes M.igicas. E morto ho pay reynando 
elle prospero pola fama da minha formosura se namorou de mim, e teve 
ineyo com (jue me fui-lou com outi-as damas de hunms hortas de Cayro: 
sendo eu lilha do Soldam delle: e trouxeme aqui a esta fortaleza : que 
<^'.lle com seu sal)er e trabalho dos Demónios fez tam foite pêra extremo 
do mundo. Onde me tinha tam mimosa e tam senhora do seu coraçam, 
que me fez esquecer toda outro estado. Crendo que nam avia outro de 
mays contentamento. Mas envejandomo a fortuna que nada leyxa perma- 
necer. Ordenou que hum meyo jrmão de A{)olinco chamado Teidranlcs 
inuy soberbo, e estremado cavaleyro: tendose mostrado tal per muytas 
Províncias, veyo ter a<jui, pêra Irastornar ho meu descanso em que eu 
vivia avia três annos, ponpie namorandose de mim perdidamente. Es- 
(piecida a obrigaçam natural, e perdido ho divido solTrimento me come- 
teo e descobrio seu vão desejo. Do que me eu agi-avey sem alvoroços 
jyor escusar escandaios. Mas vendome importunada delle, e temendo que 
a m\uhi{ boa tençÃo não se me tornasse em grave cul[)a Foy necessário 
dai' anita a A[)olineo, pedindolhe que tivesse algum meyo comedido com 
que segurasse sua honra. Elle por ho gnnde amor que me tinha, sinlio 
isto lanto que determinou tomar mortal vingança de Teutranles, e indo 
se com elle com achaque de }iem á caça. Como fi)ram na serra e sós. 
Disseihe que tinlw sabido sua trayçam. Da que determinava tomar es- 
tranho castigo pêra exenqiro do mmido. E fazendo certos conjuros df 
improviso ho transformou eui hum temeroso monstro, do qual nam se 
soube guai-dar: ponpie Teutrantes sintindo sua Iransformaçam aiieme- 
leo a elle, e desfeio em mil parles, e nam salisfeylo com esta vingança 



D\ TAVOÍ.A níDONDA 173 

anda pela ilha clestroynila e matando íodn coií:>,"t viva. Onn que a fcni 
(leslrovda de Ioda povoaçam de hum anno a esta parle, lio caso como 
passou soube eu logo per hum monleyro que os espreyloii. K dcsque 
ciiorey minha desavenlura: mandey prover com ^Tande resgiiai'do (jue 
nam podesse passar, ou entrar com nosco aipudle dialiolico monstro. 1] 
pai'ece que os lados sabedores de por vir. ordenaram que fizesse Apo- 
lineo esta fortaleza desta maneyra, pêra que nella se podesse conservar 
esta ilha: porque nam se daspovoasse de lodo. forem eu coino peidi ho 
gosto delia delermineyme a me partir se [)odesse, e ordenandon^e pêra 
isso. Em sonhos me apareceo Apolineo, e tiisseme, (jue me nam partis- 
se: porque cumpriria assi per sua morte sei* viiignda. e elle pOiler pas- 
sar a barca de Acheronte: que nam queria hos[)edar sombras a que se 
devia vingança. Te neste nosso Ilemis[)erio lhe ser dada. Pêro \u) (]ue 
dentro neste anno viria a esta ilha hum Cavali'yro que os Deoses aqui 
guiariam pêra menislro da sua justiça. \íu que descanso em tudo o que 
posso padecer e sentir por A|)olineo : querendo cumprir com ho seu 
amor. Leyxeime estar, e pusme em foro de mandar lodos os dias ao 
porto hum C.apitão meu: requerer aos cavaleyros (jue aqui aportavam, 
que fezessem esta l)atalha contra ho monstro que anda em hum vale, 
daqui duas legoas: onde ho trago cevado de muytos manlimentos pêra 
que nam corra a ilha e porto. Dado que algumas vezes ho faz com muyto 
danno nosso, e ouve algims que se oiíereceram ao perigo, de que nam 
se salvaram: por o que ja agora correndo a fama disto: lodos se me es- 
cusam. Eu vendo que se me hia acabando ho anno delerminey por segu- 
rar o que desejava: [trender todos os ( jue aqui aportassem pêra que foi'çasso 
aos cavaleiros aceitarem esta empresa, e por esta rezão mandey prender 
os vossos, aos quaes nenhuma allVonla tenho fayta nem farey se vos por 
vossa animosa virtude me quisei'des valer nesta necessidade. Ca na von- 
tade me dã que em vos íiey de achar ho remi'dio dela. Fidomflor que 
em todo este tempo nam tinha tirado ho elmo, te nam saber o que lhe 
cumpria: ho tirou entam, e foy sua vista Iam custosa á fermosa flilionea 
que logo ficou penhorada do novo amor. E forçosamente lhe lançou do 
P'yto ho antigo A|)olineo E logo á hora começou sentir ho peiigo do 
Eidoiiiflor. lio qual lhe disse que folgava em estremo ser iam ditoso 
(jue danle mão a linha servida. l*or tanto (pie vi.ísse se avia em que 
n;ais se quisesse servir ddli' pêra quií nam cnlriidcssc em ai : e con- 
loulhe como malai'a liu monstro. Do (jue ella licou espanlada. e pei'a se 



174 MKMOniAL DOS CA VALEIROS 

certificar mandou logo cotn Hircano á praya pêra que ho trouxessem. 
Ca lio inai' (les(]iie ho afoj^Mui ho ianron de si: e o que fazia mais diivi- 
ílofo, ho iiegoí-jo era iiain no verem ferido: Porem elle siiiliiidose muyto 
qudirarilndu dt'sai'iiK)iise lo^ro. e í(iy hiiirado em hum rico leylo, e cu- 
ra<3o como lhe cumpria, e todos os seus liospedndos segundo se lhes 
devia. .Mas ÍMilomllor iiam quis (jue Guirmenides fosse aposentado: salvo 
na sua camará com elle: e assi passaram a noute em repousado sonno. G 
e^le, tKio teve a namorada íiilionea que ferida nas entranhas da dura fre- 
cha cria nas veas a chaga amoiosa: Ciiydando em seu animo a animosa 
verlude daquelle cavaleyio: tendo esculpido em seu peyto, sua gentileza 
c hrandura com que Fidomfloi aleyjava Iodas as molheres que pretendia 
namorar. E com est»; pi.'nsamenlo (|ue a desvelava, nenhum repouso dava 
a seu coi-po. INirque nam se pode em si soíírer, e chamando huma sua 
ama que jazia â ilharga do seu leylo começou fallar com ella. Ama nam 
í)Osso <lormir, e Jiam sey que cuyde dos sonhos que me espantam e des- 
velam. Falenios hum pouco ja que que tenho o sono quebrado te que a 
muita ve la mo reslituya. Vos notastes este nosso hospede como he ca- 
valeyro e gentil homem Certo que deve ser de geraçam dos Deoses. E 
não cre\u que me engano, que hum espiíito tam animoso não cabe em 
sangue bayxo. Ca ho temor pode muyto com os corações a que a no- 
breza nam obiiga. Maravilhosa cousa he, disse a ama se elle matou ho 
monstro. E como ora eu creyo, tornou iiilionea, que ho elle matou, e 
lenho (jue Hercules matando a Hidra nem Teseo quaiido matou ho Mi- 
notam'o nam fezerão tão alialisada sorte, e tanto a seu salvo. Se comi- 
go não tivera assentado não tomar novo amor, Des qne o primeyro me 
faltou com a moilo: e não tomai- avorrecimento á conversação de todo 
outro homem, (piiça me inclinara a esta soo culpa. Ca eu vos confesso 
ama que depois dos tristes fados do mezijuinho Apolineo, este soo me 
dobrou em parte os sentidos, e como veyo a vontade a alguma alíeyçam. 
(>onheço e sinto em mim hum rasto da aiiligua chama que me abrasa, 
luima incrinaçam de resuscilar gostos passados cuja memoria me sem- 
pre magoa. Mas antes a terra se abra pêra me soverter: antes ho res- 
})randecente rayo do ceo me consuma que eu violar a obrigação do ma- 
trimonio: aquellc que primeyro teve os meus primeyros amores esse os 
guarde lá onde está, e os enterre na se[)ultura onde com elle enterrey 
todo contenlamento da vid;i Isto disse Iiilionea ja com tanta dor fiue llie 
saltaram as lagrimas poios peytos: A ama [larece sintindo como saga;', a 



DA TAVOLA REDONDA 175 

gun pnix'o 011 tnmbem desejando verlhe renovar a vida que cila vivin 
inny ([(.'íi-.Diiieiite depois da niorle de Apolineo. disselíie. I''il!ii nrinha 
íi^iis amada (pie a propi-ia luz, conso determinais vos [)assar vossa Ires. a 
livveidade assi só sem esperança dos doces lilhiis. Rifos prémios d.* aniM' 
(ju-' tirana sem rezãoiinei-eis cometer coníra nalurcza (jue em vosenlesoroii 
.í^nas iíraras: jiera i'tíC(illier delias lio fi-ulo per que conserva esiado. (Jae 
i-onli» (l;ní'ys aos de^ises das esperançai^ que em vos poseram pi.Ta ornar 
lio nunido, e cny<Laisvos das almas trasladadas aos campos Ylisios (pie 
ilies !<'ml)iain lá essas leys injustas: ou lhes vay nisso alguma cousa? ^ 
(ligo qiK^fosse: que remédio vos pode dar a sombra de Apolineo a inuy- 
los inconvenientes e aíírontas que nunca se ieyxam de fazer a moilier 
6") e viuva, o que elle muyto deve procurar atalhar: Ora se vos esfe h«)- 
íiiem contenta, e lie tanio pêra tudo, que lhe tendes inci'ip.açam : pêra 
íjue resistis á vertude e íazeys força ã i-ezão; Eu tiíiilio que com boons 
íigouros c per vontade divina aportou aqui: por o que diria que devíeis 
ti-aballhar vir com elle a vossa tenção, (^a com tal marido renovareys 
•vosso reyno : aumentareys lio senhorio, e nam lemei'eys contrastes de 
inimigos. <>om estas pai;uTas que a ama disse encendeo ho animo aceso 
do amor, deu esperança á aJma duvidosa; e fezlhe perder ho freo da 
iioneslid.ide, com (pie logo se entregou ao seu desejo. Com lio qual !e- 
\aiitand(X>^ como foy menhaã, foyse pêra Fidomflor que ja estava mais 
i-sforçado: porem não pêra se levantar. Ca ho pisou moyto ho monstro: 
tanto que lhe fora mwios perigoso sajr muyto ferido. Assi que esteve 
alguns dias em cama sendo curado per mãos da linda Hihonea que nam 
i>e sal)ia partir delle, e vindo aquelle dia llircano ciii ho diabólico mons- 
tro, ficou Fidomílor tam acreditado antre ho povo, (jue todos diziam que 
era filho dalgum dos deoses, ou ho .mesmo Marte Ueos das batalhas: o 
c|ue tudo era em arder a matéria ao fogo brando que comia as enlra- 
íihas de ílilionea. Vivia a encoberta ferida em seu peyto, e com esta 
dor algumas vezes quis tentar dizerlhe, mas a voz se lhe cortava em 
meyo. Era Ílilionea moça de dezoyto annos: lograra pouco ho amor de 
Apormeo, linhalhe grande respeyto por a posse que tomara dela na tenra 
idade: a nova alíeyção cargada do tantas rezões fazialhe força. A sua ver- 
tude e pura honestidade refreavam seus desejos, e em meyo desta con- 
fusa escaramuça andava a alma naniijrada assoprando suas chamas com 
a coiiliir.ia cotivei-sação de Fidomílor. Hi) ipial como naturalmente era 
inciiiiado a liavessuras do amor: sendo ílilionea em estremo fermosa: 



17G MKMOIUAL m)S CAYAl.EinnS 

como se achon em disposirão e taiiiheiíi veiiiJoa noila de cnndocondcr 
em S!!ii apeUlu, nam ilio (alt.mi dtítvi)cii) [)era lho a[)resciitar. Per iisaiiryr;^ 
que si'iii miiylos rodeos viei^aiu a eíl\;ylo : da (jual cu\\}i\ liumai\a iiacf > 
di3[)ois lai IViiylo, ijiití iiam súmeiíle (lesculi)oii a may: mas Tela digoa uc 
i)iii\t() louvor, e [)or esla causa la/, a liisloria Umia memoria desla Hi- 
lioiíea. Com a qual Fidomflor passou alguns vinte diaà de muylo con- 
lenlamento: Mas como os desla calidade nunca erram seus desconlos, e 
alalliaiilies em breve lie lio melhor. Fidomílor importunado de Guirme- 
nides que se ihe gastava lio tempo que tinha atermado: la deu suas re- 
zões e prometimentos de tornada a llilionea que ella nam sani muylas 
lagi'imas de muyta dor e saudade consinlio em sua partida foi'çada, li- 
caiido em muyla tiisleza: soslendo a vida na esperança da volta de Fi- 
domílor (jue lhe a fortuna nam permetio fazer: segundo elle cuydava 
quando lhe fez a promessa em que se Hilionia sosleve muytos annos 
descontente. Pois partido Fidomílor ella se sintio prenhe, que nam f(».y 
parella [)equeno gosto: com que começou povoar de novo sua ilha e com 
seu bo'11 saber e industria. Em pouco tempo fez hum prospero estadcj^ 
e parlo hum íilho, ao qual pos nome .\stordilão de iMares, de que na 
segunda parle desla historia se contam notaves proezas de cavalaria e 
abalisados estremos de amor. E porque neste lugar se trata do que mais 
fez llilionea depois da partida de Fidomílor de Mares. l'or ora a leyxe- 
mos, e a elle seu te tempo. 

Capitolo. xxviij. Do que pai,iiou em sua viagem 
Lconces de Jteuel. 

Em mu3tas historias fazem vários .\utores memoria das fazanhas do 
.\m(ji'. e dos mais deles leyxaram sempre os homens ás molheres quei- 
xosas, ouve hiinia Dalida (jue vendeo Sansão, lole que fez íiar Hercules: 
á mayor pai-te as outras íicaram com magoas por galardão (segundo 
llilionea ) E com isto molher que se fie de homem, e homens que bras- 
femem de molheres, sendo a melhor cousa que ho mundo tem e que 
mais abalisa os que saldem Iralalas como se lhes deve. e Leonces de Re- 
nel (vereys adiante) (jue tratou a princesa Aiitilia. ÍIo (jual indo (i-omo 
atras ouvistes] na volta da ilha das sete cidades, desejoso de fazer a sua 
[)arle avantajada de lodos se lhe fosse possível, leve ao principio muylo 
trabalho: mas íoy pêra milhor: porque errando a ilha por culpa do pi- 



DA TAVOLA REDONDA 177 

loto que a não soube tomar deullie hum temporal que lio cansou alguns 
dez dias em tanto que esteve em risco de se per:ler: no cabo dos quaes 
abonançou lio tempo, e ajudandose delle mais per dita que per acordo 
do piloto em cabo de hum mes vieram dar na ilha. Em que ja residia 
ho gigante Burquimirão que viera como ouvistes fogindo da gram Caná- 
ria, e estava rauy forte porque: ja a este tempo todas as illiasBemafor- 
Inriadas eram conquistadas poios Ingreses com ajuda de Monsolinos e 
seus companheyros que andaram de huma noutra acodindo onde avia 
necessidade, e ho gigante teve tal acordo, tanto que se pos na ilha das 
sele cidades que mandou alguns navios correr as ilhas como mercadores 
com mantimentos, pêra que recolhessem a gente que podese salvai-se da 
yra de seus immigos, e assi foy: ca dado que os capitães gigantes que 
nellas tinha postos os defenderam iam animosamente que morreram na 
proHa com gram parte de sua gente, toda via se salvou muyta per este 
meyo, o vinhase á guarida em que os Burquimirão esperava; e desta 
maneyra se refez na ilha das sete cidades e a fortificou que lhe parecia 
nam aver armada por poderosa que fosse que tentasse offendelo: E tendo 
por muy certo vir a dos ingreses sobrele fez hum dia alardo de sua 
gente pêra mellior se certificar dosanimosdeseusvassalos, aos quaes fez 
esta fala. 

Não cuydo fieis companheyros c amigos meus: inhorardes que todo 
estado se ha de sostentar pola via per que se ganhou, c que nas armas 
esta ho dereyto do mundo: Com isto deve lembrarvos com quanta justiça 
nos a fortuna trás- acosados de nossos immigos que tyranamenlo nos 
dessapossam do nosso, e tendes visto como te agora lhe fiz rosto : of- 
ferccendome sempre dianteyro ao perigo, á affronta e á morte: por vos 
defender as vidas e sostentar honras e fazendas, sem perder ponto no 
cuydado e vigilança que ho bom capitão e rey deve a seu povo. Na paz 
nunca me descuydey da guejra, e da guerra sempre pretendi adquerir 
paz quando vencedor provido pêra inconvenientes, vencido nem per fra- 
(jiieza nem per descuydos, e se no estado prospero me velei do aducr- 
so, affrontado nam me acanhey ás affrontas, antes me animey de ma- 
ney!'a controlas que nam descansey te melhorarme de meus immigos o 
recuperar ho perdido, per modo que convosco posso testificar que soube 
conquistar sostentar quanto me foy possível: não perder ho acordo nas 
adversidades refazer ho animo pêra a vingança e payrar os tempos ate 
tomala. Este foy ho discurso da minha vida, sempre empregada em vosso 

lá 



178 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

proveyto, donde eu acho que com muyta rezam, posto ja nesta idade da 
velhice que mais requerem ser ajudada que ajudar: vos devo e posso 
obrigar c pedir que em satisfação de tantos trabalhos, de que me soys 
devedores: vos me defendais meu estado adquirido da minha diligencia, 
ampareis de meus immigos cobiçosos te do meu sangue, e se isto nam 
determinaes, e temor dos immigos, ou vontade de novo senhor vos obriga 
a ter outro desenho, peçovos, que ou me deys a morte em Kigar do 
descanso, ou me enlregueys ao immigo em preço depaz:Camuyto mais 
quero ser morto per vos com ingratidão que vencido deHes com lionra. 
Acabando Burquimirão esta pratica, causou em todos tal lastima que 
lhes vevo hum ayrado furor com que em alia voz bradaram todos que 
primeyro leyxariam as vidas no campo que desamparalo, por tanto que 
com muyta confiança ordenasse e mandasse tudo o que lhe parecesse 
necessário pêra sua defensão: por que elles nenhuma cousa timiamme- 
nos que a morte a que estavam offerecidos. Burquimirão vendo este nnimo- 
so oferecimento ficou satisfeylo: não porque não entendesse que a facilidade 
nas promessas: mayormente as tais tem certa a diíficuldade no cumpri- 
las: mas ho tempo ensina, antes força a dissimular muytas cousas que 
ho entendimento não aceyla, e aceylar esperanças duvidosas por payrar 
necessidades forçadas, donde Burquimirão negandose a si o que receava, 
esforçavase no que não cria, e logo ali repartio as capitanias que deu a 
parentes seus esforçados e destros neste mester: Deshi repartio as es- 
tancias per toda a cidade, c ho mesmo ordenou nas outras. O que tudo 
feyto muy breve: esperou o que a fortuna desse: A qual congraçandose 
com Leonces de Renel depois que ho tentou (como atras dissemos) com 
as ondas do descomedido mar, o guiou ao porto da cidade cm que Bur- 
quimirão residia, e porque chegaram tarde dilatou lio desembarcar pêra 
ho outro dia: ca logo entendeo que estava apercebida pêra não se tomar 
de rebate mas a força de espada: por o que aquella noutc passai-am em 
tratar de suas almas entendido ho certo risco das vidas, e como foy ante 
menhaã: Os capitães da armada se vieram a Leonces de Renel pêra sa- 
berem o que mandava. lio qual lhes falou desta maneyra. 

Entendido tenho (companheyros meus) que palavras não dam esforço 
aos varões animosos, quaes todos soys, e que ho exercito que for co- 
vardo nam se faz esforçado por as rezijes de seu capitão. Ho animo que 
de natureza e exercício cada hum tem, esse pubrica na batalha: por o 
que hey por sobejo lembrarvos vossa obrigação: porque aquelle a que 



DA TAVOLA REDONDA !Tí) 

a gloria e ho perigo nam movem, amoesialo lie por demais: ca o temor 
lhe entupe os ouvidos. Todos entendeis que na espada tendes ho pre- 
mio, e no animo a esperança a que vossos braços ham de abrir ho ca- 
minho. Se vencermos tudo nos será prospero. Se formos vencidos sú 
na morte está a guarida, os immigos sam duros e apercebidos, cumpre 
acometelos com força e acordo : cá sua resistência contrapor Ímpeto, e 
em nossa vitoria não carecer de cautela. Ia sabeis que da guerra ho 
mayor perigo he ho temor, â ousadia he ho muro, e à perseverança no 
bom acometimento o que vence, no que sey de vosso esforço e animo- 
sos feytos, confiado estou na vitoria, vosso animo, vossa idade, e vossa 
openião ma prometem, só isto vos lembro que se a fortuna invejar vossa 
vertude, não percais a vida senão bem vingados, e aceyteis a morte por 
ivitar ho cativeyro, pêra que cativos vos não tratem e aíTrontem como 
fracos : mas pelejando como varões os sejaes vencedores, ou vencidos, 
deis aos imigos vitoria tam custosa que vos fique a gloria e a elles a pe- 
na. Dizendo isto assossegouse hum pouco. Deshi deulhe a ordem do que 
aviam de fazer assi no desembarcar como no que mais socedesse, e des- 
pedidos foyse cada hum á sua capitania, e amoestando os que tinham a 
seu cargo poserão se todos em ordem, e do galeão do capitão mór foy 
feyto sinal, e com muytas charamelas, trombetas, e atambores endere- 
çaram as proas contra a praya, com hum temeroso estrondo. Leonces 
de Renel desejoso de ser ho guia que os seus seguissem e imitassem: 
determinouse em ser ho primeiro que desembarcasse. E foy hum gran- 
de estinmlo pêra todos ho quererem imitar, cora que foy outro género 
de guerra á profia com que todos queriam desembarcar, e ouve cayrem 
muytos nagoa e alguns morrerem. Sayndo pois ho melhor e mais pres- 
tes que podiam, com tanto risco da terra como do mar, baratavam as 
vidas a todo lanço. E ellas eram ho menos preço de tudo: e tal era ho 
furor dos acometedores como a constância dos acometidos em offender 
o defender, e porque em tanta confusam estremar as obras particulares 
he casi impossível: não me alargarey nisto: basta que pelejaram a mayor 
parte do dia com tam ygual profia que só a morte vencia. E neste tem- 
po fazia Leonces de Renel maravilhas com muytos que ho imitavam, 
sostendo ho peso da batalha, e eralhes forçado ser muro contra os ini- 
migos pois no recuar tinha mais certa a morte. Ho gigante Burquimirão 
que de longe poios largos annos tinha aprendido ho ofíicio de bom ca- 
pitão, e de natureza ho de bom cavaleyro: não querendo parece perder 



180 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

na velhice ho nome que ganhara na mocidade: E com isto juntamente 
sabendo que lhe cumpria vencer, ou morrer, fazia estranhezas: discor- 
rendo a huma e outra parte, onde via ser necessário: e porque entendia 
que da sua vida pendia a esperança da salvação de todos: Tratava mais 
de animar e reger sua gente que de se meter em todo perigo: e enten- 
dendo nos seus alguma fraqueza no defender a prava por ho longo tra- 
balho do dia: nam quis profiar mais contra os conquistadores determi- 
nados em nam tornar atras, por que entendia quanto huma determina- 
çam forçada vai: Âssi que começou recolher os seus na cidade de vagar 
e com grande ordem: e aqui se pos diante os immigos com alguns pa- 
rentes seus sostendo assi ho trabalho. E Leonces de Renel com alguns 
escolhidos: ho foy apertando por entrar juntamente, e per vezes se deu 
com Burquimirão: mas eram logo socorridos ambos de muytos que tra- 
ziam olho em defendelos por entenderem que todo ho risco da batalha 
consiste em ho capitão. Finalmente que Burquimirão se recolheo com 
sua gente, leyxando na praya dos seus mortos alguns mil homens, e do& 
Ingreses morreram cincoenta e tantos bons cavaleyros, e que Leonces d& 
lienel sintio muyto perder por a falta que lhe aviam de fazer. Recolhidos 
pois os immigos na cidade que era forte, e tinha assaz gente Leonces 
de Renel alojou seu campo, e fez suas trancheyras, e fortaleceo as es- 
tancias sem tomar repouso: arrevezan^do huns e outros ao trabalho: o 
(}ue todos aceytavam com gosto jwr ho desejo que tinlian^ da vitoria. 
Ikirquimirão que também nam dormia consultou logo com os prtncij)aes 
(pie queria jr aquella nouíe correr as outras cidades, e trazer a nata del- 
ias em hum esquadrão com que desse per noute nos immigos que per 
ventura tomaria descuydados, e também í>er mar faria vir alguns navios 
que lhe queymassem os seus. Ordenando que fazendo elle sina! de sua 
vinda: da cidade saysse alguma companhia que também desse nos immi- 
gos. E recolheose com os seus sendolhe necessário, sobre esta consulta 
Si^yxando por capitão hum seu sobrinho de que se confiaua, e com aviso 
que nam se soubesse de sua partida: mas que dissessem que estava cau- 
sado c por isso nam parecia: partiose logo, sayndose per huma parte 
descuydada dos immigos da banda da serra. Leonces de Reno! cjue 
aiem de muyto cavaleyro foy sempre hum capitão soíTredor de gran- 
de trabalho e muy diligente em suas empresas. Consultou com os ou- 
tros capitães, dizendolhes que os immigos estavam cansados e tinham 
dclles ho miesmo conceyto, e podia muy bem ser nam estarem tam ad- 



DA TAVOLA REDONDA 181 

vertidos (Io que socedesse que se dessem nelles os nam enleasem no 
que podia soceder em tralos, ou atormentalos, de maneyra que enlen- 
ílessem que tinham mao partido e quisessem aceytar algum mellior, por 
o que jlie parecia que se deviam escolher nas capitanias os que esteves- 
sem com mais alento, e da meya noute por diante caladamente posses- 
sem escadas ao muro e sobissem os mais que podessem sem rumor em 
quanto os nam sintiam, e sendo sintidos levantassem grande alarido, e 
os do arrayal fezessem ho mesmo, outros acometessem a porta com tra- 
bucos e carneyros e trabalhassem por arromballa, e socedendolhe toma- 
riam a cidade. E quando não fariam muyto danno. E os que sobissessem 
feytos em esquadrão se recolhessem pela porta. Isto inda que praticado, 
parecia poder soceder. Nam deixava per outra via de ser muy difficul- 
toso: presuposto ho cuydado e vella dos cercados: e avendo altercação 
e alardo de inconvenientes. Toda via vista a incrinação do capitão muy- 
los por lha favorecer, outros por ho nam dessaborar condecenderam to- 
dos em sua determinação: por o que quietamente cada hum dos capitães 
escolheram de seus esquadrões os que acharam mais querençosos e des- 
tros pêra ho salto e fezeram mil homens repartidos em cinco capitanias, 
e como ja traziam feytas algumas escadas e todos os mais petrechos de 
bataria usados naquelle tempo, em que a artelharia inda nam tinha ti- 
rado ho preço á cavalaria. Tomou cada capitão a seu cargo a sua estan- 
cia sem algum rumor, e Rondinel de Embres encargouse de arrombar 
a porta, tanto que ouvisse a grita. Os cercados inda que estevessem re- 
partidos e com suas velas: ho trabalho do dia os presuadio a repousar 
como a noyte foy descayndo. Vendo a quietação dos cercadores e crendo 
que também folgariam com ho repouso. Per maneyra que adormeceram 
á hora que os combatentes espertos, lhe treparam os muros tam animosa 
e destramente, que quando foram sentidos eram em cima seys centos 
cavaleyros, e levantando alta grita do exercito lhe responderam com ou- 
tra: Os atambores, trombetas, o charamelhas começaram a soar. Rondi- 
nel de Embres que estava pegado com a porta começou darlhe bataria: 
e tamanho era ho alarido que perecia fundirse a ilha. Os da cidade nam 
sabiam onde atinar c entraram em grande confusam. lio sobrinho de 
Burquimirão, que se chamava Palantcus: acodio logo como animoso Ca- 
pitão, provendo ao perigo como melhor lhe parecia: E mandando alguns 
capitães socori'er ao muro, acodio á porta que lhe disseram que era rom- 
bada, e quando cliegou achou que era assi, por o que pondose diante 



•182 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

(los seus bradoulhes que fizessessem o que lhe vissem fazer, e soffres- 
sem tan grande falta como era serem entrados tam facilmente, e come- 
çou fazer cousas de liomem desesperado, com que os Ingreses ho recea- 
ram : mas Rondinel se lhe pos diante, e deranse hum com outro com 
tais vontades que suas carnes as sintiriam. Rondinel nam soffrendo to- 
Iherlhe Palanteus a entrada apertouho de tantos e pesados golpes que 
ho lançou aos pés ficando muyto ferido. A este tempo os que tinham 
tomado ho muro nam folgavam, antes rssistiam ao trabalhoso combate 
dos que se lhe defendiam. Nisto rompeo a clara menhaã com que Ron- 
dinel se foy apossando da cidade: porque gram parte da gente faltando 
lhe ho capitão fogiram per outra parte e recolheranse naserra. E por o que 
foy mais fácil ho apossaremse os Ingreses delia: metendo a espada todo ho- 
mem. Rondinel de Embres mandou logo que toda a gente dapraya se re- 
colhese á cidade: e fechando as portas, se fezesem fortes: porque os nam 
entrasem per descuydo, e mandou a armada do mar estar aprecebida. 
E perguntando por ho gigante Rurquimirão, ninguém lhe sabia dar no- 
vas delle, e nam esquecido de cousa que cumprisse á guarda e segu- 
rança da Cidade proveo tudo per si mesmo sem cometer ho seu cuydado 
a outro, e cumprindo assi com a obrigaçam de bom Capitão. Recolheo 
se ao Castello que era ho aposento de Rurquimirão. Ho qual achou des- 
pejado de gente: porque a giganta molher de Rurquimirão fogio com 
toda sua familia, e com ho que pode levar de seu fato. Correndo pois 
Rondinel todas as casas: foy dar em huma que estava fechada com gros- 
sos ferrolhos, e dentro ouvio dar alguns ays assaz doridos, e nam achando 
a quem perguntar mandou que lhe quebrassem a porta, o que logo foy 
feyto. E em entrando achou huma casa em que entrava claridade per 
huma fresta somente : Na qual estavam sete leytos de cortinas de seda 
preta, e a casa armada toda de pannos pretos, estancia sobejamente tris- 
te. Leonces de Renel por ver o que tinham os leytos os correo, e em 
hum delles ouvio gemer e dar alguns ays muyto doridos, e indo a elle 
correolhe as cortinas e achou a princesa Antilia em braços de hum dos 
seus amigos. Vista assaz pêra lastimar corações de pedra: Porque ella 
estava tam estilada que representava a figura da morte. Mas assi tinha 
liuns olhos tam graciosos e vivos que podiam dar outras mortes. Todas 
as mais feyções do rosto tam afiladas que pareciam feytas de marfim 
per algum estremado artífice, a fez de huma còr mortal e tam piadosa 
que 'enternecera crueys liões. Finalmente huma imagem de nova invea- 



DA TAVOLA REDONDA 183 

cão de Amor. E assi dezia depoys muytas vezes Leonces de Renel, que 
com as armas da morte ho rendera Amor, porque elle em pondo 
os olhos na figura mortal da princesa Anlilia, em tal maneyra se lhe 
enterneceram as entranhas que a força de compavxão lhe saltarão as 
lagrimas dos olhos. A princesa pondo os seus nelle, deu hum triste 
gemido dizendo. Quando se acabarão estas vodas, oo morte quanto mais 
crueza usas em fogir que em vir, as quais palavras forão pronunciadas 
com huma voz tão dorida, tão fraca e piadosa, que lhe pareceo a Leon- 
ces de Renel ja estimulado dos temores do Amor que espirava e cortan- 
dolhe muy prestes as ataduras cora que estava liado com ho Gigante 
morto, a levou nos braços tirandoa daquelle aposento, dizendolhe. Es- 
forçay senhora e vamos desta triste estancia: ca não menos espanto me 
faz ho nam resusci tardes os mortos que poderdesvos sostentar viva an- 
trelles. A princesa estava tam desapossada de seu ser que lhe parecia 
sonho ho que passava, e vendose em braços de Leonces de Renel, dis- 
selhe, levaisme pêra acabar de me matar, ou que pretendeis de mi? mas 
levo disse Leonces, a morte pêra me dar vida, ou não digo bem: levo 
a vida que me dê a morte, e assentandoa em hum estrado que alli es- 
tava da molher do Gigante, disselhe, senhora, se liberdade da gosto, 
recobray os espritos pois estais em vosso estado pêra mandardes e ser- 
des obedecida, livre de vosso áspero cativeyro. E antretanto que se ella 
informa do que lhe cumpre, cumpramos com as obrigações de nossa 
historia. 

Capitolo. xxjx, Como Padracjonte de Suz matou os irmãos da ponte 

do Sacrifício. 

Per testemunho das historias sabemos ser melhor jr dos trabalhos 
ao descanso, que per ho contrairo, ja que he forçado passar per tudo, 
e engano grande prometerse ninguém segurança de sua prosperidade: 
donde a princesa Antilia apurada em sua fortuna terá mayor gosto em 
tela passada. E Burquimirão enganado delia mayor magoa m pena que 
ha de passar : porque as tyranias e injustiças do mundo nunca erram : 
Como se verá também no que passou Padragonte de Suz. lio qual tanto 
andou per suas jornadas Tejo abayxo contra a ponte do sacrifício, que 
assi se chamava a que guardavam os cruéis jrmãos por amor da gentil 
Trizbea, que chegou a vista dellc da banda do canaveral cm huma var- 



184 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

zea fronteyra donde agora sam as barcas de Alconete. Era isto a horas 
de terça, em estremo ficou Padrngonte contente de se ver no fim de sua 
jornada, crendo que esto era só lio seu trabalho, como aquelle que ne- 
nhum perigo estimava. Chegando pois á ponte que atravessava ho Tejo: 
vio que era alta e estreyta de cantaria. Na entrada tinha huma torre ar- 
mada sobre hum arco que ficava em porta, dalém do rio em hum ou- 
leyro pequeno: mas fi\agoso e Íngreme estava ho forte castelo Roqueyro 
em que os irmãos tinham presa Trizbea. Hum enano de huma janela pe- 
quena que vinha sobre a porta, em ho vendo tocou huma corneta, de 
que Padragonte entendeo que seria sinal de vir alguém pêra aviso dos 
guardadores. Dcshi pouco tardou que lhe abriram as portas, dizendolhe 
de cima ho enano com huma voz mayor que ho corpo: Cavaleyro se vos 
ho csprito da esforço pêra o que buscais, entray que na ponte vos es- 
pera quem muy prestes vos desenganara do vosso vão atrevimento, que 
eu nam sey que diabo vos outros profiais com a morte que vos aqui ar- 
mou esta trapeyra. Padragonte nam curou de lhe responder avendoho 
por indigno da sua resposta, e passando per duas portas entrou na pon- 
te: onde ho ja esperava hum dos gigantes, cuja grandeza prometia gran- 
des forças: em hum cavalo murzelo muy poderoso: qual era necessário 
pêra soster tal peso, e com huma voz temerosa, disselhe: Não sey cava- 
leyro se vos arrependeis ja desta jornada, que as cousas levemente em- 
prendidas tem muy certo ho arrependimento, e muytas vezes como ora 
esta o castigo, que he galardão de necios, se a fortuna, lhe tornou Pa- 
dragonte, ouver de estar por vossa sentença dada a tendes. Eu porem 
quero ver primeyro se estays melhor das armas que das rezões: ca pre- 
sumo ter grande mão a fanfarrices. Desta maneyra pondose ambos a 
ponto de justa vierão se encontrar tam poderosamente que bo gigante 
que era Almonte ho irmão mais moço, foy a terra com ho troço da lança 
nos peytos em que lhe fez huma má ferida. Ho cavalo de Padragonte da 
força do encontro foramselhe os pés na calçada da ponte e cahio. Mas 
elle se lançou fora com muyta ligeyreza, e embaraçando ho escudo com 
a espada feyta veose a Almonte que ja vinha contra elle não pouco de- 
sejoso de se vingar, e como nellcs avia forças, coração, e vontade immi- 
miga, assi eram as obras de mortais immigos. Padragonte trabalhava des- 
embaraçarse prestes por ficar poupado pêra a batalha que inda tinha com 
Alconete. Almonte alem de pelejar por a vida, queria com elle mais que com 
nenhum outro cavaleyro apurar sua pessoa tendose por aíírontado: por- 



DA TAVOLA REDONDA 185 

que nunca tratara com tam duro adversário, e avendo Iiunia hora que 
pelejavam com mortal profia sem tomar algum fôlego nem espaço em 
seus golpes: cometeo Almonte que descansase, e Padragonte lhe tornou 
que nam estava deste vagar, nem determinava tomar descanso te nam 
acabar sua empresa. Ca desta maneyra eutendia que se devia servir 
a senhora Trizbea, e nam espantar cavaleyros fracos com feros. Des- 
ta resposta ouve Almonte grande sanha, e por reprica arremeteo a Pa- 
dragonte com hum golpe pur cima do elmo com tanta força que ho 
fez agiolhar e cuydou fendelo: mas valeolhe a grande fortaleza das ar- 
mas, com tudo fezlhe huma má ferida na cabeça, da que sintindose 
Padragonte deulhe em retorno outro pelo hombro ezquerdo, que levan- 
dolhe a terra parte do escudo em que ho tomou ho ferio mortalmente. 
Após este acodiolhe com hum revés per huma coxa que ho tratou muito 
mal, e se elle era prestes em ferir cumprialhe que Almonte assi lhe ati- 
rava. Passadas pois duas horas que ge combatiam trazendo as armas des- 
feytas per muytas partes, mayormente as de Almonte : elle íiandose 
em suas forças quisera vir a braços com Padragonte, ho qual não des- 
confiado das próprias. Mas querendo abreviar ho negocio, desviouho de 
si com hum golpe pelo braço ezquerdo: que ja mandava mal. E cortou 
lho cerceo pelo bucho. Almonte vendose aleyjado, e conhecendo a for- 
taleza de seu immigo, recuando pêra ho castelo de Trizbea foyse reco- 
lhendo de sua morte: ca vio que nam lhe valeria render. Padragonte ho 
seguia: a este tempo lhe bradou Alconete que via a batalha da janela da 
torre da ponte que ho nam matasse: ca lhe custaria a vida. Padragonte 
dando pouco por seus brados: apertou Almonte de meudos e pesados 
golpes. En modo que nam lhe deu poderse acolher ao castelo Roquey- 
ro, e descaindo com elle ao longo do Tejo contra hum ribeyro que ali se 
lhe ajunta, ja pegado com a agoa ho alcançou com hum fendente pela 
cabeça que com ho elmo lha partio te os hombros, e cahio per detrás 
no pego, em que leyxou a vida e ho nome. Ca dahi em diante se cha- 
mou e chama ho rio Almonte. Acabado isto em lugar de descanso, vol- 
tou a Alconete que ja vinha sobrele a pé cora pressa de acodir ao jrraão, 
e quando ho vio morto com huma natural dor das entranhas arremeteo 
com a espada alta a Padragonte dizendo : Destruydor do meu sangue : 
que vingança posso ja tomar de ti que seja satisfação de tam grande 
perda, rendete perro pêra que me des espaço de exercitar minha yra: 
senam queres que deste golpe a satisfaça Padragonte cuberto do seu es- 



Í8G MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

cudo, caso que ho trazia desfeyto: e acompanhado do seu esforço, fa- 
zendolhe rosto: disselhe. Agora veras como sey abater soberbas vaãs, e 
quam em breve te dou ho castigo de tuas obras, e deuse com elle como 
se novamente começara pelejar. Aiconete achando nelle tam animoso es- 
forço, sintindo também os pesados golpes em suas carnes : perdeu em 
parte a confiança, e temendo mais, acometiaho com muyto tento. Tudo 
lhe era necessário: mas nada lhe valeo, porque ho avia com ho mais es- 
forçado mouro que grandes tempos se vio em Africa: des que morreo 
Antaco filho da terra que Hercules matou em Libia, de cujo tronco per 
linha dereyta de varão Padragonte decendia, e assi tinha grande vanta- 
gem aos dous jrmãos Espanhoes, dado que eram estremados cavaleyrose 
com quantoAlconete ho tomou ja cansado e ferido, e as armas cortadas per 
alguns lugares, achou ho tam duro que mais trabalhava por se amparar 
de seus forçosos golpes que offendelo, e pelejando espaço de três horas. 
Padragonte ho trazia muy sogeyto. Nam porem que mostrasse ponto de 
covardia, pois elle não andava tam salvo das mãos de Aiconete que nam 
trouxesse seu corpo assinado de muytas feridas. As armas quasi todas 
desfeytas, e assi ho escudo por que a fortaleza dos golpes do gigante 
nada resedia Padragonte vendo que selhe sahia muyto sangue e que po- 
dia enfraquezer, ameudou os golpes em tal maneyra: e com tanta força 
que nam dava a Aiconete tempo pêra mais que pêra se amparar mal. Ho 
qual sintindose ferido muyto e em perigo de morte: movido do temor 
delia, esqueceo a obrigação de sua honra e recolheose pouco e pouco 
pêra ho castelo. Mas porque era a sobida áspera, por não cayr voltando 
as costas : lançou a correr ho melhor que pode costa arriba : bradando 
aos seus que lhe socorresem: Padragonte ho perseguio, e ja na porta do 
castelo ho tomou com hum golpe pelas costas que ho abrio todo, e deu 
com elle atravessado antre ho lumiar do portal morto, e ja sabiam cin- 
coenta piães cada hum com as armas que mais prestes achou por aco- 
dir a seu senhor. Porem acharam em Padragonte tal despacho que logo 
se arrependeram de seu bom propósito e com seu danno. Com tudo com 
setas, dardos, pedras e toda outra arma offensiva de arremesso lhe de- 
fendiam a entrada do castelo. Ga todos eram homens de peleja, e Es- 
panhoes que nam se rendem salvo per seu justo preço: per modo que 
ho tratavam tam mal que nenhum cavaleyro de menos esforço que ho 
seu lhes poderá resistir estando tam cansado e ferido. Padragonte escan- 
dalizado delles andava como hum Hão por se vingar, com que sem ai- 



DA TAVOLA REDONDA 487 

gum temor e com muyto perigo os entrou, e ao que alcançava do pri- 
meyro golpe nam escapou de morto ou aleijado: por onde a morte dos 
vinte pos tal temor aos outros que desampararam a fogir, e com a pressa 
huns quebravam as queyxadas, outros se lançavam pelas janelas fora que- 
brando as pernas. Padragonte quebrada a fúria em nam achar resistên- 
cia, quisera descansar: mas foylhe dito que na torre da ponte lhe tinham 
presos os seus escudeyros, e em risco de morte, por o que acodio logo 
e castigou huns vinte piães que pretendiam seu danno. E sendo sabedor 
que estavam ali algumas donzelas cativas: sobio per huma estreyta es- 
cada em caracol, pela qual foy ter ao cume da torre em que achou hu- 
ma abobada como citerna vaã per dentro: e sobio com huma charoía a 
maneyra de pirame ou coricheo: sobre que estava hum grande idolo de 
metal em sinificança de Grifanio pay dos Gigantes, que ellesaos seus 
faziam adorar por hum dos deoses ao modo dos antigos ginlios idolatras, 
dentro desta abobada ardia fogo contino como em hum forno de vidro, 
ao redor da banda de fora fazia huma rua em torno que ficava em cor- 
rente: onde estavam presas muitas donzelas que elles em vingança do 
pay por obra pia ali sacrificavam, e mortas as queymavam naquelle in- 
fernal fogo. Isto tudo dentro das ameyas que vinham em altura de meyo 
coricheo. Tais foram naquelles tempos os brincos do demónio a que nunca 
faltaram rezijes pêra suas sem rezões: antes brutos juyzos: quais eram os 
destes Gigantes que desta maneyra criam que applacavam as sombras de 
seus padres, como ho cruel Pyrho com a de Policena, satisfez a de Ar- 
chiles. Padragonte vendo hum tam abominável género de crueldade, e 
diabólica invenção, ficou maravilhado, e aquelle dia fezera Almonte sa- 
crificio de huma donzela: antes que saisse á batalha que assi ho costu- 
mavam: Soltando pois logo Padragonte todas as donzelas que achou pre- 
sas naquella Coxia: sahio se da infernal estancia, dizendolhes: Vamonos 
senhoras de lugar onde se usa tanta crueza, e saindose fora : mandou 
tirar todo ho fato da torre pêra ho castelo. Deshi ordenou, que desfe- 
sem ho idolo, e abobada: porque se perdesse a memoria de tam cruel 
sacreficio: o que logo se pos em effeyto, e ficou a torre meya derruba- 
da: como oje em dia está, e ho castelo Roqueyro também se chama Al- 
canete: porque elle parece morreo nelle. Padragonte com sua companhia 
foyse cíTerecr a Trizbea: que sabendo sua vinda e tudo o que passava, 
deceo â porta do castelo ao receber com tanto contentamento que pare- 
cia acrecentar em sua ferraosura, que era muyto estremada e chegando 



188 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

elle disselhe : Famoso cavaleyro: com que palavras se poderam louvar 
vossas obras, quem mas dará a mim: Padragonte lhe toraou. Em vosso 
nome senhora nam podia eu leyxar de alcançar a vitoria de mayores af- 
frontas, e só isto temi dos crueys irmãos, saber que pelejavam por vosso 
serviço: mas perderãosc no mao estilo que tomaram: Trizbea lhe res- 
pondeo. Ho tempo requero mais a cura de vossas famosas feridas 
que nova proQa, por tanto subamos a prover no que tanto imporia, e 
sobindo foy desarmado pelas formosas mãos delia, e doutras donzelas. 
Deshi recolhendose a huma camará em que ja estava hum leyto, hum 
dos seus escudeyro que sabia do mester, ho curou de suas feridas que 
eram muytas e nam pequenas: e assi ho leyxaram repousar te ho outro 
dia : em que Trizbea como foram horas se veyo pêra elle por lhe dar 
conta de si, e vinha tam fermosa que soo sua vista bastava dar snude a 
Padragonte, e sem duvida foy grande parle delia: porque ho mouro es- 
tava em estremo namorado de Trizl3ea: ca sobre ser hum dos mais so- 
berbos e impacientes Cavaleyros que se viram no tempo de sua yra. 
Era tam sogeyto e obediente aa fermosura das molheres, que tinha ygual 
estremo em huma cousa como na outra, pois vendo elle a gentil Trizbea 
que procurava festejalo: por o que lhe devia, e o quo lambem lhe cum- 
pria : estava tolhido e todo enlevado na gostosa contempração da pura 
visam: e perguntandolhe ella que tal vos sintis senhor? respondeolhe : 
Contentarame eu senhora poder dizer o que sento porque assi também 
ho poderá soíírer mas hum e outro me faleceo: e receo que após isto 
vá a vida se ma nam sostenta ho gosto de tal morte. Melhor ho espero 
eu: disse Trizbea. Ga ho senhor Deos nam vos fez tal: senam pêra se 
servir muyto tempo de vos, em tam virtuosas obras. Se forem lhe tor- 
nou elle de vosso serviço não me bastara a vida eterna, e fora delle 
nenhuma quero: Pois crede, repricou Trizbea, que nam estimo eu isso 
pouco, e ja nam quero mayor valia. Senhora disse Padragonte. Segun- 
do isso mais vali eu logo do que podia esperar e se cheguey a tanto 
que me estimeis esta vontade. Mais he ho bem do meu mal: que ho 
mal da minha dor: ho remédio de tudo em vos senhora esta. Ho meyo 
he vosso pay el rey Cidenacere que me mandou procurar vossa liberdade 
pêra eu perder a minha: que se vos serve nam quero melhor emprego. 
Trizbea como lhe nomeou seu pay, quis informarse. E Padragonte lhe 
deu toda a conta que atras ouvistes, e de quem era. Dizendolhe por fim, 
sobre palavra de vosso pay vos vim senhora servir: namorado de vossa 



DA TAVOLA REDONDA 189 

íama: mas jagora vencido de vossa vista. A que mortes me posso offe- 
recer, ou sintir que cumpra com o que desejo passar por vosso respey- 
to: de vossa vontade pende a saúde desta vida que deueys poupar pêra 
vos servirdes delia, de dereyto ja soys minha, em vos leyxo tudo, se 
vos ainda nam serve dayme a morte. Mas seja tam súbita e tam escon- 
dida que a nam sinta eu eu vir: porque ho contentamento que terey de 
morrer por vos nam mo tolha, que a gloria deste pensamento em meyo 
dos infernais tormentos basta pêra me soster vivo, que eu nam quero 
ser sem vos senhora, ou \ossa esperanç,a: por tanto vede o que de mim 
determinais. E isto dizia ja ho mouro com as lagrimas nos olhos que 
nelles eram bem estranhas: naturais maravilhas do Amor, que ao bruto 
Polifemo desprezador do ceo as fazia semear pelos matos de Mongibel 
com saudade da branca Galatea que se lograva com Acis. Tal foy a sorte 
de Padragonte, tam sogeyto a esta pnyxão quanto pouco ditoso em suas 
glorias. Ca como era mais robusto que bello, foy Trizbea mais saiisfeyía 
da sua cavalaria que nanwrada de sua gentileza. ]\Jas por payrar com 
elle disselhe: Senhor Padragonte nam vos quero dizer o que fezera por 
vos senam tevera de cumprir mais que comigo: pois basta eu saber quem 
soys e o que vos devo, e ja que ho nam faço, não quero que mo devays. 
Mas como hey de estar por a vontade dei rey meu pay: inda que fosse 
contra a minha : nam posso despor de mim nem vos ho deveys querer 
sem elle: por tanto peçoros que useys comigo de quem soys: como es- 
pero em me levardes a el rey que cumprira convosco : e eu com elle 
em ser contente do que de mim ordenar, e assi ficaremos lodos sem 
queyxas, e sem culpas proprins que sam as que mais se devem fu- 
gir. Padragonte como nestes negócios era mais aííeyçoado que fraguey- 
ro, ficou salisfeyto com esta resposta, nam lhe parecendo que debayxo 
de huma ymagem bella pode aver fundamentos conlrayros a suas pro- 
messas. Mas tempo veyo que ho esperimentou, e nem isso lhe valeo pêra 
leyxar de estar sempre por o que ella quisesse. E parece iurdição que 
natureza deu á fermosura sobre corações humanos. Per maneyra que logo 
conceilaram sua partida dali a oyto dias. Ca nam quis Padragonte mais 
espaço de repouso pêra as feridas do corpo: pretendendo socorrer as 
da alma que ho mais atormentavam, e assi ho poseram em effeyío : o 
com a mais brevidade, que lhes foy possível se foram a Toledo: onde el 
rey Cidenace que ja tinha aviso de sua vinda ho sahio a receber com to- 
da a corte que não sabia falar em outra cousa: salvo em sua estremada 



190 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

cavalaria porque avia muytos cortesãos que tinham esperimentado, as 
forras dos jrmãos da ponte do Sacreíicio. Muleyzider por ho parentesco 
que com elles tinha nam sahio a recel3er Padragonte: que tudo merecia 
per estado e pessoa: e dado que lhe pesasse por a falta e perda que dos 
tais cavaleyros recebe hum rey, nam ho mostrou a Padragonte quando 
ao outro dia ho foy ver: e como ja tinha assentado com os do seu con- 
selho em dar entrada ao Miramolim per Espanha contra França: e elle 
ser em sua ajuda com cem mil homens de gente escolhida. Deulhe logo 
a resposta de todos os apontamentos que trazia conforme a vontade do 
Rliramolim sobre comcerto que de todas as terras que conquistassem 
parteria com Muleyzider de terço: e do despojo na partilha seriam Es- 
panhoes e Africanos yguais, e assi os capitães em suas partes somente 
que Muleyzider pagaria parias honestas ao Miramolim das terras que lhe 
coubessem. Padragonte satisfeyto do partido, partiose logo via de Cepta: 
pêra que inda naquelle anno fezesse passar a mayor parte da gente, ou 
toda sem estrondo. Ca determinavam dar de súbito nos immigos. E bem 
quisera elle primeyro lograrse de Trizbea: mas ella que nada delle es- 
tava namorada, secretamente pedio ao pay que dilatasse a concrusam 
daquelle negocio por hum anno te ser mais molher. Cidenacere assi ho 
pedio a Padragonte, e elle sabida a vontade delia ho consintio crendo 
que a tinha certa. Era ho mouro pouco acautelado, e nam sabia quam 
perigoso he dilatar tempo quem ho tem em tudo, quanto mais em casos 
de amor. Per maneyra que Padragonte se partio muyto saudoso de quem 
a nam ficou delle, muy apressado por tornar, e chegou a cepta onde ho 
Miramolim ho esperava: e seu amigo Godifert assaz desejoso de sua vin- 
da, avendo sós dez dias que dali partiram el rey Muleyzibar e Dricaman- 
dro de Ronda. Visto pois per ho Miramolim ho assento dei rey 31uley- 
zider das Espanhas: ficou muy contente, e praticado em conselho: deusa 
em breve ordem á concrusam do negocio, do que Godifert foy muy sa- 
tisfeyto, por que nam via senam o que lho ho seu desejo apresentava, e 
descuydado da fortuna, nam mereceo entendela e assi teve a pena da 
sua providencia: Grande exempro pêra semelhantes pensamentos que 
raramente vem a effeyto, e nunca sem danno do autor delles. Mas ne- 
nhum aviso basta pêra ho mundo leixar de dar seu fruyto, que sam os er- 
ros continos de juyzos humanos. E por agora leyxemos Africa dar presa a 
suas esperanças vaãs, e vamonos ao cavaleyro das armas cristalinas que 
a traz também sobre seus desejos 



DA TAVOLA REDONDA 19! 

Capit. XXX. como Florisbel determinou jrse á Ingraterra com Belfloris, 
por conselho do cavaleyro das armas Cristalinas. 

Ho animoso esprito como he grandioso em nam recear antes acome- 
ter as famosas empresas e acabalas. Assi he pouco a cautelado nos in- 
convenientes, e parece que a muyta cautela dado que seja prudenciíi 
naceo de fraqueza que tem de natureza ser receosa e ligase com malí- 
cia : Por o que se louvamos ho esforço de Padragonte no que fez por 
serviço de Trizbea : Nam condenemos a obediência com que a servia 
porque a pureza do Amor que lhe tinha e ho que lhe merecia ho segu- 
rou, ella poder ser culpada de ingrata, se a seu primor nam fora mais 
obrigada. Melhor empregou porem Florisbel os seus trabalhos no seu 
Amor porque recolhidos el rey Brandambur com ho cavaleyro das armas 
christalinas, e Florisbel muy contente com a alta cavalaria do íilho foram 
curados de suas feridas que nam eram perigosas, e a raynha Zarayna 
dado que folgasse com a honra de seu filho, dobrou na má vontade que 
tinha a Belfloris crendo que assi lha teria ella. Ca muy certos sam estes 
liodios nas mulheres sem causa: quanto mais com tam grande. Florisbel 
riam seguro do que desejava te ho nam possuir, pedio ao cavaleyro das 
armas cristalinas em quanto esteveram em cama que não se partisse sem 
primeyro fazer que lhe cumprisse el rey a palavra que lhe dera, elle in- 
da que ho seu cuydado o matinava que nam descansasse te ver ho seu 
verdadeyro descanso que era a gentil Celidonia, foy tam sogeyto a fazer 
sempre o que devia, que assi lho prometeo, com licença de Tiresia sua 
donzela que ali estava, e falando á parte com Belfloris trouxelhe á me- 
moria como nacera de pais Christãos e ella em quanto fosse moura nunca 
seria descansada per divina premissam. Mas se lhe prometesse acabar 
com Florisbel que tomassem ambos a verdadeira fe de Christo: elle llie 
prometia fazer todo seu negocio a seu contentamento. Belfloris que na- 
turalmente era incrinada á sua natureza, e ho piadoso Deos que pareço 
assi ho permetio. Ca sem elle ninguém ho segue: pediolhe tempo pêra 
falar com Florisbel de que cria que faria o que ella quisesse: e porque 
a leyxavam ter com elle toda honesta conversação tee ser sam: por lhe 
fazerem a vontade, ella lhe falou, e como as molheres tudo acabam per 
seus meyos. Não foy muyto acabar Belfloris com Florisbel cousa tam 
justa em que a principal parte seria a graça divina que antrevera sem- 
pre nas tais obras. Per modo que prometeram ambos ao cavaleyro das 



492 MEMORIAL DOS CAVALEIKOS 

armas Cristalinas que fariam tudo ho que elle ordenasse. Com esta pa- 
lavra se foy elle lio primeyro dia que se levantou el rey Brandambur, 
e disselhe : Que lhe cumpria partirse cedo: mas primeyro querria que 
lhe cumprisse a palavra que dera a Florisbel de lhe dar Belfloris por mo- 
iher, ja que lhe custara tanto trabalho e perigo, lembrandolhe que devem 
os príncipes estimar mais sua verdade que todo seu estado. Quanto mais 
que alem de fazer o que devia, e ganhar hum tal filho como Florisbel: 
que privado Belfloris eslava certo iiam ter vida, ella per si nam ho des- 
merecia: Ca sobre nam ter preço em naturais perfeyções, era de nobre 
linhage dos principais Senadores de Veneza, de cujo parentesco e liança 
se ganhava muyto. Brandambur inda que pagão era muy inteyro, de 
grande saber e virtude, e dobrava a rontade a toda rezão por mais caro 
que lhe fosse: assi que em parte se inerinou ao que lhe elle pedia. Po- 
rem nam ousou determmarse só em tal caso, e respondeolhe que ho 
negocio era importante a todo reyna: e parecia forte condecender nelle 
sem os votos dos principais, porque os reys nam podiam ler gosto pró- 
prio no proveyto da Republica: nem Yonlade absoluta sem comum con- 
sentimento Por tanto era necessário dar conta aos de seu conselho pri- 
meyro quG lhe desse resposta. Pêra o que lhe pedio três dias: nos quais 
tendo consulta achou todos de voto contrayro, porque hunsho nam aviam 
por prol do reyno, outros pretendiam casar com Belfloris, alguns por 
inveja delia: e todos juntamente por rogo da raynha, desejando cum- 
prir com ho gosto delia mais que com outro respeyto: porque tinham 
cm mais sua valia que a verdade que deviam a seu rey: doutra parle Bran- 
dambur queria cumprir sua promessa: porque ho cavaleyro das armas 
cristalinas nam podesse pubricar pelo mundo tal falta. Assi que avendo 
grande dissenção anlreles, assentaram em ho nam consintir : e tal res- 
i)osla deram ao cavaleyro das armas cristalinas sem vontade dei rey. Elle 
ouvido o que passava pediolhes que ho ouvissem ao outro dia, e foy assi, 
estando Brandambur com seus altos homens veyo anlelle armado das suas 
armas e disselhe em voz alta. Muy poderoso rey: eu como nam tomey 
a ordem de cavalaria se nam pêra defender ou morrer sobre ho direylo 
das desamparadas e fracas molheres: he me necessário cumprir com esta 
divida: onde quer que de mim ouver necessidade, e ja que a ventura me 
trouxe â vossa real corte a tam oportuno tempo: parece que devia ser 
porá este fim, e seria eu perjuro, e faria grande fraqueza se estimasse 
mais a vida que minha verdade: por o que me apresento aqui por parte 



DA TAVOL.V REDONDA 193 

de Belfloris; e vos requeyro muy alto rey que lhe fazays justira de vos, 
cumprindo vossa palavra real que duas vezes destes. A primeyra quando 
olíerecendovos ella lio pavão llie prometestes casala com ho mayor ho- 
mem do vosso rey 110 que he Florisbel: e a segunda quando a elle ju- 
rastes que por nenhum respcyto leyxarieys de lha dar por molher, e 
avendo aqui alguém que va contra minha rezão: Daqui digo que me vou 
ao campo, e peço que mo deis por quinze dias em que me obrigo defen- 
der a quantos mo vierem contradizer, e fazer confessar que soys obrigado 
cumprir vossa palavra, e por ella de dircyto Belfloris he ja de Floris- 
])el: e elle delia. Aqui vos entrego esse assinado de ambos em que me 
cometem toda sua justiça, da que sendo eu vencido vos dam por des- 
oI)rigado, e se vencedor nam me parece que deveis como justo rey yr 
contra vontade do alto Deos, que despoem as cousas do mundo segundo 
sua providencia, e nam por nosso gosto, e oscuro juyzo, Acabando ho 
animoso cavaleyi'o tais rezões, os grandes que ali estavam em silencio 
affrontados de tal ousadia, disseram a el Hev que era muy descomedido 
atrevimento este. e pouco acatamento a seu real estado, que ho devia 
castigar: porem Brandambur que ho nam vencia payxão nem desconfiança 
por sua grandeza, disse que os cavaleyros andantes linliam liberdade pe- 
i'a desaíiarem Emperadores, que elle nam lha avia de quebrar nem yr 
contra a verdade. Mas que avendo algum que lha contradissesse no campo 
folgaria muyto e ao vencedor faria inuyta mercê: e voltando ho rosto ao 
cavaleyro das armas cristalinas dissethe. Kem conheço animoso cavaleyro 
que fazeys vosso oíTicio, eu lambem quero fazer ho meu: Por tanto hi- 
vos ao campo que eu volo seguro realmente, e prometo guardar vossa 
justiça muy inteyra, do que me aqui pesa, he, que mo parece que vos 
ha Florisbel de dever mais (jue a mim, e eu folgara que me devera o que 
i-eceyo fazer por força: Masfazemma por cumprir com a obrigação do meu 
reynho. Com isto se foy ho cavaleyro das armas cristalinas logo a hum 
campo que fora da cidade estava pegado com os muros, cercado de sira 
paliçada pêra os lais autos. Florisbel sabido isto mandoulhe ali armar hu- 
ma lenda em que SC recolhesse aquelles quinze dias com lodo ho necessá- 
rio em muyla abastança, e bem quisera manterlhe companhia: mas el rey 
nam quis por causa de suas feridas que ho leveram em cama hum grande 
mes:porque ho cavaleyro das armas cristalinas por a fortaleza delias dado 
que soslevese o peso e perigo da passada escaramuça, nam sahio delia 
tam ferido, e pondose no campo espe.f^ou Ires dias sem lhe savr aventu- 



194 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

reyro algum. Ca por o que delle tinham visto receavam seus fortes gol- 
pes. Alem (listo nam queria anojar Florisbel. A raynlia vendo isto: lá 
Xe\e maneyra secretamente com os do conselho que disseram a el rey 
que prometesse Belfloris a quem vencesse ho cavaleyro estranho. E desta 
maneyra averia quem por seu interesse tomasse a batalha. Ca sem pre- 
mio ninguém se queria oíTerecer a perigo, pareceolhe a Brandambur di- 
vido, e assi ho mandou pregoar: ho que sabido logo ao ouiro dia lhe 
sahio ho Âlcayde Mesa! indo porque desejava casar com Belíloris: porciíi 
caro lhe custou este desejo, ca ho cavaleyro ho desenganou dí) {)rimeyro 
encontro, e foy tal que atravessado com a lança per hum lado ho levou 
a terra como morto, e logo se rendeo conhecendo que nam era marca 
de contender com íal cavaleyro, e assi ho tiraram do campo : mas nam 
inorreo da ferida. Após elle veyo Calcidonio íillio do Condestalire, man- 
cebo de bom nome naquella corte: mas teve pouca resisiencia c.finlra 
quem tinlia vantagem a quantos lhe podiam sajr, e foy tam escandalizado 
que aquelle dia nam ousou sayrlhe outro, e em dous dias seguiiUes ven- 
ceo seis cavaleyros tam levemente que nam pareciam que ho eram an- 
telle, com grande espanto dei Rey Brandambur, contentamento de Flo- 
risbel, e dor da raynha Zarayna, por cujo respeyto ho capitão Xarales 
que era seu primo sahio ao campo nam pouco confiado. Mas como era 
sagaz cuydando segiirar seu partido, lanrouliie primeyro a Um de ho 
cansar dez cavaleyros, que hum e hum. bodas armas cristalinas em breve 
castigou asperamente, e inda que de tais obras se poderá recear algum 
desastre. Xarales enganado consigo na própria coníiança, e também [la- 
recendolhe que ho tomava cansada, sahiolhe armado de humas armas 
vermelhas em hum cavalo alaçam assaz poderoso, e arremetendo soIhm'- 
bamenle ao cavaleyro raantedor: elle ho fez tam humilde que a seu pe- 
sr.r íoy beyjar !io chão: Porem ho seu cavalo desmentido [)arece de can- 
sado huma perna, cahio com a forca do encontro. ÍIo cavaleyi'o sayndo 
se muy prestes delle foyse vingar desta injui'ia em Xarales (jue ho re- 
cebeu com esforço, inda que ar;v.pO!;dido ja de tomar tal batallia: e co- 
mo era esforçado e e/iercitado nas armas defendiase e olíendia sem mos- 
trar ponto de covardia. E se lhe esta ardideza durara sempre, fora tra- 
balhoso de vencei-. Mas ho cavaliívro das armas cristalinas sinlindo nelle 
tomo, ho carregava de tais go!j)es e tam meudos que ho desatinou, e nesta 
profia seihe sostevc espaço de huma hora com tal animo: que alguns 
parecia ter Xarales esprito para nam ser vencido. Seu immigo sinlindo- 



DA TAVOLA REDONDA Í93 

se de lhe elle aturar tanto, avendose nisso por alTrontado: deulhe per 
cima do escudo e elmo dallo abayxo hum golpe de lai força, que fendendo- 
ilius ambos parlio lhe a cabeça te os dentes: do que logo cahio morto: Muy 
maravilhados ficaram el rey Brandambur c lodos seus altos homens de 
tam poderoso golpe, e recebei'am grande pesar na morte de Xarales, por 
ser pessoa tam principal e antrelles rauy abalisado nas armas. A raynlia 
ho sintio em tanto estremo que esteve em condição de tomar a morte 
com suas mãos. c como neste género a payxam e desejo de vingança 
vence todo solírimento: determinou vingarse do cavaleyro das armas cris- 
talinas, a que tomou estremado ódio, pêra o que secretamente mandou 
recado a el rey de Malta seu irmão, conlandolhe tudo o que passava, (! 
pedindolhe que mandasse cincoenta cavaleyros escolhidos que viessem de 
noute matar ho cavaleyro na sua lenda: e se tornassem sem el rey Bran- 
dambur ho saber. Avendo ja sete dias que elle tinha ho campo vitorioso 
e muyto a seu salvo por a pouca mossa que seus inimigos lhe faziam. 
Ga nam eram marca de contendei'em com elle: ho recado foy em huma 
galé que á força de remo fez a deligencia que Zarayna desejava, e tal 
aviamento se deu que ao quatorzeno dia que ho cavaleyro das armas cris- 
talinas resedia em sua estancia sem ja ousar sairlhe alguém, aquellanoyte 
4lerão sobrelle os cincoenla cavaleyros que ho vinham matar, e acertou 
que como elle com a vella que os seus amorosos pensamentos davam a 
sua alma: combatido do solicito amor, dormia pouco: e hum sonno le- 
ve, e lambem por que estando anlre inimigos teria em si vigilância. Sin- 
lio romper a paliçada, e elle todas aquelías noutes dormia armado, poi- 
o que enlaçando muy prestes ho elmo, e tomando ho escudo e espada 
sahio fora da lenda sem algum temor. A este tempo ja todos eram den- 
tro e arremeteram a elle a pé sem lhe falarem palavra, e lomaramno em 
meyo dandolhe per todas partes como homens determinados a lhe tii'ar 
a vida, e nam o pouparem, e sendo lodos homens de feylo Iratavamno 
mal. Elle se defen<lia com aquelle animoso esforço que sempre leve nos 
mayores perigos e onde alcançava com seus golpes leyxava claro sinal 
da sua yra, que seus immigos padeciam com exempro pêra nam se che- 
garem muyto a elle. Isto porem nam lhe valia lanto: porque como ei'ain 
muylos, em quanto assinava hum, os outros ho carregavam, dando toda 
pressa, e pondo todas suas forças por ho derrubarem, e por ser de noute 
soava a escaramuça que parecia batalha campal. Mas em espaço de huma 
hora linha ho cavaleyro das armas cristalinas mortos dez cavaleyros, e 



í[)G MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

muytos outros feridos: sem nelle se enxergar fraqueza alguma, ou can' 
saco: do que elles andavam maravilhados, e muyto mais do pouco dan- 
no que Ilic faziam por a muyla fortaleza das armas, cm que nam ame- 
gavam as forças dos cavaleyros pêra lio poderem ferir, os quais nant 
ousavam cliegarse ja muito a eile de escandalizados de seus mortais gol- 
pes, e requeriamlhe que se desse. Mas olle cliamavallies traydores co- 
vardos, que os avia de matar a lodos, e fazendo costas no muro; dali 
arremetia a elles, e lornavase recolher por lhes nam ficarem mcyo. Ca- 
lidio seu escudeyro vendo ho> perigo de seu senhor. La se tresmalhou 
da lenda e foyse á porta da cidade, e achandoa fechada, tanta dehgen- 
eia pos que sobio pelo muro: e foy dar rebate nFloriSi>el desta trayçam, 
Jio qual sem mais esperar se armou mny apressa. El rey sinlindo a i-e- 
volta: e sabendo o que passava acodio logo. Era ja isto em amanhecen- 
do, e vindo com alguma gente: onde lio caraleyro das armas cristalinas 
se defendia sem mostrar que estimava seus immigos acharam que tinha 
derredor de si huma tranqueyra de mortos, e aleyjados. e dos cincoenla 
nam avia ja mais que vinte que pelejassem: e estes lodos feridos e tam 
magoados que ja nam sostentavam a profia: senam com desejos de mor- 
íal vingança que elles nam podiam satisfazer ho capitão vendo que lhes 
amanhecia: e nada tinham íeyto, bradavalhes: Que fraijueza tamnnlia !ie 
esta cavaleyros, com que rosto determinays volíar o parecer ante quem 
vos mandou : pondo sua honra na vossa conflarsça : olhay também que 
vem ho claro dia que nos descubrirá pêra nossa pena. í-om estas e ou- 
tras palavras do teor os incitou que de novo e com dobrado furor aco- 
meteram ao cavaleyro das armas Cristalinas: que mostrava nn^.i telos em 
conta, e vista a nova fúria com que ho perseguiam: cobrou lambem nova 
yra contra elles. Ho capitão aífrontado parece de sayr tam mal com sua 
empresa, nam estimando a vida arremgieo a se liar com elle dizendo aos 
seus : Seguime cavaleyros, o que ti;'.eram buns ckico: per maneyi'a qua 
se abraçaram todos com ho animoso Cavaleyro cuydando derribalo. Mas 
como elle tinha as forças muy diíTerentes das deiles nam poderam so- 
-gigalo como presomiam: A este tempo os outros que nam tinham higai- 
de fazer presa tendo melhor azo de se chegarem carregavam sobreile 
com golpes (lambas as mãos, com que toda via nam escapou de ho fe- 
rirem na cabeça amolhandolhe ho elmo nella: quando chegou el I5ey e 
Florisbel á vista dos quais deu elle tal punhada no capitão sobre a vi- 
S'eyra com a manopla que lha meteo poios fozinhos, e levou da& mãos 



DA TAVOLA REDONDA 197 

liuma adnga a outro que tentava meteiiha pe'o gorjal: com a qual lhe 
deu pelos peytos que lha ensopou nelles e desapressado destes, muy 
prestes se desembaraçou dos três com seu danno. Florisbel que vinha 
diante, com a payxam que trazia deu nelles com tam immiga vontade, 
<}ue nam dava golpe que nam fosse mortal. Mas o cavaleyro das armas 
cristalinas perdendo a yra como nam vio resistência, disseihe: Senhor 
Florisbel leyxay esses coytados que ja tem a pena da sua maldade, e eu 
estou satisfeyto. Florisbel vindose a elle, disseihe: Bem sey senhor que 
nenhuma necessidade tendes de vos vingarem de vossos immigos: que em 
vossas mãos tem mais certo lio castigo: mas pêra tamanho erro como lie 
ofíendervos nam ho ha que baste, e a vos deve bastar saberdes que nin- 
guém se vai de traydores, que seram muyto bem castigados logo. Nisto 
chegou el rey com ter mandado prender os vivos: ílo cavaleyro das ar- 
mas cristalinas pediolhe que lhe prometesse huma mercê: que lhe elle le- 
vemente prometeo, e era que soltasse os presos, e nam tirassem inquiri- 
ção de cousa alguma por escusar ódios e escândalos em seu reyno. El 
rey e Florisbel nam queriam: mas elle insistio nisso de maneyra que lho 
concederam contra sua vontade por lha fazerem: e vista sua alta cavala- 
ria Brandambur desejoso de ho conhecer ho esconjurou que lhe dissesse 
quem era: ca em quanto ho nam sabia teria sempre que era algum dos 
deoses : porque em forças humanas nam podia aver tal estremo de ca- 
valaria. Elle lhe disse que era hum cavaleyro Christão, e como servia ao 
verdadeyro Deos Christo crucificado: em seu nome fazia todas suas obras, 
e elle lhe dava esforço e fortaleza contra seus immigos, e daqui prose- 
guio com algumas rezões da catholica Fé tam vivas, que em parte lhe 
abrio os olhos do entendimento pêra cayr no conhecimento delia, e an- 
trevindo também Florisbel que elle trazia treynado na verdade. El rey 
disse que o queria ouvir com os do conselho que ja todos ali eram, e 
naquelle campo apartados: ho cavaleyro das armas cristalinas posto cm 
meyo propôs seus fundamentos : em que inspirado da divina graça se 
mostrou hum puro per maneyra que commoveo dizerem todos: que não 
lhes parecia mal tudo o que dizia. Mas que pêra votarem aviam mester 
espaço de quinze dias pêra cuydarem em tam árduo negocio: Pareceolhe 
a el rey bem, e sobre tal coiicei-to se foram á cidade: mas primeyro el 
rey deu logo a causa de Bellloris por boa, e que casasse com Florisbel: 
ca sem isto não se quis ho cavaleyro das armas cristalinas mudar dali. 
Disto pesou a raynlia em todo estremo, c não deyxou de intentar estro- 



i98 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

valo, e como era muyto amacia, e mimosa dei rey por sua fermosiira: 
})ediolhe que por espaço de bum anno não entregasse Belfloris a Floris- 
bel: porque queria cila delir aquella payxão peio tempo, e escusar ho 
danno que receberia delia junta: Não lho soube cl rey negar porque lhe 
era muyto sogeyto, e sendo em todas suas obras muy inteyro príncipe: 
tinha esta fraqueza em tanto estremo que fazia outras de que era nota- 
do. Visto pois pelo cavaleiro das armas cristalinas como cada dia se lhe 
ennovavam dilações que lhe ho seu cuydado nam soíTria nem Tiresia: 
apartandose com Florisbel disselhe, que lhe era forçado parlii'se: porque 
não podia esperar tanto. E dando fim a sua aventura com vida, e volto 
a Ingraterra: elle lhe faria saber de si pêra se lhe cumprisse ho socor- 
ler da maneyra que elle quisesse: Porem que seu conselho era furtarem 
Hoinoris, e jrse a Ingraterra com ella, e depois tudo se remedearia. Isto 
jtareceo muyto bem a florisbel, e não o querendo dilatar: deu logo or- 
dem como se apercebesse hum navio pêra ho cavaleyro das armas cris- 
lalinas: ho qual disse a el rey: que se detinha ja mais do que lhe cum- 
jiria. E em quanto isto passa vamonos a quem nos chama ha muyto. 

Capit. xxxj. Como Doristão Dautarixa chegou á torre de Laudisea. 

Quam trabalhoso seja ho ódio e aborrecimento concebido no peyto 
da molher: e quanto ensiste em qualquer teima que toma pêra gosto de 
vingança, por ho conto atras se vc. Nace isto de ser naturalmente des- 
confiada e fraca porque ho esforço he confiado e não vingativo, e pre- 
tende fazer suas obras sem escândalo pêra conversação do bom nome, 
como fazia o esforçado Doristão Dautarixa: Que caminhando com a don- 
zela da gentil Laudisea contra a ribeyra do rio Licos. Diz a historia que 
sendo no fim de sua jornada huma legoa da fortaleza: indo per hum vale 
contra ella, de traves viram vir dous cavaleyros de gentis desposições 
com huma donzela em meyo, e dous escudeyros atras : os quais eram 
primos, hum delles chamado Alicarte de Bonaguia namorado da donze- 
la, que se chamava Tartesia cavalgava em hum cavalo Ceziliano grande 
e poderoso armado de humas armas de Ceo e per cilas muytas borletas 
douro, no escudo a fabula do tormento das belidas: pintada com huma 
letra. 



DA TAVOLA REDONDA 199 

Tal he minha dor sem fim: 
que desespero, 
quando descansar espero. 

A cansa deste seu trabalho era que sua dama Tartesia: sendo mnylo 
vaã gloriosa de sua fermosura, e desejando ser nomeada polo mundo, 
disselhe que ella se lhe entregaria com ho ducado de Colandia em Ale- 
manlia de que era senhora: se elle a levasse pelas provindas da Chris- 
tandade, acabando em seu nome tantas aventuras te que ella se ouvesse 
por satisfeyta de seu serviço. Alicartc que era muy animoso cavaleyro 
folgou aceytar ho partido: per modo que dandolhe sua fé de lhe não fa- 
zer força te a ter servida á sua vontade: entraram na peregrinação, e 
permetindo ho ella, levaram consigo Certolanges de Narda primo de Âli- 
carte também especial cavaleyro, e ambos em companhia fezeram muy- 
tas cousas notáveis. iMas Tartesia enlevada naquella vaã gloria, nam se 
satisfazia por seguir seu estremo: isto trazia muy atribulado Alicarte por- 
que lhe queria muyto: e desejava satisfazcrse. Beríolanges de Narda vi- 
nlia cm hum cavalo fouveyro fermosamente remendado assaz soberbo: 
trazia humas armas roxas e pardas em triangulas, no escudo em campo 
das mesmas cores hum triangulo verde, o dizia: a esperança sempre hu- 
ma. Eram ambos especiais cavaleyros e de grande openião de si, com 
rauyta causa vinham provar a aventura de Laudisea: nam o pouco confia- 
dos que bastavam pêra mayores empresas. Bertolanges tanto que vio Do- 
ristão Dautarixa com a sua donzela, que Esperia se dizia: disse ao pri- 
mo. Pareceme que se quis Amor lembrar de mim como quem sabe que 
sou dos seus: porque se esta donzela, que eu lá enxergo he tal que me- 
reça ser amada: determino coutala por perdida ao cavaleyro, e farlhey 
boa obra em lhe escusar ho perigo de tal companhia louvo vossa tenção: 
lhe tornou Alicarte. Mas folgara que tevereis mais dereyto: ca soberbas 
sem rezíjes as mais das vezos tem grandes quebras. Como soys gracio- 
so: disse Bertolanges. Inda vos mais rczão quereys que a do Amor que 
força e vence tudo. Pêra bom namorado pouco sabeis da vossa ley, o 
mais por vos satisfazer eu travarey com eílc a pratica de maneyra. que 
ho possa arguir de peccado e trazer ao meu propósito. Nisto empare- 
lhando ja huns com outros salvaramse cortesmente. Deshi Bertolanges 
disse contra Doristão: Vos cavaleyro tendes per ventura sabido em que 
poi'igo ides cair per esta estrada: ou estais inocente de quanto se nella 



200 MEMORIAL DOS CAVALEIUOS 

aventura. Por servir a esta senhora, respondeu Doristão. Venho de bem 
longe onde me ella guia: mas porque ho perguntais. Eu volo direy, lhe 
tornou Bertolanges: porque este cavaleyro vem em propósito de se pro- 
var com hum que guarda ho passo lá diante por serviço desta dama que 
traz consigo: Eu fuy tam m^l provido que me vim com elle sem alguma 
causa que me obrigasse, e porque ha alguns tam escrupulosos na cons- 
ciência que vos dizem que nam he bom offerecer a vida ao perigo sem 
justa e grande occasião. Sou eu de tapar as bocas a mal dizentes : que 
tomam gosto e por officio notar vidas alheyas, agora remordido desta 
lembrança eslava em condição de me voltar, tiveme vcndovos vir, por- 
que me deu na vontade que me farieis hum partido em que não ganha- 
reis pouco, e eu ficarey aviado. Doristão conhecendo logo que estava 
tredo, quis também dissimular com elle dizendolhe: eu tanto me preço 
de boa condição como das armas, porque desta tomam ellas ho lustro. 
Assi que tal pode ser que ho aceyte, pretendendo nisso mais o que vos 
de mim cumprir que ho próprio interesse. Bertolanges mais enganado com 
sua brandura, disselhe. íagora não posso leyxar de esi^erar meu desejo 
cumprido : Pois me vos soys desses, em estremo folgo vervos tam co- 
medido: Mas venho ao caso. Queria que me désseis essa donzela pêra a 
servir: porque me parece bem, e passala hey sem perigo o. passo, anlre 
tanto passearvos eis vos ao longo do rio que he contemprativo te que 
vos eu desembargue ho caminho. Doristão muyto seguro respondeolhe. 
Vos rezão tendes em cobiçar a donzela: mas eu sou mais avaro do que 
quiçá vos pareci, e mais vos digo que me preço tanto de ter boa presa, 
que cuydo sem vossa ajuda passala per meyo de hum esquadrão per força 
darmas. De vossa openião nam trato, repricou Bertolanges, que he de 
homens de bem, e tal seja minha vida como me parece de rosas: porem 
se vos quisésseis cuydar nisto. Não he ora tam bom como vos cuydais 
poer a vida em condição de se perder por huma vaydade: mayormente 
podendo escusalo : ca lá tendes ho texto: Non tentabis Deum tuum. E 
se vos obriga alguma palavra que levemente daríeis a essa Senhora: Eu 
a tomo sobre mim. Doristão como estava sobre dobrado delle, e hiam 
seguindo sua via de seu vagar, disselhe: sou tam duro de mover que 
nada me obrigais com vossa boa oratória. Aqui foy Bertolanges enten- 
dendo que lhe falava conDado, e cuydando contraminalo, tornoulhe. Será 
logo necessário pois vos não movo com as palavras ver o que posso com a 
lança, e quero primeyro descobrirvos quem sou. Vos aveys de saber 



DA TAVOLA IIEDONDA ^ !201 

que el rey Sagramor por a confiança que em mi tem me fez examinador 
múr de todas suas estradas, pêra que juste com lodo cavaleyro que to- 
par andante, e examine se lie auto pêra seguir as aventuras, porque a 
mingoa de bons oíTiciais a cavalaria nam perca ho lustro: e porque me 
pareceis Novel e pouco destro: cumpre que passeis por a ley do rejTio, 
pêra com minha licença, e carta de examinação possais usar vosso oíTi- 
cio e ser abilitado pêra tal ordem: Assaz presumpção pregoais de vos, 
respondeo Doristão rindose. Mas eu sou muyto incrédulo, e mayormento 
creyo muyto pouco de quem se gava: Não me parece, repricou Berto- 
langes, que soys muyto Doutor. Essa regra não he tam observante como 
a quereys fazer. Ao bom cavaleyro he dado gavarse onde nam he conhe- 
cido: ca guem se gava em algo se atreve. Nisso, lhe disse Doristão, logo 
me yrey com vosco piadosamente, porem eu sou de ver obras. Aqui se 
concertou Bertolanges na sela vendo que lhe ensecava a tredice, e fezse 
prestes, dizendo: A ponto eslays que as podeys ver. Por tanto determi- 
nayvos senam quereys estar pela condição. Doristão não esperando mais, 
tomou do campo ho necessário, e entestando nelle a lança desejoso de 
se lhe mostrar; deulhe tal encontro que de humilde ho fez vir a terra, 
ficando atordoado que não se bolia. Alicarte de Bonaguia que tal vio ho 
primo, teve em muyto Doristão: Mas com ho pesar disselhe. Eu cuydo 
cavaleyro que a sem rezão de meu companheyro: mais que vossas for- 
ças foy causa do seu desastre. Por onde hey de trabalhar vingalo : por 
tanto guardayvos de mim. Arredandose pois logo hum do outro: foram 
se encontrar furiosamente, e como Alicarte era especial cavaleyro: que- 
braram as lanças juntandose dos corpos. Ho cavalo de Doristão quebrou 
huma perna e pos as ancas no chão sem mais poder levantarse. Elle sa- 
hiose delle muy desenvolto e sem perigo, e levando da espada esperou 
que se desembaraçasse Alicarte do seu que cahio sobrelle: e tinhaho mal 
tratado. Neste comenos tornou sobre si Bertolanges e ajudou levantar ho 
primo, e senhoreados da yra e payxão da sua affronla: querendo vingar 
se sem outro respeyto do que deviam ao primor de bons cavaleyros: Am- 
bos juntamente vieram contra Doristão, com ygual queyxa e mortais de- 
sejos de vingança: Pois elle certo não foy descuydado em os acometer per 
modo que antrellcs se travou huma escaramuça bem perigosa á vida de 
cada hum : Porque inda que Doristão fosse tam estremado nas armas: 
Seus immigos eram duros e acometiamho com magoa que a tempos he 
parte de valentia. Tartesia eslava maravilhada da desavcnlura e ardideza do 



202 . MEMORIAL DOS CAVALEIllOS 

Doristão, porque tinha visto ho esforço dos seus cavaleyros em muytas cou- 
sas, e estranhando ho novo estremo de cavalaria: correo com ho Palafrem 
a meterse em meyo dizendo aos seus: que faziam o que não deviam nem 
se esperava delles. Os quais caindo em sua bayxeza arredaramse corri- 
dos e nam tam hvres da pena de suas culpas que suas carnes nam sin- 
tissem em algumas feridas que receberam dos duros golpes de Doris- 
tão. Ho qual vendo Tartesia, como em sangue nobre nam entra crueza 
nem ódio de vingança tevesse, dizendo. Eu senhora folgarey obedecer 
vos em leyxar a batalha que folgo seja com ambos juntos por lhes dar 
ho desengano mays em breve. Porem ja nam pode ser, salvo per con- 
sentimento delles porque me cumpre a mim assi. Bertolanges desejoso 
de se forrar, disse ao primo que ho leyxasse averiguar aquelle negocio, 
e tevesse Tartesia que ho não estorvasse. Com isto arremeleo a Doristão 
que ho agasalhou mais áspero do que teli fizera. Porem elle se lhe ti- 
nha animosamente, e com seu danno, em tanta maneyra que em cabo de 
huma hora que se lhe sosteve trazia as armas todas desfeytas, e tintas 
em sangue de muytas feridas. Ho primo não podendo soffrer velo tam 
mal parado: acabou com Tartesia que ho leyxasse socorrerlhe, e vindose 
a Doristão, disselhe. Animoso cavaleyro vindevos a mim que estou mais 
pêra soffrer vossa fúria: nam queyrais exercitar a yra onde ja acha pou- 
ca resistência. Doristão ho fez logo fazendolhe rosto. E Bertolanges achan- 
dose cansado e muyto ferido: folgou de tomar fôlego, e apertar suas fe- 
ridas per mãos de Tartesia. Antre tanto Alicarte se dava com Doristão 
com muyto esforço e tento. E durou a profia antrelles perto de duas 
horas. Mas por ílm Doristão ho chegou a tal estado que ja nam tratava 
senam de se reparar. E vendoho assi, disselhe: Cavaleyro vejovos em 
termos de aceytardes qualquer partido, e farvolohey mais favorável que 
ho de vosso companlieyro : Se vos arma que fique assi nossa batalha 
folgarey: por amor de vos. Ca nam vos tenho ódio, com tal que percays 
hum dos cavalos poys por vossa soberba perdi ho meu. E outra hora 
usay melhor de vosso officio nam ho percays per erros. Os primos vista 
sua humanidade: cayram em sua culpa, e no primor de Doristão: e por 
a pena, sesudos. Disseram lhe que lhes perdoasse seu descomedimento 
que ja purgavam: e que tomasse ho cavalo que lhe melhor parecesse, e 
tomou ho de Bertolanges dizendolhe: que ho serviria se ho tempo lhe offe- 
recessc azo, e assi ho fez ao diante, c querendose partir, os primos lhe 
pediram que lhes dissesse seu nome pêra saberem a quem deviam as 



DA TAVOLA REDONDA 203 

vidas com que ho esperavam servir. Doristão feytos seus comprimentos 
disselhes: se queriam scrvirse delle e da sua amizade que se fossem á 
corte dei rey Sagramor: onde esperava vollar cedo, e ay ho conhecerião. 
Com isto se despedio delles que se foram a povoado em hum cavalo dos 
escudeyros. E dahi como se acharam em desposição, desejosos de co- 
nhecer Doristão por sua estremada cavalaria, e Tartasia que ho nam co- 
biçava, menos folgou de se yrem á corte de Sagramor, a que dando con- 
ta do que passaram com Doristão, e os sinais delle souberam quem era: 
per el rey que ho conheceo. E tornando a elle como se alongou dos pri- 
mos : começaram tomar vista da fortaleza de Laudisea, e a sua donzela 
Esperia lhe disse. Senhor nos somos na íim da jornada que he aquelle 
castelo que lá diante parece, e porque vos nam posso agasalhar dentro 
nelle. E ja nam seram horas pêra fazerdes batalha com Astribonio, emais 
indo cansado da passada será bom tomardes por oje repouso: ao que eu 
quero jr diante pêra vos prover de gasalhado, vos senhor vindevos de 
vosso vagar pela minha trilha ao castelo. Ca fazendo outra cousa será 
sayrdes da vontade de quem me manda sobre este concerto: dando do 
açoute ao Palafrem, foyse alongado delle com muyta presa, te que che- 
gou ao castelo que distava dali espaço de grande legoa. Onde foy resce- 
bida de Laudisea com grande alvoroço: Sabida a vinda de Doristão, e 
logo deu ordem como ho agasalhassem, e foy desta maneyra. Chegando 
Doristão Dautarixa junto da fortaleza posse a contemprar a invençani 
delia: que estava edificada em meyo do rio Licos, sobre muy fortes pi- 
lares de cantaria de laspe tam claro e polido que dava de si mays lustro 
que hum claro diamante. As pedras todas lavradas em triangulo, e as- 
sentadas com estremado arteficio, e vindo sobre a agoa com dous arcos 
altos e cruzados: fazia quatro cantos encima, em que se armavam qua- 
tro torres quadradas de honesta altura da mesma obra dos piares, e ho 
tecto de abobada sobre que se. faziam quatro jardins de tanto primor e 
concerto que abafava lio desejo, com todos os canos dagoa que eram ne- 
cessários pêra criar a fresquidão delias, e em meyo destas torres e des- 
apegada delias se levantava huma fortaleza de seys quinas de pedra branca 
e preta, cm quadrângulos mais alta que as outras hum pique: com hum 
coricheo que parecia ser de p,''ata, c sobir ás nuves: o vão dantre estas 
torres no prão ficava em circulo como rua, e encima no andar dos jar- 
dins das torres em huma varanda entorno de ameyas de cristal. Tinha 
a serventia pêra a terra [)cr barco: da banda donde Doristão chegou, per 



20'í MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

luim postigo falso que nam servia senam per necessidade : e da outra 
sahia com huma ponte de três arcos que era como rua que vinha en- 
testar na fortaleza do meyo. Estando pois Doristão notando este edifício 
antes que chegasse á praya do rio que aU era alcantilado e fundo. Che- 
garam a elle dous pages de gentis rostos e desposições, e bem atavia- 
dos: que ho tomaram pela rédea, dizendolhe. Senhor cavaleyro vinde re- 
pousar que tempo tereys depois pêra ver que he isto : disse Doristão. 
Que me mandais senhores? a servir vimos: respondeo hum delles, e do 
])arte de huma donzela fazervos força de vos aposentar naquella tenda. 
Força de donzela, tornou Doristão: Mayormenle sendo vos os autores, 
de que nam menos cortesia se espera. Nam sinto quem com rezão arre- 
ceasse nem contradissesse. Ao menos eu nam: por tanto vamos onde 
mandardes. Os pages ho guiaram entam a huma tenda que lhe tinham 
armada á beyra do rio. E ficava em distancia da fortaleza, que podia es- 
tar á'fala com quem daquella banda viesse andar nas ameyas: porque 
antre ella e a terra per aquella parte poderia aver espaço de huma lan- 
ça, e a varanda sahia com quatro pontas antre as torres que lhe dava 
muyta graça, e dali ficava quasi sobre a terra. Doristão entrando na ten- 
-la que grande e rica era: e a hum cabo tinha hum leyto de muyto preço 
tí duas cadeyras e mesa: desarmouse logo, e tomando hum roupam de 
escarlate sahiose fora por se lograr da praya, porque era ja casisolpos- 
to, e sabey que a donzela Esperia contando a Laudisea o que lhe vira 
fazer, e gavandolho de muyto gentil homem: deu ordem como ho agasa- 
lhassem da maneyra que ouvistes: lançando polo postigo os pages em 
hum barco perque ella lambem se recolheo: a qual querendo festejar a 
Doristão veyose antre as ameyas da varanda com outras donzelas de 
gentil parecer, e antrelas a linda Laudisea. Doristão pondo os olhos nel- 
las fezlhe sua cortesia: e como a formosura de Laudisea a estremava nam 
somente daquellas damas: mas de todas as de seu tempo. E era muyto 
menina, com que no seu parecer nam avia quebra. Mas cada dia nova 
crecença, e Amor espreytador de tempos esperava aqui parece este ca- 
valeyro dantre os olhos de Laudisea lhe fez hum tiro, qual ho dourado 
com que ja ferio Apolo da vista de Dapnis, do qual Doristão ficou tam 
tolhido que log& não soube de si parte. Este emleyo sintio nelle Espe- 
ria como quem lho esperava, e disselhc de cima das ameyas. Que tal 
vos sintis senhor? muito mal, respondeo elle: trovado e abrasado, com 
que eslava muy gentil homem e vos me tendes a culpa: que me metes- 



DA TAVOLA HliDOXDA 205 

tes desapercebido c descuydado antre tantos olhos immigos da alma en- 
tregue a novas dores. Como, disse Esperia. Tam prestes vos leyxays; 
vencer: Nam he essa a coníiança que eu íenlio pregoada antre eslas se- 
nhoras. Pera as servir (repricou Doristão.) Nam me falta presumpção: 
mas pera resistir a suas forças nam nas lenho. E bom fora ja que vos 
acolhíeis á fortaleza e me leyxaveis no campo, que me avisareis do que 
vejo. Quiçá nam me metera iam fouto em vossas tranqueyras. Nam pude 
ou mais, tornou Esperia: Ga ho muyto melhor se sinte do que se diz, e 
oxalá vos visse em afíronta em que vos cumprisse minha ajuda pois vo!n 
devo. Que inda me atrevia salvarvos delia, com tanta gloria vossa quanto 
de perigo por mim passastes, Doristão parecendolhe que consintia Lnu- 
disea nesta esperança quis certiíicarse. e disselhe: Antes que miniia in- 
nocencia me mela em culpas. Fazeymo mercê que me digays se me ouve 
a senhora Laudisea. Ella estremandose das duas Donzelas com lio seu 
estremo, disselhe. Eu sou a presa deste Castello por cujo resgate vos 
Senhor vindes offerecer vosso sangue. Prazerá aqnelle alto Senhor, que 
sempre favorece os bons propósitos que vos darâquanla vitoria vos de- 
sejo. De mim vos aííirmo que inda nam tive esperança de meu remédio 
senam agora. Doristão humilhandoselhe de novo: tornoulhe. ia cuydo 
que me escolheram os Fados pera toda boa ventura. Pois de iam longe 
me guiaram a vos Senhora ver. Ca vervas soomente be Iam gi-ande dita 
que nam ha mais que desejar. E nam pode a fortuna ser tani maa que 
me tire perder a vida em vos servir. Com isto miC dou por salisfeyto, poys 
bo ja he este meu desejo que per fama me trouxe a muyío mais do que eu 
cuydava. Laudisea dandolhe grandes agradecimentos, disselhe. Vossa amiga 
Esperia grande confiança tem. .Mas nam estou ja pelo que lhe ouvi. Bastame 
ver vossa pessoa que de si logo promete quanto se pode esperar, e mais ser- 
des dos da Tavola redonda, que sam a flor da cavalaria do mundo, e a que 
sou tam afícyçoada quanto me a rezam obriga. Nisio chegoulhe hum re- 
cado do Duque Aslrihonio: que foy informado da sua vinda, queyxanda 
se a Laudisea que lhe agradecia mal a vontade que tinha de servila: poys 
assi agasalhava hum Cavaleyro de conhecimento de hum dia, e delleem 
tanto tempo nam fazia caso, (|ue lhe mandasse dizer a causa de tal no- 
vidade, pera elle saber o que sobrisso faria: Laudisea inda que era miu"to 
discreta linha os espirites tam delicados que qualquer temor lho punha: 
t; como ja eslava entregue á alTeyçam de Doristão: salisfeyta de sua pos- 
liuM e gentileza: ficou cortada receando ho perigo de sua batalha, por 



208 MEMOniAL DOS CAVALEIROS 

outras muytas que ja vira fazer a Astribonio, e a crueza que lhe via 
executar em seus immigos e mandouselhe desculpar que era hum cava- 
íeyro seu pareute: a que fazia rauyto pouco pêra a rezão que tinha. Deshi 
como molher nada foula em fazer sua vontade, disse a Dorislão. Senhor 
dayme hcença pêra me recolher: Ca nam queria provocar Astribonio a 
ódio contra vos a que devo vontade e deiigencia. Praza ao senhor Deos 
que vos dó a vitoria que vos eu desejo pêra que vos possa satisfazer em 
alguma parte tanta divida. E com isto se foy chorar sua sogeyção. Isto 
siníio muyto Doristíto por Astribonio ser a causa, e de Laudisea estimou 
aquella fraqueza deHcada. e a vii'tuosa simpreza: Nobres partes e de 
muyto preço em molher fermosa, e senam fora por ho dia ser gastado 
liam dilatara mais ho castigo daquella offensa: Amor que ho picava lhe 
ilonrou a vontade de se ver com Astribonio, e ficando em trevas com a 
partida de Laudisea. Algumas donzelas que ficaram travaram pratica 
€om elle: que sendo não menos destro nella que nas armas, não lhes 
respondia muy prompto por que ho tomavam a tempo que a alma era 
combatida de mortais desejos, junto com a payxão de quem lha anoja- 
va. Astribonio tocado dos ceumes nenhum sofiVimento tinha; receoso da 
sua fortuna, e pouco seguro da vontade de Laudisea que via dar tanto 
a Doristão: sendolhe iam escassa de toda vista, e muyto mais da pala- 
vra, que huma só não tevera deila desque ali viera, por o que indinado 
com invejoso ódio contra Doristão: mandoulhe dizer que se fosse logo 
daquella pousada que sem sua licença tomara, senam queria leyxar a 
vida em pago da ospedaria. Doiislão lhe mandou em resposta, que as 
iioras não eram ja pêra mudar ho aposenio, ca se ho foram elle tomara 
ho seu : mas que ho tinha bom e vinha cansado da longa jornada, que 
por ho desapossar aceytara, e por aquella noute ja avia de repousar ali 
sem sua licença, e tanto que fosse iiienhaã eíle esperava lirarlhe a jur- 
diçam, pois queria ser tam soífrego e avaro do alheyo. Astribonio se 
alTrontou muyto com tal recado: Mas a principal dor era da gentil Lau- 
disea, receosa do perigo de Doristão: a que ja estimava tanto, que an- 
tes quisera seu cativeyro sem esperança: que tela per esta via, tam íino 
iie ho puro Amor de huma delicada donzela: Esperia a esforçava dando 
lhe grandes confianças de Doristão: Ho qual posto em mãos de seus pen- 
samentos que ho xaqueavam : toda a noute passou com elles contem- 
prando na estremada fermosura de Laudisea: sem lhe lembrar ho perigo 



DA TAVOLA REDONDA 207 

tia batalha que esperava, tendo por muy certa a vitoria em a fozer por 
aquella que a linha delle. 

Capit. xxxij. Do que socedeo a dom Brisam de Lorgcs 
com a donzela Floresinda. 

Nani podem negar os homens serem muyto obrigados ás molheres, 
por cuj3 respeyto lio mundo tem recebidos grandes bcneíicios, e elles 
gloriosa fama : Por o que com muyta rezão devem servilas, e aceytar 
trabalhos que tal satisfação esperam: pois está claro que nam mereciam 
m de Doristão ho preço do Amor da gentil Laudisea. lio contrayro pa- 
rem diremos de dom Brisam de Lorges: porque se veja quanto vay no 
bom ou mao emprego do Amor. Ca recolhidos dous Gémeos a casa do 
hospede de Bransidel que os servia nam esquecido da obrigaçam que 
lUe tinha, trataram da cura de dom Brisam. Deshi quis ho jrmão saber 
de Fioresinda a causa de suas feridas, e foy esta. Em Constantinoijla 
avia hum mercador rico chamado Filelfo: ho qual indo com suas merca- 
dorias a Alexandria, de lá trouxe huma moça Parsia que hum mouro 
furtou em Urmuz, e diziam ser (ilha do rey da terra em grande estre- 
mo fermosa : A qual Filelfo criou namorado dela com muyto mimo, e 
com tenção de seu desejo, esperandolhe tempo açazonado, e vendo ser 
moça de quinze te dezaseys ânuos, cobiçada e servida de muytos poi' 
sua estremada formosura: junto com grande discrição e huma sagacidade 
pera^ grandes cometimentos. Filelfo a tinha dona e senhora (como di- 
zem) com todo ho seu em poder, sem acabar com ella que consintisse 
em seu Amor: porque era ella tam isenta e manhosa que lío trazia em 
dilações sem elle as entender- Ca por ser ja sobre a idade nam tinha 
forças nem saber qual cumpria ao seu propósito. Em modo que por 
mao galante, e muito emleyado em seu Amor, ella per meyos da sua 
discrição escusava a própria alfronta, e de sua vontade se entregou a 
hum cavaleyio (pie a servia damores e auto pêra elles: Ho qual a tirou 
de casa de Filelfo, e a teve alguns dias a seu prazer em huma forta- 
leza que tinha três legoas da cidade. E aqueceo que sendo elle hum dia 
fora na caça: passou per ali hum cavaleyro com ho elmo tirado, e can- 
tando com muyta arte e melodia huns versos de Homero. Era elle 
muyto gentil homem, e ella devia estar enfadada, ou de sua vida, ou 
de seu amigo. Per maneyra que chegando a huma janela chamou ho ca- 



208 MEMORIAL DOS CAVALF.IUOS 

valeyro: dizcndolhe que outro a furtara, e tinha cativa, e se elle quisesse 
restituirliie sua liberdade, eila folgaria fazer por elle tudo o que foss3 
seu gosto. íío cavaleyro pondo os olhos nella, vista sua gentileza: á hora 
íicou obrigado fazer todo estremo por seu amor. Per modo que esque- 
cido qualquer outro inconveniente elle a levou da fortaleza em hum pa- 
lafrem que Floresinda ahi tinha, e desviandose da estrada tomaram ou- 
tra contra a parte de Tesalia, indo ho cavaleyro muy contente da con- 
versação de Floresinda: nem ella certo ho mostrava ser menos. Porem 
como era inconstante, nam passaram três meses sem se enfadar, e de- 
sejando melhorarse: não o dilatou mars: salvo te achar azo, e foy desta 
niancyra. Caminhando huma tarde com seu amigo per hum vale gra- 
cioso ao pe de huma serra, toparam hum Senhor daquella terra que 
viera montear ali, e estava junto a huma fonte descansando com muytos ca- 
valeyros. Floresinda passando per perto, e sabendo de hum escudeyro quem 
era: dando do açoute ao Palafrcm correo meterse antre aquella companhia, 
e ao Senhor delia que era mancebo bem apessoado, e logo conhecido, disse. 
Senhor valeyme por quem soysdaquelle cavaleyro que me roubou de huma 
fortaleza, e me traz forçada, que antes quero em vosso poder ser cativa que 
liO seu seniiora. Eurimartes (que assi se chamava aquelle senhor) vendo seu 
estremado parecer ficou aleixado por ella, e disselhe. ílo cavaleyro senhora 
teve rezam em vos roubar: ca soys vfts muyto pêra isso, e pois deile 
nam soys contente sejao elle da boa ventura que teve em vos lograr, e 
chore d.oje avante perdervos pois vos tam mal soube ganiiar a vontade: 
e se a pena cte Iam grande perda vos nam satisfaz delle, vede a que 
quereys que lhe dè: que por vos servir tudo farey. Nam quero mais, 
respondeo Floresinda, senam que ho mandeis meter em perpetua pri- 
sam sem remissam alguma: porque nam se possa gavar de mim pelo 
n:!undo. e nam lhe ourais suas rezões porque he tam pratico que per 
suadirá aos deoses crerem sua mentira: melhor que ho Grego Synom 
aos Troyanos. Eurimartes que em tanta fermos-ara não cuydo caber fin- 
gimento algum, sem mais prova mandou seys cavaleyros que lhe fos- 
sem prender ho amigo de Floresinda sem lhe ouvirem palavra. Mas 
elle visto como se ella apartara, e tendo algum conhecimento de sua 
condição : bem sintio que era artista de mudanças, por o que não se 
fiando na sua verdade, em vendo vir os cavaleyros pos a esperança no 
seu cavalo que era em estremo corredor, c pof também os dous cava- 
levros estarem cansados da caça, e lhe elle levar vantagem grande: podo 



DA TAVOLA lUÍDONDA iíOO 

alongarse delles. De maneyra que ho perderam de vista, e desesperados 
de ho alcançarem, tornarãose a Eurimarles que se foy com Floresinda 
tam namorado de suas perfeyçues, quanto ella contente do novo soce- 
dimento conforme a sua condição. Com este amigo se logrou ella alguns 
tempos em hum assento que Eurimartes tinha naquella serra e fralda 
do monte Olimpo, ao longo de hum rio, e aqueceo que elle enfermou 
de grave c longa enfermidade quando ho nome dos dous Gémeos soava 
per aquella provinda, em tanta maneyra que afíirmavam os Gregos que 
estes eram os seus antigos Polux e Castor, e a esta causa Floresinda 
movida desta fama ou também enfadada ja de seu estado constante: de- 
sejosa de os ver e se lhe entregar, peytou huma donzella que com muito 
segredo mandou que lhos chamasse: e esta era a que lhes pedio que 
fossem em socorro de huma donzela. E indose com ella dom Brisam; 
ao qual informou como Floresinda fora furtada de Constantinopla e Eu- 
rimartes a tinha ali contra sua vontade cativa, por o que dom Brisam 
lhe entrou ho castelo per força: matando quantos lhe resestiam, e fuy 
hum dos notáveis feytos qne cavaleyro pode fazer, e em pago deste tra- 
balho Floresinda namorada assi do seu bom parecer: como de suas proe- 
zas, lhe deu ho seu Amor e se lhe entregou: e sendo sempre muyto di- 
tosa em ser amada, não lhe faltou com elle a ventura. Ca dom Brisam 
licou tam penhorado de sua affeyçam que por longos tempos lhe soffreo 
grandes desgostos, e tirandoa daquelle castelo forçosamente foyse com 
ella juntar com ho jrmão onde concertaram. Isto soube logo Eurimartes, 
(jue apartado delia per conselho dos mestres estava em huma cidade dali 
ti'es legoas procurando sua saúde, e sinlindo a affronta e muyto mais a 
perda da amiga: nam a tendo por culpada na força, pedio a hum cava- 
leyro chamado Licofontes seu primo e muy estremado nas armas: que 
com cem cavaleyros saltasse com os dous gémeos, e porque era fama 
que ambos saquearam ho castelo, e lhos trouxesse presos. Licofontes 
desejando fazerllie a vontade pos tanta deligencia nisso que em cabo dal- 
guns dias ho tiqiou, e dando sobrelle com a sua gente: hum seu jrmão 
n^ancebo, de muyto conliado adiantouse e foyse encontrar com dom Bri- 
sam espeiandu derrubalo: Mas elle o recebeo de maneyra que atraves- 
sado na 1 wiça deu com elle em terra morto: do que Licofontes ficou em 
estremo magoido, e cercandoho com os seus: começou perseguilo de 
todas i)o:' Mom Brisam entendendo que lhe cumpria pelejar por a 
vida, quLJ w-ndela ao miiyor preço: delendiase tam estiemadamente 

14 



210 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

que diziam todos delle que era algum esprito infernal e nam cavaleyro 
luiiiinno, c porque nam se lhe podessejrmalaramilieho cavalo de que se 
lançou rnuy ligeyro e a pé se defendia e os offendia nam menos animo- 
samente. Porem como elles eram muytos e elle só: nam podia fazer tanto 
danno: que também nam recet)esse sua parte com que andaiia muy fe- 
rido, e assi pelejou tí'cs horas sem aigiim descanso, em que tinlia mor- 
tos quinze cavaléyros e muytos feridos. Licofontes bradava aos seus que 
lio nam ieyxassem descansar, por que ao menos de cansado lio prende- 
riam pêra sua vingança, e assi foy: que sintindo nelle alguma fraqueza 
do continuado trabalho, falouse com dez (Cavaléyros que em sua compa- 
MÍíia se abraçassem todos com dom Brisam e ho tomassem a braços: Per 
modo qiie apertando todos juntamente com elle, Licofontes que tinha 
boa força ho abraçou, e ajudado logo dos outros, fezeram íanío que ho 
sogigaram e prenderam por andarja fraco do muyto saiigue (|ue lhe sayra 
de suas feridas, que naquella revolta lhe seus immigos dobraram dando 
lhe a mão íenle sem doo. Desta maneyra foy preso dom lirisam a que 
tomaram os armas ofíensivas, e ho levavam com ferros (segundo ouvis- 
tes) pêra em cruel prisam purgar as mortes que dera, porque Licofon- 
tes disse que nam se satisfazia com ho matar que era descansalo. xMas 
(|!ie lhe queria (hr lio jierpetuo tormento: porem ho senhor Deos que 
ho guardava pern íuais seu serviço ho salvou, per meyo de Bransidel: 
]\() qurd sabido o tiue passava de seu aírevimeíito em tirar Floresinda 
(]'.) castelo nam Hso iouvou muyto: antes lho eslrauhara se ss)ubera n 
))()uca rezílo que tiiiha de que auibos estavam innocentes. Porem dou» 
Brisam era ja tam aíTeyçoado k zmlga uue por nenJium respeyt) a ley- 
xara. E provendo no que lhe podia soceder depois -«ue Eurimarles sou- 
besse a morte de Lic4)fontêíb: Secretamente se partiram de casa do seu 
biispede pêra se aloií^^arem do senhorio delle. Ca eni toda outra par- 
le nam lio temiam, nam sem grande trabalho de dom Brisam por 
causa de suas feridas. Mas tudo elle avia por bem empreg:id<> ejii 
Floresinda: que sendo de sua natureza inconstante, era nuiy incrina- 
dn, a mudanças e novos Amores, e caso que nos priuieyros dias de 
sua conversação se lhe mostrase muito namorada ou por ventura ho 
fosse, começava ja enfadarse do pouco assosego da vida destes cavaléy- 
ros, por o que lhe [)edio que se fossem a França, ou a posessem em 
algum lugar da sua mão que ella nam era pêra tanto trabalho. Isto pa- 
receo Jjem a Bransidel de Enantes que nada era conteuíc de a trazer sem- 



DA TAVOLA REDONDA 2 1 í 

pre consigo. Dom Brisam innoccnte da compreyção de Floresinda co- 
nlieceollie sua rezão, e como lhe estava em grande estremo affeyçoadu: 
por nain se apartar delia, disse que se fossem pêra Ingraterra, ja que 
em Grécia nenhumas novas achavam do cavaleyro das armas cristalinas 
que calavam. Assi que tomaram via de Ungria: pêra dahi embarcarem, 
na qual jornada passaram algumas cousas (jue Foroneus nam particula- 
rizou nesta historia, porque anda sempre traçando por nam fazer grande 
volume e [irolixo. E assi diz que chegados a i3uda esteveram ali alguns 
dias esperando tempo pêra sua embarcação: nos quais Floresinda se aí- 
feyçoou ao íilho do hospede e tratou yrse com el!e, que estava de ca- 
inino pêra Antiochia. O que pondo em effeyto ella se embarcou com Do 
!il)io (que assi se chamava lio Ungaro) huma ante manhaã em que dom 
íJrisam foy á caça. O que pêra elle foy tam áspero de soffrer quando ho 
soube que nenhum sofírimenlo tinha, e aqueceo logo andarem os gémeos 
três dias nesta caça, e vindo á cidade em que acharam menos Floresin- 
da: nam se pode dizer a tlor que dom Brisam encobria em seu peyio 
suspirando noute e dia, pi-azor nem descanso não tinham nelle lugar. 
Os pensamentos lu) atromentavam, como pode cuydar quem alcança sin- 
lir este mal e suas forças, e o que mais pena lhe dava era não poder 
<lizer o que sintia de vergonha de Bransidel que lho reprendeo sempre. 
li"abaihando como discreto que era, tirarlhe do coração aquelle vão Amor, 
por a conta em ty.vi linlia Floresinda de desamoravel e geral nos Amo- 
res: o (juíí dom Brisam aííeyçoado não entendia nem queria crer, e por 
islD calava seu tormeiílo porque ho jrmão lho não acoymasse: ca muy 
certo he antre jrmãi)s soíTrer mal a reprensam, e esconderemse seus 
gostos e culpas, e em quanto dom Brisam as não teve sempre foram 
muy conformes. Mas como entrou em cuydados ilícitos logo se guardou 
de Bransidel, e trazendo hum erro sempre outros: Dom Brisam deter- 
minou em se partir secretamente.de sua companhia e jrsc a Antiochia 
ver com Floresinda; que cria serlhe roubada per algum engano. Ca este 
furor dos ceumes carece muyto do soíTrimcnto, e estes sam os galardões 
(]ue Amor desonesto traz por descanso a quem ho segue mais. Quem 
j)()rem se sinte preso em laço digno de sua servidão e de grande me- 
lecimenlo: caso que sua senhora ho czquivc e se lhe mostre contraria a 
sou desejo, inda que gaste tempo, vida, e tudo ho ai em seu serviço a 
deve soffrer em quanto ella não der ho seu Amor a outro, e 2om sobeja 
rezão pode chorar e sinlirse, aquelle que he vencido de huns formosos 



2Í2 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

olhos e huns cabelos louros e ondados, debayxo dos quais se encobre 
hum coração desamoravel e falso, e ho triste que conhece isto e sobre 
tudo ama : fogeria se podesse. iMas he como ho cervo ferido que onde 
quer que vay leva consigo a seta da erva que ho laura. Tem vergonha 
de si e do seu Amor, nam se ousa queyxar e por demais trabalha sa- 
rarse. isto porem he mimo de condição pusilanima: ca ho Amor he co- 
mo a fortuna a que nos fazemos deosa: e nam tem força onde ha pru- 
dência. Assi ho apetito senhorea onde nam lhe resistem: qual agora dom 
lirisam que vendo ho seu erro e quam mal empregava seu Amor: Icyxa 
ser a rezam vencida do mao costume, ho sogeyto juyzo o!)edei;e ao de- 
sejo: por o que dado que Floresinda lhe era falsa nam pode acabar con- 
sigo nam seguia. O que se causa de os homens se abituarcm em nam 
fazer força á sua vontade, e assi se embarcou sem dar parle ao jrmão 
pêra Aníiochia: que soube ser a rota de Dolibio. Mas primeyro voltemos 
a quem nos neste lugar chama. 

Capitolo. xxxiij. Como Fidomjlor indo á ilha Gocia Oricnlal 
achou dons Donzeis, e o que com elles passou. 

Por muyto certo tenho dos que ouvirem as artes da condição de Flo- 
resinda culparem as molheres: não respeitando que se ha esta errada, 
ouve rauytas outras e ha, muy acertadas em seus bons feitos e estre- 
Miadas vertudes. lie isto como no3- também avemos com os religiosos- 
que se hum como fraco humano cayr em buma falta; nos escandaliza de 
rnanevra que acusamos a todos, e não respeytamos a muy la verlude 
e perfeTção que nos outros ha geralmente, culpa grave em que caymos 
lodos os que por escusarmos nossos desfeytos notamos os alheyos, a 
realidade porem da verdade he; que os religiosos sam as colunas que 
sustentam ho mundo; e as molheres ho ornamento rleiie. Por cujo res- 
I)eyto os homens fay^em as Heroycas obras que os acreditam, aníre os 
(juaes não teve pequeno preço Fidomílor de Mares: antes grande e com 
niuyta rezão, àmâo sempre glorioso íim a estremadas aventuras que se 
lhe oíreFecLara per onde quer que discorria: e mayorraente as donzelas 
(jue em gentileza se abalisavam, ou ioda molher que delle teve necessi- 
dade ; foram per elle servidas altamente. ííe verdade que algumas libe- 
raes do que deviam ser escassas fho recompensaram; as quaes se delle 
não Ficaram queyxosas por a brandura com que as tratava; viveram p;> 



DA TAVOLA RRDONDA 213 

rem depois pouco conlenles por a saudade com que as leyxou; porque 
querem ellas ou cuydam fazer os gostos inmortaes; e estes soo Deos os 
dá. Ca os liomens inda que os prometam não os tem pêra dalos; donde 
faltaram muitas vezes de suas promessas por causa de impossibilidade, 
quando não malicia. Nesta parle teve Fidomflor algumas culpas de que 
também não careceo de pena (segundo diante se vera.) Como seja muy 
certo posto de gostos vãos termarse em magoas. Partido pois da na- 
morada Hilionea que leyxou na sua ilha Delos em muitas lagrimas; ten»- 
porão fruyto de culpas sensuaes ; fez sua rota na volta da ilha Gocia 
Oriental, per ordem do nobre Guirmenides; lio qual não hia pouco sa- 
tisfeyto: antes muy desejoso de ver a vingança que esperava do tyrano 
Ardalico: porque tinha por muy certo darlha ho seu cavaleyro, de que 
ja vira alta esperiencia no que atras ouvistes que fez na ilha Delos, e 
como a sua esperança era justiíicada: permetio Deos que lhe não sayse 
vaã: porque tomando a ilha em hum porto desviado de povo!ido, e perto 
de hum bosqiie em que Guirmeniiles tinha hum nobre assento de sua 
recreação. Passados três dias em que descansaram do trabalho do mar, 
e no quarto disse Guirmenides a Fidomflor: que se leyxasse estar ali 
onde seria bem servido, e poderia recrearse na caça e pescaria que qui- 
sesse, em quanto elle se hia apresentar a el rey Ardalico, e saber se es- 
tava em cumprir sua palavra: porque sendo caso que nam quisesse cum- 
prila ordenariam o que lhe melhor parecesse pêra remédio de seu genrro 
e filha. Fidomflor aprovou seu parecer, com o que Guirmenides se par- 
tio logo pêra a corte que dali distava dez jornadas; e chegando fez sa- 
ber a el rey sua vinda; nam que se mostrasse pubrico. Ca como era ve- 
lho prudente que entendia quam pouca força tem a verdade dos fracos 
ante tiranas poderosos; nam ousou liarse de Ardalico; por o que secre- 
tamente se vio com dous Condes muyto parentes seus que andavam na 
corte, e pouco admetidos na graça dei rey; e per meyo destes avisou seu 
genrro e filha na prisam em (jue estavam de sua vinda; os quaes avor- 
recidos da vida; mandaram dizer a Ardalico que lhes mandasse cortar 
as cabeças se disso tinha gosto, e se queria cumprir a palavra que lhes 
dera, ja tinham cavaleyro ([ue lidasse [)or sua justificação, e se lhe desse 
seu real seguro; antes de quitr/.e dias se apresenlaiia ante elle. lio ty- 
rano Ardalico quo tinha de natureza ser soberbo (paixão que muyto ce- 
ga lodo jnyzo) e lhe fazia crer ter certa a vitoria; mostroiise muyto fácil 
e contente cm conceder ho campo e sayr ao desafio; nam pourem sem 



21 4 MEMORIAL COS CAVALEIROS 

malícia, ca quem a lorii de natural; nada faz sem ella, nem crê que lho 
podem fazer. Guirmenides que ho conhecia por tal, e aventurava neste 
<:aso vida própria a dos filhos, e ho estado; não se descuydou lambem 
em fazerlhe a contramina; mas provendo a tudo o que podesse soceder, 
teve consulta com seus parentes; dos quaes ho principal era ho Marques 
Alcioneus seu sobrinho filho de jrmão, mancebo esforçado e muy apa- 
rentado de espritos pêra sair com ho que acometesse, e antre todos fi- 
cou assentado estarem prestes pêra se ho tempo desse poderem decla- 
rarsc, levantarem Guirmenides por rey, tramada pois esta conjuração, 
sem eí rey Ardalico saber delle que era presente, nem ter noticia de sua 
vinda, e ávido ho real seguro que el rey mandou ao genro, tornouse 
com toda pressa pêra Fidomflor, ho qual neste antretanto que Guirme- 
nides negoceava ho que ouvistes, estava muy vicioso, passando os dias 
(;m montear, matando porcos e Ussos que alli avia muyto poderosos, 
por ser a terra larga e muy natural delles, no que muyto se recreava 
por ser de natureza monteyro e incrinado a fazer exercício, sobre tudo 
necessário ao corpo humano, e como eslava em terra estranha, hia sem- 
pre armado, porcjue também por ho costume e longo uso que nos acom- 
moda o faz leve ho trabalho inda que grande, as armas nam lhe erão 
pesadas, Ca nossa natureza a melhor condição que tem he acommodarse 
sempre ao em que a pomos. E Fidomflor queria estar aprecebído peia 
escusar culparse, aconteceo pois hum dia que correndo ao longo do mar 
hum bravo Usso, foy dar na prava com huma tenda de tela douro car- 
mesim rasa, e de lavores de duas fazes assaz rica e galante; junto da 
qual estavam dous Donzeis de gentil dcsposição, vestidos de monte e 
ricos, encostadas as cabeças no regaço de duas Donzelas não menos fer- 
niosas que galantes: vestidas ao modo d;!S Ninfas de Esparta que servem 
Diana, e diante dançavam outras donzelas ao som de charamelas com 
nmyto ar. á vísLa da qual companhia e perto; arecadou Fíflomílor lio 
u.sso da lança" com que ho tomou pola espadoa calaiidollie ao coração, 
que atravessado a[)í-egou no cisão hiim graiule covado. Estava neste co- 
menos soi)re hum penedo alio cuíjerio de maio; a Hm parece de alguma 
preá; hum líão de estremada grandura; í!o íjual de improviso arreme- 
teo ao cavalo de Fidomflor, mas errouho do salto; porque lio cavalo com 
temor do líão que síntio, voltou atras como ave. Fidomílr-r porem que 
em lodo perigo foy sempre muyto acordado: e cv.sl aíírontado de lhe ho 
cavalo fugir; poslhc as pernas ta;n rijo que ho forçou vuliar subrc; ho 



DA TAVOLA REDONDA 215 

liâo que ja vinlia sobrelle por lho levar nas unhas, erccel)eoliocomhum 
revés tam certo e tal que no ar ho parlio em dons per junto das per- 
nas; ficando tani seguro como se nada fczera. As damas neste comenos 
espantadas da vista do hão, fogiram todas pcra a tenda com toda a mais 
gente, e os dous apostos donzeis, levando das espadas e capas, poseran 
se diante com gentil animo pêra defendelas, ca não tinha natureza pêra 
desamparalas por temor de morte, e vendo a animosa desenvoltura de 
Fidomflor ficaram em estremo satisfeytos delle. Por o que tomando as 
damas polas mãos abalaram pêra Fidomflor, que se lançou da sela muy 
desenvolto, e tirando ho elmo ho deu a seu escudeyro que ho vinha se- 
guindo com alguns monteyros. Deshl feytas as dividas cortesias; os don- 
zeis lhe deram muytos louvores da sua montaria, e as damas lhe pedi- 
ram quisese pasar em sua companhia algum espaço a fim de ho banque- 
tearem; pêra o que logo mandaram fazer prestes. Fidomflor como era 
muyto cortesão e aprazível, concedendo em tudo por lograr tal conver- 
sação; na qual souberam delle as duas gentijs damas a que os donzeis 
cometeram ho cuydado de lio inquirir que he de seu natural; ser estran- 
geyro e cavaleyro andante dos da Tavola redonda per todo mundo no- 
meados. E sabey que naquelles tempos foy a lingoa Francesa tam co- 
mum per todas partes; que de todos os nobres era entendida e falada. 
Muyto folgaram os donzeis de saberem de Fidomflor, e com a mostra 
que viram de seu esforço ho julgaram que devia ser estremado cavaleyro 
e de nobre sangue; por o que ho festejaram altamente. E recolhidos na 
tenda em que acharam a mesa em muyto concerto, foy banqueteado 
em grande perfeyção e abastança; no que logo Fidomflor entcndeo que 
devia ser génle poderosa. E neste tempo que elles cinco passavam em 
aprazível pratica; Cantavam a violas darco, e doçayna duas donzelas muy 
concertadamente ho seguinte Romance; que eram os cantos que então 
mais se usavam. 

ROMANCE 



Diante os muros de Troya 

muy ufano i)asseava, 
Achiles ho muy soberbo 

que em seu peyto a abrasava. 



216 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

A fermosa Policena 
antre as ameyas estava; 

E tal era a fermosura 
com que delias se estremava. 

Que romper per antre nuves 
a Aurora semelhava, 

lio cruel immigo os olhos 
a tal luz a levantava. 

De seus rayos traspasado 
dentro do peyto se achava, 

Com a dor que nalma sente 
a falarlhe se chegava; 

Mas a Troyana princesa 

que em estremo ho desamava. 

Eecolheose com gemidos 
que a deoses apresentava. 

Pedindolhes a vingança; 

que ella tomar não bastava 
Ho cavaleyro indomável 

tam preso e triste ficava 

Que com suspiros ao ceo 
sua dor manifestava, 

Ia dantes a tinha visto 
quando ella Ilector pranteava 

Des então do seu Amor 
sua alma presa enxergava 

De como podesse avela 
muytas contas so lançava, 



DA TAVOLA RKDONDA ^17 

Como agora Amor repouso; 

nem soíTrimento lhe dava. 
Socorreose á esperança 

que a vida lhe sostentava; 

A Ilecuba sua madre 

tal mensagem ali mandava 
Que se quer ver Troya livr": 

Policena assegurava. 

Que elie a fama descercar 

se^por Senhora lha dava. 
Hccuba que mais que a vida 

vingar flector desejava. 

Com Paris logo da morte 

de Achites cruel tratava. 
Respondeolhe, que se vissem; 

no templo em que Apolo estava. 

Recebera Policena, 

se a fe antelle lhe dava; 
E de inimigo será filho 

se lhe Troya descercava. 

Ho triste Amador que a vid 

nem cem vidas estimava; 
A respeyto do desejo 

que Policena causava. 

Sem temor e sem receyo, 

sem cuydar que aventurava 
Entregandose á ventura 

e Amor que ho guiava. 

Sem cautela e sem conselho 

no templo de Apolo entrava. 
De giolhos posto antelle 

muitas graças a amor dava 



218 MEMORIAL «OS CAVALEIROS 

Paris que com arco armado 
escondido ho esperava 

Fazendo votos a Apolo 
se lhe a Seta endereçava. 

Em ho vendo de giolhos 
muy prestes nelle encarava; 

Pola pranta do seu pé 
a vida lhe atravessava, 

Ca he ho triste namorado 
de quem tanto ho desamava. 

Nesta vingança de Hector 
toda Troya se alegrava. 

Desfeyta. 

Quem nam se vella do Amor 
e se fia da esperança 
este galardão alcança. 

Ho mór perigo da vida 
he dar soltura á vontade 
a dor mais descomedida 
dar â prisão liherdade; 

Amor nam cumpre verdade 
e tal galardão alcança 
quem nelle pos a esperança. 

Que seja dura, he boa sorte 
morrer por Amor, peor; 
lic ver aposarse a morte, 
• e roubar hum doce Amor. 

Esta he das dores a dor 

que nenhuma outra alcança 
vajsc a alma írrs a esperança. 



DA TAVOLA REDONDA 219 

Em quanto as donzelas assi cantavam com muyta melodia e graça; 
Fidomílor, os donzeis e damas, eram servidos de diversos manjares (que 
ho apetito insaciável sobeja e brutamente inventou) pois nam servem 
pêra saúde nem sostenlaçam; antes danam a desposiçam corporal e bo- 
tam ho engenho dos espritos. Recreavam as almas com a musica, e ja 
sobre mesa de huma rezam em outra veyo Fidomflor aa perguntarlhes 
se eram daquella ilha Gocia. Tisbrião, que assi se chamava hum dos 
Donzeys, lhe disse. Ainda Senhor Cavaleyro que de nos nada quisereys 
saber, era nos forçado saberdes tudo ho que passava. Por ho que ja 
pretendemos de vos desque soubemos quem soys, e lemos que nosso 
senhor vos guiou aqui pêra nosso remédio, ca estamos em huma grande 
necessidade delle. Não seria (respondeu Fidomflor) pequeno acerto: an- 
tes grande dita poder servirvos, que ho pretendelo e desejalo está mny 
certo em toda pessoa que vos conversar e tever juyzo pêra vos enten- 
der. Não se pode esperar menos (repricou ho outro donzel, per nome 
Hrandimor) de quem tanto promete de si, vindo ao ponto (disse Tisbrião) 
á senhora Gorisanda proponlia nosso requerimento, que terá mais graça 
e mais força em vos persuadir. Ho que pretendemos, antes disse ella, 
a senhora Dragonisa (que era sua companheyra) ho fará de vantagem 
aqui tornou FidomAor. Não sou tam atrevido que meantremetaemdes- 
partir contenda tam perigosa. Os senhores que se teram visto em mui- 
tas com ambas, supram minha fraqueza. Eu assaz farey era offerecerme 
a servilas, e fazendoho nãd averey que faço pouco, ca cousa de tanto 
preço não se faz sem muylo custo. Finalmente passada alguma referta 
anlre as gentijs damas, tomou Gorisanda a mão com hum honesto despe- 
jo, e disse. Dous casos temos pêra vos apresentar e de que nos queríamos 
\a!er de vos senhor cavaleyro: por que aveys de saber i\ue ho senhor 
Tisbrião e a senhora Dragonisa sam jrmãos gémeos de hum ventre. K 
lio senhor Brandimor e eu somos também ho mesmo pola mesma ma- 
neyra, e por a rczão que lodos lemos como sabereys de meninos nos 
vimos conversamos e amamos em tanto estremo, que se a desavenlm-a 
nos apartasse os corpos: nessa hora se parteriam delles as almas. Esto 
lemor de que os corações muyto aífeyçoados nunca careceram noias ator- 
menta: de maneyra que na hora de mayor prazer que temos nesta ho- 
nesta conversação, nos sallea a tristeza com as lembraisças destes rcccyos 
(]iie nos não leyxa ter gosto puro, e como estes senhores tem de si nam 
menos openião que a de seus avós, c não soffrem poderselhe dizer quo 



^20 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

(lesgeneram; querem sostentar uma ley que elles leyxaram posta, e 
vos logo dite/; muy cansativa pêra nos e perigosa pêra elles, pêra o que 
pretendem armarse cavaleyros; que lhe nos dilatamos, sendo a cousa 
que mais desejamos ver, por quanto sem isto não podemos casar; mas 
a outra reziío que nos obriga fa/;ermos esta força a nosso desejo, e 
não vola digo; porque he hum conto largo pêra que nos cumpre vos- 
so conselho, e elles mandarame que venho primeyro ao seu caso con- 
tra minha vontade, poiem ho faço por satisfazelos; Por quanto apertan- 
do comnosco que os leyxemos armarse cavaleyros, negarlho parece mi- 
mo e fraqueza nossa; ser fraque? a seria sotírivel pois naceo com nosco, 
e está nos ja bem por ho coíLurae; ser mimo em toda pessoa se com- 
padece mal; e nos nobres muyio peor, porque he muy damnoso, por o 
que não quisemos antes não podemos resestir mais a sua profia; sobre 
o que querendo tomar concrusam, alcançamos delles trazemos primeyro 
a esta ilha Gocia, que he comarcaã da nossa ilha Gravisanda; Em Ro- 
maria a huma hermida ds advocação do Sprito Sancto em que elle faz 
muytos milagres, per meyo e rogos de hum sancto hermitão que nella 
lio serve, a que preiendemos encomendar nossos negócios, pêra que 
ho Sprito Saneio os determine em bem e em seu serviço, e oje chega- 
mos aqui pêra inda jrmos dormir á hermida que esta daqui huma legoa 
naquelle alto cabeço, e socederdo virdes, e com tais mostras de vossa 
alta cavalaria; Estes senhores se affeyçoaram tanto a recebela da vossa 
mão que nos mandam que volo peçamos, e queyrais jr com nosco á 
íiermida a que vam velar as armas, e que vos seja trabalho por ho nosso ho 
aceyteys, eu inda que noIo digo mo volo peço; per que mo nam soífre 
ho meu receyo, e a causa de que ho tenho nam vos ha de parecer leve 
desque a souberdes, cujo conio leyxo pêra a hermida; porque com ho 
hermitão e vo?sa ajuda quiçá ac: barey o que nam ouso esperar e sobre 
tudo desejo; Fidomflor lhe respondeo. Pêra tudo ho que for servirvos 
estou muy prestes; ao que não sey me calo, e a cerca de armar cava- 
leyros os senhores donzeis; ja que nisso ganho tam grande honra, cus- 
teme muyto que por não perdela mú\ deixarey por fazer; Partamos por 
tanto logo pêra a hermida, porque esta noute velaram as armas como 
traziam determinado, c como for menhaã tomaram a orilem da cavalaria, 
porque ho saber das boas obras consiste no effeyto com brevidade. E 
eu tenho que será nelles bem empregada, e vossos rèceyos culpados se 
converteram em gostos louvados; Per modo que lodos satisfeyios parti- 



DA TAVOI.A HEDONDA 221 

ram logo e chegaram á hermida horas do sol posto; e recehidos do her- 
inilOo com as brandas acolhenras cenas nos verlnosos. Aquella noiíte 
passaram todos na hermida; não em cantares vãos e palavras ouciosas, 
em que communmenle se festejam as tais vigílias; mas em continua ora- 
ção do que pretendiam; porque este beífi tem a necessidade que nos en- 
sina buscarlhe ho socono m^is certo. 

Cap. XT.riiij. Como Det/filos de Xdtrn e Pinnflor 
livraram lio principe Aristandor. 

Se OS mãos gostassem ho sabor das obras vertuosas e heroycas, não 
creyo que ho teriam de' suas malicias; cujo Truito he sua pena que nunca 
erram. E tal a teve ho tyrano Ardalico por fim; diífercnte do que al- 
cançou Fidomílor de suas gloriosas empresais, e do que ver( mos no conto 
que se segue do que socedeo aos brutos Goliandro e Guelpandaro; os 
quaes parlida a donzela de Fiorisa do castelo a que guiou Deyíllos do 
Xalra e Pinoflor, forãose á camará onde a delicada princessa estava in- 
noceiite da sua fortuna, logrando ho t( mfo que lhe Amor deu com seu 
amado esposo, e tal era seu contóntamenlo por ho muyto que se que- 
liam que a nam ser augoado dos seus temores, quiçá lhe falleceram os 
espritos nelle abafados de tanta gloria; mas batendo elles, cila sobre 
salteada acodio a abrir a porta com cuydar que era sua secretaria, e 
quando vio os Gigantes e entendeo ser descuberta, ficou tam cortada 
que lhe cahio aos pees como mortal, e elles por tal a julgaram. Aristan- 
dor nam se pode encobrir nem defender, e tomaramho em huma camisa 
(lel'a, o com a corda per que sobio á torre que ali acharam foy atado 
de pees e mãos; puríjue fosse parece mei isíro da pena homeyo da cul- 
pa. Grande cxempro pêra quem por vãcs delcylcs se offerecc a perigos 
desarrazoados. Deshi acodiram á traspassada Fiorisa; lançandulhe muyta 
agOT no rosto com que acordou, e sem poder chorar esmoreceo outras 
vezes; tanto que abria os olhos c os punha em Aristandor. Os gigantes 
dado que eram dcshumanos o alheyos de toda piedade; pode ho Amor 
q.!0 lhe tinham ali tanto que dobrou sua brutez-í, e nam podendo com- 
padecer volla tam atribulada leyxaram a antre as molheres, e mandaram 
passar Aristandor a huma oscura prisam assi nuu e atado, e tendo con- 
sulta sobre o que delle fariam; informaríose de quem era e como comella 
entrara. O que sabido ouveram Fiorisa [wjr sem culpa, e parccendollie 



222 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

que a armariam a seu Amor; sendo desesperada deste, e lambem indi- 
gnados contra Âristandor por a magoa que tinham de lha lograr, sendo 
seus corações amigos de toda crueza, determinaram queymalo, e nesta 
determinaçam quis (parece) a divina providencia que nunca desampara 
os seus que gastassem ho tempo que foy necessário pêra os dous jrmãos 
chegarem á sazão de seu remédio, os quais esperando verem ho eííeyto 
da fugueyra que acharam ante ho castelo feyta pêra queymarem Âristan- 
dor, como logo sospeytaram, concertados antre si do que aviam de fa- 
zer, leyxando desviados dali seus escudeyros e a donzela que lhe deu os 
sinais de Âristandor pêra quo ho conhecessem; pouco tardou que nam 
viram sajr do castelo alguns cincoenta piães aprecebidos das suas armas 
e vinte cavaleyros, e em meyo delles vinha ho príncipe que a fortuna 
trouxe a tal estado, por desenganar a todos que nam sam isentos de 
suas leys, e que ygualmente nacem os grandes com os pequenos offere- 
cidos á desaventura humana. Só esta diíferença lhe nam podem os fados 
tirar que ho primor do sangue nobre com que natureza os dotou pêra 
com esforçado animo e constante juyço sofiVerem tudo o que lhes soce- 
de. E isto não faltou a Âristandor; antes por a gloria que tevera vinha 
tam ufano que avia por justo ho tormento que se lhe aparelhava, e só 
lhe dava pena ho receyo que tinha do i)erigo de Fiorisa; e a dor do mao 
tratamento era que íicava, pedindo e desejando que só nelle se execu- 
tasse toda crueldade, e ella fosso livre de affronla. Assi que vindo olfe- 
recido ao sacreficio com estremado esforço, os dous jrmãos que ho vi- 
ram e nam sem lagrimas de compayxão como os teveram alongados do 
castelo disse Deyíilos á esforçada Pinallisr. Nam me parece que devemos 
dilatar mais este feyto, seja ho senhor i)eos com nosco. Ca pêra escu- 
sar tam grande crueldade divido he oíferecer a todo perigo. Cora isto 
i)ondo sem mais esperar as pernas ao cavalo, com animosa fúria se lan- 
çou antre os immigos, dando com ho primeyro cavaleyro que encontrou 
morto em terra, e ho mesmo fez ao segundo e ho terceyro antes que- 
qnebrasse a lança. A animosa Pinaílor nam foy menos deligente em se ba- 
ralhar com elles,e sem quebrar lança derrubou cinco mortos, trazendo 
sempre ho tento no jrmão que certo nam estava oucioso nem também 
descuvdado delia. E hum ao outro se estimavam; avendo cada hum o 
que fazia por nada em comparação do que via fazer: e como com esta 
verliiosa inveja trabalhavam estrcmarse. Eram suas obras tais que Âris- 
tandor as teve por socorro divino, julgando que nam cabia em forças 



DA TAVOLA UEDONDA 223 

humanas. Os esforçados menistros de Deos em tal maneyra e miiy em 
breve escandalizaram aqnella civil canalha que huns mortos outros mal 
feridos atemorizados alguns da morte que ante si viam nelles, desam- 
pararam ho campo, e cora a deligencia que lhe ho temor deu se reco- 
lheram ao castelo, fecliando consigo as portas que os não entrassem; Os 
irmãos querendo acodir primeyro ao mais necessário, foram desatar Aris- 
t;indor a quem Deyfilos disse. Animoso príncipe louvay ao piadoso Deos 
(]ue ja desta vez fortuna nam triunfará de vos segundo ordenava, e em 
quanto tratamos de vos servir e segurar, vos podeis prover dos vestidos 
dos mortos, pois ho tempo nam dá ai, que nos avemos de procurar em 
secar este negocio; e ver se nos saem os Gigantes. Âristandor tornoulho 
a isto; que se deviam poer em salvo ho mais prestes que podessem s;í- 
tisfeytos com o que tinham feyto que era sobejo, e depois consiiltariain 
algum meyri da salvação de Fiorisa; porque querer assi sós esperar os 
(íigantes, nam era ja cavalaria cousa iam desarrazoada; e l)em parecia 
que os nam tinliam visto pois os não temiam. Deyíllos sem curar do que 
ilie Âristandor disse cavalgou de hum salto, e foyse a Pinaflor que es- 
tava ja ás portas do castelo procurando cntrallo. E postos ambos neste 
trabalho ouviram dentro huma espantosa voz, que dizia; (dativa e vil 
gente abri logo essas portas; que vossa covardia terá sua pena tanto <]ijy 
a eu der a esses malaventurados de que fogis. Bem conheceram os aven- 
tureyros que era algum dos gigantes, e apreceberanse encomendandiíse 
em seus corações a Deos. As portas foram logo abertas, e jiuitamente 
sayram [)erellas os dons gigante de estranha fegura, porque eram de muy 
grandes corpos ainiados de pelles de Drago, com escudos grandes do 
mesmo, de mais dobras que ho de Aiax: Telamonio. Nas cabeças traziam 
como capacete de peles de lião muito dobradas, descubertos os mons- 
truosos rostos: que soo á vista delles bastava poer espanto a hum exer- 
cito, cavalgavam em duas berlas do feyção de ussos como grandes ca- 
valos, e tais eram necessários pêra os soster. Nas mãos dereytas seus 
cutellos tam largos e pesados e de tal corte: que leyxados cayr sobi-o 
hum xViifante muy levemente ho fenderiam. Dos olhos parecia sayrlhe 
fogo, c das ventaãs espesso fumo. l-'uuc<.>s cavaleyros ouvera que os ven- 
do nam perderam a ardideza junto com a esperança de vida: Porem nos 
dous irmãos pareceo crecerlho ho animo e atrevimento quando viram ho 
perigo mayor: por o que os Gigantes saindo sem escutarem íuas so- 
berbas palavras, porque os cavalos lambem começaram receai- as mons- 



224 MEMORIAL DOS CAVALEIUOS 

truosas bcslas: de súbito lhe deram das esporas tam rijo que os fezeram 
sayr por diante, com tanta fúria e ligeyreza que antes que os Gigantes 
S8 determinassem ja eram juntos com elles, dandollie pelas cabeças das 
suas estranhas em cavalgaduras lais golpes que lhas fenderam. Elias com 
a dor da morte saltaram rijo a deramlbe tais encontros que osposeram 
em terra debayxo dos próprios cavalos, e cayndo alem delles deram 
também com os Giganles no chão grandes quedas: de que se elles sin- 
tiram muylo. Ca os toRiOU descudados de lhes lai aquecer. Os cavaley- 
rosvendose em perigo de morte, com muita viveza e acordo se sayram de 
sobos cavalos, e ja os Gigantes vinham sobrelles com buma brutal sober- 
ba, crendo que de qualquer golpe que os alcançassem os fenderam dalto 
abayxo. Mas os aventureyros eram muy acordados e destros nas armas 
e sabiam desviarse de seus mortais botes com grande lento. Assi anda- 
ram duas horas, ou mais: Deyfilos com Goliandro, que era ho mais ve- 
líio, e Piuaflor com Goelpandro, cotejando as manhas e força da arte com 
as da natureza: em que lhe tanta vantagem tinham os Gigantes. Porem 
os irmãos se punham ouro e fio com elles pêra sua destreza, e nam tanto 
a seu salvo que nam levessem as armas tintas em sangue e desfeytas 
per algumas partes sem lhe valer sua fortaleza: ca nam podiam ampa- 
rarse, c desviarse tanto que nam recebessem alguns piques e toques tam 
perigosos e lais que logo leyxavam sinal onde chegavam: em cujo re- 
torno os irmãos lhe davam muytos golpes que se nam eram de tanta 
força cortavam melhor, e toda via achavam menos resistência nas peiles 
dos Gigautes que nas fortes armas do íiiio aço. Durando pois assi a pe- 
rigosa proha. Deyíilos vendo a jrmaã ferida creceo'he a cólera, e recean- 
do falecciihes ho fôlego se durasse. Meleo-se de hum salto com Golian- 
dro e deulhe lium revés per huma perna, tomandoho pella curva que 
lha cortou cercea: cayndo logo ho Gigante de focinhos, e foy hum aba- 
lisado golpe. Goiiandro pondose em giolhos íicava inda com elle mais 
que yguai toda a cabeça, e assi se defendia e offendia como se estevera 
são. Pinaííor nam querendo ficar atras de Deyfilos. Ca lho nam soffria 
ho seu esforçado animo, cobrindose do meyo escudo que ja somente 
trazia, arremetendo a Goelpandaro com huma estocada aponloulha no 
ymbigo, e cargando com toda sua força, levoulhe da outra banda as tri- 
pas na ponta da espada: Ho Gigante com a moi-te cayo sobrella de bru- 
ços. Ca vendoa vir com a estocada deceolhe com hum golpe alto, cren- 
do fendela antes que lhe chegasse. Was a esforçada Pinaflor foy Iam li- 



DA TAVOLA RKDOXDA 22 O 

geyra em se meter com elle que primeyro o tinha passado. Com tudo 
Goelpandaro a tomou com os terços que lhe amolou ho elmo nos cas- 
cos levandoa debayxo de si quando cahio morto, e fezlhe muyto danno 
com ho peso do grande corpo por ella ficar atordoada e nam poder bo- 
lirse. Deyfilos cuydou que ambos eram mortos, com esta magoa os olhos 
cegos de lagrimas, lancouse a Goliandro com a espada alta com ambas 
mãos. Elle ho esperou com ho escudo que lhe todo cortou, e decendo 
ao braço decepoulho que ho nam pode soster mais. Goliandro deuliie 
per huma ilharga tal pancada, que ho lançou de si meya lança: e a to- 
malo de gume com ho cutello sem duvida ho fendera. Deyfilos com do- 
brada sanha se tornou a elle que ja nam tinha braço com quf se am- 
parar, e atirandolhô á cabeça. Goliandro acodio a tomar ho .^olpe no 
cutello. xMas Deyfilos alcançoulhe a mão c cortoulha: ho Gigante lançou 
se a elle com mortal rayva. E com aquelle braço ho apertou consigo, e 
com os dentes queria tirarlhe ho elmo apertandoho tam forte que Dey- 
filos se vio em grande aperto: e pondo sua força teve m^aneyra de lhe 
dar com a ponta da espada pella garganta que lhe fez render ho infer- 
nal esprilo a cujo era per suas obras. Neste tempo tinha Arisiandor ti- 
rada ja Pinaflor debayxo de Goelpandaro com assaz trabalho por ella es- 
tar muy quebrantada, e tirandolhe ho elmo que tinha amasado na cabeça 
aperloulha : nam sem grande espanto quando vio que era donzela tam 
fermosa e tam moça. Deyfilos lambem ficou muido e mal tratado das 
mãos de Goliandro. Mas consulouse, e tudo teve por nada em ver a ji- 
maã viva cpie por morta chorava na alma, e assentandose por repousa- 
rem antes de sobirem ao castelo, ouviram rumor dos criados dos gigan- 
tes que vendo os mortos e os matadores em estado de pouca resistên- 
cia moveranse de sua obrigaçam a querer vingalo, ou também receando 
seu castigo. Aristandor que entendeo ho negocio: disse aos jrmãos que 
nam se bolisein que elle os seguraria. E sabey que em quanto passou a 
batalha dos gigantes elle se armou das armas de hum cavaleyro morto: e 
í\)y acometido de dous cavaleyros e alguns piães que se recolhei'am á 
inata: na piimeyra escaramuça flos dous avenlureyros, e quando viram 
sajr os gigantes voltaram sobre Aristandor que lhes deu ho castigo d;i 
morte que lhe mereciam, o isto ho embaraçou que nam pode vir ajudar 
seus valedores a tempo. Mas tomando muy prestes a porta deficndeo ho 
passo tam cavaleyrosamente que elles folgavam velo, e ho julgaram por 
esiiecial cavaleyro que elle era. Assi t\ue fazendo aos pés valo de muy- 



226 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

tos qae matou de façanhosos golpes, escandalizou os outros de modo 
qao se lho renderam com ajuda dos criados de Fiorisa que soltaram de 
sua prisam. Per maneyra que da batalha morreram da gente dos Gigan- 
tes cento c tantos homens: de que os trinta eram cavaleyros. Asossegado 
pois tudo com pena dos culpados, Aristandor mandou levar os irmãos 
nos braços ao castelo: onde os lançaram em seus leytos em huma ca- 
mará, e foram curados pelos seus escudeyros e donzelas que traziam a 
pratica daquelle mester. Os quais vieram logo com a donzela de Fiori- 
sa, sabida a morte dos gigantes: cuja batalha espreyíaram tratar dos 
contentamentos de Fiorisa com ho seu amado Aristandor he ocupação 
desnecessária e que nam se pode parlicularisar, e assi dos dividos com- 
primentos que teveram com os dous cavaleyros da Tavola redonda e 
amizade que anlre si tomaram, porque sam cousas que estam [iola Ta- 
vola: por tanto passemonos ao discurso da historia no necessário e dy 
tomo. Per maneyra que os aventureyros esteveram hum mes em cama: 
Tio qual tempo souberam como Doristão de Autarixa seu jrmão ja não 
e-ilava em Navarra. Por o que a rogo de Aristandor e Fiorisa se foram 
com elles á corte dei Rey Sagramor, que Fiorisa desejou ver: e Aris- 
tandor meterse no numero dos da Tavola redonda, e leyxando a forta- 
leza por el rey Sagramor encargada a Monrixaile de Sambisanlo: Fran- 
cês bom Cavaleyro (jue ali estava cativo. Partiiãose com toda a gente de 
Fiorisa e sua fazenda. E leyxem.olos yr em sua viagem que loy mais 
breve do que elles ciiydaram, sem lhes nella aquecer cousa digna de 
memoria. 

Oipilolo. XXXV. De como ho Cavaleyro das armas Cristalinas 
fmj á Gruta do Centauro. 

Estremada pureza he a do Amor conjugal, doce companliia no des- 
canso, esforçada consolação no trabalho: e a que raramente falta ho so- 
corro divino: Qual ho deu a Aristandor e Fiorisa, por ho que esle só 
Amor humano deve admilirse, e fugir todo ho outro que nunca respon- 
de a obrigação yguaimente: o qne se vio no galardão que teve ho cava- 
leyro das armas cristalinas do seu: Ho qual desejoso de cumprir com 
ho seu cuydado esíando em mayorca, e vendo que lhe rccreciam as oc- 
cupações pêra ho deter assentou com Florisbel que furtassem BelHoris e 
SC fossem com cila. O que pondo em coucrusam: fezeram pi'csles hum 



DA TAVOLA REDONDA 227 

navio em que se meteram com ella huma noiíte, e ciando as velas aos 
ventos antes que amanhecesse se alongaram da ilha: fazendo sua rola 
pêra Ingraterra, o que sinlio e fez sobristo el rey Brandambur, em seu 
lugar se dirá. Os cavaleyros navegando com contraria monçam entrega- 
lãose forçadamente á vontade do tempo que os lançou em cabo dalguns 
dias em Bayona de Bordeos. Onde sayndo enfadados do mar : ho cava- 
leyro das armas Cristalinas disse a Florisbel que se fosse pêra terra de 
França a Bolonha, e dahi se passaria onde el rey estevesse: ao qual elle 
esci-eveo dandolhe conta de quem Florisbel era, pedindolhe que se ser- 
visse delle como de muy especial Cavaleyro, porque elle hia com huma 
donzela que ho guiava ao fim da aventura sobre que partira de sua cor- 
te, e dandolho como esperava, logo se tornaria a seu serviço, com esta 
carta se partio Florisbel muy contente com a sua amada Belfloris. E 
delle a seu tempo diremos: que agora cumpre seguirmos a trilha do ca- 
valeyro das armas Cristalinas, ho qual tomando seu caminho per Bizcaya, 
foysse a sam loam de luz três legoas de Bayona: da banda onde os 
montes Pirineos se termam no mar Oceano: e dahi a Fonte Rabia toman- 
do a estrada que atravessa Lepuseva que era a mais dereyla pêra sua 
viagem: e indo ja huma jornada, foylhe dito que nam fosse per ella, ca 
riam poderia passar pela Gruía do Centauro, que agora se diz ho porto 
de Saneio Adrião. Mas como ho seu desejo era buscar sempre os mais 
grandes perigos: nam se quis desviar daquelle. Tiresia inda que a seu 
pesar por a confiança que delle linha, obedeceo a sua determinação, l' 
assi caminharam cinco dias sem lhes aquecer cousa digna de lembrança. 
iMas ao sexto a horas que ho Sol ja decia foram dar em huma aventura 
que agora ouvireys. 

Vay esta estrada sempre em voltas per hum vale : assombrado do 
altos montes muy fragosos, e de grande arvoredo, em que nacem muy- 
las fontes claras, que decendo mansamente per seus regatos, vam paiar 
no pee daquella montanhesa serra, e ajuntandose huns com os outros 
fazem hum gracioso ribeyro que com força e saudoso tom vay dando 
humas voltas coleadas, á maneyra de cobra: qual ho rio Meandro, c 
abrindo sua estrada i)ela aspereza dalguns penedos: faz hum branco areal 
deseyxais pelo prão do vale. Que em lodos os seus recantos parecia ter chuu- 
l)anas de Ninfas, e que devia ser aquelle ho sitio dos Semidioses, Agrestes u 
Montanheses, Faunos: Silvanose Sátiros: que ali todas as horas salteavam 
as Driadas, Amadriadas, Napeas, e Nayadas: cujos roubos vitoriosos ce- 



228 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

ebravam suas glorias, cora amorosos cantares : competindo outras ho- 
ras com os pastores que aJ.qumas vezes corriam após as Ninfas, cobiço- 
sos de as prenderem. Ao longo desla aprazível e contemprativa ribey- 
ra, caminhava ho cavaíeyro das armas cristalinas com a donzela Tiresia 
e Cálido seu escudeyro per hum estreyío caminho antre alguns carva- 
lhos e outras arvores verdes, que a partes ho faziam sombrio com as 
ramas espessas. Passando per muytas serranias a espaços humas das 
outras : e com a musica dos malhos ao longe ho drscante dos muytos 
passarinhos, e o rogido das agoas e rodas dos engenhos. Fazia huma 
nova e doce armonia: eom a qual ho cavaíeyro sinlio renovar as doies 
do pensamento. A que ho lugar dava grande matéria, parque na sua 
alma trazia imprimido hum tal desejo qu© nam lhe leyxava cuydar není 

alar noutra cousa, senam em Celidonia, cujas lembranças lhe causavam 
hum contino sentimento e saudade: A qual ho enlevou assi em seus no- 
vos cuydados que de todo o ai tinha perdida a memoria: quando ao pas- 

ar huma ponte de hum só arco grande e alto. Tiresia lhe disse. Senhor 
olliay rio abayxo vereys hum gracioso espectáculo. Elle acordando como 
de sonno de sua longa maginação teve mão no cavalo, e olhando vio á 
sombra de huns verdes amieyros bayxos, e juntos á maneyra de moula 
que vinha com os ramos sobre a agoa: assentada sobre huns meudos e 
alvos seyxos huma fermosa Ninfa toda nua, do género parece das Naya- 
das que moram nas fontes, com longos e ondados cabelos louros que lhe 
cubriam todo ho corpo. No seu regaço de neve pura jazia encostado hum 
Sátiro com os rés na agoa, e antre os da Nayada: tam brancos que pa- 
reciam de polido marfim. Era isto na fim de íulho e fam grande cal- 
ma, e elles passavam ali a festa r,;im sem grande inveja doutras deyda- 
des Agrestes que os podiam ver, e careciam de tal ventura: aos olhos 
do cavaíeyro das armas cristalinas, nam foy pouco aprazível esta inven- 
çani da natureza, e antre si louvou a simpricidade do campo: os des- 
cansados furtos da serra, e ho descanso da vida rústica: Ho Sátiro tan- 
gia artificiosamente huma frauía: a Ninfa coçandoho na cabeça com os 
seus cristalinos dedos, cantava em alta e suave voz a seguinte Oda: que 
as aves imitavam em profiosos cantos por discante. 

Buscam as aves da serra 

verde rama, assi Amor 

no nobre coração faz o seu ninho 



DA T.WOLA RKDOXDA ^29 

natura que nada erra : 

hum sem outro nam fez, ca mui vezinho 

lie de nobres esprilos seu faror 

logo amar he nobreza 

hum dom divido ie naturaleza. 

Deceo a fermosura 

do ceo alto, e Amor nella, 

quam própria he do sol a claridade 

vem do fogo aquentura 

Amor de cousa bella 

da nobreza gentil sua magestade 

da nobreza carece 

•e gentileza que ho nara conhece. 

Na pedra preciosa 

influem sua vertude 

as estrelas mediante ho sol qne as cria 

nalma nobre e ferrnosa 

onde Amor sempre açude 

das ninfas o desejo se empremia 

Amor criador vem 

e faz dest desejo eterno bem. 

Amor, antes rezão 

clara, mais propriamente 

juyzo puro, bom conhecimenlu 

da rara perfeyção: 

que do ceo a quem sente 

he ja claro que traz seu nacimcnto 

ser necessário á vida 

como ao mundo ho sol he, não se dúvida. 

Era a voz da Nayada Iam doce e branda que a julgaram por Serea: 
Pois ho Sátiro assi tocava a íVautn, que poderá ser tido por ]\Iercurio 
ijuando novamente a fez da amada Seringa. lio cavaleyro amador íras- 
j)ortado no delcyte dos seus ouvidos: sentiose delirselhe ho coração cm hum 



230 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

brando desejo de quem não via, nem ouvera sintido tam insinsivel que 
lhe aquella musica nam roubara os espritos, feridos da saudade que a 
alma não sintia de sua natureza. E estando assi promptos em ouvir per 
detrás da Ninfa pé ante pé: vinha hum Centauro muyto manso por pren- 
dela, e ja que lançava a mão per cima da mouta dos amieyros: ao tocar 
das ramas que se moveram, voltou ella á cabeça, e vendoho sobre si 
com hum muyto grande grito deu consigo na agóa: onde logo se somio. 
O Sátiro espantado, de hum salto muyto ligeyro se lançou da outra ban- 
da da ribeyra, e não parando ali: foyse em saltos pelo monte costa ar- 
riba, e em pouco espaço se pos no cume, e sobindose em hum penedo 
olhando pêra bayxo : começou tocar a frauta de contente, ou também 
dando sinal de si á Nayada que estava livre do perigo. Ho cavaleyro das 
armas cristalinas pesaroso do Centauro estrovar a musica da Ninfa: inda 
que ho desculpasse, a rezão de cobiçar tal presa: Correo a elle com pro- 
pósito de ho castigar: porem ho Centauro tanto que vio Tiresia que ti- 
nha honesto parecer. Como esta relê sempre faz apetite, ou por se for- 
rar da que perdera: arremeteo a ella tam ligeyro com.o huma onça, e 
levandoa nos braços fora do palafrem vayse com ella correndo pelo monte 
arriba, e em breve desapareceo per huma mata de altos e espessos car- 
valhos. Ho cavaleyro pos rijo as pernas ao cavalo atras elle: mas pode 
correr bem pouco, porque a sobida era tam áspera e ingrime: que nem 
a passos vagarosos podia sobir senam com muyto trabalho. Ho animoso 
cavaleyro começou agastarse consigo deste desastre, avendo por estre- 
mada affronta e fraqueza sua, não ser poderoso pêra guardar huma don- 
zela: encendido em tam grande yra que dos olhos lhe queriam saltar la- 
grimas de sangue, sobio tanto pela fragosa serrania per hum carreyro 
estreyto e pouco trilhado: per que lhe pareceo que ho Centauro sobiria, 
que chegou junto a huma alta penedia de grande aspereza que per aquella 
parte empedia a passagem como que ali se acabava a estrada. No meyo 
tinha huma boca de cova çarrada com hum grande penedo por porta: 
Dentro se ouviam alguns ays muyto doridos que logo conheceo serem 
de Tiresia, per que se certificou que ali devia estar ho Centauro com 
ella. Entam foy ho seu pesar mayor: vendo a má maneyra que tinlia de 
poder socorrerlhe : porque a pedra que tapava a cova era tam grande 
que fazia impossível ho poder moverse. Mas como lhe ho seu coração 
tudo prometia, decendose do cavalo pos se a provar suas forças, e tais 
eram ellas que sempre a movera, se o Centauro a não tevera afferrada 



DA TAVOLA UCDONDA 231 

de dentro com dons gi'ossos ganchos de ferro que estavam cncayxados 
na rocha. Assi (jue tomando esle trabalho vão com grandes vozes avil- 
tava lio Centauro por o provocar a yra e que llie abrise pêra se vingar: 
porem elle estava com Tiresia em grandes aílagos: como aquelle que 
sintio em seu peyto as amorosas chamas: e porque a via chorar não ou- 
sava anojala: antes trabalhava ganharlhe a vontade, e parecendolhe que 
ella por respeylo do cavaleyro ho desprezava: Querendoa desapressar 
delle, sobiose a liuma pequena janela no mais alto da cova que vinha 
sobre a porta, e tocou huma corneta tani forte (pie ati'oliou todos aquel- 
les montes. Ao qual som logo acodií-am dons liOes de maravilhosa gran- 
deza com espantosos burros, e tanto que viram ho cavalo arremeteram 
a elle e escalaramho hum pelas ancas outro pelo fozinho. Ho cavaleyro 
das armas cristalinas correndo prestes por lhe acudir viose em grande 
risco : porque os liões eram ligeyros em todo estremo, costumados a 
saltar per aquella serrania, e elle estava em lugar tam estreyto e fragoso 
que nara cumpria moverse por nam cayr costa abayxo, e valeolhe que 
eram as armas Iam forles que as nam podiam os liões romper com as 
linhas, porem davamlhe tam grandes pancadas com as mãos que ho fa- 
ziam muytas vezes agiolhar e yr pêra cayr, e a nam ser tam rijo das per- 
nas como era nam se poderá valer delles. Mas este foy ho cavaleyro que 
em seu tempo mayores forças teve: em tanto que se ygualou com muy- 
tas de gigantes: Assi que por esta causa achavíim os liões má presa nelle: 
que se os alcançava feriaos mortalmente, e trabalhando nisto tomou hum 
delles com hum golpe pela cabeça (jue lha fendeo toda com a espadoa 
esquerda, de que logo cahio morto, e ao outro que arremeteo a liarso 
com elle deulhe tal estocada i)elo coi^ação que passou da outra parte dous 
palmos, levandolhe a vida na [)onla da espada, enam acabava isto quan- 
do antes que descansasse: assomaram per huma fralda da serra dous 
Centauros, (jue eram parece da companhia dos da cova, os quais vendo 
mortos os liOes que traziam por libres com que caçavam per aquella 
montanha: sem mais rezam vieramse ambos juntamente ao cavaleyro das 
armas cristalinas, traziam escudos de peles de Anta, com muytas dobras 
liumas sobre outras: das que elles lambem se cobriam todos. Ao hom- 
bro coldres de muytas setas e ai'cos aceyros metidos pelo braço ezquer- 
do le as costas. Na mão dereyta humas maças cravadas de grande peso 
com as quais acometeram ferilo mortalmente. Ali mostrou ho nosso aven- 
lui-eyro mayor esforço que nunca se creo de hum só cavaleyro, e foy ho 



232 MEMORIAL DOS CAVALEÍROS 

mais alto principio de cavalaria que se podia esperar : nem do próprio 
Hercules. E valeollie que pos as costas no canto da rocha: e tomava no 
escudo a mayor parte dos golpes das maças por lhe ficarem de rosto: e 
eram tam fortes que muytos lhe levavam ho braço a terra. Outros ho 
faziam poer nella os giolhos fazendolhe muyto danno, porque ho pisa- 
vam todo, amolandolhe as armas, grande era ho perigo. Mas mayor ho 
animo com que elle soffria, não perdendo hum só ponto do seu vivo 
esforço, e dandolhe sempre tal resposta com a sua boa espada que lhes 
tinha os escudos desfeytos, sem lhes valer serem muyto dobrados: do 
que os Centauros llie tomaram grande medo, vendo que a sua força nam 
avia resistência: receandose porem ho cavaleyro saisse ho Centauro da 
cova que llie daria mayor trabalho. Determinouse em se desembaraçar 
brevemente destes, e tomando no escudo alto: hum golpe de hum deiles 
Meteomuy prestes ho pé dereyto com huma estocada que ho tomou 
pelos peytos, e carregando com ho corpo meteoihe a espada te os ter- 
ços: passandoliie ho forte escudo que lhe sahio pelas espadoas. Ho Cen- 
tauro com a dor da morte deu hum grilo á maneyra de rincho de ca- 
valo: e lançando os braços apertouse com ho cavaleyro tam fortemente 
que as armas lhe amolou no corpo. Nisto teve tempo ho outro de decer 
sobrelle com a maça dambas as mãos, e a tomalo em cheyo sem duvida 
lio fezera peças: mas quis a sua boa ventura que levantou elle em peso 
ho Centauro quando vieram a braços, e ficou per bayxo com que ho ou- 
tro deu em seu companheyro: partindolhe a cabeça em meu das partes 
e os hombros. Desta pancada cahio ho cavaleyro não podendo soslerse, 
c perdeo a espada tam quebrantado que a ser outro que nam tevera ho 
seu esprito não se bolira mais. Mas elle esforçandose muy prestes, c 
não sem grande trabalho se sahio debayyo e vendo que ho Centauro ti- 
nlia a sua espada com que ja vinha por ho ferir: esperouho e ao decer 
do golpe furloulhe ho corpo o fezlho perder. Ho centauro com a força 
que trazia resvalandolhe os pés dianteyros afocinhou, e antes que se le- 
vantasse ja ho cavaleyro era sobrelle: sogigandolhe ho pescoço de modo 
que elle não era poderoso pêra se levantar, e perneando dava assopros 
e rinchtís: a que ho Centauro da cova acodio sobre a janela, e vendoho 
cm tal aííronta deceo muyto prestes a tirar ho penedo por lhe acodir: 
nam pouco maravilhado de tais obras de hum cavaleyro. Elle não des- 
cuydado disto, deu sobre ho toutiço lais duas punhadas ao com que li- 
dava huma sobre outra: que lhe britou ho casco nos miolos, e desatinado 



DA TAVOLA REDONDA 233 

soltou a espada. Ho cavaleyro tomandoa logo, e lio seu escudo: estava 
aprecebido quando ja saliio lio da cova: lio qual veyo com hum arco e 
selas, e pondo muy prestes liuma: fezllie hum tiro que elle tomou no 
escudo. Porem valeolhe pouco porque lho passou, e pregoulhe ho braço 
de parte a parte: Após este fezlhe outro á cabeça que dandolhe per hu- 
ma ilharíTa no elmo resvalou. Aqui se vio ho cavaleyro em mayor perigo 
que nunca : porque ho outro Centauro tomando fôlego tornou mais em 
si. E com hum bruto furor mortal arremeteo abraçarse com elle. Mas 
ho cavaleyro desviando ho corpo : fezlhe hum tam certo revés que lhe 
apartou a cabeça do pescoço. Antretanto ho da cova ho sérvio de duas 
seladas pregandolhas nas armas, per que entravam pouco por sua for- 
taleza, e vendo elle que podia correr risco segundo ho Centauro empre- 
gava bem suas frechas, correo ajuntarse com elle. Primeyro porem rc- 
cebeo huma frechada per huma perna rauyto má, e outra no hombro 
ezquerdo. Tal era a força do Centauro que sobrepujava a tempos ioda a 
resistência: por onde com próprio danno, e grande perigo pode ho ca- 
valeyro chegarse a elle, antes por grande dita: porque ho Centauro es- 
corregando em huma lagea, forãoselhe os quatro pés, que foy azo de lhe 
poder dar hum golpe pelo arco que lho cortou todo com dous dedos da 
mão esquerda. ÍIo centauro sinlindose ferido metesse muy prestes den- 
tro na cova, e toma hum escudo do teor dos outros e hum largo culelo. 
Deshi virase ao cavaleyro que era ja sobrelle: começando huma perigosa 
batalha, porque os golpes do Centauro eram tais que onde alcançavam, 
toda via entravam pelas fortes armas e carne muy liberalmente, porem 
lio Centauro nam ousava chegarse muyto ao cavaleyro receoso dos re- 
veses que lhe fazia pêra ho decepar, como quem não queria poupar seu 
jsmmigo: ho qual se cubria com ho grande escudo dando pulos de huma 
a outra parte, porque também temia ho muyto, por o que tinha visto 
dtílie. lio cavaleyro que era muy ligeyro e acometedor, ajudavase desta 
manha em modo que sempre muyto ou pouco ho alcançava com os gol- 
pes, e feriaho mortalmenle: ho Centauro escumando com rayva parecia 
que dos olíios lhe sabiam rayos de fogo, e de furioso pondo ho escudo 
diante, foy por ho cri. onlrar com os poytos. Ho Cavaleyro fez mostra do 
ho esperar, e furlandoselhe per bayxo das mãos, meteollie huma esto- 
cada per antrellas que ho passou da outra parte: anlre a paa e ho lado 
dereyto, com que logo cahio de fozinos aleyjado, sem se poder ter. E 
piadosamente gemendo, começou falar Vasconço que lhe ho cavaleyro não 



234 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

entendeo. Vendoho porem rendido: como era muylo humano, e lambem 
lembroullie levalo consigo pêra testemunha de suas obras, tomoulhe o 
sangue que se lhe hia muyto: mas primeyro ho prendeo com huma trela 
de cadea que ali achou que era dos liões. Ho Centauro esteve muyto 
manso a boa obra que lhe faziam, e per sua lingoajem lho agradecia: 
caso que não fosse entendido mais que por a paciência que tinha. Tiresia 
banhada em lagrimas veyose ao cavale-yro das armas cristalinas, dizen- 
dolhe. lio famoso cavaleyro ditosa a may que pario tal filho. Ditosa a 
dama que for senhora desse animoso coração, e eu sobre todas agora 
ditosa em ter tal guarda e valedor com que não ha perigo que ja tema, 
e me fica huma certa esperança do remédio da senhora Celidonia, que 
não sey com que me pode pagar tam grande serviço como he levarvos 
ante eíla: nem a vos senhor posso fazer outro mayor, por o que espero 
que seja: tanto que a virdes. Mas dizeyme que tal vos sintis? Muyto bem, 
lhe tornou elle : e desejoso de mayores aíTrontas por vos servir. Deos 
vos de o galardão, disse ella: que eu não sou parte pêra tanto, e ley- 
xando isto quero tratar da cura dessas feridas das setas que alguma cousa 
entendo deste mester, e se achar huma erva logo soys remedeado : que 
he feyto de Calidio que ma ajude a buscar? ficou em bayxo na ribeyra: 
respondeo elle, tomando ho vosso Palafrem, e não deve tardar muyto. 
Tiresia saindose da cova : vio aparecer ho escudeyro pela costa arriba 
com ho Palafrem de rédea: seguindo ho rasto do cavalo, e receoso dal- 
gum perigo sobia de seu vagar olhando a todas partes: e lambem ho 
caminho não era muyto pêra pressa. Tiresia lhe bradou que se abalasse, 
o que elle fez não pouco contente em a ver. Ca por morta ou perdida a 
linha. Assi que chegando a ella e sahido o que passava: recolheo os Pa- 
lafrens na cova não pouco maravilhado do que via. Deshi foyse com Ti- 
resia catar por aquella serrania as ervas que ella queria pêra a cura de 
seu senhor e em pouco espaço acharam muytas assaz viçosas: Trazendo 
pois hum grande braçado delias. Tiresia as pisou, e com unto dos liões 
fez hum saudável inguento que pos nas frechadas ao cavaleyro das armas 
cristalinas desque ho desarmaram. Elle lhe disse que curasse lambem 
ho Centauro pêra ho levarem á senhora Celidonia. Tiresia folgou fazelo: 
do qual beneficio lhe tomou elle tal amor e obediência que logo se fez 
rauy domestico e manso. E sendo necessário repousar ho cavaleyro 
pêra a saúde de suas feridas, ordenoulhe Calidio a cama de ramas, e 
muytas pelles de alimárias que ali ho Centauro Unha das que mata- 



DA TAVOLA llEDONDA 235 

va naquellas montanhas: e ho mesmo fez pera si e pera Tiresia, e ho 
Centauro. Desta maneyra passaram ali três dias comendo das carnes de 
veado, e outras que ho Centauro tinha de suas caças em assaz abastan- 
ça: ho qual obrigado da boa companhia, como tinha claro juyzo come- 
çou entendelos, e foy contente de se jr com elles por amor de Ti- 
resia. E aveys de saber que elle se chama Chirontes, e veyo aqui ter 
quando foram desbaratados e lançados de Trácia:" pelos Lapitas na ba- 
talha que se armou nas vodas de Perito: Quando Neso quis roubar a 
noyva, da qual peleja os que ficaram vivos se espalharam per diversas 
serras, e deciam ao povoado fazer as tais presas de donzelas fermosas, 
a que naturalmente sam muy incrinados, e como esta Lepuseva he toda 
montanhesa, recolherãose nella muytos que eram mortos: e delles ficou 
na terra a lingoajem do Vasconço que não se escreve mas usase inda 
agora antre Bizcaynhos. Chirontes e os outros dous que aqui morreram, 
eram muito velhos, e viviam aqui muyto a seu prazer: fazendo muytas 
vezes os tais saltos per aquellas comarcas: E recolhiamse nesta cova que ^ 
furando a terra de parte a parte ficava era huma grande casa: que agora 
he estalagem, e chamase ho Porto de sancto Adriamr e naquelle tempo 
chamavase a Gruta dos Centauros, de que Chirontes foy ho principal. Ho 
qual roubando Tiresia (como ja ouvistes) a trouxe a esta cova: onde lhe 
offerecia muyta caça e fruytas silvestres: fazendolhe muytos mimos e af- 
fagos por consolar suas lagrimas e contentala: afiíeyçoado a seu bom pa- 
recer, per que se mostra claro ho poder da fermosura de huma dama 
que te a monstruosos juyzos abranda e vence: em tanto que sendo Chi- 
rontes namorado de Tiresia, consentia em seu cativeyro contente, avendo 
ho tal jugo por mais doce e leve que a liberdade fora deste desejo. Ma- 
ravilhoso eííeyto do amor que nos infernos aventou piedade. E muytas 
vezes a não acha em hum duro peyto de huma delicada donzela, que a 
vertude pura empedernece contra ho amoroso deleyte: donde ellas sam 
muyto dignas de louvor, e pera ser sobre tudo estimadas. E Chirontes 
nam desestimado, ou tido por fraco em ser vencido de quem tudo ven- 
ce. E cora esta obrigação falava com Tiresia ho seu Vasconço que lhe 
cila nam entendia: Porem depois que entraram em Espanha como a lin- 
goa suja mais commua e fácil: ho Centauro a foy entendendo com que 
pode manifestar seu Amor a Tiresia a que obedecia por elle, e ao ca- 
valeyro das armas cristalinas por grande medo que lhe tinha: conhecon- 
dolhe senhorio, e elle ho travava com tanta humanidade que ho Centauro 



^36 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

lhe foy perdendo ho ódio: e gostando da sua conversação, tinhalhe Iiu- 
ma servidão alTeyçoada. Ho cavaleyro achandolhe bom juyzo folgava muy to 
com elle, e estimava. Ordenandose pois na Gruta pêra sua joniada que 
ja tinham breve: ho das cristalinas mandou poer a sela do seu cavalo no 
quartao de Tiresia que era pêra tudo, e foy nelle e ella no Centauro com 
a sua guarnição, e huma barbela com que ho sogigava: ho que depois 
foy escusado- Em modo que pode Tiresia caminhar nelle: fiandose na sua 
mansidão e domestiqueza. Desta maneyra tomaram seu caminho contra 
Vitoria cidade da Provinda Avala a que foram repousar aquella noute. 
Onde Tiresia por festejar dom Lucidardos que via muyto malenconizado 
com os desejos amorosos de Celidonia que lhe abrasavam ho peyto: nam 
lhe permetindo descanso algum, jazendo elle na cama, lhe tangeo hum 
alaúde que achou na pousada, e lhe cantou ho seguinte Romance: Di- 
zendolhe que ho cantava muytas vezes a Celidonia que era muyto delle. 

ROMANCE 

No templo de Apolo Achiles 

desprovido namorado, 
laz morto nalma do pé 

de huma seta traspassado. 

E não lhe valeo no mar 

per Thetis ser encantado, 
Aquelle que dos Troyanos 

era temor e cnydado. 

Dos Gregos ho deíTensor 

pouca cinza ja tornado, 
A pequena Urna não henche 

aquelle grande esforçado. 

Contem de sobre suas armas 

todo capitão notado, 
A Thelamão e a Ulisses 

todos ho logar tem dado. 

Não nas leva ho cavaleyro 
e levou as bo avisado, 



DA TAVOLA HEDONDA 237 

A Troya he toda abrasada 
ho Ilião derrubado. 

Querense partir os Gregos 

não íica Achiles vingado, 
Da terra saho a sua sombra 

e com ho seu bullo ayrado. 

Como quando a Âgamenão 

tentou matar denodado, 
Quereis vos partir: dizia 

Grego exercito malvado? 

E fique eu na sepultura 

sem vingança desonrrado, 
Pede Policena a alma 

de Achiles delia engeytado. 

A hora Pirho ho soberbo 

íillio do pay lio traslado, 
Dos braços da triste may 

que por todos tem chorado. 

Traz Policena ao sepulcro 

virgem danimo estremado 
E vendo Pirho ho cruel 

eontrula determinado: 

Com rosto seguro, honesto 

fermoso, mas descorado 
Diz de rama ho generoso 

sangue real apurado : 

Tartese a Grega crueza 

cumprase meu triste fado, 
Soja meu pescoço ou peyto 

dessa espada traspassado, 



238 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Livre naceo Policena 
servir outrem nam lhe lie dado. 

Não será com minha morte 
algum Ídolo aplacado, 

Ho coração soo quisera 

de minha may esforçado. 
Ho gosto da morte minha 

esta dor mo tem tirado: 

Deve chorar soo sua vida 

e invejar meu estado. 
A filha do rey Priamo 

sobre os reys afortunado, 

Vos roga que aa triste may 

seja seu corpo entregado. 
Não seja como ho de flector 

por outro inda resgatado, 

Contentayvos que com lagrimas 

a coytada ho tem comprado. 
Isto disse, e de hum so golpe 

do cruel Pirho indomado 

Ho pescoço cristalino 

do corpo liie foy apartado, 
De recolher em caindo 

as fraldas teve cuydado. 
Por conservar ho decoro 

nas virgens sempre estimado. 

Este romance cantou a donzela Tiresia com muyto ar e genlii soada: 
e pareceo muyto bem ao cavaleyro das armas cristalinas: mayormente 
por lhe ella dizer que assi ho parecia a Celidonia. Sobre a qual nunca 
acabava de falar com Tiresia: perguntandolhe quantas meudeças sobejns 
luim coração namorado procura saber: E sintindo muyto dizerlhe Tiresia 



DA TAVOLA REDONDA 239 

em quanto temor CeliJonia vivia de poder ser inda outro tal sacreficio; 
qual lio de Policena, era mãos de Dricamandro de Ronda, por o que 
muytas vezes dizia que não queria ser desencantada por não ter liber- 
dade Iam asombrada de temores: Mas ho cavaleyro das armas cristali- 
nas que tinlia ho peyto forro delles, e não avia cousa que lho posesse: 
salvo o Amor a que estava tam rendido, dizialhe. Se eu visse a senhora 
Celidonia em meu poder: ho mundo todo nam he poderoso pêra anojala 
em cousa alguma, e assi me segurasse ella de seu Amor como a eu se- 
gurarey de Dricamandro. Nestas e outras rezíjes desta calidade passou 
ho cavaleyro das armas cristalinas gram parte daquella noute, e assi pas- 
sava a doutras e dos dias, indo naquella viagem em que elle cuydava 
rematar seus cuydados: mas quanto nelles mais mereceo tanto menos 
alcançou, que esta he casi sempre a satisfação de merecimentos humanos. 

Capit. xxxvj. Da affronla em que se dom Brisam de Lorges vio 
em Damasco per causa de sua amiga. 

Grande queyxa se podo ter da natureza na repartição de suas gra- 
ças, com as brutas alimárias, daiidolhe em nacendo ho destinto logo do 
que lhe cumpre pêra bem de sua criação e conservação, e o distinguir 
seu danno âo seu proveito quanto basta pêra ivitalo ou seguilo com a 
creatura humana em que meteo todo ho cabedal de sua induslria: se 
mostra tam escasa que per tempo longo, e esperiencia larga, trabalho 
contino, pouco e pouco: e com grandes quebras lhe vay dando noticia 
do mal e do bem, sem acabar em todo ho discurso de sua vida de so- 
bilo no ponto alto do puro juyzo donde vem, que nenhuma alimária na- 
cendo mais inábil: parece que como nace envolto e entregue a simpreza, 
nunca acaba de se isentar delia, e he grande lastima ver, hocomoenlra 
em sua peregrinação, com ijuanlos toques da inorancia a cursa a sim- 
pricidade da menenicc, vajougiceda mancebia: incerteza da boa idade, e 
a fraqueza da velhice: Sintindo pois esta falta da natureza humana, os 
Poetas, de claro juyzo, e peregrino engenho, pretenderam dar guias aos 
homens, e daqui veyo Homero a escrever a peregrinação de Ulises e 
Vergilio, o de Eneas: como desenho e balisa do que ho varão heroyco 
deve siguir, e sobre todos se estremou Amadis de Gaula. Grande ru- 
teyro pêra nobres príncipes. Este scguio ho cavaleyro das armas crista- 
linas, e todos os da tavola cada hum como lhe coube a sorte: E esta 



240 MEMOUIAL DOS CAVALEIROS 

foy a tençam de Foroneus nosso Coronista nesta sua historia e não per- 
vertendo sua ordem leyxa aqui França e volta em soria, onde os dous 
gémeos andavam, por não passar em silencio suas proezas dignas de toda 
lembrança. Ho mesmo fará de Fidomflor de Mares a seu tempo, porque 
todos participarão por fim desta guerra mauritania, e assi conta: que em 
quanto dom Brisam de Lorges repousava segundo atras se disse. Poli- 
bor amigo de Floresinda determinou com ella tomarlhe as armas e ca- 
valo e em seu nome tornar a el rey Ârlifilo e pedirlhe o preço das justas 
qíie dom Brisam gaynhara, e por seu respeyto o i>erdera, e da maneyra 
que ho elle cuydou o ouve Floresinda por bem, e o poserão logo em 
effeyto furtando ella as armas da camará, das quaes armado Polibor e 
cavalgando no cavalo sem mais detença se foram com os seus escudey- 
ros aa cidade, e chegaram aa praça quando de todo se acabavam as fes- 
tas daquelle dia e elrey mandava em cata de dom Brisam, ho qual coma 
ouvistes se sahio acabadas as justas sem curar do torneo que sobrellas 
se fez: em quanto elle sahio de Damasco e vindo Polibor ante elrey, elle 
o abraçou e deulhe paz fazendolhe as mayores honrras que podia, e a 
Ilaynha fez a Floresinda sebejos agasalhados, por amor do seu, cavaley- 
ro. Deshi 'foramse a huns paços reais em estremo ricos e frescos que 
vinham com huma grande varanda sobre a porta da cidade, per que dom 
Brisam sairá. Polibor hia ygnal com elrey e diante dous chocarreyros, 
dando altas vozes em seu louvor, e Floresinda com a Raynha, e assi se 
assentaram a real mesa que estava armada na varanda, e el Rey ceou 
em seu estado com a raynha, e da outra parte Polibor com Floresinda 
querendo fazerlhe summa honrra por sua estremada cavalaria, segundo 
cuydava. Alli foram servidos maniticamente e estando em meya mesa 
descobrindo com os olhos todos aquelies campos viram per elles vir dom 
Brisam armado das armas de Polibor tam abiltadas, e no seu cavallo. 
Isto era porque, paresce nam repousando muyto no seu sonno sem com- 
panhia da sua amada Floresinda, acordou partida ella, e chamandoa sem 
lhe acodir levantouse logo com receyo, perguntando ao ospede: que lho 
disse como se foram aa cidade, dom Brisam caindo no engano dambos: 
sintio muyto, por ho que armandose das armas de Polibor foyse no seu 
cavalo a Damasco, e aparecendo foy tido por ho cavaleyro que fogia nas 
justas, com que todos os que alli estavam tomarão muyto riso renovando 
com sua vista a graça de sua fogida: porem Polibor nam folgou muyto 
nem Floresinda. Mas como eram sagazes na maldade. Polibor lhe disse 



DA TAVOLA REDONDA 241 

bayxo que concordasse com elle, no que lhe ouvisse que elle faria todo 
mar chão e ella que tinha arte pêra todo fingimento nam se desencon- 
trou com elle. el rey Artifilo caindo na graça que todos tinham do cava- 
leyro que vinha, disse: Não scy se vem com novo esforço aquelle avcn- 
tureyro tam confiado, parece que deve vir cansado da terra que fogio, 
e dizia a Polibor. lie a mais nova cousa que se vio trazerdes vos com- 
panheyro tam covardo, cuydo que ho buscastes acinte tal pêra per hum 
contrayro mostrardes ho vosso mayor valor. Mas vos crede que se me 
nam fora por vosso respeyto: eu lhe dera ho castigo digno de tam vijs 
homens: Ca como sey favorecer os bons: assi uso castigar os mãos. Po- 
libor muyto seguro, tornoulhe. Eu senhor nam sey mais deUe que to- 
palo na estrada vindo de Ântiochia, e deuseme por companheyro: enga- 
neyme na sua boa disposicam. Mas quando vi tara grande fraqueza e 
estremada covardia fiquey tam corrido e aífrontado que senam tevcra 
acatamento a ser ante vossa Alteza sem duvida lhe dera ho castigo, por 
tanto por mim nam se lhe faça favor: antes por honra das armas foiga- 
rey que ho mande punir, ou ao menos desterrar de seus senhorios: pêra 
exempro dos lais sem Uie ouvir rezam nem premetir que venha anlelle. 
El Uey perguntou entam a Floresinda que voz era a sua? Ella respon- 
deo, que a mesma de Polibor. El rey determinando dar festa ao povo: 
mandou logo hum capitão seu: ho qual se pos com alguma gente armada 
á entrada da porta da banda de dentro esperando dom Brisam muy se- 
guro de lhe tal aquecer. Assi que entrando elle antre as portas foy de 
improviso liado e preso, e daiii metido em oscura prisam pêra ao 
ijulro dia terem com elle festa. Polibor toda via temendose ser descu- 
berto seu engano per dom Brisnm. Acabada a cea despediose dei Rey 
pêra se partir a({uella noute, dizendo que lhe cumpria sua honra serão 
outro dia presente dali a dez legoas em hum lugar em que tinha assina- 
do hum desafio. El Hey caso que lhe pesou muyto da sua partida, to- 
mandolhe palavra que tomaria cedo a seu serviço, ho leyxou partir- 
se fazendolhe primeyro: alem das armas que eram ho preço das jus- 
tas muyta inerce, e a raynha deu também algumas peças ricas a Eio- 
resinda. Desta maneyra se partiram logo não pouco contentes por assi 
sayrem com seu engano se lhes valera. Mas trabalho de quem mal 
vive he dobrado de todo ho outro, e per derradeyro pagase lodo 
jinilo como nesses se vio. Porem tialemos primeyro de dom Brisam 
que ao oulro dia sem lhe quererem cscuvlar palavra fov tirado a pu- 



242 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

brico desarmado e posto em hum carro que levavam duas vacas ma- 
gras, e as armas causa da sua affronta mostravãose em hum pao alto no 
meyo do carro, a que elle também hia atado pelas mãos e os pés, e 
assi foy levado à praça a tempo que nella avia mais gente, derredor do 
carro vinham muytas molheres pubricas cantando cantares de sua des- 
onrra, lambem ho seguia soma grande de rapazes que ho serviam de 
muytos çambar:os, e antrelles a voltas algumas pedras que lhe poderam 
fazer muyto nojo, se alguns homens de dò ho não defenderam, sobre 
ho jugo do carro hia hum pregoeiro: Ho qual a grandes vozes pregoava 
muytas desonrras delle que padecia as culpas alheyas: antes próprias, 
porque de tais conversações este he ho mais certo fruyto, em modo que 
desta maneyra ho traziam per todo Damasco, e não ouve nome mao que 
não lhe fosse dito muytas vezes. Estas sam sempre as honras que ho- 
mens enleados com molheres: mayormente erradas alcançam delias quanto 
mais fazem por ellas. Indo pois assi dom Brisam tam affrontado que 
tomara por menos danno á cruel morte, a que espritos nobres aceytam 
antes que a mais leve desonrra da vida. Sendo junto da porta per que 
Polibor se fora de Damasco, entrou per ella hum cavaleyro que ho co- 
nheceo: ficando não menos corrido de ho ver em tal affronta, e com esta 
magoa sem cuydar mais enrestou a lanza nos cavaleyros que hiam em 
sua guarda armados, e começou derrubar nelles como em ovelhas, fa- 
zendo maravilhas: os de pé lhe mataram ho cavalo, de que elle se sahio 
muy desenvolto, e a pesar dos que lho contrastavam sobio no carro: onde 
a primeyra cousa que fez foy quebrar os ferros a dom Brisam. Deshi 
derrubando ho carreleyro fez correras vacas pella porta tomando a ponte, 
e como aqui foy Oracio na do Tihris não se mostrou tam animoso: po- 
rem não sey se lhe valera se dom Brisam não se armara mny prestes, 
ho qual vindo indignado não dava golpe que não derru])asse morto a 
seus pés algum dos que ho mais perseguiam, e tendo assi hum com ho 
outro, defendiam a porta muy esforçadamente, as pedradas e armas de 
aremesso choviam sobrelles, e tendo mortos alguns e mu\tos feridos: os 
parentes e amigos concorriam poios vingar. Per maneyra que creciam 
os immigos, e os dous cavaleyros entendendo que não tinham outro re- 
médio senam dar a vida pela honra, determinaram se em vendella ho 
mais caro que pudessem: e assi pelejavam como desesperados. A nova 
desta revolta correo logo a el rei Artifilo com tam grande espanto que 
ho comoveo querer velos, avendo ja três horas que os cavaleyros pele- 



DA TAVOLA REDONDA 2i3 

jav-am sem os leyxarera tomar fôlego, e valialhes estarem na ponte, que 
dado que era larga elles a defendiam com tanta ligeyreza como se foram 
dous liues, e já a este tempo lhe tinham tomadas as costas vindo muyta 
gente armada da banda de fora, e ho outro ao campo se sostinham de 
maneyra que os nam podiam entrar: quando el Uey chegou com toda a 
corte: e mandando arredar ho furioso povo, alçou a mão desarmada si- 
nal antigo de paz e tregoa: os Surianos cesaram logo conhecendo el rey, 
e os cavaleyros descansaram te ouvir o que determinava, porque assen- 
tado tinham nam se dar á prisam. El rey chegandose só a elles, disse 
contra dom Brisam que era ho mais aíTrontado. Cavaleyro eu não scy se 
nam culparme ante vos com vos afirmar de mim que me pesa grande- 
mente tervos anojado, e estou confuso porque cuydey que mandava af- 
frontar hum cavaleyro vil e fraco que com essas vossas armas se mos- 
trou aqui ho estremo dos covardes, e eu vejo agora que soys hum dos 
esforçados do mundo, por onde tenho caydo que me emganaram e nam 
sey como: porem se a esta injuria feyta per innocencia eu posso recom- 
pensar com honra e mercê, a todo meu poder e saber vos sereys satis- 
feyto: segundo os reys devem aos tais cavaleyros: por tanto pedime a 
metade deste reyno que nam volo negarey. Ca vossa alta cavalaria vos 
faz digno de mil reynos, e do meu coração, e eu nam quero de vos mais 
que perdoardesme: dizendo isto deceose do cavalo, e foylhe dar a mão: 
os cavaleyros perdida a payxão que tinham, e vendo assi el rey: toman- 
do as espadas pela ponta oíTereceramlhas por obediência, eelle os abra- 
çou e deu paz nas faces. Deshi contoulhes o que Polibor lhe dissera nam 
cayndo inda no engano. Mas dom Brisam lhe contou logo ho sonho e a 
soltura, do que el rey ficou mais espantado: dizendo que per todo -eu 
reyno ho avia de mandar buscar. Ca nam se teria por rey se não se vin- 
gasse de tam grande engano: ho outro cavaleyro que era Bransidel do 
Enantes lhe disse, que elle ho entregaria muy prestes porque ho trazia 
preso com sua amiga, e foy desta maneyra. 

Bransidel ficando em Buda cidade do reyno de Ungria, como ja se 
disse. Sabida a partida do jrmão, e informado da causa em estremo lhe 
pesou do pouco soflrimento de dom Brisam, e quanto ho naquella parte 
julgou cego tanto ho seu coração ho obrigou mais yr trás elle por ho 
tirar deste engano, e lambem receoso de lhe aquecer algum desastre, 
que he muy certo nestes tratos da sensualidade, e por esta causa folgou 
Foroneus tratar este conto, porque ficasse em baUsa pêra os que entram 



244 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

iiesle vao clamores vãos. Per modo que partindose logo Bransidel após 
lio irmão leve no caminho algumas ocupações da sua profissão que o 
deteveram: ordenavão parece assi os fados de Polibor, ho qual elle lo- 
pou quatro legoas de Damasco que se Iiia fogindo e alongando delia a 
lodo andar, porque quando se sahio de noute caminhou pouco, e co- 
mo foy menhaã proseguio sua via, não pouco contentes ambos de 
lhes parecer que sayram com sua maldade, c indo assi a horas de 
terça Bransidel que lhes vinha ao encontro via da cidade, quando os 
vio de longe enganado das armas cuydou por Polibor quft era dom Bri- 
sam, porem chegando elles que os salvo conheceo que não era, e foy 
logo conhecido de Floresinda que dantes não atentava por elle, ho coração 
de Bransidel ficou traspassado parecendolhe que lhe matara este tredo 
■ho irmão per alguma treyção delia, porque a molher má he aparelhad.i 
pêra todo estremo mao como a boa pêra ho bom: por ho que levantando 
a voz disse. Traydor tu deves ser hum grande ladrão pois trazes essas 
armas e cavalo a que eu conheço outro senhor de que as lu não podias 
aver de bom litolo Polibor traspassado de medo não soube que responder 
nem ousou moverse de atalhado: por o que Bransidel levando da espada 
i)0slha na vista jurando cortarlhes a ambos as cabeças se lhe logo nam 
dissesse a verdade, elle tremendo todavia nam perdeo a invenção de suas 
nientiras, e cuydando fazerse menos culpado, ja que não podia fogir de 
todo a culpa, disselhe. Senhor eu vos direy o que passa pontualmente: 
Esta moUier he minha jrmaã nacida de honrados e vertuosos pais: caso 
que dom Brisam a teve em vida desonesta e de pouca honra sua, e co- 
mo esta infâmia era lambem minha sintioa muylo: e sabendo de mim 
que a não podia tomar per força a tal cavaleyro, determiney ver se po- 
dia livrala per alguma astuciosa manha, e faleyme com ella ([ue mo 
dizia desejar lornarse a sua natureza e vida mais vcrtuosa. Per maneyra 
(Kio assentamos fogirllie em quanto elle dormisse, assi ho posemos per 
()l)';a em Damasco: onde elle fica muyto favorecido dei rey Artifilo i)or 
humas justas de que ganhou ho preço antelle, c por atalharmos a nos 
])oder seguir Iam prestes: furteylhe as armas e cavalo. Ca não hey de 
iifííar a verdade, confesso que fiz nisto mal: mas quem pode pouco vin- 
uase no que pode. Isto dizia Polibor inda que nam muy despejado por 
iio medo que tinha, e não era muylo impróprio ho fingimento : antes 
nuiça lhe valera se Bransidel não soubera a condição do Floresinda: so- 
bre' isto estava livre das cegueyras do Amor com que nam se pode en- 



DA TAVOLA RIlDONDA 245 

,Q:anar nem daiilie credito, e também Floresinda não representou a faliula 
íjera a testificar com lagrimas: porque as molheres no tingir e affirmar 
suas mentiras tem grande vantagem aos homens. Assi que Bransidel nam 
crendo de todo Polibor com a dor que tinha de não saber certeza da 
vida do jrmão, dissclhe. Mentes fiilso ladrão, e chegandose a eile deulhc 
com a manophi tal punhada nos fozinhos, porque linha ho elmo tirado, 
que logo lhe quebrou dous dentes na boca: e lavado em sangue deu com 
elle cm terra. Os escudoyros do tredo soltando as armas que levavam 
pêra menos embaraço lançaram a fogir, Bransidel que trazia consigo lib 
seu e ho de seu jrmão, mandouUies que atassem as mãos a Polibor com 
os braços pêra iras desarmado, e no seu cavalo mandou cargar as armas, 
c a pé desta maneyra ho trouxe diante si te perto da cidade: que os ley- 
xou desviados da estrada pêra que ali ho esperassem ou seu recado. Ca 
elle quis per si saber o que passava do jrmão que achou no estado que 
ouvistes, e contando elle a el rey como te para Polibor, e ho trazia preso 
não ficou pouco contente, determinando castigalo como sua maldade me- 
recia. Tal he sempre ho remate que os enganos das molheres dam a 
quem segue seus conselhos: dom Brisam não ficou pouco corrido da sua 
alíeyção bem empregada, certos enxaropes da vida desonesta e Amor 
ilhcilo: com tudo como de sangue nobre he longe ho tomar vingança dos 
fracos, pedio a el rey que os perdoasse e mandasse soltar. Ca elle se 
avia por salisfeyto delles com serem conhecidos por mãos, que he assaz 
pena pêra os tais. Do mesmo voto foy logo Bransidel que tinha menos 
de que se vingar, e assi mandaram logo recado aos seus escudeyros que 
os soltas ra e soo a Floresinda leyxassem humpalah'em em que se fosse: 
que inda nisso lhe dom Brisam não quis negar Amor, e Polibor que fosse 
com ella a pé com pena, que quem ho achasse a cavalo ou sem Flore- 
sinda ho pudesse prender por escravo sem alguma remissam, o que assi 
foy feylo, \iiídose os escudeyros com as armas porá a cidade: onde os 
gémeos estavam muy cslimailos de el Bey Artililo que nunca acabava de 
se lhe desculpar do nojo (pie lhes f'"/íTa, e por seu respeyto renovou as 
festas de muytas justas e torniios em <jii'' .e elles mostraram tam altamente 
que nam se falava: salvo em sua es! remada cavalaria, c nam ganhou pouco 
el rey Artifilo em elles jrem ter á sua corte em lãl sazão: pois lhe vale- 
ram contra hum recontro da fortuna que na sua mayor prosperidade 
tentou derrubalo (segundo a diante vereis:) Que agora chamanos em 
França. 



24G MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Capit. xxxvij. Da batalha que Doristão Dautarixa leve com Aslribonio 
Duque de Milão ante Laudisea. 

Per estranhas terras: estranhos acontecimentos socedem aos que 
poi' ellas peregrinam, e que sejam traballiosos: nam he tam má a for- 
tuna que aos bons per fim negue ho premio da vertude: dado que 
lho tolha, e aos mãos se lho dilata de suas maldades nunca ho erram, e 
muytas vezes quando mais seguros e doscuydados os tem. Fogia Flore- 
sinda de dom Brisam, Iramoulhe enganos desmerecidos, e tam deshu- 
manamente que nam se satisfazia com menos da morte, nam fugio po- 
rem a pena que lhe sua malícia urdia. Ca de tais tenções tal fruyto se 
colhe, e por ho contrayro aos gémeos socedeolhe o que sua bondade me- 
recia: Âssi ho testificava também Doristão Dautarixa que a Donzela trou- 
xe á torre de Laudisea, com cuja vista se ouve por satisfeyto do traba- 
lho da jornada, dado que lhe prometia mayores perigos mas gostosos, e 
com desejo delles passou em grande cuydado de Laudisea aquella noute 
do dia que chegou á sua fortaleza, segundo atras se disse, nam pouco 
desejoso de abater a openião de Astribonio que tam avarento se mos- 
trava delia. E quanta mais rezam elle tinha: tanto Doristão mais deter- 
minava quebrarlhe a posse, desvelado do Amor e fortuna que ho tinham 
em meyo, e em tudo o que lhe offereciam lhe apresentavam grandes pe- 
rigos dos que elle somente sintia os da alma, em que passou te que as 
namoradas aves festejaram com seus cantos á vinda- da clara Aurora, que 
Astribonio nam desejava menos pêra mostrar a Laudisea quam pouco 
todos os aventureyros valiam ante elle. Ca desta maneyra esperava des- 
enganala doutras esperanças e gaynharlhe a vontade per tempo. Rom- 
pendo pois a alegre menhaã: Esperia madrugou- a virásameyas pergun- 
tar a Doristão como passara a noute, e antre as praticas que teveram 
elle lhe pedio que acabasse com a senhora Laudisea que ho visse antes 
que fosse contender com Astribonio Ca com tal favor elle a serviria tam 
compridamente que ouvesse por bem empregada toda mercê que ll>e 
agora fezesse. Esperia ho foy logo pedir a Laudisea: a qual em estremo 
namorada delle, receosa que não saisse vencedor: estava antre grandes 
temores, e folgou fazerlhe a vontade : ja que de tam boa offerecia por 
ella a vida. Âssi que vindo apareceolhe naquellas ameyas qual a fermosa 
Diana aparece antre as espessas nuves. Doristão vendoa de novo se in- 
fruyo no seu desejo pêra possuir aquella divina ymagem, e em seu con- 



DA TAVOLA UIíDONDA 247 

cepto parccialhe pouco tomar balallia com tudo mundo, e ser vencedor: 
e assi lhe dizia. Eu senhora nenliuma duvida tenho de vencer ao sober- 
bo Âstribonio se os vossos votos fossem da mihha parte: ca não creyo 
que a fortuna seja tam atrevida que se ouse contra por em competência 
convosco, por tanto manday que seja eu vosso vencedor: pcra que nem 
Martes Deos das batalhas ouse ser contra mim, ou nam consintais que 
va morrer a mãos doutrem pois nam quero a vida: salvo pêra nas vos- 
sas a sacrificar: ca em quererdes que por vos senhora moura me dais 
ho galardão com tam gloriosa morte: a que me será de tanto contenta- 
mento que não sey cousa mais suave que ho gosto que ja de a esperar 
sinto. Com tudo nam ponho outra condição senam queestareyporoque 
a vossa ordenar: e pague a vida por ho desejo: que ja me nada pode 
tirar huma abahsada ventura boa pois vos vi. Isto dizia ho vencido Do- 
ristão com hum fervor que claro se via nelle que estava em grande es- 
tremo sogeyto a seus Amores: e como na linda Laudisea avia hum puro 
juyzo junto com piadosa humanidade: sabendo ja de si a jurdição que 
tinha em quantos olhos a viam, e tendo grandemente incrinado seu co- 
ração ao novo e primeyro Amor. Foy tam movida a nobre piedade que 
não pode ter as lagrimas: soltando forçadamente algumas dos seus fer- 
mosos olhos verdes, com huma brandura que em corações de indómi- 
tos tigres poderá fazer empressam, e disselhe como moça aíTeyçoada 
e não desenvolta: Provera ao alto Deos: senhor cavaleyro que fora em 
mim ho poder que dizeis que nem vos passareis perigo nem eu te- 
mor : porem se os meus desejos podem valer com a fortuna que vos 
não negue a vitoria, eu volos dou, e vos mando que em vertude del- 
les e do Amor vençais. Sobre essa palavra, respondeo Doristão : me 
combaterey contra todo mundo, e não me quero dilatar mais esta vi- 
toria que ja tenho por muy certo, e em assi me partir da gloria de vos 
servir. Não porque cuyde (}ue per serviços vos posso merecer. Ca só da 
rainha fé tomo esperança que me dareis merecimentoanteho vosso. Mas 
porque sou contra mim em quanto dilato ho jr contra quem vos não 
serve. Que a quem vos vio nam lhe leyxaram vida fora de vosso servi- 
ço, nem eu a quero. Por tanto manday senhora logo ao barco que me 
passe, e vereys que forças dam vossos desejos. Laudisea nam sem gran- 
de dor da sua alma, por os temores que lhe Amor representava, deu 
logo ordem como ho passassem, c não se tirou das ameyas te que ello 
não passou da outra banda. Deshi passouse a huma janela que vinha 



248 MEMORIAL DOS CA VALEIROS 

sobre a ponte em que se avia de fazer a batalha pêra dali a ver. Na qu.i. 
estava ja Astribonio da banda da torre esperando Doristão Dautarixa: ho 
qual entrou per ella com tam gentil ar e aposUira que causou algum 
receyo em Astribonio, sobre ser muyto confiado. Não porem pêra ho 
temer tanto que escusasse a batalha: antes a desejou mais, e sé animou 
consigo como muy esforçado cavaleyro que elle era, por o que lhe disse 
em chegando. Não sey cavaleyro se vindes no propósito da resposta que 
me ontem mandastes, porque este lugar he de muyta concrusam, e cu 
determino tomala convosco. Folgo (disse Doristão) de vos achar tam con- 
forme a meu desejo, e pois assi he nam gastemos tempo em palavras. 
Ca com obras se deve servir a Senhora Laudisea (seja assi) tornou As- 
tribonio, tornaridose atras pêra tomar do campo ho necessário á justa. 
Doristão ficandolhe Laudisea ante os olhos pregou os nella, e vio nos 
seus hum amoroso sentimento, que lhe dobrou ho esforço, e dizendolhe 
antre si. Quem vos a vos senhora quer tolher a liberdade não mereceo 
darvos á sna, por tanto valey a quem por ella oíferece a vida, e vos 
tem entregue a alma, e olhay por mim. Com isto pondo muy rijo as 
pernas ao cavalo foyse encontrar com Astribonio que não vinha menos 
furioso, e derãose tam poderosos encontros, que Astribonio tomou ho 
cavalo de Doristão, porque parece levantou a cabeça com a lança pelas 
gueiias que lhe sahio ao girgilho, e foyse inda quebrar no escudo de 
Doristão: ho qual sintindo cairlhe ho cavalo lançouse delle muy prestes, 
e levando da espada foyse a Astribonio, que estava embaraçado debayxo 
do seu cavalo: do encontro de Doristão que ho pos em terra e ho ca- 
valo sobrelle. Se disto foy contente Laudisea, bem se lha enxergava no 
rosto testemunha dos efíeyíos do coração que estava todo bandeyro por 
ho animoso Dorgonhão. Ho qual não querendo ferir ao Duque Milanês 
com vantagem, tirouihe ho cavalo de cima a poder da sua grande força, 
porque Astribonio não era poderoso pêra se tirar, e não estimou pouco 
a cortesia de Doristão, e com esperança de lha fazer ho acometeo esfor- 
çadamente, dizendolhe. Ia agora não posso negar que vos sou devedor 
da vida, e porque vos espero servir com ella, querovos mostrar o que 
em mi tendes: E assi travaram antre si huma mortal profia, dandose e 
recebendo tam fortes golpes que em muy pouco os conheceo Doristão 
que tinha duro immigo, e ícvo mais tento em si por lhe não aquecer o 
que a vezes aquece ser ho vencido vencedor, Astribonio nesta confiança 
combatiase muy acordadaniente: não perdendo ponto da cavalaria, co- 



DA TAVOLA REDONDA 249 

mo quem a tinha usada, e era muy destro nas armas o de grande es- 
prito: tudo porem llic era necessário pêra com Doristão, a que poucos 
no seu tempo foram iguais e nenhum levou vantagem: e avendo três 
horas que pelejavam sem descansar nem aver antrelles melhoria, com 
grande espanto de Laudisea e todos os que viam. Disse ho Milanês que 
descansassem que ho tempo não lhes podia fogir: e não lhe pesando a 
Doristão assentarãose nos pilares da ponte defronte hum do outro. Neste 
espaço perguntou Doristão a Astribonio porque causa queria tolher aos 
cavaleyros provarem aquella aventura em que serviam a senhora Laudi- 
sea que elle pretendia servir, que era má invenção de serviço irlhe con- 
tra a vontade. Astribonio lhe respondeo, que por lha fazer partira do 
Milão se lhe valera, e falínndolhe a dita e sorte que os fados guardam 
pêra quem querem, determinou mostrarlhe que lhe nnm faltava esforço 
pêra defender a fortuna que não desse a outro o que lhe queria tolhei-, 
e por esta causa defendia a prova da aventura em que elle faltara: mais 
por mofino que por fraco, a todos os aventureyros não de invejoso mas 
de affeyçoado. Ca não lhe soffria ho coração lograr ninguém o que elle 
merecia pêra serdes tara soffrego disse Doristão. Que tenhais causa não 
tendes justiça, e basta pêra vos tolher a vitoria que vos vosso animo 
promete. Isso nam vereys vos. lhe tornou Astribonio por mais rezões 
boas que me deis. Nam curemos logo de mais repouso, disse Doristão 
levantandose. Desta raaneyra tornaram a sua contenda com tanto furor 
.'omo se novamente começaram, c por não tratar muyto de golpes, abre- 
via Foroneus: dizendo que entraria per horas de noa quando Astribonio 
desfeylas as armas milaneses e muito ferido, começou afracar por ho 
muyto sangue que llie sahia. O que conhecendo Doristão apertou com 
elle de tam meudos golpes que o desatinava, e não entendia senão em se 
ímparar: te que desfalecido de todo das forças lhe cahio aos pés. Do- 
ristão pondolhe ho giollio nos peytos: cortoulhe as enlaçaduras do elmo, 
e tirandolho poslhe a ponta da espada na vista, dizendolhe que se ren- 
desse e confessasse que não merecia servir a senhora Laudisea. Ren- 
dido estou eu, disse Astribonio: ho ai não conff^^ísarey porque fortuna 
adversa nam lira merecimento, que a soube servir mal confesso, e se vos 
não contentais com vos íicar desembargada a prova da aventura a que 
viestes, e sobre que foy nossa batalha: nas mãos tendes a vida que eu nun- 
ca cstimey a respevto da honra, e menosfareyagoi-a. Doristão vendo seu 
piadoso estado deuse por satisfeylo: Nisto chegoulhe hum recado de Lau- 



250 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

disea que lhe pedia a vida de Astribonio, e que tratasse da cura de suas 
feridas, a que logo obedecendo: mandoulbe dizer que em nenhum modo 
tomaria descanso te não provar a aventura por saber o que podia espe- 
i"ar : ca esta era a mais certa saúde. Com isto foyse logo ás portas da 
fortaleza de seys quinas que estava em meyo das outras quatro torres, 
e sobiasse a ella per huma larga escada de pedraria do seu teor e dam- 
bas as partes grades douradas, e en cima fazia hum tavoleyro quadrado 
onde os cavaleyros sobiam, e ao que fosse concedida a aventura aviam 
se lhe de abrir as portas que eram de grades de ferro a força de gol- 
pes. Sobindo pois Doristão aqui, pode ver como todas estavam cortadas 
dos que os aventureyros lhe davam, em que avia alguns muyto fazanhosos 
que Astribonio dera quando provou entrar e não pode, e dentro se via 
huma falia a mais fermosa que podia ser vista que tomava gram parte 
da torre: sobindo pêra mais forte per arcos feytos de huma pedraria 
de laspes de muytas cores, lavrados huns toscamente e outros poli- 
dos e faziam encima hum capiteo cozido em ouro de estranhos lavores. 
As pedras das paredes que enchiam os meyos dos arcos pareciam ser 
todas diamantes, robijs e çafiras, em triângulos assentados de maneyra 
que sobiam em laçaria, e em cada triangulo esculpida uma figura de al- 
guma pessoa antiga das notadas: assi molheres como homens, com seus 
titolos de letras douro: obra toda tam maravilhosa que logo parecia ar- 
tificial e alheya da natural industria e humana possibilidade. Em meyo 
desta sala se mostrava huma coluna de cristal a que estava atado pelos 
pés: e pelo pescoço com as mãos detrás huma estatua de hum cavaleyro 
que verdadeiramente parecia vivo, e por tal ho julgou Doristão, dandolhe 
ar que ho vira ja, derredor em circulo hum fogo inmortal que ho cer- 
cava, mostrando começar arearselhe pelos pés, com que ho cavaleyro 
dava gritos tam doridos que não ou vera tam bruto e duro coração que 
delle não se apiadara, e era cercado de grades muito fortes emendas que 
chegavam ao cume da salla, e logo outra cerca do mesmo teor, que em 
meyo fazia huma rua de largura de vara, per que huma donzela passeava 
sem descansar com os olhos fitos no cavaleyro, pêra sintir a pena delle 
tinha ho natural juyzo, no ai era encantada por poder sosterse sem man- 
timento, vivendo na magoa de ver aquelle que ella em estremo amava 
em tal tormento sem poder valerlhe. Ho qual com muytas lagrimas e 
piadosas palavras lhe pedia que ho livrasse daquella prisain antes que 
ho fogo ho consumisse, que elle sabia muyto bem que ho podia ella fa- 



DA TAYOLA REDONDA 251 

zer se qursesse A. donzela davalhe desculpas que lhe ho cavaleyro não 
aceytava, queyxandose de sua crueza. A dez passos avia huma fronteyra 
da poria em que estava metida huma espada nua atravessada de parte a 
parte, de que era guarda hum estranho monstro: na figura qual devia 
ser ho cão Cervero porteyro do inferno que das ventaãs lançava contí- 
nuos rayos de fogo, e sem algum repouso andava em torno da coluna 
com os olhos na porta e outros na espada, lunto ao lumiar da banda de 
dentro estava huma serpe de maravilhosa grandeza que só da vista pu- 
nha espanto em tanta maneyra, que ninguém ousava chegar á grade ver 
o que dentro avia: salvo alguns cavaleyros que com animosa vertude ven- 
ciam ho temor, por esta causa não soube a donzela Esperia dar rezão 
do encantamento a Doristão Dautarixa: quando lhe contou em Bayona 
a historia. Pois como elle era isento de temores chegou muyto fouto a 
ver tudo, e des que ho teve bem visto: encomendandose a Deos em seu 
coração determinouse com ho perigo. Per maneyra que apertando a es- 
pada na mão deu tal golpe nas portas que cortou três grades e hum gros- 
so ferrolho que de dentro as fechava, e foy de tanta força que lhe 
nam teveram resistência abrindoselhe á hora, e juntamente se lhe que 
brou a espada em três partes que so a empunhadura lhe ficou na mão. 
A serpe em se abrindo as portas arremeteo a Doristão, ho qual com muyto 
acordado furtandolhe ho corpo correo a espada da coluna, que lhe ho 
monstro das três cabeças procurou deíTender vindolhe ao encbntro. Do- 
ristão lhe fez com os cabos hum tiro que lhe deu em huma das testas: 
• atordoouho com que teve azo: por ser muy ligeyro e furioso que lan- 
çou muy prestes mão da espada da coluna e tiroua a este tempo voltava 
ja sobrelle a serpe com espantosos bramidos. Doristão cuberlo do es- 
cudo e a espada diante a esperou: entrando em huma notável batalha: 
em que soíTreo immenso trabalho. Ca dado que a serpe por ser obra de 
encantamento ho não ferisse tratava o muyto mal com as pancadas que 
lhe dava com ho rabo e traziao todo pisado fazendolhe sintir os açoutes 
como se estevera nuu. Pois ho monstro certo não ho perseguia menos. 
Mas ho animoso cavaleyro tinhaselhe maravilhosamente, e posto antre tais 
immigos: ja vedes se o poupariam: e assi affirma Foroneus nosso cro- 
nista que raramente se achara cavaleyro de tal esprito: porque Hercules 
matando a Hidra de sete cabeças: foy com ajuda de Teseo companheyro 
de todos seus trabalhos, e Doristão Dautarixa só antre dous diabólicos 
monstros teve tal fôlego manha e esforço nesta perigosa profia que deu 



252 MEMORIAL DOS CA.VALEIROS 

tal golpe pola cabeça a serpe qne lha fendeo te ho pescoço, e caie- 
do logo morta em terra, tornouse a hora em fegura de huma velha com 
a cabeça fendida, que era parece Ifranasa que Merlim assi encantou: 
porque nam podesse offender ao cavaleyro namorado de Masilia, e 
cumprindo assi com seus fados e vida. A sua alma foy levada com te- 
merosos gritos dos Demónios que a gaynharam, o que causou grande 
espanto em todos os da fortaleza: dos quais Vulteyopay de Esperia: com 
alguns cavaleyros seus da banda de fora ousaram jr ver a batalha de que 
estavam maravilhados. Doristão desapressado de tal immigo apertou com 
o que lhe ficava que se lhe defendia com fogos das ventaãs desviando 
selhe dos golpes e com esta fadiga ho trouxe a tal fraqueza que as pernas 
lhe nam podiam ja com ho corpo: Por o que chegou a temer sua aííTron- 
ta, e antes que ho trabalho ho vencesse, pondo ho escudo ante os olhos 
chegouse tanto ao monstro, que huma e huma lhe cortou as três cabe- 
ças, e na derradeyra deu ella hum grande grito e ficou em huma don- 
zela degolada. Vista assaz lastimosa. Doristão de cansado e moydo cahio 
como mortal em terra, e em parte lhe fariam nojo algumas feridas que 
trazia abertas da batallia que teve com Astribonio, de que lhe sahio muy- 
to sangue. Assi que foy julgado por verdadeyramente morto, com gran- 
de magoa de todos os que ho viam de fora que nam ousavam entrar. 
Nisto entrou na salla hum cavaleyro muyto membrudo e apessoado, ar- 
mado de humas armas encarnadas semeadas de flores azuis, no escudo 
cm campo celeste hum y Grego douro grande, e per meyo liumas letras 
que diziam em Latim. Vitoe human» species: tirado parece e aludido á 
openião de Pitágoras que inventou a letra do voar dos Grous: segundo 
ho trata Vergilio, e a tenção do cavaleyro elíe a saberia. Ho qual en- 
trando foyse ao cerco onde a donzela passeava chorando a dor fio ami- 
go, e vendoa assi perguntoulhe se queria sajrdaquellaprisam? Não choro 
eu, respondeo ella, por outra cousa ha muytos annos, e pois aquelle cava- 
leyro em que tinha esperança de meu remédio he morto, daymo vos com 
aquella espada que tirou da coluna, com que cortareis essas grades se 
teverdes forças que bastem. Ho cavaleyro tomando a espada sem Irr conta 
com Doristão que julgou por morto: como era muy forçoso, deu tais 
golpes nas grades que as cortou, e feyta entrada foy fazer ho mesmo no 
outro circulo cm que ho cavaleyro mostrava sintir tormento, e dando ho 
primeyro golpe desapareceo tudo em fumo como cousa que não era: do 
que a donzela e elle íicaram não pouco maravilhados: e antre elles caliio 



DA TAVOLA REDONDA 253 

huma tavoa escrita, que dizia. Quando lio fingido tormento de Sagramor 
de Constantinopla tevcr fim tornandose em vento, avera nova contenda 
sobre a linda Laudisea, e porque a este tempo possuirá lio cetro dei rey 
Artur, delle se espere a determinação. Lida esta Profecia ho cavaleyro 
nada delia entendeo. Masilia que era esta donzela confusamente alcan- 
çou ser fingido o que lhe tantos annos dera pena segundo o que via. Do- 
ristão Dautarixa recobrando os espritos tornou em si, e tirando lio el- 
mo vio o que passava: por o que levantandose perguntou ao cavaley- 
ro quem ho desencantara, cuydando que era o que dantes vira arder. 
Briantes (que assi se chamava ho cavaleyro) disselhe: que não era quem 
elle cuydava. Deshi contoulhe como em Saxonia donde elle era Du- 
que lhe fora a fama desta aventura, e com desejo de acabala viera ter 
ali ao tempo do íim de sua contenda com ho monstro das três cabe- 
ças, e julgandoho por morto per voz daquella fermosa dona tomara 
a sua espada com que desfezera ho encantamento em fumo, de que so- 
mente ficara aquella tavoa escrita que não entendia. Doristão a tomou 
e leo sem contendela. Nisto chegou Laudisea que todo aquelle tempo 
estevera em oração pedindo ao senhor Deos a vitoria de Doristão Dau- 
tarixa, e com a nova da mny ser desencantada, veyo com todas suas da- 
mas e gente com estremado alvoroço, e entrou tam fermosa na salla que 
Elena a Grega em Troya não pos mais admiração nos juyzos Troyanos 
da que ella causou nos dous aventureyros: porque Doristão inda a não 
tinha vista de tam perlo, e ho Duque de Saxonia dado que trazia delia 
grande openião por a fama: ficou atónito e tam vencido de seus Amores 
que lhe custaram a vida. Laudisea chegando ante a may pediolhe de gio- 
Ihos a mão. Masilia caindo que era sua filha pello que tinha ouvido aos 
cavaleyros. Ia vede como a receberia, e passados os amorosos recebi- 
mentos de Laudisea a Doristão, e outras raeudezas de palavras que aii- 
tre todos passaram. O duque Brianles tendo entregue a espada a Doris- 
tão que a ganhara, disso a IMasilia. Senhora a condição desta aventura 
era ser a senhora Laudisea ho preço de quem vos desencantasse: pois 
vistes o que passou, e eu per estado a não desmerezo, cumpre de mi- 
nha justiça: ho como isto soou a Doristão claro está, etornoulhe. Quando 
isso ouvesse de ser inda tenheis por fazer ho mais que he tirardesme 
com a vida ho meu dereylo que a todo mundo presumo dcfonder: Não 
vos nego, respondeo Brianles que sois vos pêra tudo isso: Porem eu não 
trato aqui senam com a senhora Masilia que cumpra comigo : segun- 



2S4 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

do O que vío que fiz por ella, e depois que me satisfezer: entam vos 
nam negarey ho campo quando mo pedirdes. Aqui lhe disse Masilia 
que verdadeyramente lhe parecia que Briantes tinha rezão, porque 
eWe a desencantara, e passando sobristo muytas repricas, a que Lau- 
disea calava com rauyta dor da sua alma por cumprir com a obe- 
diência da may, que estava muy incrinada a Briantes, parecendolhe 
que lhe tinha obrigação, e também sabido como era tam grande senhor. Ca 
ho interesse nunca leyxou de valer muyto com as molheres. Doristão Dau- 
tarixa sintindolhe esta incrinação, disse que das letras daquella tavoa en- 
tendia ser Laudisea filha dei rey Sagramor de Constantinopla: que ao 
presente possuhia, e socedera no senhorio dei rey Artur, o que sendo 
assi como era, a elle se cometia a sentença naquelle caso, por tanto que 
ho fossem averiguar ante elle pelas armas. Deste voto foy logo Masilia, 
não pouco contente com esta nova, e assentou que sem alguma duvi- 
da fosse isto assi; e partissem ho mais breve que podesse ser. Ao que 
Briantes não teve que contradizer dado que lhe pesasse jr ante el rey 
Sagramor, de que nada era amigo por respeylo de Godifert que era seu 
primo com jrmão. Mas parecendolhe que tinha por si a justiça: cuydou 
que quando lha não fezesse: tempo lhe ficava pêra se ajudar de suas ar- 
mas, e matar Doristão em desafio como aquelle que em toda Alemanha 
não tinha ygual: A Laudisea não lhe pesou deste assento, esperando ter 
ho pay da sua parle ja que Doristão era sobrinho da raynha. Recolhen- 
dose pois Masilia com a filha a seu aposento tratou de mandar agasalhar 
os cavaleyros. Laudisea lá teve maneyra como mandou visitar Doristão 
per Esperia e seguralo do seu Amor, que não foy pêra elle pequeno des- 
canso, antes grande terço pêra a saúde de suas feridas. Ho Duque As- 
tribonio sabido o que passava passousse pêra a pousada de Doristão, de 
que ficou muyto amigo em reconhecimento da cortesia que com elle usa- 
ra, e offereceolhe estado e pessoa pêra tudo o que lhe cumprisse. Mas 
em quanto elles convaleeem de suas feridas, e Masilia se aprecebe pêra 
sua jornada: voltemos onde nos a historia requere. 

Capitolo. xxxviij. De como ho cavaleyro das armas cristalinas 
foy informado do Gigante Argançom. 

Nacer a formosa dama pêra ocasião de contendas he muy certo e muy 
divido, que joya de tal preço seja custosa: segundo Laudisea a Doristão: 



DA TAVOLA REDONDA 255 

mas gostoso e leve he ho trabalho per que se consigue ho desejado pre- 
mio : Triste e cansado ho a que se lhe nega: segundo ao cavaleyro das 
armas cristalinas que Amor guiou ao eSeyto de sua peregrinação repou- 
sando aquella noute que partio do porto dos Centauros em Vitoria: ci- 
dade da Província Avala em Bizcaya, e porque esperavam ao outro dia 
chegar á povoa de Argançom. Estava Tiresia muyto alvoroçada desejando 
ver Celidonia com ho Centauro, e mais podendo darlhe novas da alta 
cavalaria do seu cavaleyro, de que tinha por muy certo vencer Argan- 
çom: sobristo a gintil apostura, branda e discreta condição, julgandoho 
próprio pêra openião de sua senhora: por o que folgava muyto ser ho 
meyo em tal negocio, pois ho cavaleyro c^rto não estava pouco contente 
por a ver e servir, como cousa que lhe custava tam grandes desejos, e 
de tanto tempo. Como foy menhaã Tiresia lhe disse que se queria par- 
tir diante pêra avisar sua senhora de sua vinda, e informandoho dalgu- 
mas cousas que lhe cumpriam pêra desfazer ho encantamento: nam lhe 
disse do gigante quanto era: receosa que desistiria da empresa se sou- 
besse ser de tanto perigo. Mas conhecia mal ho animoso cavaleyro que 
naturalmente desejava perigosas aventuras: quanto mais esta em que lhe 
tanto hia, e despedindose delle com lhe dizer que ia a não viria: salvo 
quando saisse com a sua empresa vitorioso: disselhe que visse o que 
delia mandava. Elle que desejava ganhar a vontade de Celidonia afinca- 
damente pedio a Tiresia que lhe fosse valedor com ella: per que se ou- 
vtísse por servida delle ja que lhe roubara ho coração, Tiresia lhe res- 
pondeo. Crede Senhor de mim que com nam menor vontade porey a 
vida por vos servir do que por mim tantas vezes offerecestes a vossa, e 
quero que cuydeis que não fostes pouco ditoso em me obrigardes pêra 
virdes em conhecimento da senhora Celidonia, cujo estremo sey que vos 
ha de satisfazer muyto mays depois que a virdes, e conversardes: por- 
que hc ella tal que nenhum gabo pode ficar em peso repousando com 
a sua perfeyção, e quero lambem abonarme comvosco que valho com 
ella ouvirme com que farey ho impossível por abrandar esse fogo quo 
mostrais sinlir. Porem como vos ja outras vezes disse: não vos pareça 
que faço pouco nisto, porque volo prometo tam fácil que ella he de sua 
openião, c em verdade senam confiasse em vosso merecimento, e na boa 
ventura que em vossas obras famosas parece que trazeys por guia, cre- 
deme que não ousaria cometer: e muyto menos acabar tam alta em.pre- 
sa: mas na coníiança de vossa boa dita cometerey tudo. Quanto me nisso 



256 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

obrigais, lhe tornou elle, veloeis no que por vos farey ao diante, e so- 
bre esla palavra que empenhor de minha verdade quero aceyleys de mim, 
atalho a toda outra rezão que ás vossas se deva. Despedida pois Tiresia 
delle foyse no seu Palafrem, porque ho cavaleyro das armas cristaHnas 
determinou jr no Centauro contra ho Gigante, por se ajudar de sua li- 
geyreza, e dandolio assi a entender a Ghirontes, elle não lhe pesou, e 
sabey que logo da sua cova partio aprecebido do seu arco e setas, e ar- 
mado de peles, que assi ho ordenou ho cavaleyro das armas cristalinas: 
ja com determinação de sua ajuda se lhe cumprisse, e naquelle tempo 
de vitoria a povoa tudo era despovoado, e espessa mata de alto arvo- 
redo te Burgos, em que avia todo género de caca em estremada abas- 
tança. Ca com ho temor de Argançom ninguém ousava vir per aquellas 
parles: salvo a donzela Tiresia que entrava na rocha invisível por pre- 
vilegio que a magica Daunia lhe leyxou pêra ho serviço de CeUdu- 
nia. A que chegando deu a nova da vinda do cavaleyro das armas cris- 
talinas com que ella recebeo estremado contentamento esperando o 
que lhe dava a ventura. Ho cavaleyro das armas cristalinas partida 
Tiresia fezse prestes pêra sua jornada, não sem grande espanto de 
toda a cidade Vitoria: por a noticia que tinham do gigante Argançom 
que muytas vezes vinha aíírontalos: matando os que podia aver a mãos. 
E dado que com saberem que matara os Centauros tomaram delle gran- 
de presumpção, não leyxaram de julgar por doudice emprender tam 
árduo negocio. Elle dando pouco por o que lhe diziam': foyse no Cen- 
tauro sollado e armado sobre as pelles de gentil malha, e com soma de 
setas e ho seu arco: ca tudo lhe era necessário: e assi tomando per hum 
estreyto caminho que lhe ensinaram, tanlo caminhou que a horas ja de 
vésperas: chegou perto da povoa per huma banda onde diante da for- 
taleza se fazia hum lai'go campo: antes de cuja entrada lhe saliio hum 
homem de ricos vestidos de seda ja gastados do mato apessoado: mas 
tam desfeyto do rosto e corpo que parecia a figura da morte, e em lu- 
gar tam ermo não devia parecer muyto bem assombrado. Caso que logo 
assi mostrava huma gravidade autorizada, e trazia hum arco e setas: de 
longe os vinha seguindo sem acabar certificarse no cavaleyro do Cen- 
tauro se era dous se hum, e por fim aveníurousesalvalo em lingoa Grega. 
Ho cavaleyro das armas cristalinas que a entendia muylo bem, respon- 
deolhe cortesmente. Deshi pergunloulhe se era morador naquella terra, 
elle lhe tornou. Sou porque assi ho quis minha foriuna, e porque vos 



DA TAVOLA REDONDA 257 

ella nam possa fazer mal nesta jornada, folguey sairvos ao encontro pêra 
vos avisar que vos desvieis deste caminho, se estimais vossa vida, por- 
que no cabo desta várzea que vedes verde e aprazível, está a morada do 
gigante Argançom, ho mais cruel e deshumano que se vio, e por seu 
respeyto nam se povoa esta terra mais de seys legoas em redondo: por- 
que a elle nenhuma carne lhe sabe milhor que a humana quando a al- 
cança. Dizem nesta terra que he elle neto do Gigante Encetado, e hum 
Espanhol nigromante ho trouxe criança da ilha Trinacria,eho criou aqui 
nesta serra a fim de com elle senhorear Espanha, pêra o que lhe fez la- 
vrar no vivo penedo huma torre em que ora se recolhe: obj-a alheya da 
força humana. Mas ho nigromante morreo, e elle por sua bruteza vive 
aqui como pastor, criando soma grande de gado de que se mantém quando 
lhe falta mantimento humano: sobre ho qual elle corre daqui te ho mar 
algumas vezes, e he tam espantoso e forte que os povos dentro dos 
altos muros ho temem, e lhe dam tributo de homens por escusarem 
sua destroyção. E Muleyzider rey das Espanhas não he poderoso con- 
tra elle: antes por ho ter manso pagalhe páreas: Por tanto senhor ea- 
valeyro alongayvos daqui antes que amanheça se estimais vossa vida: 
ca disto vos vim avisar. Ho cavaleiro das armas cristalinas lhe res- 
pondeo. Eu não estimo ho perigo pella honra que mais quero que a vi- 
da não posso passar a mais que huma morte com que a fama fica viva 
como pretendo, e querendo ho senhor Deos em que tenho minha con- 
fiança que ho mate, farey proveyto a muytos. E he divido aventurarse 
a perda de hum por remédio dos mais: Não me parece, disse ho do 
bosque, que dais credito ao que vos digo pois tam pouco temeis cousa 
tanto pêra temer. Mas porque ho gigante he ja recolhido na sua estan- 
cia em que não podeis entrar. Quero esperar esta noute convosco te vir 
a menhaã pêra volo mostrar de longe: ca por certo tenho que sua vista 
vos desengane. Ho cavaleyro das armas cristalinas folgou com sua compa- 
nhia, e ouve por bem repousar ali inda que os seus desejos não lhe pre- 
metiam repouso. Per maneyra que decendose do Centauro. Calidio seu 
escudeyro lho tomou e pensou: não sem grande admiração do triste ho- 
mem do bosque, e mayor a teve depois que soube cumo ho domara ho 
cavaleyro das armas cristalinas: ho qual querendo também saber delle 
perguntoulhc o porque andava assi, e quem era. lio triste homem reno- 
vando as lagrimas, de que per suas faces tinha feylo caminhus claros do 

costume do chorar, começou dizerlhc. Tudo vos direy de mim: porqua 

17 



238 MEMOr\IAL"DOs'CA VALEIROS 

aos tristes he descanso, se algum podem ter achar quem lhes ouça sua 
desaventura, e quiçá nunca a vos ouvistes qual a minha. Eu sou ho mal 
aventurado príncipe de Bohemia a quem a fortuna espiou na prosperi- 
dade pêra fazer em mim hum raro exempro de tristes, e foy assi que 
seguindo eu as aventuras avera quatro annos, vim ter a Polónia onde me 
namorey da princessa Fimbrisa, que estava prometida em casamento ao 
principe Ruxiano de Rusia: favoreceome a fortuna tanto nesta empresa 
que Fimbrisa se ouve por servida de meus pensamentos: e porque es- 
lava pêra cada dia ser entregue a seu esposo: e neste comenos chegou 
hum Cardeal de Rusia pêra a levar, consintio em se sair comigo em hum 
navio que eu tinha no porto apercebido de mantimentos: e boa gente 
pêra hum bom feyto. O que pondo logo em concrusam saimos huma 
noute com vento prospero, que parecia favorecemos segundo nos asso- 
prou sobejamente: ho outro dia horas de vespora enchendo as velas pros- 
peras, antes adversas: pois tara prestes se mudaram era contrayras: mu- 
dando nossa bonança em huraa tempestade desfeyta com que andamos 
três diasfdesviados de nossa viagem, ho fim da qual foy dar conosco na 
costa de Espanha huma menhaã onde ho nosso navio se desfez sem po- 
dermos salvar mais que alguma gente mais esforçada; com que me pude 
meter no batel com a princesa Fimbrisa nos braços: com a qual não sin- 
tia perda que me viesse, antes lhe dizia eu que folgava com os trabalhos 
porque me custasse alguma cousa, joya tara sem preço, e mandey logo 
certos homens correr a terra para saber dalgum povo em que me refe- 
zesse. Antre tanto tomey hum arco turquesco que hum pagera raeu sal- 
vou com algumas setas com determinação de matar alguma caça, e vi 
nisto passar per hum vale huma companhia de veados, a que muyla 
deligencia fuy furtando ho vento desejoso de lhes fazer tiro, e com esta 
querença alongueyrae muyto dos meus e maley huma cerva assaz gran- 
de. Deshi tornandome com ho alvoroço de a mandar catar e contar a 
minha amada Fimbrisa o que passava: chegando á praya onde a leyxey, 
não achey pessoa viva. Cortado de temor logo a minha alma foy tres- 
passada, e correndo a cima abayxo ao longo do mar sem achar nem ras- 
to, cuydando que errava ho posto, tornando a ellc achey embrenhado 
ho pagem: ho qual tremendo todo mo contou como ali viera hum estra- 
nho Monstro, de que Fimbrisa e toda a companhia hia fogindo pelo ser- 
tam, quando eu isto ouvi: foy muyto não abafar de paixão. Mas parece 
guardavam me os fados pêra longas misérias, e com esta dor fuyme coa- 



DA TAVOLA REDONDA 259 

Ira aquella parle que ho pagem me mostrou: ho qual me bradava di- 
zendome que me liia tomar a morte per minhas mãos. Eu que outra cousa 
não desejava sem a minha Fimbrisa, corri com aquella fúria: senão quando 
de longe vejo jr hum Gigante tam monstruosa cousa que as carnes me 
tremem só de falar nelle, e levava á costas em huma rede de ferro es- 
tremadamente sotil, toda a gente da minha companhia enrredado como 
pássaros, antre os quais pude devisar Fimbrisa. Eu antes que me elle 
sintisse, não ousando chegarme, pollo pouco remédio que lhes podia dar: 
doutra parte desejando morrer com a minha princesa, sem a qual a vida 
he pêra mim dura e longa morte, escondime pello mato, e fuyme assi 
á vista delie esperando ho fim desta desaventura, aquelle dia e noute 
ho segui sempre choutando te que ao outro chegamos junto a sua es- 
tancia: onde o Gigante se descarregou, e sentandose sobre hum grande 
penedo que tem á porta, não sey se me crereys: mas eu ho vi com os 
meus olhos, e poriso ouso contallo: tirar da rede hum daquelles desa- 
venturados per huma perna: e dandolhe com a cabeça no penedo lha 
fez em mil partes, e assi meyo morto lhe bebeo ho negro sangue que lhe 
corria. Deshi com hum largo e assaz grande cutelo ho fez em quartos 
e a bocados ho comeo em breve, tremendolhe ainda os membros quen- 
tes antre os dentes que sam muyto mayores e mais agudos que os de 
hum javari, e comprindo assi com a sua gula, tirou da rede a sua caça, 
hum e hum: lançandoos por dentro da sua torre, que be huma alta ro- 
cha: ao que parece de fora: ca dentro não sey o que vay: e chegando a 
ver Fimbrisa enredada, sobre tam deshumano e bruto, como a sua fer- 
mosura he tal que aos irracionais dará rezão, não perdeo neste seu di- 
reyto: antes com os seus bellos olhos ellaho enredou de tal maneyra, que 
tirandoa da rede com muyto acatamento a pos sobre ho penedo: Ia po- 
deis cuydar em que temores a minha alma entam estaria; cuydando eu 
que a queria elle tratar como ao outro. Porem ho Gigante namorado 
delia, insinado do novo Amor começou dizerlhe per suas más rezões, 
dandolhe a entender jx)r brandos meneos e geytos. Fimbrisa sintindo 
que tinha nelle ho senhorio que se lhe deve, deulbe a entender que per 
força nenhuma cousa acabaria com ella: ca primeiro se mataria. Ho gi- 
gante pretendendo contentala e ganharlhe a vontade, deulhe de si grande 
obediência, e armando a rede na porta, e porque não lhe fogissem os 
que tinha pêra seu mantimento. Foyse com Fimbrisa mostrarlhe a gran- 
de soma de gado que nesta serra traz : por se abonar com ella de rico 



2G0 MEMeWAL DOS CAVALEIROS 

desejoso de a comprazer pêra que aceytase seu Amor: fuyme também 
aiitre ho mato atras elles gemendo antre mim, e despedindo do meu 
peyto suspiros continos. Ho gigante des que mostrou seu montado a 
minha ydola, que elle com muyta rezão adora por deosa : pos se á 
sombra de hum antigo carvalho encostando sua grande cabeça no re- 
gaço da gentil Fimbrisa, que lhe fazia os honestos gasalhados que a sua 
necessidade requeria, a fim de salvar de morte sua gente presa. Com 
isto adormeceo elle: cuydey entam comigo se acometeria matalo, mas 
eu não tinha mais armas que este treçado, e receey que se o não ma- 
tasse do primeyro golpe que me perderia, e assi Fimbrisa do arco 
não me pareceo que podia servir pois aventurava ferir a princesa: 
não me sabendo determinar chegueyme de maneyra que me pode ella 
ver, e per aceenos lhe disse minha determinação. A gentil Fimbrisa 
vendome: traspassada toda em figura da morte, com as lagrimas nos 
seus claros olhos me acenou que me não chegasse, e cantando em nos- 
sa lingoagem, diziame. Com todo ho maí que tenho: ficame não pequena 
consolação saber que soys vivo, e que sinta perder vossa companhia 
cm vida doeme só a minha triste sorte. Vossa morte sintirey sobre tu- 
do : fogi pois me nam podeis valer, se me quereis viva poupay vossa 
vida, ca sem ella não sosterey a minha: leyxayme ver se posso dar re- 
médio a esta fortuna, e ho senhor Deos se lembre de nos. Isto cantava 
ella. Eu não lhe pude responder porque ao doce canto acordou ho gi- 
gante: não pouco contente de a ouvir, assi por a voz ser muito pêra is- 
so: como parecendolhe que se hia ella desagastando e pediolhe que ho 
quisesse fazer muitas vezes: ella porem não segura delle se entendia a 
lingoa cessou por entam, eu escondime no mato: Passado isto foramse 
elles jecelhendo com ho gado que elle recolheo em huns currais gran- 
des que tem, e eu após os olhos de Fimbrisa que os voltava a mim to- 
dos os momentos, e anoytecendo meteramse na cova: cuja entrada elle 
tapa com a rede de que nenhuma mosca pode escapar. Aqui fiquey eu 
com mayor escuridam nalraa qne as trevas da noute. Sabe Deos em quan- 
tos temores, em quantas lagrimas, e em quantas tristezas a eu passey: 
representavame a triste maginação que via Fimbrisa enterrada viva, ou- 
tras horas desesperava sua vida e a minha juntamente. Cuydava que lhe 
fazia mil forças e outras magoas sem conto que Amor tem. Passada 
aquolla noute de annos, ao outro dia que cila sahiocom ho gigante, pa- 
receome que resuscitava, ouve por descanso ho mal presente, elle me 



DA TAVOLA REDONDA Sf» I 

insínando soíTrelo. Daqui me ficou por vida avera três meses passar lio 
dia em desejos e magoas, e as noutes em cuydados e temores sem al- 
gum descanso escondido sempre nos matos, comendo do que Fimbris^i 
me põe em alguma parte; quando a vista do gigante que de si nnnra a 
aparta, finge colher flores ou outras ervas, c assi me fala se ho tempo 
ho permite: e disseme que antes de entrar com ho gigante na cova: lhe 
deu elle fé de todo este anno não querer delia o que ella não quisesse. 
A qual palavra lhe mantém por a ter contente, toda a outra gente tem 
ja comida, ca lha não quis dar porque lhe ella logo não quis satisfazer a 
vontade. Fimbrisa esforçame cantado. Outras horas requereme que me 
vá, e a leyxe cumprir com seus fados sem padecer os meus. Mas eu 
nam tenho coração pêra hum momento me partir daqui sem ella, ando 
esperando azo pêra ho poder matar, ou morrer sobrisso.e Fimbrisa que 
assi também ho traz cuydado. Assi vivo como salvagem nesta serra, on- 
de espero descansar com a morte que dilato: porque mo manda Fim- 
brisa. Aviso alguns desencaminhados se por aqui vem: porque ho gigante 
não tinha mantimento humano: que he ho de que mais se paga. Assi que de 
meu conselho vos senhor cavaleiro vos deveis desviar daqui, porque eu 
vos digo como cavaleyro que ja também soube tratar as armas e ganhnr 
com ellas honra, que não está em rezão acometelo com hum grande exer- 
cito: ca ja vi gigantes e não nos temi. Mas este he de tam monstruosa 
"grandeza que entra hum tiro de pedra pelo mar fundo, e corre mais U. 
geyro que hum cavalo, e de força antre as mãos esmeuça os penedos. 
Agora vede vos senhor o que podeis valer contra elle, que eu foi'a ho 
mais contentente de vossa vitoria. Isto contou o príncipe de Bohemia : 
chamado dom Selvagio ao cavaleyro das armas cristalinas que lhe mos- 
trava cobiçar ho perigo quanto lho mais encarecia, o que dom Selvagio 
lhe julgava por inorancia: mayormente vendoho tam mancebo, e passan- 
do assi a noute em muitas praticas vindo a menhaã clara: vendoho cons- 
tante em sua determinação: ouviram soar hum cardo que era a frauta de 
Argançom que retumbava per toda a montanha, e dom Selvagio disso : 
Agora sae ho gigante da sua estancia: se toda via vos quereys ver com 
elle: achaloeis no cabo desta várzea, e Deos vos guie que eu quero me 
acolher ao mato: e com isto se metco per elle. Ho cavaleyro das armas 
Cristalinas mandou a Calidio seu escudeyro que se leyxasse ficar ali te 
ver o que lhe soccdia pêra que podesse testemunhar sua morte ho qual 
ficou com muytas lagrimas: clle pondose no Centauro com huma grossa 



262 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

lança que em Vitoria mandou fazer foy praticando com elle: avisandoho 
do que avia de fazer naquella peleja: e fazendolhe grandes promessas ao 
diante. Deshi prometendolhe seu esforçado animo todas as cousas mais 
diíBcultosas: como aquelle que alem de Amor ho obrigar com os desejos 
de Celidonia: trazia antre si a ymagem do famoso nome de seu pay que ho 
obrigava a toda a fazanha, segundo a de Achiles fazia animoso seu íilho 
Pirho: a pouco espacio chegaram a huma fragosa rocha que tinha huma 
alta boca : e tam temerosa que representava a do inferno, toda ensan- 
goentada de sangue humano: ornada per redor de caveyras, cabeças fres- 
cas, e muytos ossos de homens, que os despojos de que se ho Gigante hon- 
rava, piadosa vista pêra ho cavaleyro das armas cristalinas, e temerosa 
pêra toda pessoa que não tevesse ho seu animo. Argançom estava junto 
da porta com Fimbrisa bela e assaz descontente, e contava ho gado ti- 
randoho dos currais que tinha em certo da fortaleza ou rocha, e como 
os vio leyxou a conta em que estava por lha tomar de sua vinda, nam 
pouco alvoroçado: parecendolhe que tinha bom jantar, e correndo ao ca- 
valeyro das armas cristalinas sem fazer delle caso para o tomar antre as 
mãos : elle apertou das pernas ho Centauro, e enrestando no gigante a 
grossa e forte lança: tam forçosamente ho encontrou que ho levou a terra 
atravessado per hum lado, e com a coxa passada de huma setada que 
lhe ho Centauro deu: Porem isto pêra Argançom eram lancetadas. Ho 
cavaleyro das armas cristalinas que sempre foy muy acordado e acorae- 
tedor nos perigos: voltou sobrelle antes que se levantasse: e deulhe pe- 
las queyxadas e fontes com hum pedaço de lança que lhe ficou tal pan- 
cada que lhe quebrou alguns dentes na boca atormeniandoho muito. Ar- 
gançom levantandose com dobrada fúria: lançava das ventas lingoas de 
fogo como rayos e fumaças. E mayores escumas da boca mesturadas de 
sangue que as do furioso rio que vay com grande crecente. E tomando 
hum penedo de grandura de huma pipa que diante si achou primeyro, 
íezlhe hum tiro com que ho fezera em poo, se ho Centauro com sua li- 
geyreza não soubera desviarse. Argançom levando com ambas mãos de 
hum grosso sovereyro que lhe servia de cajado: arremeteo ao cavaleyro 
crendo vingarse daquelle golpe. Mas elle mostrando esperalo ao decer 
furtouselhe, e podeo fazer entrando com elle com huma estocada per 
hum olho que lho quebrou: porem não tanto a seu salvo que ho gigante 
ho não lançasse de si como huma palia fora do Centauro : dando com 
elle huma pancada na rocha que bastava matar hum touro. Mas o nosso 



DA TAVOr.A RKPOXDA 2C3 

cavaleyro tinha esprilo pêra mayorcs alTrontas, com tudo ficou desacor- 
dado algum espaço breve. No qual ho gigante jiilgandoho por morto, 
não curou delle: entendendo em se vingar do Centauro que lio servia de 
continuas setadas sem ho esperar nem leyxar chegar a si. Neste come- 
nos tornou em seu acordo ho cavaleyro das armas cristalinas: c Argan- 
çom fazendo botes com ho seu cajado sovereyro ao Centauro sem ho po- 
der alcançar: vinhao chegando â rocha pêra dar com elle na rede invisivelt 
e quis a desaventura do Centauro que ho gigante ho alcançou com ho 
cajado em voltando pelas ancas, e quebrandolhe huma espadoa deu com elle 
casi morto junto da porta. E indo sobrelle antes que se levantasse com 
hum largo cutello pêra ho partir per meyo. lio cavaleiro das armas cris- 
tahnas que estava perto lhe fez hum revés per huma perna que lha de- 
cepou em claro: com que Argançom cahio de focinlios na sua rede que 
tinha armada na porta. A qual se desarmou logo, e ho enlaçou tam for- 
temente que nam se pode mais soltar delia, tal era a fortaleza da rede 
aceyra. E podese bem crer: porque esta foy a que Vulcano fez de sotijs 
fios de aço e com tal arte que era impossivel quebrar nem desfazer a 
menor parte delia per força nem engenho humano. E com esta prendeo 
Martes com Vénus sem se poderem desatar: salvo per mão do mesmo 
Vulcano. Ao qual a pedio depois Mercúrio pêra prender a Ninfa Cloride 
que amava: De que se conta que alem de muyto fermosa de ligeyra voa- 
va pelo ar correndo mais que a mesma Aurora, o do trançado hia espa- 
lliando lirios, rosas e violas: e tanto a espreytou Mercúrio que a pode 
prender no ar com esta rede: na que enredada foy descaindo contra ca- 
nopo, e ali aguardaram per grandes tempos no templo de Anubis: don- 
de Glauco Deos marinho a tomou pêra em Tinacria prender a Ninfa Sci- 
la, e a deu depois a Polifemo pêra enlaçar a branca Galatea que lhe fo- 
gia. Mas primeyro ho cegou Ulisses com que não se aproveytando delia 
ficou a seus socessores que a tinham na sua cova: e ho nigromante Es- 
panhol a trouxe com Argançom, ho qual caçava com ella quando achava 
muyta gente como fez a companhia de Fimbrisa: e quasi sempre a tinha 
armada na boca da cova, porque ninguém lhe podesse entrar nella: c 
assi cuydava a sabia Daunia: a qual dizem ser filha deste nigromante, 
que ieyxava Celidonia segura: porque dado que alguém matasse Argan- 
çom, ou morresse naturalmente. Não se podia entrar pela rede em que 
Argançom cahio. lio cavaleyro das armas cristalinas vcndoo enredado 
querendo acabalo primeyro que se soltasse: como se fora possivel: lo- 



2G4 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

mando a espada Calibornia com aml)as mãos deulbe per cima da cabeça 
lai golpe, que lha fez cm duas: sem lhe valer a rede por a vertude da 
espada que sobejava per toda outra força: como aquella que se cre ser 
feyta pelo mesmo Vulcano com muyto mayor arteficio. lio cavaleyro não 
contente virou com outro revés pelo pescoço do gigante: e apartoulho 
da cabeça com a vida que acabou de render. Desta maneyra acabou Argan- 
çom pela arte com que matou muytos, e não sendo poderoso todo ho poder 
do mundo pêra lhe fazer algum nojo em sua morada com tal fechadura. 
Como todas as cousas tem sua hora: não na errou elle: padecendo como 
Busiris ho tormento que inventou. Ho cavaleyro das armas Cristalinas: 
Feyto isto cortou per muytas partes a rede, porque ninguém se podesse 
mais ajudar delia. Deshi foysse ao Centauro que estava sem poder bo- 
lirse da espadoa muyto mal tratado, mas com esforço. Do que ho Cava- 
leyro se agastou muyto polo mao meyo que ali tinha de ho curar, e bra- 
dando a Cahdio que sabia de solorgia per pratica de Tiresiae vinha aper- 
cebido. Chegou Fimbrisa a elle: dandolhe graças e louvores de tal fa- 
zanha: e logo veyo ho príncipe dom Sclvagio, do qual hey per sobejo 
lio contentamento que mostrou com sua amada Fimbrisa, e ho mais que 
diziam ao cavaleyro das armas cristalinas: porque está sabido, e he so- 
bejo. Calidio tratou de remedear ho Centauro ho melhor que soube e 
pode. Antre tanto ho cavaleyro das armas Cristalinas não lhe soífrendo 
ho coração dilatar a liberdade de sua senhora CeUdonia: disse a dom 
Selvagio que ho esperasse ali porque queria ver os segredos daquella ro- 
cha, e com a sua ajuda arrastou pêra fora ho corpo de Argançom: hoqual 
jazia em meyo da porta de grandura que abate ho credito. E desemba- 
raçada a entrada inda que estava mais pêra descansar que pêra empren- 
der novo trabalho. Não quis tomar outro descanso: salvo o que lhe a 
alma pedia: e encomendandose a Deos entrou pela cova cavada em viva 
rocha: Onde ho leyxemos, que nos chamam a outra parte. 

Capitolo. xxxix. Como dom Brisam de Lorges 
foy a Damasco. 

Este bem tem as obras Ileroycas, que sam ho galardão de si mes- 
mas, quando se vos nega o que pretendeis: donde ho desenho do nobre 
esprito seja sempre fazer o que deve, e ajase por satisfeyto com ho bom 
nome que consigue, e que sempre acompanha os bons feylos, como aos 



DA TAVOLA REDONDA 2G5 

maos ho vitupério e castigo de seus excessos: qual lio recebeo Argan- 
çom do famoso cavaleyro das armas cristalinas a quem ho seu Amor pa- 
gava com a gloria das fazanhas que em seu nome sempre acabava. Ho 
contrayro sintio dom Brisam do seu. Ho qual partindo de Buda pêra An- 
tiochia em cata de Floresinda e tomando terra de Damasco Ires legoas 
da cidade, achou Floresinda em companhia de hum cavaleyro porque 
ja engeytara DoUbio, a quem ella não guardou mais fé que em quanto 
não achou quem a quisesse. E sós três dias avia que se entregara a este 
cavaleyro Polibios chamado, que era homem apessoado e grosso, de huns 
todos feytos a seu prazer: e de boa boca, que com despejo e lingoajem 
sobeja cometem tudo. E na condição se acharam bem conformes, e assi 
caminhavam era Damasco com dous seus escudeyros com todo fausto, 
prometendo de si ho contrario do que na obra mostrou. Floresinda vendo 
vir dom Brisam de longe logo ho conheceo na disposição e armas, e não 
no temeo: como aquella que sabia bem a jurdição que nelle tinha, por o 
que avia de folgar ouvir e creerlhe suas mentiras e fingimentos que em 
casos súbitos sam nellas muy certos: e bem cria que ho seu novo ami- 
go e defensor não era tal que a podesse livrar das mãos de dom Bri- 
sam, Assentando pois com elle o que avia de fazer pêra escusar brigas 
e se rirem delle. Disselhe que era hum cavaleyro encantado: contra ho 
qual não valia resistência, e que lhe avorrecia tanto que por lhe fogir 
se viera de Buda com ho mercador de que elle a tomara. Mas que se 
queria estar por o que ella ordenasse: sem algum perigo se atrevia fa- 
zerihe hum escarneo com que lhe tomassem as armas: e ho leyxasem 
que os não podesse seguir. Polibor que este era ho seu gosto: disse que 
não erraria ponto do que ella quisesse fazer. Sobre tal concerto: concer- 
tou Floresinda ho toucado e propôs a voz, e apelidou as lagrimas pêra 
se lhe cumprisse testemunharem sua falsidade. Deshicorreo no Palafrem 
pêra dom Brisam fingindo grande alvoroço e alegria. E chegando a elle 
armada daquelles meyguices com que todas derrubam nossa fortale- 
za: lançoulhe os braços no pescoço que logo lhe liaram ho juyzo. E 
assi ho teve apertado bom espaço. Após isto com humas palavras mey- 
gas, e huma fala branda, e com os olhos arrasados em lagrimas di- 
zialhe. Meu Amor e minha saudade tamanha: parecevos que he bom 
galardão este pêra huma molher coytada que vos ama mais que sua 
vida, em que vos mereci eu fugirdesme, e ser ante vos tam esqueci- 
da que se estevera esperando vossa tornada não sey se a vira algu- 



2GG MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

ma hora: nem me bastaram os espritos esperala segundo meu desejo 
trabalha estilarme os dias: porque a ora que eu soube pelo hospede de 
Buda que vos partireis pêra esta terra sem mo dizer, saltou comigo fe- 
bre continua que cuydey perder o siso: e claramente me sintia morrer, 
em tanto estremo que me dey por ida deste mundo de todo, porque 
verdadeyramente cri que fogieys ja de mi como cousa que vos avorre- 
cia: nem agora ho leyxo de crer, e não sabendo como e per onde vos 
seguisse, a minha alma estava em talas de morte, quando Dolibio filho 
do hospede se me oílereceo a me trazer na sua nao. Eu innocente cuy- 
dey que me vinha Deos a ver: e sem mays cuydar em seus enganos, me- 
timi no mar com elle que nunca se me decclarou senão desque fomos 
em terra, e enverdade meu amor que determiney matarme quando dou- 
tra maneyra não podesse livrarme de vos errar, mas a fortuna teve mays 
cuydado de mi, e deparoume ali logo hum meu irmão que me leva con- 
sigo a Damasco pêra ahi sabermos de vos, crendo que acudiríeis a hu- 
mas festas que el rey de Soria faz. E vou eu ser tam ditosa que acho 
sobristo este bom encontro, que sobre todas as boas venturas estimo, e 
mais vindo a tal tempo. Ca segundo a minha saudade e receyos aperta- 
vam comigo: não cuydey chegar ver tanto bem, agora ja não tenho 
que desejar, venha a morte neste descanso antes que ho perca, que eu 
não sou pêra soffrer muytas affrontas destas, e vou entendendo que an- 
dais fogindo de mim por avorrecimento ou por outro novo Amor. Mas 
tempo sey em que vos eu lembrava. Com estas e outras tais queyxas com 
que Floresinda trabalhou e soube lançar suas culpas em dom Brisam e 
seguralo da sua maldade. Ficou elle logo muy satisfeyto e não pouco 
contente : crendo ser o que ella dizia como quem folgava creia, e aver 
por boa qualquer aparença: tal he a condição do amor. Assi queyxoso de 
si mesmo da sospeita que delia tevera: ja todo seu trabalho era buscar 
desculpas pêra se congraçar com Floresinda e assegurala da sua afíey- 
ção, de que cuydava que ella tinha sospeyta: que assi sabem estas se- 
nhoras embair ho claro juyzo ho homem quando querem: e inda parece 
que he menos mal se os seus enganos, de que nunca as tais carecem: 
vem com branduras e meyguices, em que a alma namorada se recrea. 
Mas quando cilas isentas de todo respeyto soltam os ásperos desenga- 
nos, e desamoraveis desprezos, e aquelle seu negarem livremente toda 
fé e Amor. Esta he a mayor magoa que Amor tem, e de que se ellas 
prezara, e muytas vezes viam despiadosamente. Per maneyra que dado 



DA TAVOLA HEDONDA íáG7 

que ho presente estado de dom Brisam seja mao e piadoso, por elle ser 
hum cavaleyro tam abalisado: tam enganado, e tam vencido de huma 
desamoravel donzela. Inda nellas ha mais que temer. Floresinda des que 
ho teve convencido da sua falsa rezâo: pedindolhe elle mil perdões como 
culpado, forãose ao fingido irmão. Ao qual ho paciente dom Brisam fez 
aquelles comprimentos, e deu de si aquella obediência que os corações 
affeyçoados costumam dar a todas as cousas que tem rezam com ho seu 
Amor: mayormente a tanto parentesco. Deste modo animou seu compe- 
tidor: ho qual por confirmar ho fingimento: disse a dom Brisam que elle 
hia cora sua irmaã pêra Damasco á fama das justas e festas que ahi se 
faziam, parecendolhes que acodisse elle a ellas. E ja que ho achavam 
que ordenasse elle ho caminho que quisesse. Dom brisam lhe tornou que 
fossem a Damasco pêra que ahi fezesse alguma cousa em serviço de Flo- 
resinda, porque lhe confessasse que empregava bem ho seu Amor. So- 
bre tal concerto tomaram a via, e em pouco espaço foram á vista delle, 
que era muyto pêra aprazer, porque Damasco he das mais ricas popu- 
losas e ornadas cidades de todo levante: dista de Hierusalem sete jorna- 
das. Está situada em hum campo frutifero e abondoso: não menos gra- 
cioso no inverno que no verão. Nesta terra ha hum monte em que fere 
ho primeyro rayo da menhaã quando nace. Pela cidade correm dous 
cristalinos rios: fazendo outros ribeyros, dos que se regam infinitos jar- 
dins em que nunca falta flor e folha: dos quais se sinte pelas ruas suave 
cheyro. A agoa he tanta que podiam moer muytos moynhos. Entrando 
pois dom brisam com sua companhia per huma ponte, deram na prin- 
cipal rua que estava toda toldada e armada de ricos panos de ouro e se- 
da: ho cham enrramado de muytas flores e ervas cheyrosas. As porias e 
janelas de custosos tapetes ornadas: e sobre tudo ho estavam muyto mais 
de muytas e muy fermosas molheres, bem e ricamente vestidas: e com 
muyta pedraria de grande preço. Nesta bella vista se recreavam mais os 
olhos, por ser a mais aprazível: inda que mais perigosa: Pellas portas 
avia muytos baylos e danças. Muytos mancebos galantes e gintijs homens 
que per meyo das ruas corriam cavalos ligeyros: custosamente ajaeza- 
dos, e muyta gente que os via e festejava, porque eftava então toda a 
corte dei rey Artifilo acompanhada de grandes senhores e altos varões 
seus vassalos. Dom Brisam rompendo com trabalho pella gente vinha de 
seu vagar olhando tudo, e praticando com Floresinda e ho seu fingido 
jrmão, quando se a elle veyo hum cavaleyro nobre da terra que lio íai 



268 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

descavalgar, dizendollie qne era forçado aponsentarse ali com elle em 
humas casas grandes, porque era assi ordem dei rey Ar li filo que fazia 
aquellas festas por ser esposado com huma filha do Soldão do Cayro. 
Assi que dom Brisam foy apousentado com sua companhia, e polo cos- 
tume da terra como se desarmou entrou em hum banho. Deshi o hos- 
pede ho levou a huma sumptuosa cea, e lhe esteve contando como dali 
a três dias eram as justas, e depois avia de aver torneos por celebra- 
rem as vodas do seu rey. E diz Foroneus que os Surianos naquelle tem- 
po usavam as armas quais os Christãos, por a muyta conversação e co- 
mercio que com elles tinham, por causa que possuhiam a casa sancta de 
Hierusalem: onde todos aquelles que queriam empregar suas forças em 
serviço do verdadeyro Deos hiam residir. Grande affronta desta nossa 
idade em que não somente a leyxamos occupar dos immigos: mas nem 
lembrança temos de tam grande perda, descuydo grande de todo prín- 
cipe Christão, que pretendem todos conquistar Pagodes ricos, e ho tem- 
plo de Deos rico da verdadeyra riqueza leyxam possuilo os immigos. Ca 
sem duvida nos devem por isto ter em pouca conta, e será gram parte 
de perseverarem na sua herética herronia. Mas tornando á nossa his- 
toria: tendo el rey Artifilo pregoadas as justas a que podiam vir se- 
guros e francos Christãos e mouros, vindo ho dia aferiado: tanto que 
dom Brisam soube como ja el rey estava no cadafalso: e os justadores 
se exercitavam: foyse com a sua companhia a huma grande praça em 
que se justava, na qual estava armada huma rica tenda a que se re- 
recolhiam oyto mantedores todos senhores do reino: que aviam de man- 
ter cada hum seu dia ho campo a quantos viessem com lança, espada e 
maça te que el rey lançasse, ho bastão. Ho preça eram humas armas em 
estremo ricas fortes com huma sobre veste de pérolas, aljofre e outro; 
tam rica e bem obrada que parecia não ter valia: porem inda que ellas erão 
tanto pêra cobiçar, dom Brisam não se moveo: salvo por a gloria da vi- 
toria, e chegando a tempo que o senhor de Seleucia que era hum dos 
mantedores, justava poseramse a ver elle e o fingido irmão de Flore- 
sinda, ao qual ella pêra sua desaventura delle, tinha pedido que justasse 
primeyro vendo como o senhor de Seleucia combatendose com llombru- 
nho aventureyro o ferio de huma estocada no rosto que o matou, do que 
a el rey e a todos pesou muyto: não ousou a proseguir sua promessa: 
mas Floresinda com malicia pediolhe aíTíncadamente que desse de si al- 
guma mostra, o dom Brisam também o forçou com palavras que não te- 



DA TAVOLA REDONDA 269 

messe que eile lio vingaria do toda aíTronta per maneyra que a seu pe- 
sar se oíTereceo a justa indo contra hum cavaleyro que se lhe offerecia, 
e como o cão que per detrás vay ao usso, ou lobo e lhe ladra de longe, 
vuUandolhe elle a cara está que quedo olhando como lhe arreganha os 
os dentes, e dos olhos lhe lança fogo com que o ameaça: tal ho fraco 
Polibor, presentes todos aquelles Príncipes e povo vendo vir ho encon- 
tro do cavaleyo que lhe sahio, desviou ho cavalo e cabeça, e inda nisto 
poderá dar a culpa ao cavalo. Mas voltando seu imigo sobrelle com a 
espada alta por se forrar do encontro que perdera: Elle não podendo 
tanto resistir ao medo, fogio a todo correr: leyxando de si muyto riso 
com grande grita do povo. Isto sintio dom Brisam grandemente: e ficou 
tam corrido desta vergonha como se fora própria, parecendolhe que ho 
teriam na mesma conta de seu companheyro, por o que lhe cumpria que 
dessem suas obras de si hum resplandor de rayo, porque huma onça de 
erro que fezesse pareceria muyto por a ma openiam que ja delle podia 
ler. Per maneyra que pondose na carreyra correo a encontrarse com ho 
senhor de Sidónia: ao qual deu tal encontro que muy levemente ho pos 
em terra nam sem grande espanto de todo ho povo que nam esperava 
isto delle: e ficandolhe a lança saã, correo outra vez com ellaequebroua 
em três partes na viseyra: ao senhor de Lodicea pondo ho nas ancas do 
cavallo, com tudo cobrou a sella sem cair, e levando da espada veyose 
a dom Brisam, que pesaroso porque ho nam derrubara por fazer ho en- 
contro fermoso, ho carregou de tais dous golpes que muy prestes ho 
lançou em terra atordoado. El rey e toda a corte vendo tal mostra de 
cavalaria poseram os olhos nelle com mays atençam, e logo sayram dous 
yrmãos filhos dei rey de Apamia chamados Orizonte e Corindio, ávidos 
antre os mouros por estremados justadores. Aos quays dom Brisam des- 
enganou desta presunçam muyto em breve: e ja todos criam que elle 
levaria ho preço, quando lhe sahio Salinterno muyto privado dei rey, 
por ho que era muy soberbo e mal quisto, ao qual dom Brisam encon- 
trou tam fortemente que ho passou de parte a parte, e deu com elle 
morto no chão, do que a ninguém pesou a el rey: por que a toda pri- 
vança tirana estaa muy certo seguir mortal ódio, e sobrisso ter mao fim. 
A pos este derrubou Armifo de Damasco capitam moor, Carmondo Al- 
mirante, ho que pos tão grande espanto em toda a corte que a huma 
voz se dizia que nam podia ser se nam que era encantador: ou algum 
Diabo. Almiralhio senhor do Selcucia, que era ho mays estremado cava- 



270 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

leyro de toda aquella terra restava dos oyto mantedores, e offereceose 
ao posto asaz confiado em hum poderoso cavalo armado de fortes armas, 
e correndo hum contra ho outro encontraramse em modo que dom Bri- 
sam perdeo huma estribeyra, mas cobroua logo: ho mouro as perdeo 
ambas e cairá se nam se abraçara ao pescoço do cavalo, e concertandose 
na sella emquanto dom Brisam lhe dava espaço. Começaram antre si 
huma fermosissima batalha, por que ho Almiralhio era muy apessoado 
e do grande corpo, e tinha muyta força, e tal lhe era necessária pêra se 
manter contra dom Brisam que se estremou tanto nesta contenda que 
em espaço de huma ora ja conhecidamente se via a grande vantagem 
que tinha ao Almiralhio, o qual nam tratava salvo de se amparar dos 
poderosos golpes. Por o que el rey lançou o bastam, c assi se espartirão 
acabandose a justa daquelle dia, com tanta vitoria de dom Brisam, o 
qual se foy a pousada onde achou Floresinda com Polibor que estavam 
em concerto de lhe fogirem, e elle se fingio doente dizendo a dom Bri- 
sam que lhe viera hum acidente tam forte e arrebatado que lhe fora neces- 
sário recolherse. Floresinda desculpandoo afíirmava que o tevera ali mor- 
tal mais de duas horas. Porem dom Brisam nam leyxva de o ter na conta 
que elle merecia, e dissimulando aceytou a desculpa por boa com tudo 
ouve por bom conselho partirse logo dali secretamente em quanto ho 
povo se occupava nas festas, porque receou que se vissem Polibor que 
ho afrontariam, e serlhe hia necessário sair por elle, e como era antre 
mouros receouse de suas traições e maldades, e pouca verdade. Per mo- 
do que se partirão logo antes que el rey mandasse saber delles, e alon- 
garamse da cidade hum quarto de legoa, recolhendose em huma quin- 
laã em que os agasalharam, porque dom Brisam quis repousar ali por 
levar ho cavalo muy cançado, nem por rezão elle devia yr myto folgado, 
por o que se recolheu a huma camará, e desarmado per mãos da sua 
falsa amiga: lançouse a dormir em hum leyto por repousar do trabalho. 
Floresinda fingindo não querer acordalo por ainda ser muyto de dia, sa- 
hiose pêra Polibor com ho qual consintio, ou mais certo ordenou ho mayor 
engano que se podia cuydar: como ao diante ouvireis. 

Capitolo. xl. Como Masilia se veyo com Laudisea 
aa corte dei rey Sagramor, e o que lhes aqueceo no caminho. 

Per ho soíírimenlo de dom Brisam com Floresinda ho desimular seus 



DA TAVOLA REDONDA 271 

enganos e leyxarse levar delles. Podemos ver quanta força tem ho vicio 
em que não lhe resiste: e a quanta aíTronta se offerece quem faz vonta- 
des a molheres erradas. Ca de tais excessos sempre se colhem magoas. 
Outros eíTeytos tem ho Amor casto e licito (como se segue no que so- 
cedeo a Doristão Dautarixa) que passando quinze dias na fortaleza de 
líranasa pêra convalecer de suas feridas, e assi Astribonio Duque de Mi- 
lão: nos quais Wasilia se apercebeo pêra sua jornada não pouco desejosa 
de ver el rey Sagramor que na sua alma amava. E neste tempo sempre 
Doristão foy visitado de Laudisea: como aquelle que lhe tinha entregue 
ho seu coração, e Esperia que Ireçava em meyo: não a entendia muyto 
mais no desejo de Doristão não cansando de lho abonar. Per maneyra 
que aproveytara pouco a Briantes duque de Saxonia ho seu direyto, 
inda que ho tevera: pois a força do Amor lho fez perder mais do que 
elle cuydava, porque assi ho azou a fortuna: e foy desta maneyra. Ma- 
silia querendo entrar com estado na corte, partio com toda sua casa que 
era grande de donas, donzelas e cavaleyros: segundo Ifranasa a tinha: e 
levaria irozentas pessoas de cavalo: de que os dozentos eram cavaleyros: 
a fora a gente de pé, e ella meteose com sua filha em huma carreia de 
quatro cavalos: toldada de tela de prata com muyto arteficio, e os três 
Duques derredor que davam grande lustro, porque alem das ricas ar- 
mas que levavam: eram elles muy apessoados e autorizavam muyto ho 
aparato de Masilia que foy muy estremado por ho concerto e riqueza del- 
le. Desta maneyra caminharam via de Paris: onde souberam que el rey 
estava, e chegando duas jornadas da cidade, Masilia fez saber sua vinda 
a Sagramor. Ca ho não quis tomar descuydado nem sua licença entrar 
na corte, e em quanto esperavam sua resposta: ao segundo dia que el- 
les chegaram em Xatra souberam que meya legoa desviado da estrada 
avia huma serra coutada dez legoas, da mais caça que se podia ver. E 
era fama que de poucos dias se achava ali hum porco tam façanhoso que 
podia ter grande vantagem ao que Diana ayrada lançou emCelidonia, de 
que a terra começava a receber não menos damno. Doristão alem de ser 
muyto querençoso de todo perigo; era muy incrinado a caça: por o que 
disse a Masilia se queria que fezessem aquella por recreação do longo 
caminho e antrevindo nisso rogo e vontade de Laudisea, cila ho con- 
sintio, por o que se apreceberam pêra ao outro dia irem a monte, e 
naquclla noutc mandaram emprazar ho porco, e saberlhe guarida per 
moutcyros que ahi avia que sabiam a serra, com o que também foi- 



272 RIEiMORIAL DOS CAVALEIROS 

garam muylo os outros Duques de Saxonia e Milão: Per modo que 
aquella noute lhe fezeram seus vestidos de monte, e se concertou ho al- 
forje, ou banquete que lhes Masilia mandou ter prestes: a qual se fez 
também galante com a filha vestindose como Almazonas com seus arcos 
e coldres de setas, e desta maneyra levou consigo algumas trinta Damas 
e cincoenta cavaleyros escolhidos dos seus e muytos monteyros de pé 
cora seus sabujos e todo apercebimento do auto: e gram parte de tudo 
isto trazia comsigo pêra seu passatempo que algumas vezes tomavam pelo 
caminho. Assi que partiram com este concerto tanto ante menhaã que 
foram amanhecer á serra: indo os três Duques muy desejosos de se mos- 
trarem ante a linda Laudisea, e amanhecendo acharamse dentro na mon- 
tanha junto a hum valle apaulado que se fazia ao lado da serra, em que 
se vinham ajuntar todas as agoas delia que a chuva trazia, e faziase ali hum 
brejo de grandes juncaes, salgueyros, vimieyros e outras arvores silves- 
tres: onde ho porco se recolhia e ho tinham empraçado: Ao qual che- 
gando aquella fermosa companhia, Doristão que era muy pratico naquelle 
mester repartio logo ho monte per suas estancias, e feyta sua armada: 
pos Masilia e Laudisea em dous postos diversos com seus magotes de 
Damas, em parte que sem algum perigo podessem ver a montaria. Os 
Duques de Milão e Saxonia tomaram cada hum ho posto que lhes pare- 
ceo mais auto pêra effetuarem seu desejo. Doristão nam soube escolher 
ho seu mal : antes ho tomou qual lhe cumpria pêra sua determinação 
que era correr dali ho porco pêra hoyr matar avista de Laudisea. Isto se 
lhe azou melhor do que elle ho poderá cuydar. Ca muy certo he nada 
nos soceder pêra bem ou pêra mal: como cuydamos. Ordenado pois tudo 
ho que cumpria á ordem da montaria, meteram os cães na mata: donde 
com pouco trabalho sahio ho monstruoso javari como hum rayo lançado 
de antre as nuves tam grande que parecia Alifante. E começou escanda- 
lizar mortalmente aos libreis, e sabujos que podia alcançar com a trom- 
ba: Soa logo ho monte com as buzinas dos monteyros, e ladrados dos 
sabujos que se espalham huns pêra huma parte, outros pêra outra: Ora 
ganindo cora a dor, ora ameaçando de longe com ladrar. A confusara dos 
brados espanta as aves do ceo. Fazem todos prestes suas armas: huns 
caem, outros fogem, alguns se determinam em ho esperar. Nam falta 
quera leyxando a chuça no campo com a pressa e medo, se trepa na 
arvore por segurar a vida e dar de si muyto risco. Per modo que ali so 
representam mais antremcses de aquecimentos: Assi de animo: como de 



DA TAYOLA REDONDA 273 

fraqnezn, do que a memoria basta contar. Nisto correo Briantes ao porco, 
e não lhe querendo lio cavalo ciiegar fez hum tiro com a lança que lhe 
pregou huma coxa. ho javari tanto que se sinlio tocado assanhouse e os 
olhos lhe reluziam, pelas ventas lançava chamas de fogo, e cortando nl!0 
somente lio mato com ho seu agudo dente mas as arvores que diante 
topava: escumando qual ho rio que corre com impetuosa crecente, como ho 
pelouro da Bombarda fere nos muros cheyos de immigos. Assi acomete 
sem algum temor, e rompe a armada correndo contra espessa brenha. 
Os cavaleyros começaram chegarse polo ferir com as lanças Mas os ca- 
valos não ousavam de medo do javari por sua grandeza e ferocidade: ho 
qual derrubando tudo o que alcançava linha ferido alguns monteyros de 
pé muyto mal, e ja nenhum ousava pararselhe diante. Ca nem os de ca- 
valo se aviam por seguros, correndo pois ho porco com esta fúria contra 
ho posto de Laudisea. Ella e as suas donzelas se começaram baralhar 
com grande grila. Doristão acodindo aquella banda apertou conotai força 
as pernas ao seu cavalo que ho fez chegar, e encontrou ao javari pelo 
encontro da espadoa dereyta com a lança tam forte que ho passou pre- 
gandoa no chão e ho porco a fez logo em mil partes. O Duque Astribo- 
nio foy também ho encontrar, e ao apontar da lança ho porco fez força 
tí tiroulhe com a tromba pelas mãos do cavalo que lho decepou á hora, 
e afoçinhando lançouho de si longe. Astribonio se levantou muy prestes, 
e levando de hum treçado fez rosto ao porco que se veyo a elle, e deulhe 
tal golpe pelo focinho que lhe levou parte delle com hum dente a terra: 
quebrandolhe ho treçado. Ho javali envestio com elle e feriou mal por 
huma coxa, e sempre ho matara se ho tomara em cheyo. MasiDoristão 
acodiolho com outra lança que ja linha tomada, dandolhe de sobre mão 
lai lançada pelo pescoço que lho atravessou de parte a parte. !sio fez 
voltar lio javari sem fazer mais danno a Astribonio: senão com a ponta 
do dente de passada que ho tomou pouco, e com esta dor mortal correo 
inda furioso por tomar a mata contra ho posto de .Masilia, e aqui lhe sá- 
bio Briantes em outro cavalo desejoso de se forrar do pouco que tinha 
leyto por falta de cavalo, e deulhe pela vazia com huma lançada que ho 
pregou no chão, ho porco cabio batendo os dentes furiosamente lançando 
escumas de sangue. Mas tornouse logo levantar, e arremeteo a Briantes 
que não se lhe querendo desviar por não mostrar fraqueza ho esperou, 
dandolhe com ambas as mãos com ho treçado pella testa que lha fez em duas 

com o focinho, clogo cahio revolvendose com a morto, anlrc tanto que isto 

18 



274 .MKMORIAL DOS CAVALEIROS 

assi passnva, e todos andavam embebidos na moníaria e trisca daquella 
guerra. Dorislão acodio a Âstribonio e Inmoulhe ho saiignc da ferida que 
era pequena. Deshi trouveranliio biun cavaio que lhe mandou Masiiia, e 
com elle pedindolhe que se fosse pêra el!a, dí) que lh,e a e!!e nada pesou, 
porque desesperado do Amor da filha iiicrinavase ao da may que era 
muyío fermosa. E dado que bo toriucnlo do encantamento a liniia úes- 
feyía, bia cobrando com bo descanso muyío do ptM'dido, com que devia 
pouco aLaudisea salvo na idade em que lhe tiiilia vantagem de treze ân- 
uos, poro que estava indamuyto pêra cobiçar e ser servida: passauiio to- 
das estas cousas: bo ceo ja manbaã andava oscuro cubrindose de negr;;s 
o espessas nuves : em tanta maneyra que parecendo ter o soi perdi- 
da sua biz. Os trovões e relâmpados indo em crecimento vieram a ser 
tantos e tais que mostra^;a renovar lupiier a antiga guerra que teve com 
os Tilanos. A ocupação da caça causou não se siníir isto tanto ao prin- 
cipio, salvo quando após isto cabio tanta agoa com grossa pedra (siie (l.'s- 
viava os cavalos espantandose: em modo que os cavaleyros os n^o po- 
diam ter, e discorriam per diversas partes sem bum ser por ouiro nera 
poder. Ali se vieram as Donzelas cayr dos Palafrens espalbandose liumas 
das outras, e os cavaleyros que por lhes acodir se lançavam dos cavalos, 
e como esta temipestade cabio de súbito Iam grande, foya pressa lama- 
uba que nam avia atentar por ninguém liem conhecerse. Dorislão (jue 
nestas aífrojUas em que todos faltavam se mostiDva mais acordado: ven- 
do a cousa tam baralhada correo a tomar Laudisea pela i-edea. Ca nmn 
estava longe delia quando Âstribonio se foy pêra ^íasilia. A tempeslnde n;!iii 
cessando foy crccendo, (]ue parecia conjuraçam dos ceos peralhi^ darem 
azo: do que parece as estrelas lho íiiíbam prometido, e como to^iiis com 
a grande oscuridão e os relâmpados que os cegavam nam se via.m. E 
cada bu.m corria a buscar sua guarida: pode elle muyto desemi>argada- 
mente fazer bo mesmo, levando Laudisea que bia meya morla contra 
buma alta i-ocba que dantes tinh.a (bvisada com a vista: Na qual avendo 
urandes concavidades, •elle se meleo com ella em buma cova decemhia 
nos braços do Palafrem, nos quais Laudisea recobrou logo sobre si: nam 
pouco contente de se achar em lai lugar livro de tam grande aflVonta. 
E assi entrou logo a oub-a que fingio siutir mais: porque Dorislão nam 
esquecido do que lhe cunqii^ia, nam querendo perder por curto o ({ue 
lhe a fortuna dera por deligente, foy com cila mny curto de rezam, e 
dcscnvollo nas obras, por o que cila nam era poderosa pcra muyla re- 



DA TÂVOLA RKDONDA ^iO 

sislencia, e alem dn sua fraqueza, anlreveyo nisto nam serem as vonla- 
des Jesconformes nem os estados desiguais. Assi que Doristão podo sa- 
tisfazer seus amorosos desejos e segurar lio seu Amor: do que Laudisea 
]tenhorada cessou de suas queyxas e deuse por vencida, contente sobre 
íé, e promessa de matrimonio. Desta maneyr-a passaram espaço de 
duas lioras de muyto contentamento, segundo podem cuydar aquelies 
que ja gostaram a gloria destes furtos: o cresse que neste tempo ouve 
alguns outros desta calidade, em que entrou Masilia com .Astribonio que 
se casaram nam longe dali em huma la[)a a quf3 se recolheram, e em que 
parece que Amor os esperava pêra abreviar seus negócios: porque nas suas 
vontades avia huma aííeyçam ao longe, e ho tempo que tudo dá concruydo 
abreviou dandolhe tam bom azo. Isto porem teveram elles em segredo 
alguns dias jior comprir com a honestidade de Tílasilia. Acabandose pois 
a tempestade a horas de bespora: veyo inda ho Sol triunfar ho restante 
do dia: quasi qp.erendo forrarse da aííronta passada. Doristão se sahio da 
cova com Laudisea, e postos a cavalo: de junto veyo ho seu escudeyro 
com Esperia nam pouco amigos, e foranse todos pêra Masiiia que estava 
ja com Astribonio em bum cabeço pêra atalaya da outra gente que se 
espalhou, e folgou em estremo quando vio a filha assi acompanhada, com 
([ue perdeo alguma sospeyta que poderá ter de Doristão, que mais não 
fora que congelurando pelo seu aquecimento. Deshi a pouco espaço se 
ajuntou ali a. sua companliia: dado que muyía parte se foy pêra ho lu- 
gar, e por ílm veyo ho Duque Briantes a. pé: porque achandose assi com 
iio porco que matou não pode aver ho cavalo, e sobristo e os mais de- 
sastres que na pi essa aqueceram, e cada hum. contando como ho vira ou 
p-assara, ouve muyto-riso: que he cousa muy certa no remate de tais his- 
íorias. Acabada' desta maneyra a festa daquelle dia: recolherãose onde 
esperava a resposta dei rey Sagramor. Da qual vos diremos o que foz. 

Ciipitolo. xli. Do que passava na corte dei reij Saijramor. 

Usado estilo hc do mundo após os trabalhos vir com bonança, e de 
grandes desastres pêra huns azar acertos pêra outros: donde a providen- 
cia humana em suas contas erra as mais das vezes: porque a outra or- 
dem de cima que força tudo a seu destino. E por tanto ho acerto lie 
{)retendelo de lá: que assi parece foy Doristão e Astribonio a que hum 
hora deu ho que muy tos dias negaram e poderam perder se a occasiam 



!:i7G MCMoniAL dos cavaleiros 

iinin segurara. E indo assi \h da corto sendo el rey Sagramor avisado 
(como ja disse) pela sabia Meriinda que nam descuydasse da fortuna que 
sempre se arma contra os poderosos prósperos entregues ao repouso. 
(lonla Foroneus que visitou ho Reyno de Ingraterra em pessoa, [)rovendo 
com estremada providencia tudo ho que cumpria a bem do Povo, e se- 
iiurança de seu senhorio. 

Deshi passousse a França; e tendo visitada a mayor parte delia, 
(.'Slando na cidade Liom. Ali vieram ter Deyíilos de Xatra e Pina- 
llor sua jrmaã com ho principe Aristandor ea suaamada Fiorisa. El Rey 
Sagramor os recebeo com muytas honras e mostras de grande contenta- 
mento. Nam pouco satisfeyto da alta cavalaria de seus sol)rinlios, espe- 
rando de lais princípios ho fruyto que lhe elles de si deram no discurso 
da vida. lio principe Aristandor vista a nobreza desta corte, disse que se 
queria lograr delia e da amizade de seus valedores. E assi cm (juanto 
el rey Sagramor mandava apreceber huma armada em que se fosse ficou 
elle com Fiorisa sostentando grande estado por alguns dias, o por as 
cousas que socederam foram annos, e passado hum mes de sua chegada 
passouse el Rey a Paris onde ho tomou a embayxada de Masilia ((\uc 
.•'liras apontey) com que elle folgou muyto pello que devia a Masilia e 
logo mandou Deyfilos de Xatra com a reposta por mostrar ho alvoroço 
com que a esperava, e assi levou ho perdam a Doristão daularixa de se 
partir da frontaria de Navarra, avendo que se lhe devia fazer tam pros- 
jícra jornada, e porque particularizar agora este recebimento he matéria 
sem fruyto e muy sabida. Foroneus que pretende ser resinnido em rneii- 
dezas, diz que el rey Sagramor tendo dada conta á raynha Seleucia do 
que passara com Masil/a sendo cavaleyro andante foy ella contente por 
sua real condição: e nobre saber de aposentala eni hum quarto d(.) paço 
com a Duquesa Lipalda, o festejou Laudisea como própria íilha: e assi 
a tratou sempre, e passados quinze dias em que rei)Ousaramdesuajo!'- 
iiada. Briantes Duque de Saxonia pedio a el rey Sagramor que lhe desse 
huma audencia ante seus altos homens, e assinado ho dia. El rey ho 
ouvio, ]jropor contra Doristão Duque, de Borgonha ho seu caso, ipie 
lodos ouveram por muy dificultoso de averiguar: Ca dado que a Do- 
i'istão se concedesse a gloria da aventura:não se podia negar a Rriantes 
(|ue desencantara Masilia por cuja libeiiJade se prometia Laudisea 
lícm outra declararam : {)or o que a sentença foy cometida ao par- 
lamento de Paris, e ho caso estudado e altercado por ambas partes, e 



DA TAVOLA REDONDA 2/7 

ouve ygiiais votos em contrario sem tomarem concrusam: antes as letras 
de espritos contenciosos e mal incrinados causaram mayor confusam in- 
<leterminada : segundo costumam e sam promptos a dilatar a cura cie 
todo negocio importante: mas os cavaleyros por atalhar dilações: sendo 
mais amigos de concrudir que os letrados inventores das duvidas avendo 
por mais seguro fiar seu dereyto de suas forças que de juyzos bandey- 
ros, pediam campo não querendo dar a posse das arm-as a leiras: por o 
que foy forçado a el rey condecender a seu requerimento, e aprazado 
lio dia que Doristão e Briantes desejavam, nâo sem grande dor da gen- 
til Laudisea temendose da sua fortuna polo emprego que |a tinha feyto 
no Amor de Doristrio, foy ordenada huma paliçada fora da cidade con- 
tra Oiiiens com cadafalsos pêra el rey e toda a corte, e dentro eslava 
hum pêra os juyzes e pêra Laudisea, a qual se mostrou em meyo delles 
vei^tida toda de grãa Ic as suas alvas faces: de affrontada parece do pe- 
rigo em que esperava ver seu amigo por seu Amor. E ja a gente corte- 
sau se apossava dos lugares pêra verem a fermosa batalha. Quando ali 
chegou hum ^avaleyro de gentil disposiçam com huma donzela assaz fer- 
mnsa, e alguma companhia de escudeyros e donzelas: ho qual sabido o 
que passava: pos se com sua companhia junto da porta da Liça daquella 
banda, donde sem algum impedimento via todo o campo; no qual entraram 
logo os dous competidores com seu aparato assaz soberbo, porque a Brian- 
tes nara lhe faltaram na corte parentes nobres que ho favoreceram, e el 
rey principalmente por ser estrangeyro e tam grande senhor, dado que 
tinha pouca rezam, polo que ao diante ouvireys. Per maneyra que entrou 
com todo fausto pela porta da parte da cidade : e ho Duque Doristão 
per onde estava ho cavaleyro estrangeyro: ho qual quando entrou 
e vio ambos se contentaram hum do outro: nam pouco na aparença que 
de si davam; estando pois ho negocio em termos que queriam partir ho 
sol aos competidores, da banda de Paris chegou á porta hum cavaleyro 
de grande corpo que ho julgaram por gigante armado de humas armas 
lavradas de ouro e prata em laçaria. Obra de muyio engenho: No escu- 
do em campo verde trazia pintada a fé sobre huma roda com huma le- 
tra que dizia: Et cum fortuna slatque caditqae fides: sobre hum cavalo 
ruço rodado assaz soberbo e forte: ho qual em chegando tocou huma 
corneta que trazia ao pescoço, com que os cavaleyros sobre esteveram, 
e acodindoliic hum dos juyzes que era ho conde Dranziler parente do 
Duque de Saxonia, mandou per elle pedir licença a cl rey pêra entrar no 



278 MF-MORIÀL DOS CAVALEIROS 

campo: Ca cumpria assi. Sendolhe pois dada chegou a Briantes, e tiran- 
do lio elmo foy logo conhecido delle que era Eslrimom príncipe deVan- 
dalia seu primo com irmão e especial amigo: ho qual sairá com elle de 
Alemanha, c per hiima aventura se apartaram em França: onde sabendo 
depois este seu desafio: desejando acharse nelle pos tal deligencia que 
chegou a este tempo, por participar da gloria ou pena que ho primo sin- 
lisse. E assi lho requereo, pedindo também a Dorislão Dautarixa que 
tomasse companheyro, porque elle em nenhum modo se sairia do Liça 
sem ser parte naquella batalha, ja que lhe custara ho seu trabalho che- 
gar a tal sazão. Briantes que sabia ser Estremom ho mais estremado ca- 
valeyro de toda Alemanha, e esperimentado em negócios muy árduos: 
nam lhe pesou com sua companhia, antes creo que assi segu.rava ho seu 
partido. Porem disselhe que elle nam podia fazer naquilo mais que o que 
Dorislão quisesse: o qual dado que visse em Estremom desposição pêra 
recear, como era isento de todo temor, e mayormente em tal parte que- 
ria que em nada se lhe enxergasse fraqueza, disse que era contente se 
a el rey e aos juyzes parecesse bem. lio cavaleyro estrangeyro que ja 
disse estar junto da porta: entendido ho caso, em quanto ho elles trata- 
vam-: ávida licença de sua amiga pêra sor partecipante da contenda, aven- 
doo por ditoso acerto pêra se mostrar naquella corte: mandou per hum 
escudeyro recado a Doristão que elle era chegado daquella ora ali, e por 
os desejos que tinha de ho servir lhe ])edia quisesse aceytalo por 
companheyro naquella empresa, no que fazendo a vontade ao Duque 
IJriantes, a elle fazia assinada mercê, e inda que ho não conhecesse dali 
ho podia conhecer e aver por dos seus. Doristão Dautarixa que não tinha 
em tanto seus imigos que se cumprira ao serviço de sua senhora Lau- 
disea os não acometera soo, tal era a opcniam que de si linha vendo o 
liberal offerecimento do estrangeyro folgou aceitalo por lhe agradescer a 
boa vontado e atalhar a dilações, por o que com tal resposta e consen- 
timento entrou na paliçada com hum aar e continente que em sua ufania 
deu logo de si huma certa esperança a Dorislam, que tinha bom olho em 
conhecer os bons cavaleyros, pois el rey Sagramor não julgou menos 
delle, e passados seus comprimentos, os juyzes lhe partiram ho sol, e 
os esforçados cavaleyros tomando do campo ho necessário pêra se encon- 
trarem com fúria, correram huns aos outros (pianto os cavalos podiam, 
lio estrangeyro se enconli'ou com Estimou tle maneyiM que o levou aa 
terra: mas ho seu cavalo abrindo pellos peytos cahio com elle que muy 



DA TAVOLA REDONDA 279 

pi'estos se levantou, e levando da espada foy sobre Estriniom que o vi- 
nha ja a receber nam pouco indignado. Dorislão e Brinntes se encontra- 
rão que ygualniente forão ao chão, levando Briantes a lança metida per 
hum lado que lhe fez luima ferida ao longo da carne e elle tiroua logo, 
e jiuitandose am!)os das espadas travam antre si huma perigosa batalha. 
Ca todos eram esireniados cavaleyros e viãose em parle onde cada hum 
pretendia abalisarse, e deste primeyro acometimento andarão espaço de 
três horas sem tomarem algum repouso, desfazendo as fortes armas com 
a estremada força de seus braços, e antre elles não avia melhoria por- 
que nenhum a queria dar de si. Dorislão estava contento de seu com- 
paniíeyro, e assi el rey e toda a corte, e foylhe julgado a grande animo 
tomar assi hum cavaleyi'0 que não conhecia tendo yrmãos tani estrema- 
dos nas armas, e el rey Sagramor logo no encontro disse: bem cahio a 
sorte a Doristam dautarixa, os cavaleyros desque repousaram breve tem- 
po tornarão a sua profia com lliriosos ânimos: não querendo que se lhe 
enxergasse hum oução de covardia, e assi se combatiam com todo es- 
forço e destreza que punham espanto em quaiíjlos os viam. El rey Sa- 
gramor affirmava que não vira batalha tam notável, eja suas carnes sin- 
tiam asperamente as forças e vigor de cada hum: e os desejos de suas 
vontades, e avia juyzos que diziam que naquelle campo renderiam as 
vidas veridollie as armas desfeytas per muylas partes e tintas em sangue 
de suas feridas. Dorislão Dautarixa siníindose poralírontado reseslirlhe 
tanto hum cavaleyro sobre comqjitencia de sua senhora Laudisea, veyolhe 
hum novo furor com que disse em alta voz. Ali senhor eompanheyro não 
poupemos mais estes senhores. Ca não sey como somos julgados: Dizen- 
do isto fez que arremetia a Esírimcm e virou sobre Briantes com hum 
fendente per cima do elmo que cortandolho fezlhe huma má ferida na 
cabeça com que deu com elle de focinhos em terra: mas levantouse muy 
prestes. Estrirnom por açodir ao primo tomando a espada com ambas 
mãos vinha sobre Dorislão, e fezera lhe muyto daimo. iilas íio estran- 
geyro se meteo em meyo lomandoihe ho golpe no escudo, e foy tal que 
iho fez em dous, com huma grande ferida no hombro ezquerdo e fezHie 
poer hum gioiJio em terra: porem como era esforçado levantouse com 
iiuma estocada feyta com que encontrou Estrimom:emeteolha per huma' 
iliiarga hum grande palmo, e carregando quanto pode com ho corpo deu 
com elle de costas: caindo lambem de bruços sobrelle. Aqui foy Brian- 
tes por ferir ao estrangeyro. Mas Dorislão fezlhe hmn revés per huma 



280 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

coxa que qiiasi lha cortou Ioda, de que logo cahio sem se poder ter junio 
do estrangeyro, e não perdendo por isso seu animoso acordo laiiçoulhe 
os braços ao pescoço e liouse com elle, com que Eslrimom teve melhor 
azo de se levantar. Doiistão porem que não dormia lio levou tam pres- 
tes nos braços que antes que elle podesse fazer presa ho virou no ar, 
dando com elle em terra tam desenvolto: e com tanta força que lio em- 
baçou, saindolhe pela boca e narizes, e assi polias feridns ribeyros de 
sangue pisado: todos cuydaram que o matara: nem a Doristão leyxou de 
lho parecer: e tirandolhe logo o elmo: Eslrimom que era de grande ani- 
mo abrio os olhos com ho ar que lhe deu. Doristão pondolheaponla da 
espada diante, dis^elhe. Rendele animoso cavaleyro, não me obrigues 
fazer o que não queria. Estrimom lhe tornou, per-a que heja debater no 
que está tam craro, doume por vencido, e1io mesmo tinha ja feyto con- 
fessar ho estrangeyro a Briantes, que estava muy ferido: com que logo 
os juyzes vieram olferecer a Doristamho preço da contenda. Elle tomando 
ao estrangeyro pela mão, disselhe: Vinde senhor comigo, pêra que ve- 
jays quam gloriosas sam vossas feridas por a causa delias, e assi se fo- 
ram ao cadafalso em que Laudisea estava tam fermosa, que era entrar 
em outro raayor perigo ousar vela, porem deste estava forro ho estran- 
geyro por parte de sua amiga que a ninguém dava de si vantagem, an- 
tes a linha a muytas. O duque Doristam chegando ante Laudisea pos se 
em giolhos, dizendolhe Senhora os juyzes juigamme vencedor mas eu 
tenhome por vencido e vosso, se minha vitoria vos serve, a este cava- 
leyro day as graças, e a mim que mereça e possa servirvos, e sohrisso 
perca a vida que será ganhala. Laudisea levantandose muy desenvolta 
tomou Doristão pola mão, e com liuma grande mesura pedio ao estran- 
geyro que se levantasse. Deshi disse a Doristão. A Iam grande divida 
não tenho eu que fazer mays que enlregai'vos a satisfação que preten- 
deys e se vos deve. Dessoutro senhor me desobrigo convosco que me 
aceytais com meus encargos. Esses senhora, respondeo ho estrangeyro: 
lhe não determino eu quitar. Ca será ser pródigo, e quero nesta parte 
ser antes avaro. E eu disse Doristão, que sou muy contente de ser vosso 
devedor. Com isto deceranse pêra irem a el rey que os esperava. Ho 
estrangeyro disse a Doristão: que não podia nem devia jr sem lambem 
levar a sua companheyra, que lhe desse licença pêra a trazer: Elle lhe 
disse que ali ho esperava. Antre tanto mandou el rey recolher os Duques 
vencidos que estavam perigosos, e ho Conde Dranziler os levou á sua 



DA TAVOLA REDONDA 281 

pousada: onde lhes valeo a estremada cura que lhe fezeram. Vindo pois 
!io estrangeyro com sua amiga pella mão, tam fermosa como elle gentil 
homem, e passadas suas cortesias e comprimentos, chegaram ante el rey, 
que não festejou pouco lio vencimento deDoristão, fazendo também, es- 
ti-emadas honras ao eslraiigeyro: ho qual era ho esforçado Principe Flo- 
risbel das Baleares, que ja ouvistes como se apartou em Bayona de seu 
amigo ho cavaleyro das armas cristalinas: vindose pêra a corte dei rey 
Sagramor, a que chegou neste tempo que ouvistes, pêra que fosse logo 
conhecido por sua alta cavalaria. Assi que olTerecendo huma carta do 
cavaleyro das armas cristalinas a el rey Sagramor: elle a tomou com 
.grande alvoroço, lida a informaçam que lhe nella dava de Florisbel e co- 
mo lhe encargava e pedia que ho favorecesse. Em estremo folgou por 
todos os respeytos com sua vinda, e logo ordenou ho seu baptismo pêra 
ho dia que velassem ho Duque Dorislão Dautarixa, que assinou dali a 
hum mes em Orlians cidade de França assaz populosa. Mandando pre- 
ooar justas e torneos pêra os festejar, e alem disso fez Florisbel Duque 
de Ruão cora grossa renda, por favorecer seu bom propósito, e tam- 
bém por mosU'ar ao cavaleyro das armas cristalinas ho gosto que tinha 
•de suas cousas. Per modo que Florisbel ílcou muy contente da jornada, 
•etam confirmado na fe, que morreo depois por ella. El rey Sagramor 
favorecia em estremo os cavaleyros da Tavola redonda: por que flore- 
cesse a ordem, e fez do conto delles Aristandor que lho pedio, e assi 
Florisbel: o que nelles foy assaz bem empregado, e parliose logo pêra 
Orliens. Ho Duque de Saxonia e seu primo Estrimom partiranse como 
teveram desposição não muyto satisfeytos, e com determinação de ano- 
jarem a el rey Sagramor em tudo o que podessem: pêra o que foram 
per Putiers verse com Dagobert seu primo, com ho qual comunicando 
seu desgosto. Elle se lhe abrio, e deu conta de seus fundamentos, e el- 
les vista tam boa occasião pêra poderem satisfazer seus dannados dese- 
jos: assentaram antre si que se yriam a suas terras: e aprecebendose de 
gente pêra o que cumprisse tratariam o que adiante ouvireis. 

Capit. xUj. Como ho cavaleyro das armas cristalinas 
desencantou Celidonia. 

Muyta conta se deve ter com ho emprego da vontade: pois delia pende 
Ik) gosto da vida, e a mayor cousa que ho homem faz he entregarse de 



282 MEMORIAL DOS CAVALEmOS 

liiimn mollicr pêra lhe ser entregue, nem ha dita que chegue á de hum 
Amor conforme. Qual ho de Doristão e FJorisbel, e assi lhes sobejou ho 
contentamento que faltou atí cavaleyro das armas cristalinas: Ho qual 
entrando na rocha de Argançom, que como ja disse: era cavada na viva 
penedia, a quatro braçadas sahio em vista de hum orto, em tanto estre- 
mo primo que logo palrrava em sua prefeyção ser artificioso, e exceder 
todo outro natural, com huma melodia de di\'ersos passarinhos tam suave 
que poderam adormecer os sentidos muyto melhor que ho canto das 
Sereas: Na entrada do qual estava a estancia de Argançom, que era hu- 
ma casa feyta ao picão no penedo assaz triste e nogenta, onde se elle 
recolhia com a linda Fimbrisa, que ho senhor Deos milagrosamente quis 
salvar de affronta em tam certo e estranho perigo, e aqui avia huma ja- 
nela de grossas grades per que se via ho jardim, e entrava a claridade 
na casa, e bem vio ho cavaleyro das armas cristalinas que não linha ou- 
tra enti"ada senão aquella: e provando arrancar as grades não pode, por 
o que lhe foy necessário provar os fios da boa espada caliborna. Com 
a qual deu tais e tantos golpes que franqueou pela força de seu braço 
a entrada, cortando e desfazendo as grades: o que não foy possível a 
Argançom, que ho provou algumas vezes, porque não tinha a boa espada 
do cavaleyro das armas cristalinas: ho (jual entrando no orto per huma 
larga rua de altos aciprestes: a poucos passos vio vir per ella três selva- 
ges assaz espantosos com escudos e largos cutellos, e elles ardendo em 
fogos, que de si confino lançavam em rayos, como faiscas que saem. Aos 
quaes huma velha que parecia huma viva brasa: disse. Este cavaleyro me 
matay, ou ho ponde fora da rocha, se quereys que nossa obra dure: Os 
salvages ho tomaram em meyo e começaram servir asperamente: des- 
viandose com tanta ligeyreza de seus golpes que os não podia tocar: e 
soffreo ho cavaleyro das armas cristalinas hum estremado trabalho cm 
se defender e amparar delles. Ca ho carregavam de duros golpes, caso 
que ho não feriam: e tanto trabalhou nisto que por fim os desfez em 
sombras, hum e hum, tanto que lhes tocava com a espada Caliborna. E 
ficando muyto quebrantado da escaramuça não lej^xou de prosseguir 
sua empresa: indo pella mesma rua te chegar a hum tanque redon- 
do de largura de hum pique te ho meyo : em que tinha huma colu- 
na de pedra tam branca que parecia cristal, com humas veas pretas o 
coradas, era de grossura de dez braças, c de altura mais de cincoenta 
com muytas frestas per ella lavradas de rica pedraria; de alto a bayxo 



DA TAVOLA REDONDA ' 283 

se estilavam per ellas Iiamas grossas lagrimas de cristalinas agoas: qual 
ho orvalho das menliaãs de i\]ayo se mostra nas folhas do lirio, e cor- 
rendo a bayxo faziam ao pé huma clara e pura fonte que enchia aquello 
tanque assaz fundo, no qual andava hum temeroso drago, que ho cava- 
leyro das armas cristalinas logo conheceo ser aquellc ;era que Celidonia 
fora a Londres. E olhando pêra ho cume da coluna que era hum eyra- 
do, vio nelle duas donzelas que não conheceo, por estarem muito' altas, 
e liuma delias lhe acenou como que lhe dizia que sobisse a cima. Nisto 
foy visto do drago, e lançando fogos das ventaãs com que parecia abra- 
sar as agoas, veyose contra elle ferindoas com ho rabo, com tal impeto 
que as lançava per cima da coluna: das quaes elle nam sahia, e todo seu 
negocio era fazer querenças e medos: dos que ho cavaleyro das armas 
cristalinas fazia pouco caso esperandoho com muyto esforço, e desejoso 
de lhe chegar, nam podia com as agoas que lhe pareciam muy fundas: 
ho drago todos seus feros resumia em rodear a coluna, e trazer sem- 
pre os olhos promptos no cavaleyro que nam se sabia determinar com 
elle, e passada huma grande hora em que ho esperou: vendo que nam 
vinha contra elle assentou em se aventurar ao acometer a nado lançan- 
dose sobre ho escudo pêra que ho ajudasse a sosler sobre as agoas: 
remando com a mão ezquerda, e na dereyta levando a boa espada Cali- 
borna. Quando ho drago ho vio assi, dobrando sua fúria, começou com 
os dentes roer fortemente a coluna, e com as unhas rapava como que 
queria fazer nella cova em que se metesse, e com ho rabo movia muyto 
mais as profundas agoas, o que causou verse o cavaleyro das armas cris- 
talinas em muyto mayor perigo: ca ho traziam de huma a outra parte 
tolhendolhe surgir á vante aquellas ondas : como pequeno barco em 
meyo do Occeano pego movfdo de furiosos ventos, e correndo estre- 
mado risco de se afogar, e por chegar ao Drago immenso traba- 
lho, como per elle contino e proíioso tudo se acaba : pode chegar aa 
coluna a tempo que o Drago se tinha ja metido dentro nella sem 
aparecer nem aver sinal por onde elle entrasse: o que pos em grande 
confusam ao nosso cavaleyro, o qual nadando em torno da coluna por 
ver se achava alguma entrada, achou nella huma pedra em triangulo 
preta com humas letras brancas em latim que diziam. Se os fados pcr- 
mettirem ao cavaleyro das armas Cristalinas chegar aqui' por cobrar o 
o que lhe roubou a donzela do Drago, na sua mão trará o meyo de seu 
remédio, e o poder forrarse do perdido, se tever ventura no amor, co- 



284 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

mo nas armas. Ho cavaleyro lendo isto liuma vez sem entendelo, que- 
rendo tornar a leio, sinlio se tirar pellos pees debayxo dagoa muy rijo, 
por o que acudio muy prestes com lium golpe perfundo pêra alcançar 
quem pretendia affogalo, e tocando a espada caliborna na agoa, de im- 
proviso se somio toda, ficando elle lançado em hum prado verde todo 
de flores, pegado com huma porta de aço, em estremo luzente, per que 
SC entrava na coluna. Grande foy o alvoroço do cavaleyro das armas Cris- 
talinas cm se ver. livre do trabalho passado, e com azo de satisfazer seu 
desejo, por o que levantandose logo deu tal golpe pela porta que a fen- 
deo dalto a bayxo, per vertude da espada mandada da estremada força 
de seu braço, e abrindo assi a porta entrou em hum caracol per que so- 
bio, a pesar de quantas forças invisíveis lho defendiam, e soffreo estre- 
mada fadiga te chegar a huma camará, onde em hum estrado assaz rico, 
estava a fermosa Celidonia praticando com Tiresia, e junto delia jazia o 
grande Drago enroscado, com os olhos na porta. E vendo ho cavaleyro 
entrar encrespandose todo, e dando espantosos assovios, fez grandes 
mostras de ho acometer: dom Lucidardos que se via ante aquella senho- 
ra com que desejava abonarse sobre todo mundo arremeteo ao drago 
com tanto esforço, que bastara pêra desbaratar mayores monstros ver- 
dadeyros que aquelle fantástico, com lio qual leve ante Celidonia huma 
espantosa batalha, em que se ho cavaleyro das armas cristalinas estre- 
mou tanto, que Celidonia ficou maravilhada de seu animo, e por fim deu 
iiuma estocada ao drago pello coração que lho passou, e de improviso 
dando hum estalo como de grande trovão, desapareceo em fumo. E á 
hora começou tremer aquella coluna em tanto estremo, que as donzelas 
tí ho cavaleyro não se poderam ter em pé. È ho fumo era tam espesso 
que não se viam. Mas parecialhe ao cavaleyro das armas cristalinas, que 
não perdeo ho acordo por vertude da espada Caliborna, que se desfazia 
aquelle edificio: pouco e pouco somindose pêra bayxo, e assi foy, le que 
se arrasou e soverteo. Do maneyra que não ficou sinal delle, e gastan- 
dose também o fumo, elle se achou no verde e florido prado sem pare- 
cer cousa de quantas antes ali vira : salvo a penedia que cercava ho si- 
tio. Celidonia e Tiresia jaziam como mortas sem algum acordo. Que foy 
pêra ho cavaleyro hum mortal accidente, e mayor perigo que lodos os 
passados: E chegandosc a Celidonia, lomouha nos braços, com os olhos 
cheyos de lagrimas, dizendo. Tesouro do meu Amor, cavado com tanto 
trabalho nesta mina, se a fortuna invejandome tanto bera me fez tanto 



DA TAVOLA liLDONDA 285 

mal que vos roubou a vida, nunca a eu terey contento, se a troco 
da minha, ou á força de mortais perigos a vossa se pode lestituir. Eu 
serey satisfeyto de peregrinar mais que Ulisses, e passar per muytas 
mais afirontas que Hercules, revoguem os fados Iam injusta sentença, o 
condenem ao sem ventura: que sem vos não tem pêra querer a vida. 
Nestas e outras magoas estava lio cavaleyro das armas cristalinas sens 
Celidonia acudir a seus gemidos; e elle não sabia o que cresse temendo 
tudo lio peor, e vindolhe á memoria a vertude da sua espada, por lhe 
nada iicar por tentar tocouha com ella. Celidonia á ora tornou cm si 
acordando do longo sono, e dizendo. Ay donde estou. lio cavaleyro das 
armas cristalinas a pos em pé, e disselhe. Não temais senhora que não 
lia aqui senão quem moura por vos servir. Celidonia lhe perguntou por 
Tiresia, ho cavaleyro a foy logo tocar com a espada e de improviso acor- 
dou. Deshi tirando ho elmo foyse poer ante ella emgiollios, dizendolhc. 
Senhora se fica mais por fazer sobre vossa liberdade, manday, que eu 
não quero vida senão pêra vos obedecer. 'Celidonia ho levantou pellas 
mãos, e feyta sua cortesia hum ao untro: ho cavaleyro mais pejado que 
desenvolto, de infruido naquella fermosura que ho trazia abrasado: ne- 
nhum sintido tinha fora do que via. Nada lhe pesou a Celidonia conhe- 
cer este enláyo como discreta e muy sagaz que era, e disselhe. Senhor 
cavaleyro das armas cristalinas tendes feyto tanto por mim, que não me 
leyxastes nem esperança de vos poder satisfazer cm parte. Porem se 
vontade se toma em preço no que as obras não podem suprir: A minha 
tendes Iam certa pêra cousas de vossa honra e minha que tudo vos ja 
mereço. Minha may desejosa de me poupar a vida meteome nesta pri- 
sam, onde tive os passatempos que podia desejar. Mas sem liberdade 
todo gosto ha aleyjado, e assi ho não tinha eu, nem da vida. Esta foy 
a causa que me obrigou trabalhar trazervos aqui des que soube que vos 
tinham os fados prometido meu remédio, pêra o que vos penhorey em 
Londres, ou vos roubou a minha figura: por tanto j,a que mo podeis dar, 
tirayme daqui, porque acabeis ho começado: elle lhe tornou. Seja se- 
nhora ho vosso cuydado mandarme. Ca ho meu desejo he obedecervos. 
E contoulhe como linha morto ho gigante Argançom, e ho mais que ou- 
vistes, por onde a sua sayda daquella rocha ficava franca. E a este tem- 
])o )io príncipe dom Selvagio vendo passada a mayor parte do dia sem 
ho cavaleyro das armas crisialinas aparecer, aventurouse a entrar na co- 
va, e vendo a cousa tani desembai-acada voltou fora c vcvo com Fim- 



288 MEMORIAL DOS CAVAI.EHIOS 

brisa, o lio Centauro que se tinha mal na perna, e Calidio. Tiresia foy 
logo agasalhai* ho Centauro que folgou m.uyto vella: inda que mais sa- 
tisfeyto estava do parecer de Fimbrisa: porem quando vio Celidonia fi- 
cou maravilliado: nem ella se espantou menos de ho ver, e polo que lhe 
Tiresia tinha dito deite, fezlhe hum brando gasalhado, que elle estimou 
em muyto, e tomoulhc grande affeyção: nem a sua gentileza perdia jur- 
dição nos brutos. As duas princesas se receberam com grandes compri- 
mentos e mcguices nobres: passado este alvoroço e as meudezas dos tais 
tempos. lio cavaleyro das armas cristahnas mandou logo Calidio a Vito- 
ria buscar armas pei-a ho Pi'incipe dom Selvagio: e cavalos e PalatVens 
e antre tanto passaram ali o que restava do dia e a noute: velando a 
mayor parte delia em branda pratica. E neste tempo cuydou Celidonia o 
que llie cumpria pêra segurança de sua vida, e sabendo como em seus 
fados estava escrito que Dricamandro de Honda lhe seria causa de de- 
sastrada morte antecipada, lemcose delle tomandolhe mortal ódio. isto 
liie fez recear yrse á -corte dei rey Muleyzider seu pay, por a palavra 
que tinha dado a clie e a Muleyzibar rey dos Getulos, quando os man- 
dou ao horto das Esperidas, por o que determinou pedir ao cavaleyro 
das arm.as cristalinas, que a levasse â corte dei rey Sagramor. E dalsi 
faria o que lhe a ventura ordenasse, ca sua determ/inação era correr ho 
mundo, te achar cousa que a satisfezesse. Porque esta foy a dama mais 
altiva de condiçam que se vio. E a que em menos teve toda outra ope- 
nião a respeyto da sua. Per modo que tinha este estremo ygual ao da 
fermosura, e ambos lhe acanhou a fortuna, como aquella que espreyta 
sempre openiues humanas. E quanto mais se Cehdonia receou delia, 
tanto a avisou de si. Ca nossos receyos nunca poderam empedir as sortes 
dos fados: antes parece que nos llie buscamos os azos quando lhos que- 
remos tolher. Tal foy esta formosa dama que nam se obrigando ao Amor 
do cavaleyro das armas cristalinas de que sabia certo ser muyto amada, 
nem ao muyto que por ella tinha feyto, cuydou cm como ho traria em 
vaãs esperanças, pêra que cevado ncllas lhe fezesse a vontade, que lhe 
ele sem cautelas fezera, como quem nam tinha outra, c foy ho mais 
sogeyto cavaleyro a esta pnyxam amorosa que se vio em seus tem- 
pos e muytos depois: assi que tomandoho pelas mãos cora mostras de 
muyta affeyçam, apartada com elle, dissellie. Cavaleyro das armas cris- 
tahnas: antes que venha ao que vos queria requerer: a primeira cousa 
que de vos quero lic saber vosso nome, c nam mo negueis se me não 



DA TAVOLA REDONDA * 287 

quereis lirar a esperança do mais, e nssi quem sois. Elle que nada liie 
soubera negar-, disseltie que era filho de dom Tristam de Leonis e da 
sua amada íseo: o chamavase dom Lucidardos. Com islo mostrou Celi- 
donia muito contentamento, e tello em muyto mayor estima. Ca rauy 
nomeado era Tristão de Leonis em todas partes, assi nas armas como 
por sous estremados amores. E do nacimenlo de do!n Lucidardos adianto 
se dirá. Celidonia perseguindo disse: Tratar da obrigaram em que vos 
sou ey por desnecessário, porqne cousa que obras não podem siiiisfa- 
zer: menos a podem palavras ponderar: he tam grande a minha divida 
que tira a confiança da satisfaça.m, e portanto como entregue nesta [)arle 
passome ao que me agora cumpre, no que vereys que nam determino 
servos ingrata, eque he de bom spiritu querer dever mais a quem muyto 
se deve, e vos senhor também me sois obrigado a não me desemparar- 
des. Ca seria perder o gaynhado: o que nisto determinais queria também 
saber antes que vos diga minha determinaram. Senhora, respondeo dom 
Lucidardos: des que me fezesíes tam ditoso que vos entregastes da me- 
lhor parte que em mim tiaha, logo me ouve por vosso pêra não querer 
mais vida que servirvos, e se quereis qiie meu serviço careça da espe- 
rança do descanso do meu desejo, eu me satisfaço em ho assi empregar. 
Ca dado qise a fortuna me negue a gloria de meu pensamento: pêra con- 
vosco não me pode lirar a de ser vosso: somente vos peço quando me 
julgardes indigno do vosso remédio que me façais digno da vossa pie- 
dade, o que me tirardes da esperança daymo de esforço pêra que não 
moura desesperado, ja que vivo de vos servir, que eu vos empenho mi- 
nlia fé que nenhum inconveniente mo tolha. Agora ordenay vos senhora 
co[ao quereis que seja: que eu não espero mayor dita que fazervos a 
vontade. Porque eu isso creo, lhe tornou Celidonia, nenhuma duvida te- 
rey de vola declarar. Muyto bem vejo senhor dom Lucidardos quanto se 
ganha em vos, e não sou tam pouco cobiçosa que vos queyra perder, e 
também entendo que mereceis tudo o que por vos se pode fazer. Con- 
fessovos que vosso merecimento ha de ser grã parte pêra me eu aforrar 
convosco, e não me baratar sem tempo. Ajuntase a jsto presomir de vos 
que soys Iam intcyro que vos não tornareis mouro, inda que vos queyra 
obrigar, nem ousarey cometervos tal. K eu pelo conseguinte ser cristaã 
não determino fazelo ieveuienle. Ca nas cousas de peso a determinação 
deve ser espaçosa, c se vos parece que me podeis forçar ao que não 
devo: nenhuma cousa sintirey tanto como lerdes de mim Iam falsa ope- 



288 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

nião. lio moyo dislo he se quiserdes levarme a França e Ingralerra, pen? 
que eu vej;i as cousas desses reynos, ha de ser com me dardes vossa 
palavra e fé de não sairdes do que eu quiser, porque na hora que de- 
terminardes, ou presumirdes lio conlrayro me perdereis sem alguma 
duvida. Se vos isto não arma: dizeymo logo, não terey depois :le que 
me queyxar, o (arey outro fundamento. ííe tam grande bem, disse dom 
Lucidardos, obedecer ao que me mandardes: que não sey se ouse espc- 
]"ò\o: porem supra a fé no que ho enlendimento não alcança, per França 
o per todas as Provincias do mundo sou contente seguirvos. Ca muyío 
bem sey que não se pode ganhar facihnente o que natureza dá tam ca- 
ro: como a rara fermosura de que vos dotou: por cujo respeito eu es- 
tou prompto a decer ao abismo se cumprir. Mais difficil vos será ho 
mandar que a mim ho obedecer. Compri senhora com vossa condição no 
que de mim oi'denardes, e coniigo em não aceytardes outro Amor nem 
outro serviço, e eu me dou por satisfeylo. Nisso (lhe tornou ella) ho 
tempo vos dou per testemunha, e quanto agora estimo essa vontade con- 
forme á ininlia: ao diante ho síntireys, e pois he assi ordenay vos a par- 
tida que a vos me entrego: pêra que nos vamos desta terra antes que 
se sayba de nos. Per modo que concertados dom Lucidardos e Celidonia 
desta maneyra: e communicando a partida com dom Selvagio, esperando 
a vinda de Caiklio, que não pode vir: salvo ao segundo dia: mas traxia 
aviado tudo o que cumpria pêra sua jornada: cavalos pêra os cavaleyros, 
Palafrens pêra Fimbrisa e Tiresia. Ca ho Centauro se offereceo a Celido- 
nia, achandose ja melhor da perna com a cura que Tiresia fez nelle na- 
quelles três dias que ali esteveram, e assi trazia armas pêra dom Selva- 
gio. Apercebidos pois pêra sua jornada: entraram nella com a mayor 
presa que lhes foy possível, por se sayrem de Espanha antes que el rey 
Muleyzider soubesse delles, e aquelle dia foram dormir ao Porto dos 
Centauros, desviandose de Vitoria: onde viram os que dom Lucidardos 
matou com não pequeno espanto do Príncipe de Bohemía: avendo por 
não menor façanha está que a da morte de Argançom: Pois Celidonia não 
licou pouco vaã gloriosa por ho senhorio que tinlia em Iam estremado cava- 
leyro. Mas este conhecimento não bastava obrigala fora da sua openião, e na 
verdade era ella tam prima assi na fermosura como no saber e todas suas 
partes, que não foy muylo desprezar tudo ante si: nem também dom Lucidar- 
dos tinha pouca rezam em lhe ser tam affeyçoado como foy: porque alem 
da força do encantamento que ho primeyro obrigou teve elle huma pura 



DA TAYOLA REDONDA 289 

descrição e-hum jdyzo muy claro com que sabia comedir e entender quanto 
se devia á perfeyção de Celidonia: e da maneyraque a contemprava a amou 
em taííto estremo que claramente parecia sostentar a vida desta contem- 
pração, e não pretender mais que viver delia, e ja poderá ser que lhe 
valera mai6 ser activo, porque molheres não se armam senão contra quem 
as estima, por conservar parece seu preço e apurar nosso soíTrimento. 
Tal era lio esforçado cavaleyro das armas cristalinas naquelle amoroso 
furor que de nosso juyzo nos desnatura: entregue todo seu contentamento 
e descanso á vontade de huma molher: sem ja nunca em conhecimento 
de tal servidão, ou de tal Amor a obrigar: antes sempre tam isenta quanto 
ho conhecia mais sogeyto, injusta iey delias: forte immiga nossa: diffe- 
rentes pois assi na tenção ambos, e em conforme companhia: tanto pode 
a teyma de huma molher d^samoravel contra hum homem vencido, tal 
he seu costume: tal nossa obediência, caminharam per Bizcaya te que 
entraram per Gasconjia sem lhes aquecer caso digno de memoria, inda 
que alguns escritores affirmam que teveram na arraya hum recontro do 
immigos, que presumiraqp aíTrontalos, e foram desbaratados. Foroneus 
I)assa por isto: como per pequeno aquecimento arespeyto doutrosaquo 
estes príncipes deram vitorioso lim. E leyxemolos seguir via da corte. 
Ga cumpre acodir onde nos a historia chama. 

Capitolo xliij. Em que Corisanda conta a obrigação 
que os Donzeis^ tem de' seus avós. 

Muytas culpas ouve no mundo de homens graves, que dado que nam 
se louvem nem devam siguir muytas vezes tirou delias a suma provi- 
dencia por sua bondade louvado fi^uyto: não ficara por isso os autores 
delas desculpados: Mas he louvada a divina abelidade que de males fru- 
tifica bens: Uonde se culpamos dom Lucidardos por seguir seu Amor 
vão: louvemos o autor do bem, que de seus trabalhos culpados tira tam 
heroycas e louvadas obras pêra exempro da animosa cavalaria, de que 
lambem se segue outro: de cujo vicioso principio socedeo huma grande 
seara de vertuosos effeytos. Ca como ja dissemos: tendo Fidomílor a vi- 
gília na hermida: como foy menhaâ disse ho sancto hermitão Missa, a 
que sacramentaram Fidomflor e os donzeis que se confessaram ante me- 
nhaâ, c com muyta devaçam olTereceram ao summo senhor seus cora- 
ções humildes em Amor e servidão. Preparação que lodo Chrislão devo 

19 



290 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

ter em toda empresa se delia quer sayr com bom fruyto. E acabado 
este aiilo: entraram no de sua proíissão, em que Fidoniílor fezaosdon- 
zeis huina breve e copiosa pratica, declaivandollies as obiigarões da or- 
dem .que professavam, os galardões da verlude e a pena das culpas, o 
que as amigas jrmaãs festejavam com muytas lagrimas, e armaudoos ca- 
valeyros: ellas líie dera as espadas cada biima a seu amigr». Acabado isto 
jantaram em companhia do liermitão com muyto gosto de todos: feste- 
jados de musica, heshi sobre .mesa disse Corisanda conlra Fidomflf)r. 
Agora senhor que ja tendes salisfeytos os desejos destes cavaleyros No- 
véis: vos quero conlar a nossa necessidade desta senhora e minha, cujo 
remédio loniara que vos poderá ser tam fácil: mas não soy. 

Averá duzentos e lanlos annos que da ilha Gravisanda que he mny 
perto desta Gocia em que agoi^a estamos: foy senhora Corisanda, a qual 
vaãgloriosa de sua ferraosura: teve compilencia com Dragonisa senhora 
da ilha Liconia sua comai'caã e vieram ordenar hum torneo, dando cada 
buma da sua parte cem cavaleyros: com tal que a vencida ficasse sogeyta 
ao vencedor, e ho cavaleyro que abalisadamente se estremasse dos ou- 
ti'os: per cujo esforço parecesse ganharse a vitoria, fosse senhor da se- 
nhora vencedor. Aquecendo pois vir dom Florestão de Gaula ho bom 
justador a este torneo: a que veyo a ílor dos cavaleyros de toda l^oma- 
nia. E sendo por sua alta cavalaria aparte de Corisanda vitoi-iosa: Ella se 
ouve por satisfeyta em se lhe entregar vencida. Não sey porem se lhe 
- fora melhor nunca ho ser: pois avia de logralo tam pouco tempo, mas 
estes foram sempre os gostos damor cansados e breves. Dragonisa licou 
lhe pagando tributo cada armo: dado que atTirmam escritores que era 
miiy!o mais fermosa que Corisanda: mas nam tam desenvolta e aprazí- 
vel. E socedendo pois vir ali ter dom Galaor de Gaula em cata de dom 
Floresião, com que ouve batalha; e por fim se conheceram porjrmãos; 
Ao tempo em que dom íloreslão inda estava em cama das feridas que 
ouve na batalha que teve dom Galaor; lio Gigante IMadanfabul veyo so- 
bre n ilha Liconia com tenção de se senhorear delia e da senhora. Dra- 
gonisa fazendose forte em hum castelo que linha em huma rocha sobre 
lio mar; mandou com toda pressa recado a Corisanda pedindolhe que 
lhe socorresse em breve; porque antes se leyxaria morrer que entre- 
garse a hum monstro da natureza, e nella não avia poder resislirlhe 
muyto tempo. Corisanda praticando com os dous jrmãos sobre este so- 
corro. Dom Galaor disse, que pêra contra lio Gigante Madanfabul elle só 



DA TAVOLA REDONDA 291 

bastava, e que estimaria miiyto soccorrer a tal donzela; por o que que- 
ria logo parlirse a desafialo segundo era obrigado per sua profisam, e 
antro tanto se podia fazer gente na ilha Gravisanda; a qual. seu jrmão 
dom Florestão levaria achandose em desposição, ou lha mandaria; sendo 
caso que ho Gigante levesse occupada a ilha, e não quisesse per sua pes- 
soa averiguarse com elle. Pêra o que elle mandaria logo recado do que 
pasasse, e, quiçá se escusaria. Com esta determínaçam se partio dom 
Galaor logo sem consinlir a dom Florestão que ho porfiou yr com clle, 
assi que posto cm huma fusta com a donzela que trouxera ho recado fa- 
vorecidos do tempo, foram amanhecer ao porto da ilha Liconia em quí3 
estava o castelo de Di-agonisa, ho qual tinha serventia pêra ho mar sem 
se lhe poder tolher, e da banda da terra estava ho Gigante Madanfabul 
cojn alguns dozentos homens de peleja, e nara pouco confiado que só 
elle bastava pêra mayores empresas. Desembarcando pois dom Galaor, a 
gentil Dragonisa veyo á porta do castelo recebelo cuidando ser dom Flo- 
restão, mas sabendo da donzela quem era e vendo juntamente apostara, 
íicou tam namorada delle, que logo tomara verse antes sem estado com 
dom Galaor que velo posto naquelle perigo. Tam liberal he ho verda- 
deyro Amor que tudo solta, e nada estima a respeito de si mesmo. Dom 
Galaor vendo Dragonisa como era convinhavel e desenvolto antes envolto 
nestes negócios, não fez pouco fundamento delia per modo que receben- 
dose ambos com amorosas coitesias, e dizendo a donzela á sua senhora, 
que Corisanda lhe mandava aqueUe cavaleyro em lugar de dom Flores- 
tão ho qual se ficava fazendo prestes pêra se fosse necessário, Dragonisa 
tomando dom Galaor pella mão disse. O socorro he tal e de tanto preci» 
(]ue ho não tenho eu pêra merecelo, por ho que ja tomaria por melhor 
não aventuralo, Dom Galaor lhe respondeo gaynhase tanto em tudo o 
que se perder por vos senhora servir que ho aventurarse nisso aules 
perderse a vida fica em obrigação forçada. E quem sem vos ver se ofíe- 
receo aa que desta força era obrigado, julgay se ficará vendovos mais 
penhorado pêra tei' e crer que he inuyto pouco tudo oquefezemvoss;» 
serviço. Doume (disse Dragonisa) por vencida das 4'ezões porque as não 
posso ter tendo Iam pouca por mim: Antes cuydo, tornou dom Galaor, 
que de a terdes toda por vos senhora as aveis por escusadas. Mais escusado 
(repricou Dragonisa) será querer vencer quem he vencido. Nam he novo 
(disse dom Galaor) serem a vezes os vencidos vencedores: mayormenle ten- 
do por si a justiça que a vos senhora sobeja. E indo nestas praticas e 



292 MLMORIAL DOS CAVALEIROS 

noutras ja no castelo: disseranllie qne estava á porta hum recacte de M'a- 
(lanfabul: ho qual lhe mandava dizer, que como desejava muyto mais ser- 
vila que anojala: não tinha combatido ho castelo:, esperando que vies-sc 
ella em conhecimento do que lhe elle' merecia, e se lhe entregasse por 
Amor, antes que esperar as obras de sua sanha: mas porque lhe disse- 
ram que recolhera no castelo hum cavaleyro estrangeyro:: cousa incom- 
patível pêra Amor, e muyto menos pêra sua condição, lhe pedia que 
logo lho mandasse, pêra saber delle o que pretendia, e elia tomasse ter- 
mo pêra se render, porque ho não obrigasse a executar ®m toda a ilha 
os eíTeytos da sua yra. Dom Galaor ouvindo» 1m) recado, disse a Drago- 
iiisa: que lhe desse licença pêra responder, ella tornoulhe. Como senbor 
aqui entrastes: logo fiquey sem voz e a vossa obediência: por tanto só 
isto me leyxay dizer Deshi fazey de mim e de tudo o que ordenardes. 
Com isto mandou dizer a Madanfabul, que pois elle ja sabia do cavaley- 
ro que era entrado, soubesse também que com elle ho avia de aver, que 
ella não podia fazer salvo o que lhe ho cavaleyro mandasse, e dom Ga- 
laor disse. Dizey a Madanfabul que se elle se preza tanto de servidor da 
senhora Dragonisa: não lho deve mostrar cora obras de inimigo, e por- 
(jue ho eu sou de quem quer que presomir offendela: lhe mando que 
se saya logo da ilha, e não ho querendo fazei?, ho desaSo pêra da minha 
pessoa á sua lhe fazer conhecer, que mais he cobiçoso tyrano que ver- 
(ladeyro amador, e segurandomc' ho campo logo sou com elle, com este 
recado se apurou ho gigante, de maneyra que parecialhe sayrlhe fogo 
[lolos olhos e ventaãs, não, tendo soffrimento com ouvir que hum cava- 
leyro só se atrevia a desafiato, a que com huma bruta^ fúria mandíou logo 
ho seguro: jurando per seus Ídolos e votandolhes rendelo do primoyro 
golpe de lança ou espada, e tomalo vivo ás mãos pêra lho assi sacrifi- 
car: pêra o que mandou que lhe tevessem prestes á fogueira. A gentil 
Dragonisa ouvindo isto ficou traspassada do temor que Amor e sua de- 
licada natureza nella gerou. E pedio a dom Galaor que esperasse por 
dom Florestão, e com elle juntamente daria batalha a Madanfabul. Ca 
ofierecerse só a se matar com hum monstro nam lho compadecia a al- 
ma. Elle respondeolhe. Por essa desconfiança que de mim senhora mos- 
traes: vos quero eu mostrar quanto mais pode comigo e por mim ho 
desejo de vos servir favorecido de vosso Amor, por tanto pondevos onde 
me vejaes, e vereis quanto sou mais- certo das obras que Madanfabul em 
suas palavras. Finalmente que dom Galaor leyxadas as fraquezas de Dra- 



DA TAVOLA REDONDA 293 

gonisa que lhe seu animoso esprito não soffria sahio ao campo em hum 
poderoso cavalo que lhe ella mandou dar fazendose força por lhe obede- 
cer: mas primeyro ordenou e fez prestes a gente de armas que avia no 
castelo: porque se caso fosse que lhe ho Gigante nam mantevesse ho se- 
guro, lhe soccorressem sendo necessário. Sayndo pois dom Galaor, e 
Dragonisa posta antre as ameyas toda traspassada de mortaes receyos, 
Madanfabul lhe veyo logo ao encontro com algumas palavras soberbas 
das que dom Galaor fazendo pouco caso, enrestou a lança muy destra- 
mente, e correo a encontralo, e foram taes os encontros que se deram, 
que dom Galaor lhe meteo a lança polo coração saindo da outra banda 
'Inim grande covado, e ho gigante fazendo ho encontro bayxo : tomou- 
ihe ho cavallo polo pescoço e varou a lança pola cernelha per antre 
lio arção dianteyro, e passoulhe as entranhas: dando com elle morto so- 
bre dom Galaor-, que todos cuydaram queho matara; Ao qual encontro Dra- 
gonisa também cahio esmorecida nos braços das damas que os cercavam. 
Dom Galaor se íevsntou logo: inda que com trabalho e muy pisado, e 
levando da espada vio diante si ho gigante morto levado a rasto de seu 
próprio cavalo; As 'donzelas de Dragonisa dan^dolhe com muyla agoa no 
traspassado rosto; a tornaram em si tam quebrada que parecia não ter 
cspritos; mas recebrouos com lhe dizerem que visse hoseu cavaleyro vi- 
torioso com ter morto ho gigante do primeyro encontro; do que ella fi- 
cou Jtam contente que pareceo resuscitar, e pondose logo antre as ameyas, 
vio que correndo ho cavalo de Madanfabul com elle a rasto contra a sua 
mesma gente. Fey tal a magoa que os seus receberam que arremeteram 
lodos por matar dom Galaor com grande grita. Elle pondose antre ho 
seu cavalo morto esperouos com seu escudo embraçado e a espada fey- 
ta, a gente do castelo não foy descuydada em lhe socorrer, e deranlhe 
hum cavalo a tempo porem que elle estava agarrochado de lançadas co- 
íiio touro e não pouco ferido; mas pondose a cavalo como estava ma- 
goado, deu nos immigos; segundo dá ho lobo em fato de ovelhas; e aju- 
dado da gente do castelo em pouco espaço os desbaratou; matando dos 
dozentos que eram, os cento e os outros rendidos. Os do castelo se en- 
tregaram do despojo; e dom Galaor se recolheo assaz cansado; ho como 
foy recebido de Dragonisa não se pode parlicularizarjulgueho quem sabe 
os mimos do puro Amor, e desarmado per ella e curado com aquelle 
resguardo que a muyta affeyção tem no que muylo estima; mandaram 
logo recado a dom Florestão que nam se bolisse porque tudo estava se- 



294 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

guro, e em poucos dias esperava acharse em desposiçam pêra se jr pêra 
elle, o que dom Galaor assi ordenou, porque vindo dom Florestão nam 
!he pejasse seus gostos, e elle que ho entendeo assi ho fez por lhes não 
.'! talhar, per maneira que curado dom Galaor com toda deiígencia e cuy- 
dado de Dragonisa, como aquella que lhe entregou ho coração mais de 
pressa do que lhe cumpria, e de vagar chorou despois as magoas desta 
culpa, porque raramente levou molher nenhuma ho melhor de homem 
a que se entregou levemente, tal foy Dragonisa que eníregandose a con- 
versação de dom Galaor, tanto que elle foy saão per espaço de hum mes, 
ella ficou prenhe de huma filha e nunca- mais leda de saudade, e elle par- 
íiose tão livre como ho costumava ser nestes negócios, e indose pêra 
dom Florestão acahou com Corisanda que í)or amor delle levantasse ho 
tributo a Dragonisa. E assi se partiram os dous valerosos jrmãos pêra 
Sobradisa em cata de Amadis de Gaula seu jrmão, leyxando suas ami- 
gas penduradas da esperança que lhes derão de tornar a velas cedo. Dra- 
gonisa com a emprenhidam e ho desejo de quem a poséra naquelle tra- 
balho vivia mufío mal desposta, Corisanda de impaciente da sua dor 
foy depois a Bretanha ver dom Florestão, e de lá veio prenhe delle, g 
vind'o assi achou Dragonisa morta de parto com leyxar huma filha em 
estremo fermosa, Corisanda a recoiheo o- criou como própria, e soceden- 
do parir outra filha de não menos fermosura antes ygual, as criou como 
filhas de taes pays. E vindo a ydade de cas^ir mandou os retratos delias 
per os reynos da Christandade, dizendo que ho cavaleyro que preten- 
desse casar com qualquer delias, e em dote sua ilha a cada huma, avia 
de vencer hum lorneo como dom Florestão fezera. Sendo, pois ho pre- 
mio de tal preço, acodiram muytos cavaleiros aa empresa; antre os quaes 
vicrão dous muy estremados, hum delles per nome dom Dolindos de Es- 
cócia filho segundo de Agrajes rey delia, ho outro ta-mbem filho segundo 
de dom Bruneo de bonamar chamado xMelisando de bonamar, os quaes 
sendo ambos muyto amigos e niuyto esforçados, erão juntamente tam 
enfermos da payxão do Amor como seus pays ho forão.E vendo as duas 
damas, que se chamavam a filha de dom Galaor, Gaíorisa de Gaula; e a 
de dom Florestão Floristana de Gaula; namorouse dom Dolindos da pri- 
meyra, e Melisando da segunda, Iam vencidos (jue ouverão por leve todo 
perigo que tal premio prometia, vieram pois a este torneo muitos prin- 
ci[)es da Romania, c outros senhores nam menos notáveis nas armas que 
nos estados, foy feyta huma paliçada gi-ande, toda a roda de varandas 



DA LAVOI-A REDONDA 293 

que SC armavão da banda de fora, e ho dia delle poserãose a gentil Ga- 
lorisa cie liurna banda em bum alio cadafalso que viíiha sobre a poria, 
per que os de seu bando entravam, cuberlo todo de panos de borcado. 
E da outra parte em oulro do teor, a linda Floristana, ambas com tanto 
resprandor.de sua gentileza que pareciam as duas estrellas dos poios, 
fronleyras buma aa onlra. E postas ellas neste aparato, a senbora Cori- 
sanda, mandou lançar bum pregão per bum rey de armas que lodo ca- 
valeyro que pretendesse ganhar qualquer delias, se posesse do seu ban- 
do, e fossem poucos ou muylos lio deffendesem contra bo oiitro, dado 
que lhe tevessem vantagem. Foi pois assi que seguindo cada bum seu 
desejo, ordenou Deos como de pi'Oposito, que saíssem igualmente tantos 
de buma parte como da outra, e entrando desta maneyra no torneo, e 
os dous amigos bum contra outro. Aquelle dia, e dous seguintes os 
despartio a noute sem vantagem alguma, por bo esforço dos dous ami- 
gos que parecia lerem em peso ygual a LKJlalha, e esiremavanse larn co- 
nhecidamente de todos em suas proezas, que nam avia cavaleyros que 
lhe negasse vantagem, no cabo dos quaes dias, todos os aventureyros se 
acharam Iam feridos e quebrantados, que ao quarto dia nenlium veyo 
ao campo- salvo os tlous amigos, aa que amor parece renovava bo alento 
pêra não se renderem ao trabalho, elles achandose soos, e desenganados 
de nam virem, outros aventureyros, como ateli não se tinham encontrado 
no torneo por respeyto de sua amizade, ficarão indeterminados no que 
devião fazer, por o que assentarão em mandar saber da senhora Cori- 
sanda, que lhes mandava. Ella desejosa de ver se tinhão vantagem bíun 
ao outro, mandoulbes dizer que ho preço não se gaynhava se não per 
contenda e sabido isto podiam fazer o que lhes a vontade pedisse. Os 
cavaleyros desta resposta entenderão logo que lhes era forçado ter ba- 
talha ambos, ou desistir da empresa, a grande amizade e parentesco ler- 
çava por paz, ho grande amor sôfrego e impaciente pedia gueira, ollia- 
vnnse bum ao outro, a razão não lhes sofria ferirse, olbavão pêra as 
damas, ho coração não compadecia pt-rdelas, e bem creyo que se ncilas 
estevera a composição da contenda, que sem ella se lhe entregarão de 
boa vontade, linalmente os cavaleyros determinaranse em combaterse. 
Dizendo (pie pois amor tudo vencia, razão era que posposessem toda 
outra a elle, per maneyra que teveram batalha antre si soos, e tal que 
durou bo dia todo, e no cabo delle andavam ja tam feridos que nelles 
não avia esperança de vida, antes se cria que ambos a perderiam, e viu- 



296 MEMORIAL DOS CAVALKinOS 

do a braços de desesperarem vencerse, quis aboadiladeMelisando,qne 
fazendo dom Dolindos força com os pés em linm seixo liso. foransellie, 
e escorregando cahio de focinhos ante Melisando ho qual lambem cabio so- 
brelle. E lais estavão de cansados, e do muyto sangue que lhes tinha saydo, 
que não se boliram ficando Iam traspassados como mortos: A senhora 
Corisanda a este tempo vinha ja por desparlilos com as genlijs damas, 
e outra companhia. E tirando Melisando de sobre dom Dolindos, Floris- 
lana lhe tirou ho elmo, e ho borrifou com agoa de cheyro no rosto: Ao 
(pie elle logo tornou em si, e pregando nella os olhos, parece que tomou 
novo esforço: e disselhe. A vida senhora eu a dou poys se vos deve: tra- 
tay de me salvar a alma, que tudo podeys. iMas tudo farey lhe tornou 
ella, como vos cumprir, tratemos agora de vossa saúde, que sobre tudo 
me importa. Des hl mandou levalo em braços de homens. Dom Dolindos 
também espertando a outro tal beneficio deGalorisa, vendoaantesi, disse 
lhe. Ia senhora que me resuscitays ávida, nam me mateys a alma: e se 
não moura tudo juntamente. Ella lhe tornou. Vivo em tudo vos quero 
eu, e a isso venho. E mandou leralo pelo mesmo modo. Mas os cava- 
leyros que estavam ja em todo seu acordo, disseram ambos que os não 
tirassem do campo sem se determinar qual era ho vencedor: não por 
pretenderem sello hum do outro, mas por não perderem ho preço que 
lhe tam caro custara. Corisanda lhes disse, que poys «Ha era ho juyz 
ambos os dava por vencedores das senhoras de que fossem vencidos. 
Os animosos aventureiros, avendose por satlsfeytos com esta vitoria: co- 
mo soo este premio delia pretendião: do aí do senhorio das ilhas, e de 
qual seria sogeyta a outra fizeram pouca estima, como cousa que lhes 
pouco lembrava. Per modo. que assi tam contentes, que lhe esquecião 
suas feridas, inda que muyto perigosas, foram lançados em seus leytos, 
desarmados per mão de suas senhoras, e curados com muyto resguar- 
do. Os outros cavaleyros que vierão ao torneo, visto como estes ganha- 
rão as gentijs damas á custa do seu sangue, foranse todos sem mays 
esperar pêra onde quiseram. Os dous amigos mimosos da conversação 
do amor alternado, em espaço de mes foram saãos de suas feridas: e 
per ordem da senhora Corisanda desposaranse, e enlregaranse de suas 
amigas, edas ilhas cada hum da sua: julgando porem primeyro a senhora 
Corisanda, e não sem mandar pedir pareceres dalguns 1'iincipes seus vezi- 
nhos: que dom Dolindos de Escócia fosse tributário a Melisando de bo- 
namar: visto que estava sobrelle ao tempo que lhes acodiram: e que 



DA T AVO LA REDONDA 297 

avendo filhas herdeiras, os qne com ellas casasera estevessem pella ley 
per que elles passaram. E se ouvessem filho e fillia pêra casarem am- 
bos, ficaria ho senhorio lodo hum e se filhos elles se averiguassem per 
torneo. E acaecendo que não podesse ser assi, fosse per batalha de hum 
contra ho outro. O que a senhora Corisanda ordenou que fosse desta 
maneyra: tudo com intenção de perpetuar seu nome com se sostentar 
este costume, e a seus herdeyros ficar occasião de -exercitar a cavalaria. 
E te agora assi se sostentou: porque dos dous amigos naceram também 
duas filhas: mas por vos não cansar com tam longo conto. Finalmente 
lios estamos agora no sexto grão deste tronco e decendenies sempre per 
ífilhas: Nos somos gémeos, como ja sabeis, e esta he a causa porque te- 
míamos ho armarense cavaleyros nossos irmãos, porque nas suas vidas 
aventuramos também as nossas, e oxalá bastaram as nossas sós. Com 
isto também receamos que sendo caso que ho torneo se ha de fazer, se 
for vencido p«r outro, ou outros cavaleyros: antes passaremos per mil 
mortes que lhe dar de nos ho senhorio que temos dado a estes senho- 
res. Ora também se socedcsse ser necessário combaterse hum contra 
butro: nenhuma de nos tem coração pêra poder compadecelo, pedimos 
lhe cada dia que não curem dâ ley dura e deshumana de nossos avós, 
c sem estar por ella nos recebam e logrem em paz: não podemos aca- 
balo com elles: antes nos obedeciam em dilatalo te agora forçadamente 
contra suas vontades, por condecender em parte nas nossas, dizem que 
nelles nam ha de menos acabar a openião de seus passados: Tal he a 
'má lingoajem do mundo que usa jr contra os preceytos divinos por guar- 
dar humanos: e hum mao costume introduzido leva á boya as leis da re- 
zão ã pesar de nosso juyzo e da vontade. Vedes aqui senhor cavaleyro 
ho Rosso trabalho, se nos podesseis valer cora vosso bom conselho, ou 
al*um meyo, ja que a esses senhores satisfezestes em seu desejo, crede 
qm será livramos de huma continua desconsolação e cuydado. Ho her- 
raitão acabando nisto Corisanda com tantas lagrimas dambas que a todos 
movco a piedade, disse que aquelía ley era injusta e se devia quebrar 
per muytas rezões: Mas Fidomfior respondeo que sem quebrala se atre- 
via satisfazer a todos, dizendo a ellas. Receardes senhoras o perigo do 
torneo tendes muita rezão, porque estes senhores sam muyto pêra 
ser estimados , e vos senhoras pêra serdes logradas : mas se vos 
fiais de mim, e elles quiserem estar por o que eu fezer, obrigome 
a segurar tudo a risco da vida: e no que eu aventuro nada se 



298 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

perde. Se vos senhor cavaleyro (disse Dragonisa) isso fazeis, te-rey 
que soys anjo do ceo que nos bo senhor Deos manda pêra nos reme 
dear e não vivesse eu mais que ate ver cousa Iam desejada, e tam te- 
mida, termada em hum bom talho. Tudo ho tem, tornou Fidomflor, 
quando lhe chega ora: ha de aver paciência pêra esperala: e realmente 
me parece que lho tenho achado, mas cumpreme primeyro que entenda 
em cousa nenhuma fazer ho a que vim a esta: nem sem issocuydo que 
dareys credito ao que eu determino fazer no vosso caso. Edandolhe conta 
de como vinha per mandado dei rey Sagramor pêra desagravar Guirme- 
nides, disse que esperava em Deos muy levemente acabar com Ardalico, 
})orque dos taes estava muy certO' ho castigo divino: e tanto que se des- 
obrigasse deste negocio, nenhum outro emprenderia te os satisfazer. Os 
Novéis teveram em muyto mais conta Fidomflor, sabendo que vinha de 
iam longe a negocio de tanto peso, e ho julgaram por de grande animo, 
e pediranlhe que quisesse levalos em sua companhia pêra ver^em a ba- 
talha. E dado que se escusava foy forçado concederihó. O hermitão lovou 
sua virtuosa empresa, dizendo que nosso senhor as favoreceria sempre: 
e com tudo tevesse em si muyto recado, por quanto Ardalico era muy 
conhecido por tirano e sem verdade. Ordenando pois logo os irmãos le- 
varem as irmaãs á ilha Gravisanda, e tornarense sós pêra Fidcmílor, 
despediranse todos do hermitão, encomendandose muyto em suas ora- 
ções: fazeiídolhe logo muyta esmola, e ao diante lha fezeram sempre muyta 
mais, por ho bom socesso que seus negocJos teveram. Ca sabido he 
quanto nosso senhor faz poi^ seus servos: por o que creram que mediante 
este devoto hermitão lhe socedera tudo como adiante vereys no segundo 
livro desta historia.. 

C(ip. xliiij . Das festas que se fezeram na corte dei rey Sagramor 
por as vodas de Doristão Daularixa. 

I\luylo sam de culpar os mortos que leyxam a seus socessoreS' obri- 
gações trabalhosas: pareceme que deviam bastar os erros da vida, que 
raramente sam porcos: e não querer perpetuas culpas, ja que os auto- 
res sam mortaes, cujas obras inda que apuradas nunca carecem de fe- 
zes, qual as teve a ley de Corisanda tam custosa aos que a guai'daram, 
dado que sua tenção fosse horoyca, mas sam discrições humanas que 
sempre manquejam. E com esta natureza lhe demos passada, por entoa- 



DA TAVOLA REDONDA 299 

dermos em el rey Sngramor, ho qual passado a Orlians, trabalhou muylo 
por festejar as vodas de Dorislão Dautarixa e a gentil Laudisea sua filha, 
E juntamente com estas se celebraram as de Florisbel e a linda Belílo- 
ris, como se foram seus filhos. Astribonio Duque de Milão, por a gran- 
de amizade que tomou com Dorislão, pediolhe que pedisse a el reySa- 
^n^amor que lio casasse com -Masilia: do que el rey foy muy contente 
quando ho soube, e a raynha Seleucia muito mais: porque Masilia- podia 
ser molher de vinte seys annos, e estava muyto fresca como se fora de 
menos idade: c em fermosura poucas moças lhe tinham vantagem, por 
o que com rezão se podia recear delia. E desta maneyra ficou descan- 
sada, e folgou muyto de se fazer. El rey Sagraniar como muyto virtuo- 
so Príncipe que era, fez muyta mercê a Astribonio em dote com Masi- 
!ia, acrecentandolhe ho estado: e tudo lhe elte mereceo ao diante. Per 
maneyra que todos foram juntamente velados e festejados quinze dias de, 
justas e torneos, a que vieram muytos estrangeyras de diversas parles: 
E leyxadas meudezas que passaram no recebimento dos noyvos, celebra- 
do com estremado aparato e sobejos gastos, que el rey favoreceo muyto/ 
por ver alegrarse os corações de seus vassalos caosados das longas guer- 
ras, e muyto mais por os exercícios das justas c torneos, em qiíe espe- 
rlmentava ho talento de cada hum nas cousas da cavalaria pêra saber 
como se avia de servir delle. Ca todo Príncipe deve trabalhar sempre 
conhecer as maneyras, condições, virtudes e manhas de seus súbditos, 
e servirse delles naquillo: pêra que sam o que se fezessem^ nam Sreriam 
enganados : mas servidos, dando a cada hum seu merecimento : se- 
gundo ho bom rey Sagramor íazia por sua necessidade : porque esta 
força aos Príncipes suas incrinações : segundo se affirraa do Ale- 
xandre Magno, que sendo de animo malissimo : como por fim mos- 
trou, em quanto lhe durava a conquista foy ho mais humano e aca- 
bado Príncipe que podia desejarse. Isto porem nam se pode dizer 
dei Hey Sagramor, ponpie naturalmente era virtuoso e incrinado a todo 
bem. Assi que tornando a nosso conto, como se- ajuntassem muytos ca- 
valeyros, ouve estremadas justas e torneos, de cortesãos e eslrangeyros: 
em que se viram alguns muy abalisados, e principalmente os da tavola 
redonda se mostraram muyto: e traziam acanhados todos os eslrangey- 
ros. Mas avendo ja dez dias que as justas duravam: chegaram á cidade 
dous cavaleyros Italianos, que pareciam nos corpos gigantes, c traziam 
comsigo duas formosas amigas, vinham ambos de armas amarelas scraea- 



300 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

<las de estrelas azuys, nos escudos em campo azul huma estrela amarela 
-grande, com huma letra que dizia. Em desesperar: e aparecendo com 
aparato de grandes senhorias: mandaram armar huma tenda rica e gran- 
de junto da entrada da ponte: a fim de tolhela: mas sabendo que avia 
ho outro dia torneo de estrangeyros contra cortesãos, quiseram entrar 
nelle primeyro que mais se mostrassem, e assi foy: e per as maravilho- 
sas obras que fezeram foram os estrangeyros vencedores. Isto porem 
porque Deyfilos de Xatra e Pinaflor sua irmaã avia seys dias que leyxa- 
vam de se meter nestes negócios. Ca lho mandou el rey, visto como 
sempre levavam os preços, pêra que lambem os outros tevessem gosto 
^ nome, e o Príncipe Aristandor ho tinha também levado dous dias, e 
neste se deu com os dous Italianos no torneo maravilhosamente sem 
vantagem, e com tudo foy ho dia dos estrangeyros por respeyto delles, 
e profiando outros dous, sempre como dizem levaram a fogaça: por o 
que foy necessário aos dous irmãos acodirem por Aristandor, determi- 
nando sayrlhe ao outro dia: mas socedco cousa que os tirou deste pro- 
pósito: porque os Italianos muyto ufanos por a honra que tinham ganha- 
do pêra si e para os estrangeyros, e muy confiados que sayrião com 
toda empresa, pubricaram que sós aviam de sostentar justa a quantos 
presomtssem entrar pola ponte sem sua licesça, pêra o que se poseram 
á entrada delia com lanças e cavalos prestes, e elles armados nos rega- 
ços de suas amigas á porl^ da tenda a horâs de sesta: mas não lha ley- 
xaram passar muyto descansada, ca pouco tardou que lhe não viessem 
aventureyros, e em quanto elles vinhão, as amigas com duas violas de 
arco huma deleytosa armonia cantando com muyta graça e desposição 
de voz lio seguinte romance. 



De Roma sae Pompeo, 
e toda Roma ho seguia 

Com temor de lulio C^sar 
que de França ja partia. 



Ho Robicão tem passado 
contra Roma trás a via. 

A pesar do bom Metelo 
do tesouro se provia, 



DA TAVOLA. REDONDA 3t)f 

\[}Qs Pompeo se vay, 

e Pompeo que ho sabia 
Eni Brondusio se faz forle,. 

e dali per mar fugia, 

Desemparando ai Itália 

delTendela i')re tendia, 
De Romanos e oulra genta 

grande exercito fazia 

A César dera batalha 

se ho siguira vencia, 
Por arredalo do mar 

fugirlhe César fingia: 

Ser arte de capilão 

Pompeo bem ho entendia 
A César contra ho que entende- 

e a seu pesar, seguia, 

Ia nos- campos de Farsalia 

hum contra ho. outro se via, 
Vendose chegado á summa 

Pompeo do que temia. 

O que grande senhorio 

lio conjugal amor cria. 
Que só Cornélia he a causa 

que reprime o que cumpria: 

lie lhe forçado apartala 

dilata ho de dia em dia, 
No seu leyto sem repouso 

chorando, ca não dormia 

Cornélia tem a seu lado 
que animalo cometia, 



30á MEMORIAL DOS CAVALKIUOS 

De lagrimas suas faces 
húmidas ali sentia, 

Dessimula, ca não ousa 
tomalo em tal agonia 

Parecendolhe que lio magno 
Pompeo assi se abatia 

Elle que a sente e entendo 
taes palavras lhe dezia, 

.Moilier a que eu mais que a própria 
vida, ditosa queria, 

Não esta, que me avorrece 
mas quando ledo vivia, 

lie vindo ho tempo que eu triste 
dilato, e ja nlio podia 

Ga César esta no campo 
e a batalha oíTerecia, 

Cumpre dar lugar aa guerra 
mandarte Lesbos queria 

lio ai tenho a mi negado 
não cures de mais profia, 

Este nosso apartamento 
por muyto pouco seria, 

Do teu verdadeyro amoi' 

confiança não teria 
Se veres esta batalha 

ho coração to soffria, 

Corrome de estar contigo 
quando a guerra assi fervia, 

Mais seguro he que de longe 
ouças o que socedia, 



DA TAVOLA REDONDA «iCo 

Se me a fortuna for falsa. 

E se me César vencia 
A mellior parle de mi, 

segurar se quer queria 

Quero ter onde me yr possa 

consolar minha agonia. 
Cortada de mortal dor 

Cornélia que lhe isto ouvia, 

Eí:.forçandose consigo 

a triste assí respoi>día, 
Do6 deoses e da fortuna 

)a me queyxar não podia 

f gís per morte não me aparta 
• da conjugal compaíihia. 
Ser como vil engeitada 
de ti, disto me sintia 

Cuydares que algum lugar 

sem ly me seguraria. 
<E queres se fores morto 

que viva eu inda algum dia, 

Ia me ensinas a soffrer, 

dor que nem cuydar sofíria: 
A molher do gram Pompeo 

esconder não se podia, ^ 

Donde se desbaratado 

fores, isto soo pedia 
Salvate em Ioda outra parte 

e de Lesbos le desvia. 

Partindose delle a ora 
hum doutro nam se espedia, 



304 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

A Lesbos se foy Cornélia 
Poiíipeyo logo a seguia, 

Vencido vay de seu sogro 
tal Cornélia ho recebia. 
Esta he a minha fortuna 
que me inda segue, dezia. 

Nesta recreação estavam os dous mantgdores Italiano&;gom suas ami- 
gas, quando começaram vir os aventureiros, de que anibos derão boa. 
conta arrevesandose nas justas, e nam estavam pouco soberbos assi vi- 
toriosos, se lhes a fortuna sostentára a ^^iloria, mas como folga com lula 
azou contra a tarde derrubalos com a vinda de dous cavaleyros estran- 
geiros que vinham via da cidade, acompanhados de dous escudeyros, o 
qualro donzelas, as duas vestidas de preto, e hum dos cavaleyros lam- 
bem de armas negras com ho seu< escudeiro e este era dom Selvagiu 
l)rincipe de Bohemla que avia dous dias que lhe deram nova da morte 
dei rey seu pay, e Lucidanor de praga seu jrmão tomara posse do reyno 
te saber delle e por isso vinha de doo, ho outro cavaleyro era o das ar- 
mas cristalinas qae elle trazia cubertas com huma sobrevesle de cetim 
carmesim ricamente brossada de troçaes de prata e alguns golpes dallo 
a bayxo tomados com peças de ouro, e a gentil Celidonia, vesiida como 
quando em Londres apareceo iio drago, vinha sobre o Centauro chiron- 
tes, ho qual da cintura pêra cima vestia huma cabaya de seda de Pérsia, 
com muytos golpes tomados com botões douro, na cabeça huma celada 
de cetim verde cortada sobre tela de prata, e lavrada de troçaes douro 
com duas medalhas grandes de que sahião muytas plumas de cores, nas 
mãos hum grande arco turquesco e seu coldre descias verde assaz rico. 
(jue lhe pendia de hum lado: e como era ja muylo velho trazia a sua 
barba branca tam comprida que lhe passava a petrina, e daqui pêra bay- 
xo acubertado de borcadilho verde que arrojava pelo chão, CalidioeTi- 
lesia vinham das mesmas cores, com que logo se dilTerençava a compa- 
nhia de cada hum. E vindo assi descuydados de lhe alguém querer es- 
torvar agasalharse na cidade eomo levavam determinado. .Mas os mante- 
(lores italianos tanto que os viram, !ium delles per nome Luciano, que 
diziam ser filho do Duque de Florença, chegando elles ja, disse alto a 
suas amigas que cantavam. Ú senhoras como isso está bom o suave, e 



DA TÂYOLA REDONDA 305 

como mc pnreccis em tudo bem: e mais porque vejaes que vos não le- 
sunjo, nem me engana minha affeyção dado que possa tudo, e que em- 
pregaes bem a vossa, que não be pequeno gosto, quero que volo digam 
estes cavaleyros que aqui vem. Nisto os que vinha emparelhavam ja com 
elles, e os salvaram. Luciano des que também os salvou, cortesmente, 
disse contra ho da sobrevesle carmesim. Esperay senhor cavaleyro poi' 
cortesia, não passeis, que me cumpre de vos bum pouco: e mais antes 
(|ue vos requeyra querovos festejar porque vos obrigue. Ho oavaleyro 
encostandose sobre a lança leyxouse estar, e com ellc a sua companhia. 
Lucrano volto a suas amigas, disselhes. Por amor de mim senhoras mi- 
nhas que canteis este Vilancete que fiz em bi^m passo em que ja me vi 
contente, porque quero ho parecer destes senhores sobre a letra: a qua! 
elle logo disse, e era a que se segue. 

Vossos .'\raores senhora 
assi matam docemente 
que a morte não se sente. 

O alta m.inha ventura 
eterno contentamento, 
ser a vossa fermosura 
gloria deste meu tormento: 

Ditoso meu pensamento 
e a moi1e que se sente, 
pois mataes tam docemente. 

Por vos dar de mim vitoria 
minha alma vos entreguey, 
esperar tam grande gloria 
nunca da esperança ousey: 

Vi mais bem do que cuydey 
morrendo tam docemente 
que a morte não se sente. 

loU Vila^cele disse Luciano tocado da vaãgloria do oslcido conícnlí 

20 



306 MEMOIUAF. DOS CAVALEIROS 

em que se via, amado de sua amiga, que linha gentil parecer, e lograridose 
(iella, cousa em que a mocidade sensual faz seu alardo: mas ao lemp > 
da balalha do entendimento que toma a residência aos excessos huma- 
nos, ah se vêem as fraquezas da simpreza, as covardias da idade, ho 
desbarato das más openiões, e a pena dos gostos vãos: de que muylo 
deve velarse quem não quiser i)adecer arrependimentos. As amigas qiie- 
jião estam pouco vaãgh.)riosas e ufanas, por terem taes servidores, de- 
ram logo a soada ao Vilancele, e ajudada da desenvoltura e suavidade 
das vozes pareceo muyto bem. Acabando ellas, Luciano disse ao cava- 
leyro da veste verde. Que vos parece senhor, e vá se a não querer Ic- 
sonjar, que he muyto antigo e usado, e eu sou mais de estilos novos. 
Kl!e lhe respond^io. Em verdade que está boa a leira, e a própria do 
estado em que vos vejo, e de que tendes muyla rezão de ser contente, 
(^a não pode homem chegar a mais que a ser amadu de quem ama. .Mas 
de vossa licença, ousaria dar lio louvor de tudo a essas senlioras a que 
se deve, porque alem da especial graça com que entoaram ho Vihnicete: 
([ue não he pequeno terço pêra a ter, sam ellas a pi'incipal parte, [lois 
deram a materea ás mu.sas, que a occasião menistra quando natureza as 
nega. Folgo muyto (repricou Luciano) de cayi'des logo assi boamente 
nisso: e ja que vos acho hum tam claro juyzo mais ey de saber de vos: 
(jiial aveis por mayor gloria damor, ser Uo amador amado, ou ser o que 
ama mais? Perguntaesme (respondeo ho cavaleyro) o que vos melhor q:u; 
eu sabereis, por a espeiiencia que tendes dessas glorias damor, segun- 
do posso julgar do estado em que vos vejo, porque se amais essa senlio- 
la, parece que soys delia amado. E eu dado que amo, indanãocheguey 
a .saber que gloria he ser amado, e com tudo sou tam satisfeyto e con- 
tente de amar a quem amo, que nam cuydo que ha gloria que chegue 
à (jue tenho: em amar em tanto estremo que crcyo que nam ha mais 
Amor. nem melhor empregado, oom o que na mayor força das dores as 
amanso, com cuydar que .se devem a quem amo. Ca na verdade nasii 
pode leyxar de ser muyto custoso Amor tam estremado, e quanto mayoi- 
lio estremo he, tanto a gloria de padecer por elle he mayor: por onde 
me parece que pois nam ha mais amor que ho meu, nam ha mais gloria 
que a que tenho de padecer per elle. Nam vay isso (tornou Luciano) p»'r 
hi mao, mas dirvos ey o que dizia ho Philosofo Arislipo de Diógenes: 
que se soubera usar dos reys não usar das verças, donde também se 
soubéreis a gloria de ser amado e a gostásseis não vos gabaríeis da de 



DA TAVOLA REDONDA 307 

amar. Ca claro eslá que amar he padecer, e ser amacio lie ter gloria: 
por tanto fazeyme mercê que trabalheis por ser amado, e vos me no- 
meareis, que essoutros primores sam trabalhosos e sem fruylo, ca ];{ 
sabeis que viver de esperança he vida de peregrinação, qual a nossa: e 
satisíiizer a esperança he vida de peregrinação, qual a nossa: e satisfazer 
a esperança he conseguir ho descanso. da gloria. Nam me parece, disso 
ho cavaleyro mao conselho esse, mas quisera mais ho remédio: e coni 
tudo pareceisme amador mais de si mesmo que de quem amais, o que 
liam se compadece em Amor puro. Ca ho tal não lhe lembra seu inte- 
resse a respeylo do de quem ama. Vaymc parecendo, disse Luciano, qiitj 
vos prezaes de porfioso, poys quereys sostentar huma openião tain des- 
arrezoada, e por atalhar a vossa portia: queria que me dissésseis se 
vistes algum hora tam fermosas duas damas como estas, e a que se 
(leva com tanta rezão servir, e inda que sejão presentes as da vossii 
companhia, nam receeis de confessar a verdade, quiçá vos será mo 
nos custoso. As senhoras tornou ho cavaleyro, eu as tenho por cei-ii» 
por de muy especial primor, e que merecem ser servidas: Não me leva 
porem ho coração confessar o que elle nam consinte, nem entende assi: 
nem vós creyo que podeis ser Iam. cego de alTeição que negueis o que 
vos os olhos faiam claro. Será logo necessário, disse Luciano, faziT 
volo confessar, e folgaria eu escusar fazervos força, se vos quisés- 
seis ■? porque me obrigou vossa brandura a tella com vosco, se ma 
souberdes merecer. Mais me pesaria a mim, respondeo ho cavaleyro, 
fazervos alguma descortesia se me picardes, ca sou mao de mover pei' 
mal, e por outro conselho^que me destes, volo dou que logreis em paz 
vossos gostos, estimando quem volos daa: não vos percaes na prospe- 
ridade, que a soberba recebe muytas veze.s grandes desgraças, e se vo- 
las fezer aveylas de sinlir muyto como mimoso da fortuna, E vos sois 
me tam scngo? tornou Luciano, ora vos dou minha fee de chegar com 
vosco ao cabo, poi-que sou [)erdido por essa arte confiada: ca ho gintil 
cavaleyro eslalhe bem ler huns poos de philosophia pêra seus tempos, 
ijue da qui vem a ser tido por pratico, e logo avante desenfadadiço: pci 
laaneyra que de dco em deo, como lá dizem entra no conselho, quando 
se requere parecer de muylos: ou ha manda muito aparado em escrito, 
e fica mais uíTano que galo em seu poleyro. lio cavaleyro rindose, toi- 
iioulhe. Bem estou com vossa lingoagem pêra antre damas, se assi es- 
tays das obras, dou por bem servidas estas senhoras. Pois que assi he. 



o08 MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

ropricou Luciano, venhamos n ellas, e não percnmos mais tempo, nfn- 
lliaremos a escrúpulos que desassossegam a consciência delicada. Dizen- 
do isto lançouse de hum salto -soljre ho cavalo que ali tinha, e disse que 
por escusarem ódios de causa Iam' leve usassem só da justa e quem delia 
não ficasse satisfeylo que se sofresse com sua magoa, o que cometeode 
confiado: e ho aventureyro foy contente. Tomando pois amhos do cam- 
pi.i ho necessário, encontraramse, quebrando as lanças sem mais danno. 
Mas ao segundo Luciano se achou em terra com a sella antre as pernas. 
liO cavaleyro das armas cristalinas perdeo as eslriheyras o cobrou as- 
logp, e assi cortou ho paço a Luciano, (pie fora insofrível se licara ven- 
cedor, como hosam todos os graciosos que em vos tem mando, e conhe- 
cida vantagem. Seu companheyro que se chamava Polibor lilho do Du- 
íjue de Mantuasepos logo na sella pollo vingar: mas na segunda carrey- 
la a perdeo também ficando em tudo igual. Do (pie ambos muy indi- 
gnados requereram ao cavaleyro que se desse com algum delles das es- 
pailas. Elle disselhe que estava satisfeyto, por tanto que se soííressens 
como meteram em partido. Elles affrontados mandaram logo desarmar 
a tenda pêra se irem, e poderem depois buscalo hum por hum: e assi 
se partiram corridos, e abatida sua vaidade. Era isto ja noyte, mas fa- 
zia um luar muyto claro, â poria da cidade eslava fechada porque el 
rcy não se segurava dos estrangeiros, dom Lucidardos vendo que lhe 
era necessário alojarse no campo determinou ja que vinha a tempo tão 
assazonado dar de si mostra, e falando com ho príncipe dom Selvagio, 
mandaram logo ver ao longo do rio se podiam armar huma rica tenda (pie 
traziam. Mas sabido como tudo estava ocupadp. dom Lucidardos pai-e- 
cendolhe que pêra desenfadamcnto daípiellas princezas: não avia melhor 
parte que a da praya: junto da ponte: disselhes. Senhoras a qui não ha 
lemedio para ser bem apousenlado salvo comprar o sitio pella lan(;a, 
tjue a dinheyro não nolo quererão vender, vamonos á praya, quiçá co!ii 
\ossa presença averá quem nos faça cortesia ou nos de occasiam de l!n3 
fazermos força. E chamando Calidio que era homem de lingoagem: dis- 
selhe quero ver tu (pie es discreto: se nos sabes aposentar oje junto ao 
rio, vay per essas tendas e aos senhores delias dize se querem justar 
sobre a razam da fermosura de suas damas, com tal que fazendolhes 
perder a sella percam lambem ho lugar de suas tendas pêra estas se- 
nhoras, Calidio foy logo e soube negocear também que convocou muitos 
ao narlido, e ho piimeyro que o aceytou foy Aiiminio íillio erdeiro de 



DA TAVOLA REDONDA ' . 309 

X-onseyur de Rnvena geiUil cavaloyro e rauyto namorado da Duquesa de 
Pisa, que se alojava mais Junto da ponte, o qual saindo contra domLu- 
cidardos assentaram que justassem somente, e o que perdesse a seila 
confesasse a fermosura da dama do outro, e estevessê a obediência do 
mais que llie mandasse: sobre tal concerto, vieram á justa: da qualAri- 
minio foy refinado poios ancas do cavalo no chão. Dom Lucidardos indo 
sobrelle disselhe, confessay o que a razam, e lio mundo todo não nega 
Ariminio levantandose disse: confesso o que albrcaquer, ehojuyzonão 
consinte. Vede o que- mandais mais de mi, peçovos lhe tornou dom Luci- 
dardos que mandeis desai'mar a vossa tenda pêra dardes lugar a cslas 
senhoras, a que se deve obediência. Faloei) disse Ariminio, pois ho assi 
<{uercis, e sem esta obrigação ho fezera por tal respeyto, e logo man- 
dou dííí^aimar a tenda, e que a armassem longe dali no mais triste lu- 
gar que vissem Ca tal ho merecia quem tam mal defendia ho dereyto de 
sua dama. Eridano Duque de Campania lhe saliio logo por vingar Ari- 
minio de que estava mais veziniio. Mas passou pella mesma ley do pri- 
uieyro encontro, e com elleinfiou logo levemente CrifotemisdeColandia. 
do que CelidorJa tomava muyto prazer por se assi ver servido de tai 
cavaleyro. Elle como nam desejava senão contentala em tudo vendo seu 
gosto, disselhe. Eu senhora sou muyto cioso, c vos trazeis gado perigo- 
so e mao de guardar, e dizem lá tirados os azos por o que determino 
cortar todas as raizes aos inconvenientes: ou ao menos trabalhar soltris- 
so, e seguir a fortuna te cumprir com a nossa necessidade. E aqueceo 
que el rey Sagramo andava em hum bargantim pellorio com os noivos, 
<; outros senhores, earaynha Seleucia e outro com assenhoras e damas 
<}e seu paço: com musica de muytos estormenlos, e vinham correndo ao 
longo da praya por darem vista de si aos das tendas e vendo ho alvoro- 
ço que tinha em as levantar, que parecia crecente de rio, ou fogo: ou 
recontro de imigos que fazia levantar aquelle arrayal, mandou remar 
pêra terra, e informado da causa festejou muyto a boa negoceação di) 
cavaleyro. o qual se encontrou com Dolinio Conde de Bresom assaz bom 
cavaleyro. Mas elle ho pos tam desenvolto em terra, que logo dei n,'y c 
dos seus foy julgado por especial justador. E tendo despejado rio a bay- 
xo hum tiro de pedra, em quanto os seus se alojavam. Disse que ho ou- 
visse el rey, 1'areceme que ja desta parte estamos desasombrados e som 
receyo desemsaborias de má vezinliança, quero despejar da ponte pêra ri- 
ba outro tanto, e iicareis senhoi-as a vossa vontade. El rey mandou rc- 



310 . MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

mar pêra cima dizendo que lhe parecia bom negocear ho do cavaleyro, 
o vieram soma de tochas que ajudavam ao luar. Dom Lucidardos come- 
(•ando pêra aquella banda, com desejo de se mostrar ante el rey. O pri- 
incyro que encontrou foy Britanor Duque de Gueldres, dando com ho 
cavalo sobrelle que ho tratou mal. Des hi derrubou ho Duque deSalor- 
no, fazendo os mais famosos encontros que se podiam veer. Assi que 
em pequeno espaço desapossou da sella dez cavaleyros assaz esforçados, 
e homena de titolo: com grande espanto dos que hoviam. Gelidonia lhe 
disse que nam justasse mais. Ca o queria pêra mais que pêra hum dia: 
elle que lhe nam sabia desobedecer, mandou hedir licença a el rey pêra 
repousar que assi lho mandava quem podia. El rey respondeu que ho 
devia fazer, e não sair da vontade de quem ho assi favorecia: desta ma- 
iieyra se acabaram aquellas justas com assae honra de dom Lucidardos, 
Nam se falando no campo c na cidade em ai, nam sem grande inveja de 
todos. Elle se recolheo com a sua companhia a huma tenda grande com 
(lous repartimentos em que se as Princesas ambas recolheram, e elles 
sobresi: a qual era de cremesi com franjas douro e prata, e troraes do 
mesmo, de que nos meyos se faziam huma sotil lacaria, e fora esta ten- 
da da Sabia Daunio que lustrou ali muyto. E assi repousaram cada hum 
em sua estancia. 

Capitolo. xlc. Das justas (pie fez ho cavaleijra 
do Centauro na corte 

Mui necessário foy aver mudança nos estados, pcra nos podermos sof- 
frer liuns a outros: ca doutra maneira a soberba fora insolfrivel nos 
prósperos, a miséria nos miseros, c tudo ho ai. E tal era a vaydade 
(los dous Italianos se a ho cavaleyro do Centauro não lha abatera, por 
o que ninguém se fie da sua prosperidade: pois sabemos que lie tam pe- 
rigosa e enganada como a adversidade segura e discreta. E deste des- 
cnydo que ho cavaleyro do Centauro teve em prospero, socedeo gostar 
logo ho desconto, pondo em grande alvoroço toda a corte, vista á estre- 
mada mostra que deu de si, e não podiam ciiydar quem fosse. Mas da- 
vam-lhe este apelido porque não lhe conheciam as armas cristalinas por 
sobreveste com que as cobria. E querendo prosseguii' sua determinação, 
(jue era ajudarse da vitoria que lhe a fortuna dava, ao outro dia mandou 
Tii'esia e disse ante el rey Sagramor a quem lhe propôs desta maneyra. 



DA TAVOLA REDONDA o I 1 

Muyto alio e poderoso senhor. A senhora docavaleyro do Centauro (que 
cá chamais) desejosa de festejar vossa corte: vos manda pedir licença 
l»era elle em justa tão somente, defendera quem lhe contradisser snafer- 
mosura ser única antre todas as desta idade, o que elle pretende sos- 
tentar em vossa corte, não por própria presumpção, mas por a muita 
justiça que por si tem a gentil Celidonia, por cujo Amor sustentará ho 
campo em quanto elle não lhe mandar ho contrayro. El rei esperando que 
algum dos cortesãos ho desenganasse: folgou concederlhe a justa: man- 
dando dizer a Celidonia que porquanto ho seu cavaleyro viria cansado do 
caminho e assi do trabalho do dia passado, folgaria que não justasse, sal- 
vo ao outro dia, porque também nãotevesse de que queyxarse aquece n- 
(lolhe o que delle não cria. A esta resposta a deu Celidonia que bastava 
saber sua real vontado pêra não ler outiva. Ca em tudo lhes fazia muyta 
mercê. El rey Sagramor mandou concertar a praya: em modo que sem 
algum nojo dos cavalos se podesse justar ao longo do rio, da tenda do 
cavaleiro pêra baixo, porque quis ver as justas em barcos. Os quaes forão 
toldados ricamente de diversas cores, com todos os eslromentos de ca- 
mará, e muitas charamelas e trombetas pêra festejaremos encontros dos 
jnstadores: Da banda de terra avia huma parede de tavoas alta que to- 
lhia passarse dali pêra dentro. No cabo da banda de bayxo tinha huma 
parte per que aviam de entrar os aventureyros. Do outro topo rio acima 
tapava a lenda. Vindo pois ho dia abalisado el rey se pos em hum bar- 
ganlim com a rainha Seleucia. e a Princesa Licorida, que seria moca de 
oyto annos dado que parecia demuytos mais, em tanlo estremo fei'mosa 
que não podia a natureza dar mais de si, ecom elleshião os noyvos, eho 
príncipe Aristandor com a sua Fioriosa, e todas as damas, e em outros 
barcos avia todas as senhoras e senhores da corte: e fora da liça era a 
praya cuberla de cavaleyros. El rey Sagramor mandou a dom Lucidar- 
dos dez cavalos de justa assaz poderosos; com soma de lanças. Dom Sel- 
vagio rey de Bohemia e Fimbrisa estavam de dentro da tenda, e dom Lu- 
cidardos á porta a cavalo, tendo pola mão a gentil Celidonia; não pouco 
maravilhada da grandeza daquella corte, avendo a de seu pay por cousa 
pequena. A qual posta no Centauro,|em chegando a el rey a que fezeraia 
a divida cortesia, ella se pos junto do seu barco, efoy julgada pormu^ 
grande estremo de fermosui'a, c parecia-se muito com a princeza Licori 
da. Os olhos da corte occupados em Celidonia, dos cavaleyros era tão 
cohiçada comojnvejada das damas: ella como era muyto discreta notava 



312 



MEMOUIAL DOS CAYALEIUOS 



tudo sem dar a entender a admiração do seu peylo. E querendo mos. 
trarsc tão galante a aqnellas senhoras quanto fermosa, segundo com domLu- 
cidardos tinha concertado, disse a el rey. Eu senhor sou Ião invejosa 
das famosas obras do cavaleyro do Centauro que me dam sempre inuy- 
[0 cuydado. Ca reccyo que se me ensoberbeça per ellas tanto que venha 
a terme cm pouco, como seja verdade que ante ehe não ha merecimeji- 
to meu que possa ter preço, dado que elle pubrique'e defenda ho con- 
Irayro, sou eu porem tanto de lhe levantar suas cousas, por(]ue veja ho 
mundo que em tudo tem estremo, que determino mostrar a estas se- 
nhoras que não está menos de cortesão discreto, que de famoso cavaley- 
ro. e sobristo quer me tanto que a risco da vida defende sempre minha 
opcnião como lhes agora quero mustrar, por tanto mande vossa alteza aos 
aventureyros que venham falar comigo primeyro que entrem na justa. E 
rey assi ho mandou logo, e ho primeyro que veyo loy ^Vrdinel de Frisa 
namorado de Clemenia Duquesa deClarit, e vinhaem hum cavalo pombo, 
armado de armas veitles com flores brancas, no escudo em campo do 
boninas a fabula do Sátiro quando primeiramente vio o fogo em que se 
queymou, correndo a heyjalo por lhe parecer cousa muyto fermosa, o 
escandalizado da dor, inda affeyçoado olhava de fora parelle, e dizia. 

Se me enganey no que vejo 
eu padeço ho meu desejo. 

E chegando muyto ayroso ante Celidonia, feyta cortesia a quem de- 
via. Ella lhe disse. Vós senhor cavaleyro desejoso de sostentar a fermo- 
sura de vossa dama vindes por seu serviço poer vossa honra em ventu- 
ra. Pêra saber em que vos fundais queria saber do vos qual aveis por 
mayor estimulo e obrigação de virtude, o desejo da honra, ou o de com 
})razer á dama. Ardinel lhe respondeo, ho desejo do comprazer minha 
dama. Ca ho da honra somente vos obriga, e leva a cousas possíveis, o 
o de cumprir com a dama forçavos cometerdes as sobrenaturaes, e ter 
coração sem medo. Uo contrario tenho eu, tornou Celidonia, ca ho ho- 
mem não deve ler, nem tem cousa mais amada que a honra: pois sem 
dia não pode aparecer antre homens: por esta segue virtude, e não faz 
cousa mal feyta e ilícita, e pola amiga cometeuse muytas bayxezas. Ar- 
dinel repricou: Isso fará quem não tem honra nem Amor, ca sabido hr. 
que ho puro Amor sempre he acompanhado do desejo da honra, e não 



DA TAVOL\ REDONDA 3Í3 

iin proeza que não cometa ou deseje cometer. Ca pretende emprimir na 
dama boa openião de de si, pêra que seja amado mediante o bom nome: 
não nego que move a honra a grandes estremos. Mas muytas vezes se 
descuyda homem, e vendo que tem sempre tempo pêra isto passasselhe, 
e ho amador por comprazer quem delle tem a mayor parte desvelase. 
Muytos homens ha autos pêra honrosas empresas e vivem sem dar de 
si mostra, e os namorados não somente se mostram quanto podem e se 
lhe oíTerece azo, mas trabalham fazerse se estimar mais do que sam, e 
em toda empresa ho amador faz por quatro qu6 ho não sejam, mayor- 
mente ante damas, e por isso alTirmam que durou ho cerco de Troya, 
porque os Troyanos namorados sendo poucos pelejavam á vista de suas 
(himas contra os muytos, e ajudados a armar per ellas com suas amo- 
rosas e brandas palavras lhe davam animoso esprito e dureza com que 
resistiam aos imigos. Vos lereis razão, disse Celidonia, e ao menos es- 
tais bem de razões, e pella vossa vos quero eu confundir com ho cava- 
leyro do Centauro que defenderá a minha contra vossa dama. Negais 
vos, disse logo dom Lucidardos, ser esta senhora a mais fermosa das 
nascidas. Si nego? Respondeu Ardinel? vejamos como hovos sustentais, 
(^om isto em quanto no barro dei rey debatiam com diversos juyzos so- 
bre a quesíam, os cavaleyros correi'am -a encontrarse, do qual enconti'0 
Ardinel se íichou em terra: do que el rey nam ficou pouco espantado e 
toda a corte pella conta em que ho tinham. Celidonia disse a el rey: 
Não me parece senhor que me engano na confiança que tenho no meu 
cavaleyro: el rey lhe tornou. Não pode fazer menos quem vos tem por 
si, pola razão do aventureiro, caso que a não sostentou. Nisto vinha ja 
dom Frisantes de Borbom, que servia Polibia filha erdeyra da senhora de 
Tampas, em hum cavalo melado assaz soberbo e forte, as armas eram 
loxas, e no escudo em campo da mesma cor trazia a fabula de Eco, se- 
guindo Narciso que lhe fogia, e dizia. 

Tal foy a niinha ventura 
tal a vossa confiança 
liça na morte esperança. 

E apresentandose ante Calidonia, cila lhe disse. Ho cavaleyro do Cen- 
tauro dizme que de me ouvir nomear cobiçou servirine : eu não sey o 
lhe disto crcya, por o que desejo saber de vos se pode amor fazer que 



014 MEMORIAL DOS CAVALlilROS 

se namore huma pessoa doutra por fama. Si pode respondeo dom Fri- 
santes, e mais ouso atlirmar que he mays perfeyto que o que se conce- 
be da vista, porque ho coração encendido per fama nam ama cousa quo 
olle soomente tem por boa. Mas tal que quando nam for perfeyta ao me- 
nos he estimada de muylos, ja que se namora dos louvores que delia 
ouve, e sendo amor hum desejo de lograr cousa boa : ja nesta nam se 
guia pola propia openiam do que soo vio. Mas polia de muylos que assi 
lio julgam, 8 assi nam pode amar cousa que desmereça amor: que he 
gentil especia damor. Ctílidonia lhe repricou como he possível se os olhos 
sam as primeyras guias do amor namorarse alguém por fama do que 
nam vio. Eu volo direy senhora, disse dom Frisantes: tanto que á nossa 
noticia vem de ouvidas alguma cousa digna de estima, correm logo os 
olhos invisivelmente pêra a contempração, e na maginaçam a vem e com- 
prendem, formando na alma a sua idea e .figura, com que está esperta 
e desejosa de a ver per effeito. E se aquecer Tornou Celidonia que ven- 
doa a acheis peor do que afigurava a fantasia parece que se perderá ho 
amor com a mudança da openiam Nam disse Taulancio porque a pri- 
nieyra impressara que se faz na alma poucas vezes se perde e as mais 
fica, e tal he com ho amor a que tomou deste habito. Ca dado que os 
olhos corporais vejam depois coi^sa que os não satisfaz pola incrinação 
parece que lhe ja tinheis, julgais dentro outra cousa qu®- nam entendeis 
e de que ouvistes a fama que vos namorou, por onde não se perde ho 
amor que he possível conceberse per fama. Estou nisso duvidosa, disse 
Celidonia, com tudo folgo desenganardessne da minha sospeiía. E por- 
(jue me satisfezestes, folgara que escusareis contenda com ho cavaleyro 
do Centauro, ca me pesara anojarvos elb, que por fazer boa a vossa e 
sua openiam do perfeyto amor que me tem por fama, não ha de querer 
perdoarvos o seu dereyto, ca ho meu eu volo perdoo. Dom Frisantes 
lhe respondeo: nam estimo eu pouco ess» vontade e se eu valer pêra a 
servir. Aqui lhe atalhou dom. Luciídardos dizendo. Senhor cavaleyro ley- 
xaivos de branduras que podeis escusar,, e se nam eonfessais o que eu 
creyo venhamos a concrusam. Seja assi : disse dom Frisantes. Des hi 
correndo hum contra ho outro, dom Frisantes se achou em terra. Após 
isto entrou no campo Mansolinos, que queria bem a Asticlea Princesa 
de Noxina, com humas armas cor de ceo, e no escudo em campo da 
mesma a fabula de Indimiam, quando dormindo elle Diana decia das nu- 
vens a beyjalo: e dizia a letra. 



DA TAVOLA REDONDA 315 

Tudo amor dâ mas fortuna 
de que suas sortes confia 
tolhe me a que me devia. 

O qual vindo ante Celidonia ella disselhe. Vos senhor vindes servir 
vossa dama, e eu ouvi sempre que por ellas se causa muyto mal, e se 
põe os homens em muitos trabalhos, do que ho amor he ocasiam, fol- 
garia saber se fora melhor nam aver amor que avelo, pois vemos que 
se he causa dalgum bem, he azo de muyto mal. Ho amor : respondeo 
Mansolinos, he perfeito e nam pode ser mao. Ca procede de Deos em 
que nam pode aver senão bem, e per amor participamos ho bem de 
Deòs e a sua fermosura de que a humana he retrato: per amor alcança- 
mos conhecimento de Deos, por o que não somente he bom mas neces- 
sário: amor ata as almas em conformidade, e sendo amizade boa, melhor 
he ho amor que a causa: amor levanta os ânimos a grandes cousas que 
por elle se fazem. Assi também, repricou Celidonia, se faz muyto mal 
por amor, e todos seus secaces vejo qucyxarse delle, por cousa traba- 
lhosa, e que nos íaz esquecer de Deos. E cuydados quantos damnos 
causa, parece que vem por elle mays mal que bem. Isso se entenderaa, 
disse Taulancio, em amor illicito, o qual não se pode chamar amor, an- 
tes he defeyto delle, amor ja nam se nega ser necessário pêra a geração 
humana de que Deos tanto se serve: o sendo pêra tam bom fim, se causa 
mal he porque ho usam mal, ho ferro quando nos serve he bom e ne- 
cessário, e mao quando ho usam, pêra mal. Assim ho bem he bom de 
si, e quando he mao vem da parte que ho causa. Visto esta que amor 
nos da paz e nos sostenta, e per elle yraos a Deos, queyxamse os ama- 
dores imperfeytos por seus mãos desejos. Mas o perfeito se morre sinto 
(la sua morte contentamento e dobrada vida: ca os desejos do amor bom, 
ntormentando deleytam com a esperança, sem amor nam se conheceria 
lio ódio como pola paz a guerra. A meninice se nam padece ho mal nam 
sinle ho bem, tal ho Amador, se nam lem pena nam tem gloria, e poys 
per elle se alcança e sem elle nam se sintiria, bom e necessário he o 
amor, e divido tudo o que per elle se sofre. Nam vos faltará logo, disse 
^>.lidonia pociencia pêra sofrerdes o que vos vier por seu respeito e eu 
folgo porque sereis sofrido pêra com as forças do cavaleyro do Centauro 
a que vos encomendo. Ca em vos vejo que nam lhe confessareis per von- 
tade cousa que vá contra vossa dama. Muyto festejava el rey com aquel* 



•'ílO MEMORIAL DOS CAVALEIROS ' - 

las senhoras a honesta desenvoltura e discreta invenção de Celidonia. E 
olla disselhes : Se estes cavaleyros estevessem tambenn das obras como 
(las razões, quiçá nam me valera a confiança do meu defensor, mas el!e 
traz ho seu ponto em ma sostentar, sostentemo Deos. Os justadores cor- 
reram iuimas lanças: que quebraram fermosamente, fazendo Mansolim 
s»!'ande i-eves na sella, do encontro, mas tevesse. Dom Lucidardos revi- 
dando ao segundo com a sella antre as pernas deu com elle no chão. 
EIrey Sagramor vendo como infiava iam especiaes cavaleyros tam facil- 
mente, i-eceou que lhe afírontasso a corte, e de todos foy julgado por 
estremado justador, e; sospeytouse que era Fidomflor de mares ou al- 
gum dos gémeos, e ja entrava na estancia Frisandor de Bondimargue, 
o posto ante Celidonia armado de armas brancas com rosas de ouro. No 
escudo em tal campo á fabula de Clicie volta em erva que olha sempre 
pêra ho Sol, por cujo Amor perdeo sua natural figura, como lambem 
Frisandor a liberdade polo de lindaria irmaã do Duque de Peconia o 
muito herdada, e dezia, 

O meu ser por vos trocando 
cos olhos vos vou buscando. 

Celidonia lhe disse: vejo em vos arte de me tirardes dehuma duvida 
que tenho. E esta he: qual aveis por mais dilTiculloso fingir. Amor, ou 
amando dissimular não ho ter: Frisandor lhe respondeo. Tudo ey por 
muy difíicil ca pêra mostrar o que não tenho no peylo cumpre grande 
aiieficio : porque pubricar Amor per cartas e messagens, e fazer gastos 
por conseguir hum desejo fazse? porem como não nace de vontade so- 
geyta: não chega a perder a cór ante a dama. ficar mudo, e pregar nella 
os olhos com aquella piedade que amor imprime, ca não lie possível 
fingir lanta sem dor: Pois tinha eu, disse Celidonia, que era nos homens 
fácil todo fingimento pêra enganar huma dama. E logo tornou Frisandor, 
a verdade he boa de entender da mentira, e ho falso do certo: por o que 
ey por mais forte quem ama saber fingir que não ama. (]a ho amador 
'não tem poder em si, e se determina não ir ver sua dama: amor a que 
he sogeyto ho obriga e força, e o faz mudar estilo, e toda a vida daiv 
tes, ho propósito e pratica, e dormindo e velando move nossos espi-itos: 
por onde não he possível vendo a quem ama não sinlir mudança e per- 
der a cor, c lançar contra sua vontade os suspiros da alma com qiii'i>;i- 



DA TAVOl.A HEDO-NDA 317 

rece espedila. Todavia, disse Celidonia. lio homem lic duro do coração 
e pode resistir e contrariar a vontade. Fogir donde veja a dama, e que 
lhe custe pena pode solTrersc. Tudo isso, disse Frisarrdor he pubricar, 
o que dissimula, porqne quem quer vencer ho imigo nam lhe dá as cos- 
tas. Com saudade se abraça e pretende estar soo por desafogar seus 
suspiros, ou acompanhado pêra os praticar: e se está presente he im- 
possível nam se descobrir, quanto ho mais dessimula tanto a alma ho 
pali-a: \j por esla ra/.ão conheceo Erisistrato medico ser Antioco preso 
do amor de Eslratonica. E Oido nam podendo encobrir o amor de E- 
neas: mostrandollie Cartago, no meio da [)ratica cortava ho fio á fala: 
ausente ho via e ouvia. As torres começadas nam crecião : porque 
querendo encobrir seu amor mudouse do que era e assi vem o so 
avaro amando fazerse liberal, por o que ey por mais deficultoso des- 
simular ho amor que íingilo, dado que tudo he trabalhoso. Doume por 
STilisfeyta: disse Celidonia vede agoi-a se vos podeis satisfazer: no que 
pretendeis. Porem elle a pouco espaço íicou mais queyxoso que conten- 
te: e per esta ley médio ho cavaleyro muytos outros: com grande es- 
panto de toda a corte: e ja se delle cria que ninguém ho tiraria de sua 
]^osse, o que visto por Deylilos de xarra, que se guardava pêra aquelle 
tempo muyto certo e coníiado de si, entrou liO campo todo de armas 
verdes, e no escudo huma donzela vestida da mesma cor, ho rosto e 
cabeça cuberta de muitas nuves com que não se lhe via. E dizia. Capuí 
inter nubila condit: Sobre a qual tençam ouve {)areceres, que huns di- 
ziam que ho devia dizer polia sua es[)ei'ança, outros por sua dama : e 
assi cada himi como lhe parecia. Mas elle não se declarou: e sendo mui- 
to olhado dei rei e toda a corte polia openião que delle tinhão: chegou 
ale Celidonia, e ella lhe disse: Antes senhor que venhais a vossa tenção 
queria que cumprísseis com a minha, que he saber de vos duas cousas. 
A primeyr*a quem ama mais o homem ou a molher : e a segunda qual 
delles cree mais asinha ser amado. Deyíllos lhe respondeo. O homem 
(■om[)ren(!e ambas, porque quanto ao primeyro, elle he mais perfeih» 
gei\dmeiite: não perjudico a particular perfeição das molheres que todos 
confessamos sem preço, e sendo o homem mais perfeyto ama com mais 
ftjrvor. Antes a molher repricou Celidonia, sendo mais delicada na com- 
jtreiçam ama com maior ardor, e inflamase mais facilmente : por onde 
nam he muito diflicnltoso namorar huma dama: a qual sabido de si o 
pioprio amor cre o que lhe olTereccm, julgando pola suaaíTeiçam athea' 



3 IS MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

O daqui vem darem credito ao amor, per o que padecem muytos enga- 
nos, nem isso concedo como logo direy, disse Deyfilos; claro está que 
Ioda dama que se ve menosprezada do servidor logo se aparta de seu 
amor, e llie avorrecè : e o homem então persevera mais mostrando sua 
constância, te que de todo desespera ou ve que ella ama outro, e inda 
assi a esquece com grande traballio. E a mollier se se namora em peque- 
no movimento assi se desnamora. E quanto ao segundo, ho homem co- 
nhecendose mais excelente criatura assi cre ser amado. Nessa parte, disse 
Celidonia, tendes menos rezão, {wrque as mollieres por seu pouco saber 
crcm mais facilmente lio amor, eassi lhe chamais amadas: e a elles ama- 
dores. Nam trato que se deve ao homem amor por sua perfeyção, mas 
elle por a servidão que confessa á dama cre ser menos amado como 
servo da senhora, e a molher nam ama sem ser amada, e sam mais 
combatidas e enganadas das mostras dos homens. E sendo piadosas de 
natureza, pêra amar emincrinam se a crer serem amadas. No que os ho- 
mens sam dinos de mais culpa. Ca enganam a quem os cre e coníia 
nelles. Nam vos quero senhora disse Delfilos, contradizer, mas trabalha- 
rey forrarme no vosso cavaleyro, e se ho vencer não me pesaria depois 
ser vencido vosso. Isto sintio muito domLucidardos. Ca como Celidonia 
era em tanto estremo fermosa parccialhe que todos lha desejavão: e so- 
fria mal poer niguem nella os olhos: quanto mais fallarlhe palavras amo- 
rosas : por o que indinado disselhe. Prometouos que trabalhe desenga- 
nar esses atrevimentos. E todos disserão que devia querer grande bem, 
pois tam mal compadecia palavras*vaãs. Os cavaleyros vindo á justa qui- 
serão parece mostrar as boas vontades que^se tinham nos encontros que 
se derão. Ca quebrando as lanças em meudas peças: juntaramse dos ca- 
valos e dos corpos, em maneira que ho de dom Lucidardos pos as an- 
cas no chão, e desmtmtindo huma coxa nam se pode mover. Mas ello 
íicou muito seguro, c de seu vagar saltou em outro que lhe trouxeram 
com muyto ar e desenvoltura, e Deyfilos achouse debaixo do seu que 
cahio sobrelle de pernas a riba. A este encontro deu el rey hum grande 
brado e disse. Santa Maria que famoso cavaleyro. A famosa Pinaílor co- 
meçou logo entrar na liça desejosa de vingar ho irmão ou passar pella 
mesma pena. Entretanto domLucidardos vindoss pêra Celidonia disselhe. 
Crede senliora minha que a força da vossa fermosura me deu vitoria, 
que a minha nam bastava pêra tanto ? e pois em vossa confiança nada 
temo não descudeis de mi. Se eu (respondeo ella), posso por mi dellen- 



DA TAVOíA REDONDA 349 

dervos dayvos por seguro, por que nam quero que sejaes vencido: sal- 
vo meu, nem lio posso ser, lhe tornou elle, e assi ho espero trabalhar. 
IMnaflor armada de armas In-ancas com flores vermelhas, e ho escudo 
assi sem mais letra, veyose a Celidonia que lhe disse, la vejo a vontade 
que trazeis contra ho meu cavaleyro. Mas porque esta cólera tome as- 
sento eyvos de deter com querer que me digais, qual aveis que he me- 
lhor: Mostrarse a dama ao servidor piadosa ou cruel. A minha vontade: 
disse Pinaílor, era nam gastar tempo em palavras: mas por nam quebrar 
vossa ley digo que nam louvo a dama em Uido piadosa e branda com h o 
servidor, pon]ue se preza pouco o que se ganha com pouco trabalho, e 
nmase o que custa caro. .Mais estima a riqueza, quem a ganha com suor 
que quem a herda. As mais amam mais qu<3 os pais aos íilhos, pelo que 
!he custão, por tanto nunca a dama de si nem mostre quanto amor tem 
se quer ser estimada e servida. Bem vejo disse Celidonia, que lie bom 
j)era sua honrra. Mas se se mostra isenta desespera ho servidor e per- 
deo de desconfiado. Quem ama verdadeiramente, repricou Pinaflor, sem- 
pre es[)era : antes então se mostra ho aiDor e se aíina, com tudo nam 
(ligo que seja tam cruel que conhecida sogeicão no servidor ho despreze 
tanto, que lhe seja necessário ou forçado desistir e apartarse da empre- 
sa, ho bom deve ser ho rneyo, nera cruel nem amorosa. Ca os estremes 
sain viciosos. ÂfTirmo porem que antes isenta que piadosa se quer se- 
gurar seu partido. Ora, disse Celidonia, eu offerecerey esse vosso con- 
selho a estas senhoras. Mas nam sey quanto com elle ganhareis, e por- 
(jue não percais em tudo, ho meu seria que escuseis pendenças com lu) 
cavaleyro do Centauro: ja que vedes como os outros sayram delias. Eu 
vos estimo Iw conselho, disse Pinaflor. .\ías he ja fora de tempo, e assi 
como nam perderey com as senhoras em minha openiam, assi espero 
não perder com ho vosso cavaleyro. E aqui soube logo Celidonia e dom 
Lucidardos que era Pinaflor. I'or o que correndo hum ao outro encon- 
trarse. Elle levantou a lança ao dar do encontro, recebendo ho de Pina- 
flor que foy assaz forte. Cuydando ella que errara elle ho seu : e \\i\úo 
â segunda carreira em que elle também levantou a lança. Pinaflor fez lu 
mesmo dizendo : Affrontaisme senhor cavaíeyro com vossa cortesia, c 
vindose a Celidonia disselhe, que mandasse ao seu cavaleyro que jus- 
tasse com ella: ou a ouvesse por sua vencida, porque delle nem algum 
outro cavaleyro ho determinava ser. Celidonia lhe tornou. lio dia senlioia 
Ue quasi gastado, e a vossa demanda requere tempo. Fique pêra ame- 



^^0 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

nhan a Irnínrmos ante el rey. Ao qual pareceo islo bem, e assj mantloii 
que cessassem as juslas daquelle dia. E despedindose de Celidonia e do 
seu cavaltívro, foram se pêra cidade: gabando lio miiilo, e dizendo aos 
casados que se encomendassem á sua fortuna. Ca elle julgava ho cava- 
leyro por lai que seria mao de mover da sella. e elles que assi o criam, 
Mas temendo lio perigo desejavão ver-se nelle: porem os fados ordena- 
vão outra cousa, porque íicando ho cavaleyro do Centauro com a sua 
companhia na tenda, com muita alegria de suas vitorias em que a '(vai- 
dade humana veceja: como tudo está sogeyto a mudanças e as da pros- 
pei-idade sam as mais perigosas, ordenou a desaventura dar huma voll;> 
a estes gostos de seu natural vidrentos e foi assi. Dolonio Conde deBre- 
som era alem de esforçado grande falador, poderoso e artista de fazer 
motins 3 que era muyto inclinado, e sintindose afírontado de lhe dom 
Lucidardos fíizer levantar a lenda sobre ho derrubar, andou praticando 
com todos os esfrangeyros que se alojavão no campo c padeceram a sua 
magoa: dizendo (jue nam se compadecia tanta paciência: nem avia Deos 
de querer que hum cavaleyro alírontasse lautos por ser bom justador, 
e ja podia ser que não fosse tal com a espada. E tanto andou falando 
nisto, c induzindo huns e outros, que os fez da &ua sevla. E como os 
ícve incrinados a desejarem fazer nojo a dom Lucidardos, disselhes em 
som de graça, que seria bom saltarem com elle de noyte a fazeiihe al- 
gum medo com que ho podessem notar de covardo.'Era elle Iam sagaz 
e palavroso : que comoveo a todos os agravados, sem embargo de se- 
rem pessoas nobres, e alhcyos de cometerem vileza. Mas aceitaram le- 
vemente a zombaria, nam olliando ao fim delia, segundo muitas vezes a 
quece antre amigos que costumam saltar com ouiro pollo provar. E sam 
esperieijcias que parem sempre grandes escândalos e quebras Assi que 
convocados estes cavaleyros pola malícia de Dolonio ho qual linha em 
lençam fazer todo mal a dom Lucidardos, se levesse azo, pêra o que le- 
vava alguns parentes da sua cevadeira conjurados. Aquclla noyte que 
elle cansado do trabalho do dia, estava encarnado no sono, na tenda 
onde lambem dormia dom Selvagio, porque a princesa Fimbrisa reco- 
lluase com Celidonia e ho Centauro lambem se agasalhava junto delles, 
que estavam cada hum em seu leyto. Dolonio com os do seu bando ar- 
mados lodos, e seriam cincoenla c tantos cavaleyros cíiegando á porta 
com as espadas começaram abrir entrada. E a este rumor acordou ho 
Príncipe dom Selvagio, e levando da espada e escudo que tinha á cabe- 



DA TAVOLA REDONDA 321 

ceira: snltoii fora da cama. E arremeteo contra os imigos que divisou 
com lio luar. Doloaio que era ho capitam e dianteyro, vendoo assi de- 
sarmado e em camisa, nam no temeo. E cuydando ser dom Lucidardos, 
deulíie pelo escudo que lhe cortou grande parte. Mas dom Selvagio ho 
tomou com hum golpe que lhe fez huma boa ferida na cabeça. Nisto 
acordou dom Lucidardos, e ciendo que vinham polo matar, saltou muy- 
to prestes com a espada e escudo, e ajuntouse com dom Selvagio dizen- 
do. A elles senhor nam leyxemos a vida a traydores. E assi começou 
fazer maravilhas, as quais dom Selvagio imitava como esforçado cavaley- 
ro. Poys ho Centauro nam as fazia menores com ho seu arco e setas com 
que matou dous cavaleyros. E ferio outros, que sintindose escandaliza- 
dos pretenderam vingarse. Per modo que os salteadores por graça com 
ho danno que recebiam, vencidos da ira esqueceram todo outro respey- 
to, pondose em propósito de ho matar ja que começavam, parecendolhes 
que assi encobririam melhor sua vileza. Per maneyra que os acometiam 
mortalmente. Mas elles pelejavam pola vida e com esta vantagem se sos- 
tinhão contra a que lhes tinhiio seus confrayros em virem armados. E 
foi o negocio tão travado, que tinham elles a seus pés mortos alguns 
oito cavaleiros, todos da conserva de Dolonio ; o qual incitava a todos 
dizendolhes que nam leyxassem triunfar dous cavaleyros de tantos, e 
como muitos andavam magoados de suas feridas assi acometiam aos dous 
esforçados guerreyros, a que ho Centauro ajudava animosamente. Ca 
tendo gastadas as setas tomou um escudo e espada dos mortos e come- 
çou fazer façanhas : e assi lhes era necessário a todos três fazelas, por- 
que tinham contra si muitos imigos e armados e elles sem outro ampa- 
ro de suas carnes salvo os escudos que traziam desfeitos dos muitos 
golpes. Dom Selvagio se mostrou muy singular cavaleyro: porem os es- 
tremos de dom Lucidardos eram tais que abatiam todo outro, pois ven- 
do elle que Dolonio se mostrava a cabeça da trayção trabalhou chegar- 
Ihe, e deulhe de tal vontade de per cima do elmo que lho fendeo com 
a cabeça te os dentes, e logo ho traydor cahio morto, e nam parando 
nisto deu per hum hombro a outro que o escalou lançandolhe o braço 
em terra. A grita de Celidonia, Fimbrisa e suas donzelas era grande. 
Calidio e ho escudeiro de dom Selvagio seposeram com ellas pêra as es- 
forçarem e morrerem se cumprisse sobre as defender: mas os ca'aley- 
ros nam trataram de as anojar : nem tinhão espaço, occupado? ra sua 
traiçam, e lendo em meio cercados os mantedores os quais fa^en '■■. cos- 

2i 



322 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

tas hum com o outro se defenderam e oíTenderam tam anituosamenle 
que nunca cavaleiros assi sostentaram honra e vida : porem nam tanto 
a seu salvo que nam estivessem muito feridos: e com a morte de Dolo- 
nio, os traydores forão afracando : pondose em fogida os que jioderam, 
leyxando no campo mortos trinta e tantos: e duraria a escaramuça três 
oras: e ja rompia a menhaã quando os animosos cavaleiros se vii-am de- 
sapressados de seus imigos e vitoriosos: e recolhendose aos leytos: tra- 
tou Tiresia e Calidio de lhe curar suas feridas que eram muitas e gran- 
des, e o escudeyro de dom Selvagio correo á cidade a dai- coiila a el 
rey do que passava. Ao qual lhe pesou muyto sabido tal aípiecimento, 
e em pessoa acodio logo com a gente que ho seguio: e pelo caminho se 
informou de quem elles eram: e chegando aa tenda foyse a dom Selva- 
gio: que ho curava Tiresia e a princesa Fimbrisa tam traspasada que pa- 
recia mays morta que viva, e depois de passarem suas praticas breves 
e do tempo, que o leyxou com hum medico, foyse a dom Lucidardos, 
dizendo. Cavaleyro das armas cristalinas, não quisera eu que a fortuna 
vos dera tal pena da culpa que tinheys em vos encubrir tanto de mi, e 
que vos padeçais as dores e affronta, por minha a ei. Dom Lucidardos 
foy por lhe beyjar a mão, mas elle o abraçou, e com outro medico tra- 
tou da cura de suas feridas. Particularizar aqui as praticas e honras que 
el Rey teve com dom Lucidardos, não ha ouvidos tam oaciosos (]ue o 
queirão ou possam ouvir. Mas vindo ao principal, dom Lucidardos to- 
mando pela mão a Celidonia, que estava junto da sua cabeceyra, disse a 
el rei. Esta senhora he a donzela que me levou de Ix)ndres, e me traz 
ante vossa alteza: sem ella pcra nada sou parte; delia pode saber o que 
mais quiser, e fazer-lhe a honra qne se deve a tam alta princesa como 
ella he, filha de Miileyzider rey das Espanhas El Wey lhe turnoií. Sem- 
pre cri cavaleyro das armas cristalinas que tinham grandes mistérios vos- 
sos maravilhosos princípios: e de lhe dardes tam bom fim sou eu muyto 
contente. Ca vos amo e prezo muyto : c folgo vervos empregar vosso 
trabalho em lugar de tanto merecimento, e voltando-se a Celidonia dis- 
selhe. Fermosa princesa porque vos queria merecer e dever muito, que- 
ro saber também de vos muito. Asi da vossa fazenda como da deste ca- 
valeiro, que nada vos encobrirá de si. Celidonia lhe propôs com honesto 
despejo tudo o que atras ouvistes dela e do seu cavaleiro: contandolhe 
a aventura dos Centauros, que el rey teve em muito, e assi a morte de 
Argançom: que não foy de pouca admiração em toda a corte. E por fim 



DA TAVOLA REDONDA 3:2o 

lhe disse que era filho de Tristão de Leonis e da rainlia Iseo, por o que 
o recebeo de novo por filho de tal pay, cujo primo com irmão el rey 
Sagramor era. E acabando os médicos de os curar, e assi ao Centauro, 
foram levados ao paço: onde os el rey aposentou como se foram seus 
filhos. E a Celidonia aposentou em casa da raynha, de que era muyto 
])em agasalhada, por assi lho mandar el rey, por respeito do cavaleiro 
do Centauro. E alem de ser Princesa filha de tam grande rey como era 
Muleyzider das Espanhas, a fermosura de que natureza a dotara, que 
naturalmente adquire corações, a graça, e discrição de Celidonia eram 
taes que aníre brutos achara conformidade e Amor: donde dom Luci- 
dardos fica sem culpa de quantas per ella cometeo: e ao menos tem nella 
clara desculpa, inda qne não fora forçado das artes do sábio Telorique. 
Curado pois elle e seus companheiros de suas feridas com ho cuidado 
dei rey Sagramor e a deligericia dos médicos, que lhe pretendiam fazer 
a vontade, em espaç/) de hum mes se levantaram quasi sãos: e ho mes- 
mo foy Chirontes Centauro, que se aposentava no aposento de dom Lu- 
cidardos: porque el rey dom Selvagio tinha ho seu por si cora a sua 
amada Fimbrisa a quem foram dadas damas, e casa conforme a seu es- 
tado. E pretendendo el rey Sagramor gaynhar a amizade de dom Selva- 
gio, pediolhe que quisesse celebrar suas vodas em sua corte: o que aca- 
bou a rogo de dom Lucidardos, de que dom Selvagio era tam amigo, 
que fazerlhe a vontade era ho mayor gosto que podia ter: por o que as 
festas se renovaram, e por muyto mais tempo: querendo el rey Sagra- 
mor mostrar sua grandeza em festejar dom Selvagio: ao qual Lucidanor 
de Praga seu irmão (jue tomara a posse do reyno de Bohemia em sua 
ausência, sabendo delle per carta sua, mandou logo sua obediência, jun- 
tamente com a de seus povos: a qual lhe trouxeram hum Arcebispo e 
hum Duque, com muytos outros nobres: do que el rey dom Selvagio 
teve grande gosto, estimando á boa irmandade do irmão, e a lealdade 
dos vassalos: ca por a fortuna e necessidade que passou entendeo que 
ho ser rey e soslentar estado, consiste no Amor dos súbditos que lho 
sostentam: e sendo por os seus senhor de todos, drsamparado delles 
pode ficar ho mais misero de todos. E destes exempros estam as histo- 
rias cheas: assi que dom Selvagio como esperimentado soube conhecer sua 
obrigação e cumprila a seu tempo. Estando pois as cousas neste estado, 
e a corte cheya de cavaleyros naturaes e estrangeyros, todos occupados 
em festejar os noivos, socedeo huraa estranha aventura que levou âboya 
a tudo e a que se deve a tenção por ho preço delia. 



324 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

Capil. xlvj. De huina maravilhosa aventura que vej/o na corte 

Parte de discri ção e dote de juyzo claro lie de nada coiíceber aií- 
miração, por ler ho eiilendimenlo exercitado em saber e ouvir estranhai 
novidades. Daqui procede não poer duvida nas maravrlhosas obras de 
cavalaria atras notadas de dom Lucidardos, por ser cousa tam natural e 
tam tratada de Portugueses: de cujos passados ouvimos e sabemos de 
certeza outras.de não menos preço, e dos presentes lemos vistas van- 
lajadas. Porque iiam se nega aos Lusitanos, des ho tempo dos Romanos 
que fezeram memoria dos feylos heroycos, hum- abalisado e raro grão 
de cavalaria. E era tempo dei Rey dom João de boa memoria sabemos 
que seus vassalos no cerco de Guimarães se nomeavam por cavaleyros 
da lavola redonda: e elle por el rey Artur. E de sua corte mandou tre- 
ze cavaleyros Portugueses a Londres, que se desafiaram em campo rar- 
rado com outros tantos Ingrezes nobres e esforçados, por respeyto das 
damas do Duque Dalencastro. E de Santarém síiyram três cavaleyros an- 
dantes a buscar aventuras, per Espanha gaynhando rouyta honra: e em 
nossos tempos foram outros a Itália, Ingralerra e França, em que se 
abalisaram como genlijs soldados: vindo dahi a capitães nãc^ menos que 
os antigos. Per maneira que a esperiencia nos ensina, que com os nos- 
sos podemos não maravilhamos dos alheyos, e testificak) com hum lor- 
neo que a sabia Merlindia quis fazer vente ael rey S^gramor e toda sna 
corte: per dous fins. lio primeyro porque não se fiasse da sua prospera 
fortuna, vendo quam falsa se mostrou pêra coma prospera Lusitânia. E 
a segunda pêra que visse que viriam inda tem[X3S que acaiiha&sem os 
seus: e foy agoarlhe a soberba openião que tinham. (>orreo [X)is a cau- 
sa desta maneiro, passados dois dias da saúde de dom Lucidardos: es- 
tando el rey vendo correr muytas alinK>rias bravas, s. ussos, liões. Ac. 
Os quaes corriam ao modo antigo que em Roma se usava, em hum pa- 
lco de hum quarto de legoa redondo, de huma cerca muy alta ao rede- 
dor, toda de varandas, no principio do qual passatempo, de improviso 
se fez no ar huma çarração de huma nuve tam oscura que abateu toda 
a claridade: ficando todos como cegos sem se verem nem saberem ati- 
nar onde estavam: somente ouviram huma voz alta e bem pronunciada, 
(lue podia ser ouvida e entendida geralmente: dizendo. 

Famoso e invencível rey da gram Bretanha e França, a sabia Merlin- 
dia vossa servidor, vos faz saber que como nunca perde cuydado e de- 



DA TAVOLA REDONDA 32o 

sejo de vos servir: e nisso se desvela contino, por suas artes, tem al- 
cançado que contra vos se move liuma das três parles da Espherica Ma- 
china, e a semente do falso Propheta da abominável Seyta faz conjara- 
<;am em vosso despeyto, incitada e provacada de vossos naluraes inimi- 
gos: do que vos avisa, por que vos nam possa á fortuna acometer des- 
cuydado. Ca se delia vos nam descuydardes, e a prosperidade não acal- 
mar vosso tam belicoso exercício, escalmel dos espritos nobres, tudo 
se dobrará em gloria vossa, tão altamente que daqui a longos annos seja 
vosso nome celebrado vossas famosas vitorias louvadas: e á crónica de 
vossos heroycos feytos, apresentada a hum muyto esclarecido Príncipe, 
<im cuja idade a cavalaria terá não menos preço, antes mais que nesta 
vossa: O que a sabia ora determina fazervos vente, em hum torneo que 
então se fará, e agora vereis de presente, porque entendais que se po- 
<1ia esperar de laes princípios, se a fortuna que vos espreyta os não in- 
vejara: e o que agora vereis se effecluará pontualmente daqui a grandes 
tempos na belicosa Lusitânia, per hum dos mais excelentes Príncipes 
que pode natureza formar, e socederá desta maneyra que vos direy. 

Naquelle segre belicoso averá na Christandade reys, varões muy be- 
licosos, e desavindos em perjuyzo delia: dantre os quaes só hum como 
constante penedo na fé, terá larga conquista contra intieis das duas par- 
tes do mundo, dos que alcançará notaves vitorias per mar e per terra 
per meyo de seus invencives capitães, e indomaves vassalos, cujo pro- 
suposto será acometer tudo sem vantagem, e recuar a ninguém. 

Este Cristanissimo rey terá hum filho digno de tal pay. E segundo 
se conta de Alexandre Magno que ouvindo em menino as vitorias deFc- 
lipo seu pay, queyxavase aos moços de sua conversação, que se temia 
não lhe l^^yxar ho pay que conquistasse. Tal ho esclarecido Príncipe dom 
João vendo ho muyto alto e muyto poderoso rey seu padre dom João 
lerceyro de Portugal, occupado em prover animosos capitães, e des- 
pedir de seus portos poderosas armadas per todo ho universo: rece- 
ijendo em retorno obediência de grandes reys onentaes, vencidos per 
ho rigor e fortaleza das armas Portuguesas, nam somente tributários do 
senhorio temporal, mas em galardão desta vassalagem restituydos áSee 
Apostólica, o confirmados na Cathollca Fee: De cujo estandarte com ho 
sinal da redempção humana será alferez mór da redondeza. E o que mais 
he de estimar deste iam poderoso rey, que nunca suas armas se move- 
rão contra sangue Christão: mas como zelador grande da gloria de Chris- 



326 MEMORIAL DOS CAVALEmOS 

to, todo seu intento será pubricar seu glorioso nome per todas as Re- 
giões Barbaras, nunca tratadas nem vistas dalgum outro conquistador, 
com presumpção justa e divido titolo de novo Apostolo. E quando inve- 
josos esta verdade negarem, por que tudo a malícia humana intenta em 
perjuyzo dos bons, assaz pena lhes será a própria cegueyra: ca sem re- 
ceyo ouso affirmar ser este poderoso catholico rey não somente hum dos 
conquistadores do mundo, mas também hum dos que mais fruyto farão 
na ley divina cora sua conquista, e o que mais verdade e mais amizade 
guarde a todos. 

Per modo que ho esclarecido Príncipe Dom João, criado m consul- 
ta de tam claras e Christianissimas obras, em seu peyto real se criará 
tal inveja de tara virtuosa e magnânima occupação, com entender que- 
de antiga herança de seus avós lhe vem aver de sostentar per armas 
seus reynos, como per ellas se gaynharara, ordenaram hum torneo pêra 
seu passatempo, com os moços Fidalgos de sua criaçrão. E el rey favo- 
recedor de todo nobre e virtuoso exercício lho concederá, .não pouco sa- 
tisfeyto de Iam louvados princípios, querendo porem atalhar a gastos 
sobejos, como aquelle que per esperiencia alcançará com quanto gosto 
e quão hberalmente seus vassalos offerecem fazendas e vidas em qual- 
(juer rebate de seu serviço: por o que com desvelada providencia, e não 
menos amor trabalhará poupar-lhas pêra tempo de necessidade. ?danda- 
rá por tanto que em suas galantarias se conformem com a ordenação 
per que tolhe sedas, soltando somente tafeíás e telillías: o que não bas- 
tará moderar a grandeza dos ânimos Portugueses, porque obedecendo 
nesta parte, per outra via farão invenções não menos custosas que ga- 
lantes. O que a sabia vos logo quer mostrar que ho vejaes, como se fos- 
seys presentes ao tempo em que se effectuar. Acabando nisto a voz á 
hora se desfez a escuridão e nevoeyro, ficando tiido muito claro, e aos 
olhos de todos geralmente pareceo que viam no ar a pouca distancia as 
Ires fadas, Cloto, Lachesis e Antropos, huma lendo a ro^a na cinta, ou- 
tra fiando, e a terceyra cortando com humas tesourais ho fio: velhas e 
despiadosas no aspeyto, o vestidas todas de resprandecente aço: em seu 
asseo dereytas e que pareciam mais inraovives que estatuas, as quaes can- 
tavam ho seguinte Romanc© a três vozes, muy soantes e em suave con- 
sonância. 



DA TxVVOLA REDONDA 



327 



Príncipes e Emperadores 
qiie ho mundo a sabor mandais 
a iam pocco vos lembrais 
da rola da vida elerna, 
a soberba que governa 
vossos peitos deshumanos 
derruba os grandes tiranos 
da mais alta Monarchia: 
quem da fortuna se fia 
não lhe sabe a condição, 
soberba lançou Adão 
do Parayso deleitoso, 
ficando vitorioso 
do mnndo ho enganador 
nquidle edificador 
de Babei que em competência 
da elerna summa potencia 
presomio delia isentarse 
cahio por alevantarse 
após elle os socessores 
Âssirios Emperadores 
([ue a fortuna sublimou, 
em breve os dessaposou. 
Sardanapalo ho sintio. 
dos Medos lambem se vio 
Asliages, que cuydava 
(jue a seus fados atalhava 
com mandar matar ho neto 
Ciro animoso e discreto 
(pie ho despossou de seu estado 
e Iby ho Império passado 
aos Persas, onde ho perdeo 
Dário que desconheceo 
vossa humana condição, 
e aquelle íilho de Amão 

que negou a natureza, 

cuja soberba altiveza 



teve em pouco e desprezou 

ho mundo que conquistou 

sua cobiça atermada, 

foy com morto antecipada 

seu Império dividido 

César não menos temido 

em confirmação deste erro 

foy morto dos seus a ferro: 

E todos quantos subiram 

tiranamente, cayrani 

cahio Tebas, cahio Troya, 

Roma que levou a boya 

a toda potencia humana 

quando foy mais soberana 

per si mesma se abaleo, 

que ho mundo não concedeo 

aver estado seguro: 

por tanto quem quer ter muro 

inexpunhavel, e hum sorte 

que não entre humana sorte 

em deos ponha a confiança, 

ho fundamento, a esperança 

com verdade e com Amor: 

donde tu Rey Sagramor. 

no que ora vires, verás 

exempro que tomaras 

e te fique por aviso 

que tudo ho mundo he riso, 

sem ter doos por padroeyro, 

guia e norte verdadeyro. 

E verás um poderoso 

Rey prudente e justiçoso 

liberal, manso, benigno 

que em deos tem posto seu tino, 

Chrislianissimo, cremente, 

nos desgostos paciente 

sesudo em prosperidade: 



328 



MEMORIAL DOS CAVALEIROS 



soíTrido na adversidade, 

de David claro traslado, 

que sendo de deos tocado 

per vezes, em seu louvor 

converte sempre sua dor, 

a paciência lhe sobeja 

donde fortuna de inveja, 

quando mais contente ho vio 

e descuydado ho sinlio 

de si mesma a traição 

poslhe ho Reyno em condição 

de fazer termo mortal, 

G acabarse Portugal: 

ho bom Rey que assi ho temia 

a seu Deos se convertia, 

e com seu povo gemendo 

confiança nelle tendo, 

De hum Fénix que vivo ardendo 

logo outro Fénix naceo 



per Deos a Portugal dado 

pêra ser mais exalçado 

que Israel per Salamão 

taes pronosticos nos dão 

os aspeytos celestiaes 

e seus principios lleaes, 

como foram trabalhosos 

assi ham de ser famosos 

os meyos e fins da vida, 

que longa lhe he concedida 

ca o que se daa sopesado 

dos ceos sempre foy estremado, 

tam boninas as estrelas 

lhe seram, que suas velas 

no mundo sejam espanto, 

e elle outro Afonso sancto 

que ho Reyno renovara, 

e os termos lhe augmentara 

muyto melhor do que eu canto. 



Este romance caniaram as três fadas, pronosticando o que estava por 
vir. Querendo parece a sabia Merlindia per este encantamento desenga- 
nar el rey Sagramor e a todo Príncipe: que pois está certo não aver 
constância nem segurança na prosperidade humana, quando forem visi- 
tados da adversa fortuna, saybam recolherse á divina misericórdia: e 
desta maneyra se valerão dos mãos soccessos com melhoria: como ho 
canto diz que fez, ho catholico rey dom João de Portugal, quando vio 
morto ho Príncipe seu filho, que tinha per único soccessor, alcançando 
(com seus gemidos e lagrimas, e juntamente ho clamor de seu povo) de 
Deus outro que esperamos que renove seu estado: e em imitação dei 
rey dom Afonso Anriquez, que ho principiou: com nome doutro Alexan- 
dre ho ponha em tal prosperidade, qual ho reyno de Israel teve por 
meyo de Salamão socessor de David. Per modo que assi como em 
muytas partes el rey seu avó foy hum Irasumpto do sancto rey David, 
assi ho seja elle nas melhores de Salamão. Mas tornando ás Fadas cujo 
canto ouvistes, diz ho cronista que naquelle largo campo em que socor- 
riam as alimárias, npnreceo de improviso huma populosa cidade, odifi- 



DA TAYOLA REDONDA 3:;J9 

cada ao longo da prava de hum largo rio em que homar Oceano entra- 
va: a qual era tam grande que occupava montes e vales, cujo sitio Fo- 
roneus querendo vicejar com a pena e divertir gostos assi divisa. 

Junto ao promontório da luna nas fraldas de seus altos montes da 
])anda do Norte, contra Oriente, se estendem alguns cabeços, cumeadas 
e vales de maravilhosa fertilidade e frescura: costeandose ao longo das 
fraldas do mar, ao modo que nelle se levantam e abayxam com brando 
vento as inchadas ondas: cuja praya deste colobrino sitio terrestre, vam 
assombrando, e escudando da fúria do boreal Selentrião, herdades de 
estremada policia e abastança, e antre frutífero e diverso arvoredo, tam 
povoada he toda esta região em redor per muytas legoas, que á vista de 
longe pode tudo julgar se por huma só povoação: e no meyo se levan- 
tam dous montes os mais soberbos de edifícios que podem verse, os 
quaes se estendem hum pêra Oriente, outro pêra Poente, com ho mes- 
mo lavor, liados hum com outro em hum vale não menos famoso: em 
tal forma que maginado forma huma ave, que da banda do Norte faz ho 
rabo em muytas ortas, pumares, quintaãs, e casaria, mais alva que a 
neve, que he tal que abate a fermosura da do pavão: e fica com rezão 
muyto mais vangloriosa: e dos lados que levantam nos dous montes 
mostraas ás com que parece querer voar como grou que se está sole- 
vantando: e bayxo daagoavay sair com a cabeça emalmada da banda do 
meyo dia, ornada de arvoredos e quintaãs, apropriadas e necessárias 
pêra sostentar e pastar sua openião, cujo colo lhe atravessa como seta 
ho dourado Tejo, recebido nos braços eseo do grão padre Oceano, que 
ali vem recebelo, e agalardoalo do trabalho de sua longa jornada, com 
ho descanso de tal aposento: onde não fica pouco maravilhado de ver 
tam notável cidade, que se pode e se deve assi chamar ave Fénix, com 
não menos rezão, vista sua imaginada figura, do que a teve pêra ser 
chamada Júlia Félix. E ali esquece logo e despreza a sua amada Toledo, 
que com tanta meguice rodea, e pretende liar consigo de passagem, 
avendoa por huma pequena balseyra, em respeyto de liuma alta mala: 
Aqui não ha torrão de terra estéril, ornada toda de varias flores, ervas 
verdes, e de espessas prantas frutíferas, que defendem ho humedo pra- 
do dos ardentes rayos do Sol, e de seu calor ho dia: os brandos ares 
nunca cessam de espaçar-se per antre as arvores, em que não falta lodo 
género de passarinhos que com seus doces cantos os festejam: as claras 
e vivas agoas que regam as artificiosas orlas, sam tantas que soam por 



330 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

todos seus lermos com saudosa armonia: de que se logrílo os naturaes 
e estrangeyros, espalhados por os verdes prados, seguros eouciososem 
diversos passatempos e recreações. Aqui não nace bicho mao que possa 
contaminar os elementos de mãos humores, ho ceo he aqui sempre be- 
nigno, ho vento suave, as ervas saudaves, as flores cheyrosas, e as agoas 
doces o puras. E na parte mais acomodada da cidade nace huma pere- 
nal fonte de grossa enchente: afora outras, a mais estranha em calidade 
que se vio: porque em verão eem inverno sempre está quente, sinal da 
calidade dos naluraes em que Amor sobre todas as nações reyna, com 
muyta rezão, por serem as molheres desía terra de tam estremada for- 
mosura, grave e aprazível asseo, policia e riqueza em seus atavios que 
se vantajam a todas as doutra nação sem lhes fazer injuria. 

Capit. xlvij. Do torneo que fez ho esclarecido Príncipe 
em idade de quinze annos 

Muvto divido he dar ho louvor e preço a quem se deve, e grande 
falta nega lo, por o que parece Foroneus chegando a tratar d'esta ponta 
que aqui Lusitânia faz acabando no mar Oceano, teve que não se podia 
escusar da obrigação de seus louvores, tão breve e sucintamente como 
ouvistes. Per modo que aqui se virão logo, mediante a arte de Merlin- 
dia, huns reaes paços: em cuja rica sala se assentava a huma mesa huma 
lustrosa raynha com ho esclarecido Príncipe seu filho, e ao longo das 
paredes (segundo usança do reyno) muytas damas e fidalgos em pó: em 
doce e virtuosa conversação huns, outros com olhos soffregos e desejos 
famintos, enganando as esperanças, e padecendo a presteza das breves 
oras daquela gloria. Estando pois a sala neste aparato, entrarão nela seys 
Sátiros de cabayas de cetim branco, os corpos todos fogueados, carapu- 
ças redondas nas cabeças, de que lhe sahião dous cornos de cabra, do 
que também erão os pés, e as pernas te a cinta: tanto ao próprio da 
figura que representavão, que ninguém os julgou por outra cousa: Tan- 
giam orlos com suave melodia: e trás elles vinha hum salvagem vestido 
de peles, com huma cabeleyra que lhe chegava ate os giolhos, e na mão 
esquerda hum arco com huma frecha nelle, e na dereyta ho cartel do de- 
todos ante hsafio. E indo assi o Príncipe, disse ho Salvagem. 

Três cavaleiros que vivem na lera onde não habita outra gente senão 
desta arte, me mandaram aqui vir denunciar que por serviço de vossa 



DA TAVOLA REDONDA 331 

alteza querem fazer hum torneo, e que llies dé licença pêra poerem as 
condições delle: c eu ler este cartel. 

Pedida assi licença, ho Príncipe lha deu: e lio Salvagem beyjoulhe a 
mão. Deshi leo ho seguinte. 

Três cavaleyros por serviço do Príncipe nosso senhor, dizem que 
manterão hum torneo de pé, no lugar e dia que lhe per sua alteza for 
assinado, contra quantos quiserem com elles combater três golpes de pi- 
que, e cinco de espada, ambas juntas, ou huma delias só, como cada 
hum dos aventureyros que vierem quiser. E porque depois se veja o 
que ho melhor faz de cada cousa, elles mantenedores darão ao que ho 
melhor fezer do pique, hum anel de hum diamante de cincoenta cruza- 
dos pêra bayxo. E assi darão ao que ho melhor fezer da espada, huma 
pluma guarnecida. E ao que mais galante vier conforme a ordenação dei 
rey nosso senhor; lhe darão humas luvas concertadas, e a parte que na 
fola ho melhor fezer de todas as armas, lhe darão hum maço de luvas. 
E elles mantenedores não querem nenhum dos ditos preços, ainda que 
os mereçam, por não quererem mais que ho gosto que nisto tem de ser- 
virem a sua alteza: a que pedem que por lhes fazer mercê queyra sina- 
lar os juyzes pêra que os preços e honra dem a quem os merecer: os 
quaes julgarão com estas condições. Qualquer que der golpe da cinta 
pêra bayxo de qualquer das ditas armas não gainhara preço, nem menos 
o que der estocada com espada. E assi o não gaynhará aquelle que po- 
ser a mão na tea: nem poderá entrar no preço de mais gentil homem 
o que vier fora da prematica. 

Lido polo Salvagem este cartel, ho Príncipe ho aprovou: e as damas 
ho festejaram, dando a invenção por boa, e como este he ho íim a que 
os nobres Portuguezes endereçam sempre seus desenhos, leyxalas satis- 
feytas nesta parte, foy grande cevo pêra com mais querençoso gosto os 
aventureyros se offerecerem aos perigos da sua profissão. Saydo pois 
assi ho Salvagem com os Sátiros tangendo os orlos, leyxou de si antre 
os Fidalgos grande pratica em seu favor: porque geralmente foy aprazí- 
vel sua vistosa mostra ebom concerto, esperandolhe hoeffeyto que pro- 
metia em tam galante principio. 

Disto deu ho Príncipe conta a el rey: ho qual favorecendo seu vir- 
tuoso gosto e animosa incrinação, assinoulhe dia de Sanctiago mayor pê- 
ra ho torneo: mas por inconvenientes que socederão, espaçouse pêra 
nossa senhora da Assumpção: e nomeou juyzes dom James e dom Gons- 



332 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

tanlino, filhos do Duque de Bargança dom James: eJoão da Silveyra re- 
gedor da casa da sopricaçâo, e o campo na praya de Enxabregas, o 
mais aprazível sitio que pêra semelhantes autos poderá cuydarse: por- 
que da banda de terra contra ho Norte se vay costeando hum pequeno 
monte de diverso arvoredo frutífero, antremetidos alguns aciprestes, 
que como pirâmides se levantam dantre elle sobíndo seus cumes ás nu- 
ves, das que cabia sobrelles ho cristalino orvalho, que rega as muytas 
ervas cheyrosas e floridas, do verde prado sombrio e deleytoso pêra âni- 
mos contemprativos. Aqui estavam alguns maslos altos que surgiam 
dantre as arvores, com quadrângulos de muytas luminárias, asquaes de 
noyte lustrarão muyto, e pareciam cometas no ar que afuzilando como 
relâmpados com seus resprandecentes rayos aclaravam a terra. Ao pé 
deste monte que de gentios podéra ser ávido por sagrado bosque de 
semidcoses, corre hum vale de muytas orlas, em que a industria huma- 
na mostra bem sua abilidade, e a natureza sua invenção, onde a força 
do estio fazia Ião pouca impressão, que sendo em tal sazão ho seu quar- 
to, parecia morar ali eternamente ho verão, e ser ho pumareyro Zéfiro 
com a sua amada Flora, ou Virtunio com Pomona, criando e soslendo 
diversos fruitos e varias flores, parece pêra mantimento e recreação das 
Ninfas e Faunos, e toda outra deydade Agreste, que por aqui faziam sua 
continua habitação, e pêra mais ornamento, dos dous lados, Oriente e 
Poente tem dous mosleyros, de sam Bento, e S. Francisco, em que ho 
culto divino com exempros de virtuosa vida conlino florece: cujos edi- 
fícios não carecem de sumptuosa Machina, dantre os quaes o monte so- 
berbo e vanglorioso vem decendo te a deleytosa praya em que se terma 
contra ho meyo dia, metendo suas rayzes em ho dourado Tejo: ho qual 
abraçandose com ho grande Oceano, á sua vista se espraya per espaço 
de Ires legoas em largo, como pavão que faz a roda da sua unidade que- 
rendo parece fazer alardo da grandeza de suas claras agoas ante a po- 
pulosa e soberba Lisboa: cujas fraldas branda e deleytosamente vay re- 
gando, te se consumir no alto reyno de Neptuno termo descansada de 
sua longa viagem. 

Nesta graciosa e aprazível praya de douradas áreas, antre as casas 
de dom Francisco de Menezes e Vasconcelos, Arcebispo que foy de Lis- 
boa, e a orta de dom Francisco de Castelbranco camareyro inòr, a qual 
entesta no mosteyro de S. Francisco, estava sobre grossas vigas armada 
huma praça quadrada que entrava muyto polo mar, crecendo a maré 



DA TAVOLA REDONDA úóo 

que a combatia amorosamente, fazendo hum musico e saudoso mormu- 
10. Â qual era a liça cercada de grades verdes de altura de cinco pal- 
mos, pouco mais ou menos, com sua tea em meyo bem concertada e 
galante, fronteyra da qual contra Oriente estava ho assento dos juyzes, 
antre huma porta da quadra, que per degraos decia na estrada de sam 
Bento á face do rio: e a tenda dos mantedores que st; armava a mãa 
direita em altura de três degraos, per que se a ella sobia, e era da Ín- 
dia obrada de sotil lavor e laçaria, branco e azul sobre vermelho, mais 
lustrosa que rica, e per dentro forrada de rico borcado: no cume tinha 
huma bandeyra quadrada de damasco pardo e amarelo, franjada de re- 
trós das cores. E espaço delia hum covado huma quadra que tinha seyí> 
esteos enramados, que a cercavam com seys bandeyras do mesmo teor. 
E desta banda em alto corria o eyrado e varanda das casas do Arcebis- 
po ja ditas, em que estavam as molheres da casa da raynha e seus offi- 
ciaes, e fazia outro lado pola fralda do monte que entestava na praça, 
em que estava a gente continua da corte: e ao sopé da banda de dentro 
junto á parede avia duas ordens de bancos, huma mais alta que outra 
pêra os menestrijs de toda sorte, tudo posto em divida ordem e con- 
certo. Contra a cidade do lado Ocidental se levantava sobre grossos e 
altos mastos enramados de lloridos e verdes ramos, huma varanda mais 
alta que os eyrados, em estremo sumptuosa, toldada, e armada de rica 
tapeçaria, com suas cortinas de seda de diversas cores em seus quar- 
tos, altamente lustrosa e aprazível avista: no topo da qual no pé ao lon- 
go dagoa corria huma rua que vinha do mosteyro de sam Francisco, o 
entrava voltando em hum caez de madeyra metido dentro no rio, em 
que cahia huma ponte que sabia doutra porta da liça contra meyo dia, 
per que entravam os aventureyros que vinham per mar: em cuja entra- 
da se levantavam três mastos altos que nas pontas tinham quadrângulos 
com himmarias: c ho do meyo sobre hum ninho de lenha seca, huma 
ave Feni>^ grande: fronteyra da qual no monte pegada com ho eyrado, 
em meyo estava huma nora de fogo alta, tudo de tanto arteficio e lus- 
troso aparato, que se lhe faz agravo em querer louvalo. 

Per maneyra que posto ho sitio neste soberbo concerto que de sum- 
ptuoso podéra abater ho antigo Teatro Romano com mais arteficio que 
riqueza, por escusar gastos sem tempo, vindo ho dia e horas limitadas 
viera el rey aquella menhaã da cidade ouvir Missa ao Mosteiro de S. 
Francisco com a raynha e toda a nobre corte, e recolhido nas cazas do 



334 MEMORIAL DOS CAVALrcmOS 

Arcebispo onde jantou, como foram horas, sahio com a real magestade 
que altamente representava muyto gentil homem, e foyse assentar no 
cabo da varanda sobre o mar, lendo á sua mão ezquerda a raynha de 
assaz real presença e fermosura, e tais estavam ambos que podiam re- 
presentar Júpiter em seu llirono com Juno, epera mais semelhança dis- 
to, tinha a seu lado a Infanta dona Maria, que se mostrava a fermosa 
Minerva, com que pode contender com divida confiança, assi em rara 
gentileza e sotil engenho, como Ioda outra sobre humana perfeyção: a 
raynha vestida de huma cota de teia de França douro e preto, hum sayo 
alto de fralda com mangas Francesas de tafetá preto, cortado e picado, 
e com i>ontas de pérolas grossas, e antre ponta e ponta huma rosa do 
diamantes e robijs, humas manguinhas com tiras atravessadas brosladas 
sobre telilha douro, tomadas com jieças de pérolas e robijs, huma cinta 
douro e pérolas, e na biqueyra oyto pérolas pendentes, e hum balays 
grande todo guarnecido de pérolas ao rededor, e na cinta por charney- 
ra huma Águia grande com hum balais grande no peyto, hum.a diamão, 
quatro pérolas em torno, e hum pendente muyto grande feyção de pê- 
ra, huma gorgueyra de pérolas grossas, e do mesmo teor huma coyfa 
de faces, hum volante de rede com huma douradura: por arrecadas hu- 
mas pérolas grossas a maneyra de peras: nas mãos dez anéis de robijs 
e esmeraldas, humas axorcas de pérolas e pedraria, tudo em grande es- 
tremo rico, e acabado, a que ella dava o i-eal lustre que podia dar a es- 
tremada Emperatriz Zenobia, como aquella que ho tem muy abalifado 
em suas perfeyções. 

A Infanta vestida de saya de cetim encarnado, picada e cortada com 
bordadura de recamado douro e prata de huma mão de travessa em 
largo, e huma dianteira de tranças de ouro de canutilho de muvtas pé- 
rolas forrada de cetim encarnado, humas manguinhas da mesma maney- 
ra, huma cinta douro, huma gorgueyra cuberta de pérolas, hum tocado 
e nastros do mesmo teor, na cabeça huma tira de pedraria, 6,hum sí3 
firmai em huma guedelha, e hum tio de pérolas ao pescoço: e assi se 
mostrava tal, quo pêra ho eu desenhar voume com ho pintor que cu- 
brio o rosto a Agamenão no sacrifício de Eufigenia, porque cousas em 
que natureza abalisa seu estremo, não lhe chega engenho humano pêra 
entendelas: quanto mais pêra saber pintalas, por o que conhecida minha 
fraqueza, e visto ser de sorte mortal, quero desviarme da queda de 
Faetan, acolhendome ás damas: naturalmente piadosas, as quaes hum 



DA TAVOLA REDONDA 335 

degrao abaixo com a camareira mór se assentavam, tão fermosas e tam 
galantes, que cometer tentealo serio querer pintar a redondeza do mun- 
do em huma pequena tavoa, e mais sendo tão sabido serem as damas 
Portuguesas anlre todas outras quaes os planetas antre as estrelas: assi 
nas partes da pura gentileza como nas da honesta e virtuosa discrição. 
E pêra lhe sostentar esta altiva openião de suas perfeyções, nas suas 
costas eslava a nobresa do reyno: senhores e Fidalgos cortesãos em pé 
com huma cavn!e3'rosa ufania, digno delles e divida a ellas. Da mão di- 
reyta tinha el rey assentados seus irmãos, reaes esteos de seu estada 
real, lio Cardeal dom A.nrique em que resplandecem tais perfeyções de 
virtude e sagrada sciencia, que a melitante egreja se revee e esforça 
nellc, e o tem por huma das principaes colunas de seu estado, eito in- 
fante dom Luís de que se pode com verdade dizer o que diz ho Grego 
antigo. Nada sem Theseo: ca não m.enos fiel eprompto companheyrodo 
que Theseo foy de Hercules, se tem elle mostrado e mostra sempre delrey- 
em seus trabalhos, pêra os quaes e pêra todos os do mundo basta sea 
magnânimo esprito e claro juyzo, e diante estavam encostados á va- 
randa iio esclarecido Príncipe: o qual tinha junto de si ho senhor com 
Duarte, nos quais jo se via clara outra nova e alta esperança destesrey- 
nos. ÍIo Príncipe vestido de roupa Francesa de cetim alíonado, atorrala- 
da polas bordas, com huma obra Romana douro e prata, toda a roupa 
semeada de humas rosas de llor de laranja douro, com três pérolas em 
cada rosa muylo ricas: e dehayxo huma coura de cetim branco atorça- 
lada douro, e os muslos do teor, e meyas calças de graã, huma gorra 
abonada com torções de cadeas douro de martelo, e huma rica espada 
«louro com huma vaynha de veludo branco, e os çapatos do mesmo, ao 
que elle dava ho ar que a seu estado cumpria e de natureza lhe vem. ílo 
senhor dom Duarte tinha huma roupa de cetim branco cortada, guarne- 
cida de humas randas douro e prata, tomadas ss aberturas das mangas, 
e das ilhargas da roupa com humas cruzes pequenas de diamantes e ro- 
bijs, debaixo huma coura de mangas de seda branca, com huma mestura 
douro com alguns tios cremesis bem metidos que ficavam muyto galan- 
tes, as calças do teor, huma gorra de veludo branco guarnecida de ca- 
deynhas e rocas de diamtes te meya gorra, eas voltas todas, huma plu- 
ma parda, amarela e braiica, cores da l^rincesa, testeficando a openião 
que tem de militar debayxo da vontade do Príncipe seu senhor: em cu- 
ja obediença sempre mostra huma inieyra prompteza, que parece não 



33G MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

ter o seu alio e discreto jiiyzo outro cuydado, salvo o de acodir a iodos 
seus movimentos, como quem traz a peyto imitalo e servilo, e este car- 
go ler por timl)re de suas obras, o que pêra tam pouca idade he iriuylo 
de ponderar e muito mais de estimar. Esta era a summa do aparato da 
banda da terra, a que o mar mostrava coalhado demuytasnaos, navios, 
caravelas, e muylos género de barcos com ricos toldos, suave musica de 
diversos e muitos instromentos, e lustrosa gente sem numero: mais era 
jíera temer a queda de tão soberba vaidade humana, que pêra ninguém 
presomir e particularizar as grandezas de Lisboa, taes que leixam com 
verdade muyto atras de si todos os fumos de quantas cidades lhe pre- 
sumem fazer rosto, mas porque em tantas cousas a.muyta copia nos faz 
pobres de memoria, leyxo ser tanta gente domar que punha receyonão 
poderem as agoas soffrer ho peso, porque na terra per todo o monte e 
sobida nas arvores foy em tanta sobegidão, que te os telhados do apo- 
sento real estavam cuberlos, em tal maneyra que arrunhou hum lanço 
e cahio com perigo e dano dalgumas pessoas. E porque estes sam sem- 
pre huns muito certos chuveiros das festas humanas, passome ao mai5 
necessário. Acabado de suas altezas aparecerem na varanda, surgia no 
porto huma urca assaz soberba e poderosa, que polo mar com todas as 
velas metidas vinha de longe prometendo de si muyto, e feyta sua sal- 
va disparando grossa artelharia, logo pareceo que não seriam sem rayos 
estes trovões, aos quaes arrepiques, os mantendores que não estavam 
descuydados, começaram sair de S. Fi-ancisco, e antro lírnto entrai'am m 
praça da liça Uuy Pereyra Dazevedo e Pedralvarez Corrêa, mestres do 
campo, de espadas e capas pretas, e iogo cinco reys darmas que vinham 
com suas cotas darmas, os três juyzes ja nomeados dom James, dom 
Constantino, vinliam de capas pretas curtas e pelotes com muytas peças 
douro, não querendo parece mais que ameaçar a galantaria que nelles 
he tão própria como outras muitas cousas que não sam pêra tão estrey- 
10 lugar, e João da Silva regedor da casa de supricação vestido de huma 
loba aberta roçagante com que ele representava bem seu cargo, e com 
eles Jorge Pedrosa escrivão da nobreza, gentil homem c lustroso. E as- 
sentados os juyzes junto da tenda dos mantedores, a mão esquerda com 
ho escrivão á ilharga do regedor, e os reys darmas, Farautes e Passa- 
vantes dos lados mandaram rei darmas Portugal com seu FarauteePas" 
savante, o qual dentro da liça, contra onde suas altezas estavam deu o 
seguinte prejão. O muyto alto e muyto poderoso rey dom João nosso 



DA TAVOLA P.EUONDA 337 

sonlior, concede campo seguro a três cavaleyros de nome e armas pcni 
r\\m possam combater por serviço de suas damas com todos os que por 
a mesma causa contra eles ({uiserem provar suas venturas. As armas 
que Isão de trazer serão ariieses, as com que hão de combater piques e 
espadas, e os golpes que com eles podem dar, e os preços que levaivani 
os que o melhor lezerem, e as condiçijes pêra onde se podem gayniiar 
e [)erder serão como no cartel he ja declarado, que a todos he manifes- 
to. Acabado o pregão, tocaram os menestris, e recolhido o rey darmas 
eom sua comi)anliia pêra os juizes, logo os mestres do campo nomeados 
loixaram as c.ipas e tomaram suas ginetas, íicaiído em pelotes prelos 
com algumas peças douro, e i'icas espadas e adagas na cinta onestamen- 
'te galantes. Soavam ja perto os atambores epiíarosda banda deS. Fran- 
risco donde vinham os manledores por terra em ordenança. E á pouca 
demora entrou [)oia porta da ponte Soarez homem conhecido por sua 
aprazível arte e do tempo, com hum flóreo franqueando o campo, em 
calças e gibão de cetim pardo, forrados de telilha douro e coura de ta- 
fetá pardo. Após elle seguia hum sargento de calças, gibão e coura de 
rafiM.a [lardo cortado todo em escamas com muita argentaria douro, e 
forrado de telilha douro com sua gorra concertada, guarnição de espada, 
lalabartes e çapatos de veludo pardo. E logo dous atambores, dous pi- 
íaros, e doze pajés em ordenança. Des hi outros dous atambores e dous 
pifaros: Detrás desta gente vinha bum homem que levava os preços, de 
jíeioíe preto, cortado e tomado com pontas douro, calças e gibão de ce- 
tim [jardo, e Ires padrinlios em ala diante os manledores: dos quaesGo- 
mez Freyre que entrou da banda da cidade na ala, vinha de armas par- 
das com dehi'ús douro, e sobrellas liuma coura de tafetá pardo com gol- 
pes dalto abaixo, fori'ada de telilha de praia com huma l)ordadura dií 
quatro dedos de peroias, e huma celada ou murrião de veludo pardo, 
forrada da mesma telilha com golpes que a descobriam, c chea de pé- 
rolas, com rica medalha e plumas brancas, os altos das calças do teoi-, 
as meias pardas, e os çapatos de veludo pardo, e assi trazia vestido ho 
jiadrinho que lhe levava ho elmele da sorte das armas com huma pena- 
cheyra de muitas plumas: a cujo pé tinlia pintados huns castelos de ven- 
to com huma leli"a. Si ren-or lurn.f.sé alto non chcggio. 

Trazia os seus (pialro pages de lafela pardo, calças, gibões e roupe- 
tas cortadas todas com muita argentaria douro per ellas, e humas bor- 
daduras do mesmo tafetá cortadas subre telilha douro, gorras e çapatos 

CfC} 



338 WKMOIUAL DOS CAVALRIROS * 

ele veludo. Ho sargento acima notado, lio homem que levava os preços, 
e seu atambor e pifaro, como os pages sem roupetas em couros. 

* Dom António de Noronha manledor do meio, trazia armas brancas 
lavradas douro, e sobrclas coura de tafetá jiardo bordada de torcidos de 
cetim amarelo, pardo e branco e forradas de tclilha douro, e assi os al- 
tos das calças, e as meyas pardas, e os çapatos de veludo pardo, na 
cabeça huma celada de tafetá pardo forrada de teliiha douro, com huns 
golpes meudos, e [)er cima muitos botões e peças d niro com suas me- 
daliias o plumas, e desta sorte ho padrinho com sen elmo ho sargenio 
do Flóreo que apontey, dous atambores e dous pifai-os, e quatro pages 
todos de tafetá amarelo e pardo, e os forros de couras e muslos de ta- 
fetá cremesi. 

liieronymo de Melo terceyro raantedor, levava armas pretas com hum 
debrum douro : e sobi'eilas huma coura de tafetá pardo, cortada e for- 
rada de teliiha douro, e percima dos golpes, rosas douro escarchado, e 
chaparia douro anire ellas, a celada da mesma cor, com muytas peças 
douro, e pedras de muytas cores, com sua medalha e plumas: e do teor 
ho padrinho que lhe levava ho elmo, com calças e gibão forradas do 
teliiha douro, qualro pages, hum sargento com sua gineta, pifaro e atam- 
bor lodos de tafetá amarelo e roxo calças, gibões, e couras feylos em 
barras: e huns e o-jíros junlamente levavam suas espadas e adagas ricas 
e bem guarnecidas, e seus talabartes. 

Com este aparato não pouco lustroso e soberbo diante si, entraram 
os três esforçados aventm-eyros pola ponte, com gentil e estremado ar c 
hombridade de suas pessoas, com ricas espadas na cinta e plipies aos 
hombros, prometendo de si que sostentariam toda openião digna delles. 
Os mestres do campo foram recebelos á entrada, e pola praça os guia- 
i'am de rosto a suas altezas, a que fezeram seu acatamento chegando á 
porta da liça. Deshi os levaram ao longo delia voltando te os apresen- 
tarem aos juyzes: os qnaes lhe mandaram tomar os nomes ao escrivão 
que os escreveo na paveia que pêra isso tinha, e logo se recolhei'am á 
sua tenda: junto da qual tinham muytos piques, espadas e achas pêra ho 
combate. 

Recolhidos pois nesta ordem os mantedores, per antro os barcos que 
occupavam toda a prava, a pouco espaço, apareceo Innna espantosa e 
grande serpe, que parecia ir nadando sobre as agoas com as mãos, mo- 

• MoilQ em Cc[)!a iius l;!ni;.ulas miirto iao':o eomo g"ntil cjvalcyro. 



DA TAVOLA REDONDA 330 

vendoas com muyto estrondo, tam aprazível a vista, e não sem espanto, 
qne não creyo eu que ho fosse mais Esculápio, vindo nesta figura a Itá- 
lia: a qual poios ouvidos lançava fumo, e pola boca huma temerosa lava- 
reda de fogo, e pondo lio peito no caez da ponte de huma ilharga lan- 
çou de si dous aventureyros, que em gentil desposição e ayrosa presença, 
prometiam de si serem filhos dalguma deidade animosa, e por a sospeyta 
que ja se teve de Alexandre e Cipião Affricano nacerem de Dragos: Nam 
era muyto tomarse esta openião delles, pollo que em suas animosas obras 
se vio. Per maneyra que com esta esperança de todos entraram na pra- 
ça: ambos de armas brancas, e nas cabeças murriões de aço de homem 
de pé de infantaria, e por cimeyra huma Águia de prata com asas aber- 
tas: que no bico levava tal letra. 

Puede esta librar dei fuego 
que dei cielo manda Dios 

y no puede ami de vos. 

Sobre as armas traziam couras de tafetá abonado, forradas de telillui 
douro, com huns cortes meudos e compassados, e atorçalados de torrai 
de prata, e antre golpe e golpe huma Águia de prata de duas cabeças, 
poios encontros dos hombros botões douro, ealamares de prata e retrós 
alionado, e polas bordas apassamanadas de prata e seda alionada : tudo 
muy conforme á boa galantaria. Os muslos do teor, meyas calças bran- 
cas, e çapatos de veludo branco. Diante si levavam dous padrinhos com 
os elmetes, com suas plumas de cores e argentaria, vestidos de gibões 
de cetim branco forrados de cendal alionado, com golpes meudos, e 
deste forro o dos muslos de tafetá branco, meyas calças brancas e capa- 
los de veludo branco: hum delles sobre a coura de tafetá branco cortada 
dalto a bayxo de cortes estreitos, levava roupa de tafetá alionado de cor- 
tes meudos, tomados polo capelo e mangas de pontas douro, e ho outro 
só coura alionada de tafetá de cortes atravessados tomadas cora peças 
(louro, e ao pescoço huma cadoa douro, suas espadas ricas e talabartes 
guarnecidos de veludo branco, e de alionado as gorras cora huma pru- 
ma branca e outra roxa com argentaria e medalhas e pontas douro, cuja 
riqueza e primor dobra assi destes como de todos os mais que vieram, 
não encareço : porque lera Portugueses em tara pouco as riquezas de 
Creso : que sara nada pêra elles a respeyto da cavalaria animosa e dis- 



3Í0 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

creia galantaria, e por isso das peças douro só estimam a boa invenção 
delias, da qne estes esforçados aventureyros não carecerain: antes poi* 
serem os primeyros pareceo qne ficassem com este kigar, e assi tra- 
ziam hum atambor e pifaro em calças e couras de tafetá alionado e bran- 
co cortadas, espadas de cabos prateados, guarnecidas com os talabartes 
de veludo branco de que eram os çapatos. 

Desta maneira entraram em gentil concerto, dando de si alta mos- 
tra; vindo com seus piques aos liombros muyto ayrosos e também pos- 
tos, que não lhes poderão ser negadas as esperanças que de si davam c 
aprovaram em. effeyto ao diante. E recebidos poios mestres do campo fo- 
ram guiados ante suas altezas, a que feyta cortesia, passaranse aos juy- 
zes pola via da liça, que levaram os mantedores, e esta ordem teveram 
todos em sua entrada: Os juyzes informados de sua Fidalguia, lhes man- 
daram escrever os nomes na paueta, os quais eram Fernam da Silva, e 
João Lopez Leylão. E deshi os poseram suas guias, ou mestres docam- 
[ío no posto da banda do mar, estancia assinada pêra os aventureiros 
combaterem, e os informaram das condições do cartel, as que aceyladas 
per elles, os juyzes lhes mandaram offerecer piques e espadas, e des 
que escolheram, as que ficaram foram levadas aos mantedores que se 
recolhiam na lenda. 

Donde o primeyro que sahio foy Gomez Freyre cavaleiro de Ião nobre 
openião e confiança, que em parle lhe quis a fortuna contrastar: dado 
que nam pode no todo, porque lhe resistio elle com não menos animo- 
so esforço que vigor, combatendose com Fernam da Silva Iam esforçada- 
mente, que inda que lhe cahio a espada por a fúria com (pie feria dela, não 
se lhe teve a falta nem franqueza, e não pareça desculpa; mas realmen- 
te foy assi. lio esforçado Fernão da Silva mostrando-se selo do [)ique. 
na espada se abalisou tanto que levou lio preço delia com inuyta rezão, 
como se verá na sentença ao diante, e acabados antre osdous animosos 
competidores os golpes instituydos no cartel, e prosseguindo com ou- 
tros, os mestres do campo que estavam hum da banda da tenda dos 
mantedores, outro da parte dos aventureyros contra a varanda de suas 
altezas: vendo ho esforçado combale Iam profioso: meteram as ginetas 
antre os combatentes pêra ho despartirem, oqucfezeram com trabalho: 
e assi leyxando de si muita gloria ante as damas, que os viam com olhos 
piadosos e ufanos, e não menos louvor de toda a corte. lio mantedorse 
recolheo com furioso aspelo, e descontente de não poder salisfazerse de 



DA TAYOLA REDONDA 341 

seu contrario, poderase dizer por elle. Por elotro que se le iva, las bar- 
bas se está messando, e tudo se delle devia esperar, mas os fados re- 
partem suas horas: e esforçam seus desastres onde acham resistência. 

Nisto sahio seu companheyro dom António de Noronha contra Joáo 
Lopez Leitão, e deram-se dos piques não menos animosa que esforçada- 
mente, quebrando alguns. E nas espadas mostraram não menos sofíi- 
ciencia que destreza, e despartidos com continente de pouco satisfeytos 
do muyto que fezeram, polo que presomiam fazer se lhes os mestres 
não atalharam. Ho mantedor se recolheo â tenda, e ho aventureyro pê- 
ra seu companheyro, e encostados ás grades da praça com as costas no 
mar, esperaram o que lhe os juyzes mandassem. 

ia neste tempo enlevados os olhos em novidades, per que poupam 
ho gosto humano que em nada sabe ter constância, eram dali levados 
contra ho mar occupados em verem, não sem admiração, outra aventura 
que polo porto entrava, assaz estranha e nunca vista de tal forma, e bem 
parecia cousa doutro elemento e natureza, a qual era dous cavalos ma- 
rinhos de estremada grandeza, hum ruço, outro castanho fouveyro, de 
grandes comas com as cabeças altas e embridadas, os peytos alterosos 
sobre a agoa assaz soberbos, que da cinta pêra bayxo eram pescados 
com suas perpetanas e escamas de prata, remavam com as mãos, com 
seus peyioraes ricos douradas no meyo huma esmeralda contrafeyta muy- 
to grande encastoada em ouro com humas folhas que a revestiam : An- 
tre estes cavalos avia huma estancia em que vinham menestrijs de cha- 
ramelas Italianas, vestidos de roupas Francesas brancas com bandas en- 
carnadas, gibões de seda destas duas cores, e calças forradas da mesma 
seda, çapatos e gorras de cetim encarnado e suas plumas de cores, e 
nos estromentos bandeyras encarnadas e brancas: dos colares dos cavalos 
naciam humas argolas grandes douradas, em que prendiam duas cadeas 
grossas douradas que tiravam hum barco presas em outras argolas, cu- 
jas pontas tra/ia na mão ezquerda ho governador dos cavalos, que era 
Tritão trombeta de Neptuno rey dos mares, homem marinho primeyra- 
mente visto em Libia na Lagoa Tritonia, tangendo bum búzio grande, o 
qual era de grandeza quasi Gigante, e tinha ho meyo corpo da cinta pêra 
baixo de escamas com huma cola de pescado, e os pés com garras e 
unhas, e da cinta pêra cima figura de corpo humano sem alguma roupa 
com grande barba e cabelos marinhos, por barrete huma concha á ma- 
neyra de búzio, não como os que se acham nestas partes, nas mãos unhas 



;j42 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

muyto compridas e negras, e na direyta trazia lio Tridente de Neptuno 
com huma bandeira verde pintada de mares, e vinha assi na proa, que 
era de iiuma cabeça de peyxe agulha, e ho focinho por esporão, pintada 
de cores diversas : da qual naciam humas perpetanas revoltas que fa- 
ziam hum assento sobre a cabeça em que ho Tritão vinha assentado, 
com as cadeas que ja disse como rédeas dos cavalos nas mãos, e daqui 
surgiam duas maneyras de rotolos muyto grandes, que per cima se vi- 
nham ajuntar fazendo como castelo á feyção de toldo, á grossura delles 
forrada de humas escamas verdes sobre prata que lustravam muyto, e 
pola parte de fora pintados alguns pescados e nereydas douradas em 
campos azuis: isto e todo ho mais do batel guarnecido de cordões douro 
muyto grossos, e da parte de dentro era a proa pintada de brutesco em 
campos amarelos, e da proa á popa hia huma varanda bem obrada e 
dourada em partes azul, a forma da popa não se pode declarar por a no- 
vidade delia: Somente era per dentro feyta em redondo a feyção de Tea- 
tro com huns arcos, e no vão de cada hum delles pintado hum dos pla- 
netas, e per cima dos arcos pintado ho ceo com algumas figuras celestes 
em que andava huma corneja, e da banda de fora era a popa feyta em 
redondo cuberta de escamas verdes sobre prata, em lugar de governalho 
dous grandes olhos de vulto que diziam com a grandeza da popa, sobre 
a qual vinha hum monstruoso animal como lião muyto grande, e de vulto 
(}ue mostrava olhar pêra onde viera. Das bandas da popa naciam huns 
)'Otolos que vinham assentar sobre a cabeça de huma mela, a qual sos- 
tinha huma parte da popa, e na mão dereyta linha huma verga de ferro 
dourada, de que nacia hum toldo feyto em triangulo, ho basis de dentro 
raso forrado de tela douro, e per cima como pirâmide de rico borcado, 
o nos cantos huns pendores douro e seda, debaixo do qual toldo avia 
hum estrado de degraos todo ricamente alcatifado, e nelle huma cadeyra, 
não costumada laurada ao modo antigo e dourada, com hum pano de 
veludo cremesi. Na qual vinham assentados dous cavaleyros que em sua 
nobre presença logo mostravam responderem seus ânimos ao aparato e 
iausto que traziam, e assi os trouxe ao porto hum batel diante dos ca- 
valos á toa, bem ataviados com muytos remeyros todos de roupetas e 
capelinhos Turquescos encarnados com bandas brancas : ho qual trazia 
muytos arteficios de fogo de muytas maneyras. 

Dando pois estes famosos aventureyros huma api-azivel e assaz lus- 
trosa vista de si, sayram em terra levando diante as charamelas Italianas 



DA TAVOLA REDONDA 3'l3 

que vinham sobre os cavalos, e logo lio Ttilão muyto vistoso, e apessoa- 
do estremadameníe próprio, o após ele dons pages em calças e coiiras 
de lafcta branco e encarnado, galantes e bem coiicertados. Des lii da 
mesma sorte dons padrinhos, hum Lusitano e (>uí!o Eticpio, os quaes 
antes dos aventureyros entrarem na praça lhes tiraram das cabeças gorras 
(|ue traziam encarnadas com muytas pontas de diamantes douro meda- 
lhas e plumas brancas, e lhes poseram os elmetes que lhe os pages tra- 
ziam do teor das armas com plum.as brancas e negras, as quaes eram 
douradas com sotijs lavores de preto, sobre que traziam pelotes curtos 
de tafetá encariíado, com huma soo manga solta que lhes dava muyto 
aai', e eram cheyos de huns quadrados de seda branca muyto pequenos, 
c onde cruzavam hiam per todas partes apontadas do diamantes douro, 
e dentro de cada hum dos quadrados hum golpe á maneira do escarna, 
e sobrelle liuma peça de argentaria douro, per que se parecia a tela 
douro de que os pelotes eram forrados, os altos das calças de seda bran- 
ca c encarnada, as meyas encarnadas e assi os çapatos, espadas e adagas 
(louro ricas guarnecidas de veludo branco, e assi entraram postos os el- 
metes de piques aos homhros com tam vistosa e apessoada desposição, 
que logo parecia serem daqueiles cslbi-çados Troyanos que se semearam 
})olo mundo, e recebidos dos mestres do campo íoram pola praça da liça 
anie suas Altezas, a que dada sua divida obediência, passaram aos juizes, 
e Tritão como embaixador de Neptuno lhes deu ln;m pape! que conti- 
nha a seguinto estacia de outava rima. 

Estes deus cavaleyros se perdera:n 

do naufrágio de Eneas, com mao tempo 
Abraços de ondas bravas se valeram 

te que domou Neptuno Iío bravo vento. 
Desle torneo as Ninfas fama deram 

que a servirvos raoveo seu pensamento 
Per mim Tritão trombeta seu, Neptuno 

volos manda a pesar de Eolo e luno. 

Vov a noticia que os juyzes tinham da fortuna de Eneas causada por* 

Eolo rcy dos ventos, a rogo de !uno irmaã e molher de lupiter, a que 

.Neptuno lhe socorreo, visto como em lhe mandar estes cavaleyros quo 

<:imodoce e Tritão salvaram, quando com as forças de seus fortes bra- 



344 MEMORIAL DOS CAVALEIHOS 

<;os cortavam as agoas conlendcndo com ellas soijrc lograr os ar(?s (]e 
cima: mostrava recoriliecer vassalagem a el rei nosso senhor que lio he 
dos mares, satisíeylos de sua Fidalguia, mandaraiillie tomar os nomes 
que era íoão Carvalho Patalim, e dom Francisco de Gastei Branco. Des- 
h.i levados ao posto, ollereceose nelle loão Carvalho com animosa apos- 
Uira, como aquelle que ja em outro torneo avia pouco tempo (jue levara 
lio [treco do pique, o correndo contra seu competidor, quebraram alguns 
piques destra o esforçadamente, c não se mostrou menos da espada, o 
logo dom Francisco moslrandose Português Troyano, quebrou os seus 
três piques com estremado esCorço e destreza, a qual assi teve na espa- 
da: iier maneyra que ambos se mostraram assi nas armas como na in- 
venção altamente. Deslii deram lugar aos (pie vinham provar sua vcií- 
[ura. 

Em quanto estes dons não menos esforçados que lustrosos aventii- 
icyros se combatiam, da nrca estrangeyra que atras apontey surla no 
porto, ao som de seus grossos tiros, se lançou ao mar hum batel com 
gente de armas e arcabuzaria, e dous berços de arlelbaria pola proaíjuií 
trazia hum guião e hum homem tocando huma trombeta italiana, no qual 
vinham dous cavaleyros, hum delles de armas prelas douradas, posl t o 
elmete do teor, e por cimeyra na parte ezquerda huma Águia domo 
com huma penacheyra do seys plumas de três cores, i'oxo, amareli) o 
Itranco, e sobre as armas coura de tafetá roxo, cortada e entrelalhada 
sobre tela douro, guarnecida de passamano douro e roxo, forrado de la- 
felá amarelo tostado que vinha junto das armas, tomados os golpes com 
botões douro á maneyra de diamantes, os altos das calças do teor, as 
iiieyas roxas, çapatos de veludo roxo, espada de romper, adaga doura- 
da e talabartes guarnecidos de veludo amarelo, e seu companheyro do 
teor com armas brancas. Os padrinhos, ho do primeyro trazia gibão de 
cetim branco picado, coura de tafetá amarelo, forrada de lafetá roxo, 
toda cortada com muytas pontas douro poios golpes, guarnecida de pas- 
samano douro c roxo, e por diante com botões douro esmaltados, mus- 
Í05 de tafetá amarelo, forrados de tela roxa, meyas calças brancas, e ça- 
patos de cetim branco picados, a gorra do teor com muytas pontas, es- 
tampa muyto rica, e pluma branca. Ho do segundo levava sobre gibão 
de cetim azul. coura de tafetá azul fori-ada de tafetá branco, talabartes 
dourados, espada dourada guarnecidas de celim azul e a gorra com sua 
pluma, botões douro, c medalha, c diante dos padrinhos traziam hum 



DA TAVOLA REDONDA 345 

sargento de gibão de seda amarela picado, conra de couro cortada, guar- 
necida de passamane douro e roxo com argentaria, espada, adaga e ta- 
labartes dourados, guarnecidos de veludo amarelo, gorra de cetim bran- 
co picada com pluma branca e roxa, guarnecida de argentaria e sua es- 
tampa, bum colar douro grosso e i'ico ao pescoço, çapntos de velado 
branco picado, meyas calças amarelas, e os altos de tafetá amarelo, for- 
rados de tela douro roxa, guarnecidos de passamane douro e roxo, pí- 
faro, atambor e trombeta com gibões de seda, couras de couro, muslos 
de pano amarelo forrados de tafetá roxo, meyas calças brancas, e gor- 
ras vermelhas, os quaes entrando com este concerto na praça, os mes- 
tres do campo os guiaram pola maneyra dos outros, e os juyzes lhes 
mandaram tomar os nomes, que eram dom Álvaro de Noronha, e Jorge 
de xMoura. Elles se poseram logo na estancia oíTerecidos a todo trance, 
o quebraram seus piques com muyto esforço: o que tam bem mostra- 
ram na espada, te que os despartiram com muyta honra e louvor de 
sua cavalaria, da qual não careciam os mantedores, porque todos três 
lio fezeram estremadamente como lhe entrava seu giro, mas as cousas 
quanto mayores sam, tanto menos lexam tentearse, e passalas em suma 
he a menos quebra que se lhe pode dar: e também voume poupando ho 
gosto dos ouvidos Portugueses, que estimam a brevidade nas palavras e 
nas obras sobeja fineza, da qual por certo não careceo Hieronymo de 
Melo e seus companheyros, sostentando ho passo, tam inteyros que pa- 
recia que com ho trabalho se adinavam, e assi ho sosteveram sem algu- 
ma quebra, antes muyta melhoria te ho fim: mas como digo não se pode 
particularizar tudo. 

Em huma naveta de fora da terra eram ja chegados ao porto três 
iventureyros, os quaes se soube serem Huy Diaz Lobo, que vinha de 
írmas brancas, e sobrellas coura de tafetá roxo com golpes dalto a baixo, 
eper estes outros atravessados pequenos cheyos de argentaria douro, 
lírrada de tela de prata, apassamanada de passapé de prata e roxo, no 
elaete plumas de cores cheyas de argentaria, os altos das calças de ta- 
feti, hum corte branco e outro roxo, forradas de tafetá roxo, as meyas 
de 'axa branca, espada e adaga de tauxia e talabartes, guarnecidos de 
velulo branco e os çapatos. E levava hum pagem e escudeyro de pelo- 
tes ftxos cortados, tomados os golpes com pontas e botões douro, gi- 
liõesde tafetá branco, cortados sobre tafetá roxo, cheyos de argentaria, 
ài catas i:omo as do avenlureyro, gorras de veludo branco com meda- 



340 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

lhas e plumas de argentaria, adafras e espadas de tauxia, guarnecidas do 
mesmo veludo, e destas cores hum pifaro e atambor. 

Dom Luis Lobo trazia .irmãs brancas lavradas de hum debuxo cm 
branco polas bordas, e sobrellas coura de tafetá branco, verde, e encar- 
nado, toda cortada com golpes á maneyra de enxadrez, forrada de teli- 
Iha douro e cuberta de argentaria douro e prata, no elmele plumas de 
cores com argentaria, os altos das calças de cetim branco com golpes 
dalto a bayxo picados, forrados de cendal l)ranco, as meyas encarnadas, 
e os çapatos de veludo encarnado, talabartes e espada de tauxia, guar- 
necida de veludo verde, hum escudeyro de pelote verde todo cortado, 
tomado com muitas pontas douro, gibão de tafetá encarnado, os muslos 
de tafetá branco cortados e forrados de tafetá verde, meyas calças bran- 
cas, çapatos de veludo verde, chapeo de tafetá verde appassamanado do 
passapé douro, com borlas e pluma da mesma cor, e sua medaljia. Ma- 
nuel de Sousa companheyro também na tenção e cores de dom Luis, 
sobre armas brancas lavradas de tauxia douro, trazia a coura do teor da 
sua com golpes como rede, os altos das calças de tafetá das três cores, 
e assi ho cendal de forro, com botões douro pelos golpes, ao pescoço 
hum colar douro, e no ai de sua pessoa e oscudeyro como dom Luiz. 

Entrando pois assi no campo em ala com seu pifaro, e atanbor dian- 
te foranlhe feytas as dividas ceremonias, e ofíerecidos no posto, estre- 
maram todos três altamente seu esforço com esforçados golpes de pique 
e espada, e foram ávidos dignos do immortal nome que per taes obras 
se gaynha. A Manuel de Sousa se julgou ho preço do pique, por os que- 
brar todos três com estremada destreza, e apartando-se da liça pêra as 
grades da praça, derão lugar a huma aventura que era entrada. 

E foy huma bruxa vestida de saya Framenga amarela com menino? 
de prata, semeados polo vestido, sua mazcara fermosa, e seus cabeloi 
soltos, na cabeça huma celada de prata com hum meyo gato pi-eto qie 
sahia delia, a qual vinha tangendo liuma trombeta Italiana de guerra, e 
diziase vir de hum bosque deserto em que fiizia abitação, e por servço 
de huma dama trouxe ali hum monte lavrado a modo de serra om 
muytas boninas, era, musgo, e outras flores diversas, com que vinlam 
cubertos muytos tiros de fogo sem se verem, e polas ilhargas lhe cor- 
riam quatro fontes, tudo de muyto artificio. Chegando pois a bruxacom 
este monte após si, da banda de sam Bento per terra, des que ii) as- 
sentou na praça, que vio tempo pêra o que trazia determinado, tndou 



DA TAYOLA REDONDA 347 

derredor delle como que fazia alguns conjuros, elogoho encantado mon- 
te começou a tirar muytos tiros de íogo, com grandes estalos, como de 
rama verde que arde, per algum espaço om que parecia queymarse, c 
assi com a força deste fogo se abrio em quatro partes inteyras, e de 
dentro sahiram quatro bruxas vestidas da maneyra da que ho desencan- 
tou, e hum cavaleyro armado da cinta pêra cima darmas brancaa, e so- 
bre ho elmete huma capela de flores, e pêra bayxo huma fralda de hum 
tonelete de tafetá amarelo atorçalado de branco, os muslos do teor, e as 
meyas calças brancas, e çapatos de veludo branco, por padrinho huma 
fermosa donzela que parece era a occasião de sua vinda ali, como tam- 
bém ho era da sua oscura morada, vinha vestida de saya Framenga de 
telilha douro, toucada com crenchas, e huma crespina, e sobrella gorra 
de veludo branco com muytas peças douro, medalha e pluma branca, 
diante ho vencido cavaleyro de sua fermosura, que a seguia com huma 
ufania e confiança, de por seu serviço cometer todo perigo e sayr com 
a vitoria delle, certa openião de Portuguezes, e sendo recebidos dos 
mestres do campo que lhe declararam as condições do torneo: elle as 
nceytou. Deshi moveo contra suas Altezas, segundo elles ho guiarão, 
cantando diante as quatro bruxas te ho poer no posto a seguinte letra: 

Por la mas alta hermosura 
que la sierra, 
ha venido esta aventura 
en esta tierra. 

El cavallero Novel Mas hermosa sy mar dura 

que viene de Amor herido que la sierra, 

Irae su mal tan escondido la que truxo esta aventura 

que nadie no sabe dei. en esta tierra. 

E cantando esta cantiga com suave armonia, pareceram muylo bem, 
ho cavaleyro feyto seu acatamento a suas Altezas, offereceose aos juyzes 
com gentil apostura, e toraandolhe o nome disse que era Diogo Botelho. 
Deshi mostrando seu esforço contra seu competidor, quebrou dous pi- 
ques muyto bera, e da espada também se vio sua destreza. 

Em quanto este aventureyro se occupava em seu combate, per antre 
os barcos que cubriam ho porto, começou entrar hum com dous caste- 



348 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

los na popa c proa, seu masto e meya gavia, e a vela tomada, com to- 
do ho mais cuberto de folhas de era, ho qual remavam nove salvages 
vestidos de musgo, e os capelinhos, e outro que ho governava, todos 
de mazcaras, e dentro vinha assentada a Deosa Diana em meyo de duas 
Ninfas, huma que tangia huma arpa, e outra hum arrabilete, e a deosa 
cantando huma estancia da primeyra egloga de Garcilaço que diz. Por l \ 
ol silencio de la selva umbrosa: A qual vestia roupa de tafetá verde com 
rosas nas mangas, tomadas com muytas cores de fitas, e hum manto de 
tafetá cremesi tomado com huma (ita, na cabeça huma capela de era, e 
debayxo hum casco de prata â maneira de rede, tomada com huns nós 
e esmaltes verdes que atravessavam ho branco, e huma meya lua de 
prata no meyo da cabeça, do giolho pêra bayxo humas botas douro e 
verde, ho rosto cuberto com huma rede de cristal, as Ninfas de roupas 
de tafetá cremesi com mantos de tafetá amarelo, tomados com suas fitas, 
com mazcaras, e na cabeça capelas de era, na proa do barco vinha huma 
corneta de roupa de tafetá encarnado, com outra roupa de tafetá verde 
que lhe chegava te a cinta, com huma fayxa de boninas de cores, e as 
mangas das mesmas boninas te os cotovelos, e na cabeça hum c.hapeo 
de tafetá verde cuberto todo de era, sua mazcara, e espada e tiracolo, o 
])0tas de cor de prata, e logo este estranho e montanhês atavio pairava 
donde podia nacer. Chegando pois desta maneira ao caez, sahio Diana 
com suas Ninfas diante tangendo, e ella cantava a estancia ja dita, e após 
ella seguiam cinco aventureyros com bastões nas mãos, e escudos verdes 
com arcos e setas, devisa de Diana, e detrás delles seus escudeyros ves- 
tidos de verde. 

Ruy Telez da Silva 

Levava arnês branco com tonelete, grevas e çapatos de armar, e hu- 
mas bandas douradas com Basiliscos per ellas, elmo da mesma sorte çar- 
rado, com huma penacheyra de muytas plumas de argentaria, muslos 
de cetim branco com cortes dalto a baixo forrados de tafetá. 

Paulo da Silva sen irmão 

* Trazia arnês branco laurado todo com huns rostos nelle, huma celada 
Âo teor com suas plumas, e sobre as armas coura de tafela verde e 

• Morto aas lançadas em Africa cfforcadanienle. 



DA TAVOL.V REDONDA 349 

branco feyto em enxailrez muyto meudo, e no verde delia, peças de ar- 
gentaria com bolões com golpes dallo a baixo, os altos das caíras da 
mesma obra, meyas brancas, e çapatos de veludo verde. 

Diogo Lopez de Sequeijra 

Vinha de armas verdes douradas com suas grevas, semeadas de bem 
me queres com liões douro per ellas, seu elmete rarrado do teor com 
penacheyra de plumas de argentaria, espada dourada com talabartes de 
guarnição verde, sobre as armas sayo de armar de tafetá verde com 
cortes dalto a bayxo, e outros atravessados nos mesmos, muslos de ta- 
fetá branco, e ho forro verde, cortados dallo a bayxo e [licados, e liuns 
çapatos de armar abertos. 

Dom Thoitiaz 

Trazia armas verdes semeadas de bem me queres com divisa de liões 
douro, coura de tafetá verde cortada em SS, tomada per diante com 
iíotões douro, sen elmete çarrado com penacheyra de plumas, muslos 
(!e tafetá branco de cortes dalto a bayxo picados, meyas calças brancas, 
çapatos e talabartes de veludo verde, e assi a guarnição da espada dou- 
rada. 

André Rodrigues de Beja 

* Levava arnês branco com barras douro atravessadas, ho elmete do 
teor çarrado com plumas de cores, e sobrellas saycte darmas de tafetá 
verde com folhagens á maneyra de conchas perfiladas douro falso, eem 
nieyo de cada concha huma i)eça de argentaria, os muslos do teor e ho 
forro, espada dourada guarnecida de veludo verde, e os çapatos e talar- 
hartes. 

Entrando pois a Deosa da caça com estes cinco aventureyros, que 
em suas guerreyras disposições e galantaria montanhesa, bem pareciam 
da criação e casa daquelle a quem Diana com muyta rezão pospõe ao 
seu amado Hipólito, conhecendo que nunca os montes foram ti-atadosde 
tão heroyco animo, c assi nenhum delles dava de si menor esperança 
(|ue os caçadores que iMeleagro ajuntou contra ho porco de Celidonia, 
pois certo a entrada que fezeram na praça não foy pouco vistosa e apra- 

• Morto cm .Vfrira poios uiouro? cavaleirojacicittc. 



3oO MEMORIAL DOS CAVALKIROS 

zivel, antes deu tanto lustro aa festa que foy grande parte delia, e sen- 
do guiados poios mestres do campo ante suas altezas, cessaram as Nin- 
fas, de tanger seus inslromentos, e Diana de cantar. E deshi disse. 

Muy altos e muy poderosos Reys, pois tantas terras e mares vos 
obedecem, rezão he que as altas serras donde he minha antiga habita- 
ção façam, ho mesmo, delias venho e em seu nome com estes meus ca- 
valeyros a servirvos, pêra que em seus esforços conheçais se yguaia a 
ventura dos bravos montes com a presumpção de vossos paços reaes. 

Acabada a breve fala, e feyto seu acatamento, foranse assi offerecer 
aos juyzes que mandaram tomar os nomes aos cavaleyros ja ditos, e re- 
partindolhe os combates, mostraram sua cavaleyrosa openião, quebran- 
do muytos piques com muyto esforço: e não menor desenvoltura e ar- 
dideza teveram na espada, mas tudo se lhe esperava sabida sua abita- 
rão, e ho norte a que imitavam. Aqui sahio dom António de Noronha 
mantedor com Diogo Lopez de Sequeyra que usou com elle da cortesia 
que lhe seu nobre e esforçado animo dava. Ca por lhe ter vantagem 
grande em idade e corpo membrudo c forçoso, não quis ferilo esperan- 
dolhe os golpes como firme rocha, o que dom António soffreo mal, ca 
seu esprito lhe prometia as cousas mais deficultosas, segundo a nature- 
za de seu tronco as sempre acabou. Por o que se ouve com elle não 
menos animoso que discreto, porque depois que vio que Diogo Lopez 
ho não queria encontrar do pique, levou da espada e deulhe um golpe 
com furiosa sanha pêra ho provocar: Mas ho constante aventureyro não 
se moveu, por onde ho mantedor ho leyxou anojado de sua confiança, 
mais do que ho fora de seus golpes, dado que fossem muito pêra re- 
cear, segundo fama de suas forças exercitadas com as bravas alimárias. 

Acabando-se o fermoso combate que os cinco aventureyros de Diana 
teveram com os mantenedores, chegou ao porto huraa fragata alcatifada 
ricamente, toldada de raso amarelo e roxo, que dambas partes chegava 
â agoa, com dezaseys remeyros das mesmas cores á Turquesca, ho co- 
raitre e piloto com cabayas de raso e carapuças com borlas de seda, e 
sua bandeyra quadrada do teor do toldo, da qual logo sayram Ires aven- 
tureyros, o primeyro dom Francisco de Lima que vinha darmas doura- 
das ao sinzel, e coura de raso roxo, entretalhada sobre tela douro e 
brossada de prata, e ho elmele posto com a vista erguida, e nelle plu- 
mas roxas e amarelas, que eram as suas cores, os muslos de cetim ama- 
rello atorçalados de prata, espada e adaga de tauxia guarnecidas de ve- 



DA TAVOLA RF.DONDA 3<')i 

Ilido amarelo, e assi os talabartes atorçalados de prata, çapatos do mes- 
mo, o padrinho de calças, gibão e coura de cetim amarelo, com huma 
cadea Francesa bem posta, çapatos e gorra de veludo amarelo, e pluma 
desta cor com sua medalha e adaga rica, hum pagem com calcas e coura 
de tafetá amarelo forradas de roxo, e ho mais como lio padrinho, pifaro 
c atambor de calças amarelas e roxas forradas de seda, couras de tafe- 
tá destas cores, e espadas de cabos prateados guarnecidas de veludo 
amarelo. 

Fernam Rodriguez segundo aventureyro vinha da maneyra de dom 
Francisco sobre armas douro e preto: e trazia hum padrinho e pagem 
de seda roxa e plumas roxas. 

tUiy de Sousa que era ho terceyro, trazia sobre armas brancas cou- 
ra de tafetá amarelo e roxo, com golpes dalto a bayxo, e per elles bar- 
rinhas do mesmo tafetá, com argentaria grossa, forrada de cendal ama- 
í'(;Io, na celada pluma de cores, e ao pc delias huma letra que diz. 

Para sempre viver triste 
sobejam me as esperanças. 

Iluma espada de tauxia guarnecida de veludo roxo, e assi os talali.ir- 
fes e çapatos, seu padrinho como elle de gibão de cetim roxo e amarelo. 

E entrando todos três em ala com seu pifaro e atanbor diante tocan- 
do, os mestres do campo os receberam e guiaram per sua ordem acos- 
tumada. E conhecidos poios juyzes por fidalgos, poseranse no posto, 
onde dom Francisco quebrou os seus Ires piques muy esforçadamente e 
seus companheyros alguns, e das espadas dando muytos e esforçados 
golpes a seus competidores, mostraram quão bem empregada e dividi 
lhes era a nobre cavalaria e quam natural, leyxando clara esperança do 
que fariam quando ho tempo os posesse a granel da sua obrigação, e 
sendo despartidos, recolheranse pêra os outros aventureyros que espe- 
ravam o combate da Fola. 

Os mantedores tendose todos três mostrado altamente animosos e 
de estremado esforço, caso que tinham sotírido muy to trabalho e per 
rezão deviam estar, cansados, parecia desejarem de novo muytos mais 
aventureyros, em que seus forçosos braços descançassem a fúria dos âni- 
mos. Mas Febo tocado per ventura dalguma inveja, ou desejoso ja de re- 
pousar nos braços de Thetis que ali linha perto, hia alongando sua clara 



'Vòi MEMORIAL DOS CAVALEmOS 

luz do aprazível e sam[)luoso silio, e parecendo que por as horas serem 
laes ja não viriain mais aventureyros, os (jue estavam na praça se pose- 
ram em ordenanra com todas suas companhias pêra irem acompanhar 
ho Frincipe com muylo cei'ta coníianra que sua Alteza os satisfaiia daí- 
guma affronta ou nojo que dos mantedores levessem per ventura rece- 
bido. Pêra o que ho magnânimo Príncipe ja a este tempo se tinha saida 
da varanda onde estava com suas altezas, indose armar na sua guarda- 
roupa, que era alem da orta, nas casas do camareyro mór ja dito, junto 
de S. Francisco. E em prova que vinha â liça outra nova c grande luz 
que vencia as trevas do mundo, e dava novo e estranho lustro ao nossa 
llemisperio. por que ho sol nos negava ja a sua dando lugar a esta nossir, 
foram acesas todas as luminárias do monte, e pareceo arder lodo em 
ciiamas mais espantosas e altas que as da montanha Elhna, quando oá 
(^iclopas assopram suas forjas pêra fazerem armas ao grande Iroãnte: 
E dando esta claridade nas agoas do mar as fazia parecerem de ciistal 
ferido dos raios do sol, e com ho movimento delias faziam muytas dif- 
íerenças assaz comtemprativas, e daqui reverberava fermdo na oulra 
praya da banda dalém, como quando a rosa da menhaã rompendo polo 
Orizonte se mostra nos cumes dos altos e verdes montes, l^er maneyra 
<}ue licou tudo parecendo outro novo mundo, não sem admiração de quem 
ho contemprava. E a nora do fogo que atras apontey, começou a tiralo, 
denotando ho fogo damor que ho heroyco Principe lira dos leays pcylos 
de seus súbditos, abrasados no fervente desejo de morrerem por seu 
serviço, ho qual concebem da criação que todos tem em suas abas (j 
pasto, e em quanto estas cousas arrepicavam o que se esperava. 

O muyto esclarecido Principe se armou per ordem do Infante dom 
Luís, nunca farto de ho servir com Amor e obediência dalma, de humas 
armas brancas lavradas de agoa forte, e com grevas ti-ançadas feytas em 
(juatro quartos que se parecia tanto das calças como delias, seus çapatos 
de malha, e sobre as armas huma sobreveste de selim cremesi, atorça- 
iado douro e prata dalto a baixo o [)er meyo dos tr(ȍaos escomas atro- 
çaladas do mesmo, huma das escamas abertas per que pareciam as ar- 
mas, e oulra çarrada cortada, e os espaldazos do teor, huma banda das 
cores da Princesa, e assi huma celada á usança antiga com muytos cor- 
dões douro grossos, oyto plumas brancas, amarelas e pardas, huma es- 
pada de combater com cabos dourados e ho punho de fio douro, guar- 
necida de veludo branco atorçalada douro c prata, do teor os talabartciJ. 



DA TAVOLA REDONDA ÒO ò 

Neste antrolaiilo que sua altciza se apercebia desta maneyra, e os 
olhos desejosos do que amavam esperavam sua vinda, as bruxas do ca- 
valeyro Novel atras notadas que estavam na prara da liça, e assi Diana 
e suas Ninfas, eiv-^^anavam lio tempo aos presentes, cantando e occupan- 
do os ouvidos com sua melodia, em modo que nenhuma tardança se sin- 
tio: antes foy hum escamei dos desejos (jue divertidos com tal antremes 
renovaram lio gosto pêra ho lim e principal intento do torneo, que era 
a mostra dos altos principios do illustrissimo Principe, as luminárias nes- 
te comenos ardiam per todas partes trabalhando vencer as trevas por 
franquearem ho campo a suas claras e famosas obras, e da nora de fogo 
disparavam muitos foguetes poios ares á maneyra de cometas que pare- 
cia te os ceos participarem deste alvoroço, não sem espanto inda que 
alegre dos olhos que de fora ho vião. Do batel de Neptuno no mar se 
lançavam também muytos e diversos pola agoa e polo ar; Per maneyra 
que parecia dar ho quarto elemento bataria aos outros ires, ou ho cam- 
po em que Júpiter com seus rayos desbaratou os Tilanos, e ajudava a 
isto a serpe que esperava no porto seus aventureyros lançando pola bo- 
ca contino lingoas de fogo, o que não era pouco temeroso de ver. 

O magnaninio Príncipe veyo per hunia rua que pêra isso foi feita 
na orta do camareyro niór des a varanda real te a sua guarda roupa. 
tífíi meyo de áuiis ordens de esteos enramados e com suas cimalhas : 
antre os qiiaes avia muytos trofeos, e mais a baixo molhos de morrões 
que ardião, e nas i)Ofitas luminaiias que faziam a ruí tam ciara como o 
dia. a (juiil viuiia acabar em huma poi'ta ijue entrava na liça í)er bayxo 
da varanda dei rei nosso senhor. E verdadeyramcnte que estava tam ar- 
leliciosa e aprazível esta rua, que lhe faço injuria em quam nial posso 
responder com palavras a seu primor nem dcclaralo: e por tanto conhe- 
cida minha falta passome ao sereníssimo Príncipe que entrou per ella na 
praça, levando em ordenança após si todos os aventureyros em suas 
companhias, com tanta ufania que logo se delles poderá esperar com 
muyta auçam, que sem algum receyo f.iriam de suas vidas muro da de. 
seu senhor, segundo os Laconios ho eram da sua cidade. E guiados per 
clle lodo perigo dos alpes e ho dos desertos de Libia lhes fora leve de 
passar. E com esta openião entravam em gentil ordem em que os punha 
António de lavara sargento do Príncipe, muyto bem desposto, gentil 
homem e desenvolto, tal que ho poderá ser de huma grande infantaria 
contra immigos. E elle uão satisfevto pois se lhe devia per todas vias 

23 



8:jÍ. MEMOmAL ros cavaliciuos 

oiitios litnlos, mas desle agora era elle miiyto contente por jr i]el)nyxo 
dl) ol)eilioncia em serviço de tal senhor. Indo pois lio Príncipe diante 
desta ordf^nança dos aventureyros, como capitão a que se foram someter 
e apelidar pêra socorro contra seus contrários. Levava ante si doze mo- 
cos Fidalgos seus, com brandões acesos, em calças e couras de tafetá 
amarelo, pardo e branco, cores da Princesa entrochadas liumas per ou- 
tras, muy conforme ludo á boa e disci'ela galantai-ia, e todos com miiytas 
peças e pontas douro, medalhas e pedraria, assaz ricos ayrosos e galan- 
tes, e trás elles liia hum enano do Príncipe, doutor em medicina da li- 
i)ré dos pages, com humas armas de folha de Fraudes que pare- 
ciam de fino aço. e com sua celada e penacheyra de plumas. Ante 
ho Príncipe desviado algum tanto, e vestido como atras apontey, 
tirada somente a roupa, o com a banda das cores da i^rincesa ho 
senhor dom Duarte que lhe trazia ho einiete, muyto ayroso e em tam 
tenra idade ja com huma segurança e severidade de Calão, que com elle 
iiaceo, mostrava bem de si quam divido e natural lhe era ho tal servi- 
ço do I'rincipe seu senhor, e quam próprio seu Mercúrio, ou se he liei- 
lo hum muy certo Ulisses de Diomedes. Deshi seguia ho animoso Prín- 
cine com huma hombridade grave e de muyla oper.ião, com tam estre- 
mado ar e postura de corno e membros, e gentileza de rosto, ordena- 
do de huma brandura humana e nobre, (jue logo mostrava serlhe em 
tudo divido o prímeyro lugar, e com muyía rezão lhe poderá el rey nos- 
so senhor dizer buiicasse outro mundo que este não lhe basíava, como 
Felipo disse a Alexandre e no infante dom Luís, que lhe vinha de hum 
lado atras, se via claro huma não pequena, mas viiluosa vangloria das 
csiierancas de tal Princiíte. O qual indo assi nesta ordem ao longo da 
liça contra a lenda dos mantedores, foy dando volta per junto dos juy- 
'/es sem ter conta com elles vindo de rosto a suas altezas, e des que lhe 
falou da porta da liça fronleyra, passnu de longo da banda de dentro 
anlre a liça e a tea te chegar aos juyzes, aosquaes disse quecra o Priíi- 
cipo dom João, e elles lhe tornaram: ([iie ho fosse per longos annos. O5 
aventureyros se partiram ao som do atambor com ygual passo. Em mo- 
do (Use ficou a tea cercada delles, e assí esteveram quedos com os pi- 
(uies altos por verem ho cond)ate do animoso Príncipe. E nesle meyo 
tempo combatiam com foguetes da nora a ave Fénix: A qual se come- 
çou queymar mostrando dar lugar ao novo Fénix, qnc !am cedo come- 



DA TAVOLA REDONDA 3*35 

cava soíTrer ho trabalho das armas em que se esperava ser Fénix, como 
lillio de quem em tudo ho he de seus tempos. 

Tocando pois huma trombeta da banda do Príncipe que estava no 
posto, respondeo outra da dos mantedores, e sahio logo dom António 
de Noronha, a que o Principe tinlia mandado dizer que se desse com 
elle ygualmente como com qualquer outro, e tomando do senhor dom 
Duarte ho elmete, elle lhe deu logo hum pique muyto desenvolto, com 
ho qual correndo contra seu competidor. Dom António ao encontrar le- 
vantou ho pique, ca não lhe soífreo seu leal esprito tocar no ungido, ti 
lio mesmo fez também o Principe, mas desgostoso, e des que vio que 
nam queria encontralo, levou da espada lançando de si ho pique. Os 
atambores e pífaros neste tempo soavam que parecia romperem os maio- 
res exércitos do mundo, fazendo era todos os ânimos hum guerreiro al- 
voroço. Vindo pois ás espadas, passou o mesmo, do que o Principe nada 
ficou satísfeyto, antes muyto pesaroso, porque ao ensayar com o mesmo 
dom António e com Rny de Sousa aventureyro, tinha quebrados muytos 
piques na vista assaz destra e esforçadamente, e assi se mostrara da es- 
pada nam menos manhoso feridor que forçoso, como aquelle que tinha 
membros e forças muyto alem do que a tal idade demanda. E pergun- 
tando polo Infante dom Luis porque nam encontrara seu competidor: 
humanamente lhe respondeo que era fraqueza dar em quem não lhe da- 
va, resposta digna de tal animo e tal juízo, que o Infante muyto folgou 
ouvir, porque o tinha visto ensayar e sabia o que nelle tinha, por onde 
respondiam as palavras ao espriío, e assi se foy com elle pêra suas alte- 
zas que o esperavam nam pouco contentes de taes princípios pola espe- 
rança que se deles podia tomar. 

Antretanto que se ho Principe sobia á varanda, os aveetureyros re- 
partidos ygualmente pediram as armas da fola, e feita sua oração, cor- 
reram a quebrarem seus piques em que ouve fermosos encontros, e lan- 
çando mão polas espadas combateramse delias muy furiosamente, no 
qual combate se mostrou muyto JoãoLopez Leytão quebrando a espada 
te ho punho, por o que foy julgado ho preço aos da sua parte. Os mes- 
tres do campo visto sua animosa fúria os despartiram trabalhosamente, 
levantando huma vara grossa que pêra isso estava na tea. Nisto tocaram 
os menestrijs juntos, e os cavaleyros se rocolheram em sua ordenança 
pola porta das orta com os juyzes. El rey nosso senhor se levantou com 
a raynha, e lio Principe Ibyse desarmar, leyxando o povo todo e corlo 



356 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

(iccijpada em seus dividos louvores, e na grandeza da festa que contada 
liça muyto falta, e huma muda pintura e sombra do que se vio. 

Ao domingo seguinte teve el rey serão real em que os cavaleyros 
do torneo vieram vestidos muyto galantes, e alguns dançaram com as 
damas em recompensa de seus trabalhos, o que antre Portugueses be de 
tanta estima, que nenhum temem nem receam por conseguir este dese- 
jado premio, e no cabo do serão apresentaram os juizes suas sentenças 
dos preços do torneo, que segundo fé do escrivão da nobreza sam as 
eguintes, trasladadas das próprias. 

Sentença da galantaria 

Foy julgado poios juyzes ho preço de galantaria ao Príncipe nosso 
senhor, polo gainhar, por vir mais gentil homem que todos, e melhor 
armado. 

A do pique . 

Foy julgados poios juyzes ho preço dos encontros dos piques, a Ma- 
nuel de Sousa aventureyro, polo gaynhar, por quebrar os seus três pi- 
ques mais altos que os outros. 

' Da espada 

Foy julgado poios juyzes ho preço dos golpes da espada, a Feriiani 
da Silva, polo gainhar por serem seus golpes mais altos, e lançar a es- 
j)ada fora da mão a seu contrario, e lhe desarmar liuma mano[)la. 

Da fola 

Foy julgado pelos juyzes ho preço da fola a toda a parte dos cava- 
Icyros que da parte da terra combateram, por se mostrar nella vanta- 
gem e mostrarem huma espada quebrada te ho punho de hum delícs, 
polo elles todos merecerem. 

Dados assi os preços a quem eram julgados, os cavaleyros os man- 
daram a suas damas que lhos tomaram per mandado de suas altesas, o 
que tudo assi passou com muyto alvoroço c contentamento. 



DA TAVOLA REDONDA 337 

Cnpitolo xlviij. Do remate destas festas. 

Ser melhor ir onde ha tristeza, que aos lugares de prazer. Antigo 
dito he de David, ca nestes tempos e portos sam os em que nos a for- 
tuna sempre espreyta com o peyto cheo de inveja, que de sua calidad(3 
tem sobir sempre ao mais alto, querendo perturbar o gosto desta festa, 
testificou sua grandeza no desastre e grande desaventura, com que lu» 
augou, porque no fim do torneo se soube como vindo dous aventureyros 
dentro de huma grande águia, traziam consigo dous gigantes per clles 
vencidos na serra de Sintra, e por guia de sua empresa a fama sobre a 
Águia, assaz fermosa e bem concertada, de seus olhos e lingoas per todo 
corpo, e nas mãos huma bandeyra das cores dei Rey nosso senhor, a quf 
vinha olferecer estes dous aventureyros com hum breve que dizia. 

Muyto alto e muyto poderoso rey, eu sou a fama sempre occupada 
em vossas inmortaes obras, e não satisfeyta de as pregoar polo mundo, 
muytas vezes me subo ao ceo com ellas, e aconteceo que dando laa no- 
vas deste torneo, nas casas do Zodiaco causou tanta inveja, que Polux e 
Castor antigamente dos primeyros cavaleyros andantes, colocados antre 
ns estrelas por sua alta cavalaria, foram movidos a vos virem dar mostra 
delia, com desejos de servirem ao Príncipe, a que se deve servidão e 
amor, não somente dos homens : mas das deidades celestes, e decendo 
na serra de Sintra acharam estes dous gigantes que se queriam embar- 
car pêra Trinacria com grossa presa, os quaes vos offerecem vencidos. 
Esta era a tenção dos dous aventureyros, os quaes vinham de armas 
(fuarteadas de preto e amarelo com estrelas per ellas, e no peyto hum 
escudo pequeno em meyo do qual traziam pintado ho signo Geminis, e 
por cercadura nove estrelas com huma letra que dizia. 

Corpo mortal e em tormento 
immortal ho pensamento. 

Per declaração da qual, está sabido serem estes dous irmãos filhos 
de Júpiter hum mortal e outro immortal, e amando se ambos em gran- 
de estremo parUram de por meyo a immortalidade, e se o que socedeo 
fora antre gentios parecera pronostico. Pois sendo sua tenção mostrarem 
a suas damas como no corpo mortal que tinham pêra padecerem por 
ellas as amavam com immortal e puro pensamento, os fados que tem 



oo8 MEMORIAL DOS CAVALEinOS 

seus lemites tomaram daqui azo que vindo assi os dous aventureyros 
dentro da Águia, a qual era armada sobre hum batel, deulhe o vento 
nas tás que trazia abertas e coçobrou. Per maneyra que enchendose da- 
í-oa foyse ao fundo com todos os que dentro vinham. E dos aventureyros 
Christovão de Moura foy salvo per hum seu criado, e Luis da Cunha 
alTogouse, tinham parece aqui as estrelas a soltura da antiga fabula, al- 
tos mistérios divinos entendidos soo da sua causa que obra tudo, e cho- 
rados de nós que os padecemos sem saber nem poder evitalos, salvo 
per seu meyo, triste desconto de gostos humanos, contra os quaes pare- 
ce armarse ho ceo de propósito porque não ponhamos nelles esperanças, 
e foy este hum manifesto roubo das Nereidas, qual o que antigamente 
ezeram de Hilas, por o que lhe foy feyto ho seguinte Epitáfio. 

Epitáfio a Luis da Cunha 

Macte ventute puer animoso 

en Aguila por Júpiter robado, 
Qual ya sue Ganimedes el hermoso 

para el cielo en estrelia trasladado: 
Las Ninfas de Oceano sin reposo 

encendidas de Amor han despojado 
Nuestra pátria de ti para ornamento 

honra e gloria de su vario elemento. 

Sabido per suas altezas ho triste caso, mostraram delle ho divido 
sentimento. El rey naturalmente piadoso, e que de costume e natureza 
linha, sanear com mercês e favor os desgostos e perdas de seus vassa- 
os, por satisfazer em parte ho nojo dos pays do defunto, fez lhe merca 
de dozentos e cincoenta mil reaes de tença, e em dinheyro quinhentos 
cruzados pêra refazer os gastos feytos, e tomoulhe outro filho pêra se 
criar no lugar do irmão com o Príncipe, ho qual não foy alheyo desta 
real obra, antes ho requerente, mostrandose muyto pesaroso de tal de- 
sastre, por o que com muyta causa sam tam amados os Reys Portugue- 
ses de seus leays súbditos, porque sempre recebem delles galardão de 
sen serviço vantajado da obrigação. Per modo que este remate deram os 
fados ao torneo: mal ajam elles que não acabaram nisto, antes principia- 
ram como se fora pronostico de sua dannada determinação. Ca não sa- 



DA TAVOLA r.F.DONDA 3*)0 

lisfeyta sun insaciável invejn, qnc conceberam, parece de tam abalisados 
Príncipes prospera e nobre corte. Passado pouco tempo, andaram co- 
lhendo algumas flores destes cavaleyros quando em Afiwca começavam dar 
fruyto temporão de sua natureza, morreiído a lanradas de inimigos da 
!é, vendendo com muylo esforço as vidas a preço de sangue pagão, e 
cum.prindo com a obrigação de seus avós, c as leys de sua animosa ope- 
nião, com mayor ousadia do que suas tenras idades requeriam, o que 
tudo fora ^.offrivel por a gloria que os laes seguram, ea eterna memoria 
que de si leyxam. Mas ah desaveníura grande, dor sem remédio, perda 
tarde ou nunca recompensada, (juem poderá ouvir sem lagrimas ho cruel 
i"Oubo, e temerosa conjm-ação das estrelas contra Portugal, ho qual passa- 
va estas pei'das com soiTrimento, esperando refazelas com dobrada vin- 
gança na vida do seu magnânimo Príncipe, cuja gentileza, capaz discrição, 
reaes condiçíjes, divina incrinação, virtuoso zelo, humana affabilidade, 
amoroso tratamento pêra com os súbditos, e animoso esprilo, davam de 
si confiança, e prometiam esperanças de grandes fimdameníos, estes es- 
piou a falsa fortuna coníraminando a prosperidade do povo Lusitano: ca 
pretendendo ho prudentíssimo rey seu padi'e segui'alo, como no priii- 
cipe linha o particular gosto da conversação de tal Olho que muyto ama- 
va, e ho cuydado pubrico da fortaleza de seus reynos, desejoso de ver 
fruyto de tal pranta forralo dos perigos da viciosa mocidade, e apuralo 
em varoniis occupações mandoulhe vir sua esposa, com que ei"a desposa- 
do per palavi-as de futuro, a esclarecida Princesa D. Joana, filha do gran- 
de Emperador Carlos quinto. 

A (lual entrada por ser inuy notável, as fadas lambem aíi fezeram 
vente a el rey Sagramor, dandoihe a breve resolução que atras ouvis- 
tes, e ali se vio logo ho alvoroço com que toda a corte Portuguesa cu- 
ineçou aperceberse pêra festejar este desejado recebimento, viose a ci- 
dade chea de boninas amarelas da lustrosa libré dos lacayos do duque 
Daveyro, a discreta tenção da cobra surda, ho aprazível, galante e cus- 
toso aparato com que foy tomar a entrega da sereníssima Princesa. Pêra 
cujo coido avia mester huma muy ouciosa c corrente pena, [:or(}ue nu 
invenção dos re[K)steyros, no vestido dos menestrijs, na soma da gente 
custosa, na ri(jueza e primor do fato, ena abastança do ai, não avia maia 
(juc desejar, mas muyto que invejar na soberba mostra que de si deu a 
(lasteila assi de estado como de galaiitaria e »iiscrição. Após isto vioso 
lambem a estranha entrada da Princesa p jopuljsa Lisboa, a nova e 



3G0 



MEMORIAL DOS CAVALEIUOS 



fermosa armada de ricos barcos com seus toldos, diversas e gentijs in- 
venções, com que o clirislianissimo Rey foy passala do bai^reyro pêra a 
cidade cm huma caravela toldada toda de boi'cado que beyjava a agoa, 
rica e artificiosamente conceriada, tudo em tanta maneyra custoso e ga- 
lante, que o mesmo Neptuno rey do mar, se quisera mostrarse com os 
deoses marinhos, e todas as Nereydas, não dera sombra a esta famosa 
entrada. Pois a temerosa balaria de grossos tiros per toda a prava com 
que a cidade a recebeo, foy tao espantosa que competia com a fúria dos 
rayos de Vulcano quando ho Tronante Júpiter destroyo com elle os Ti- 
tanos, e não scy qual das deosas invejosa de tanta magestade incitou 
Eolo rey dos ventas que prelendeo estrovai' a passem, movendo os ma- 
res como contra Eneas! com que foy com algmn traballio: mas Neptuno 
conhecendo-se vassalo do rey que senhorea suas agoas, trouxe todas as 
velas sem perigo ao i)orío, onde a esclarecida Princesa se vio cm hum 
estremado grau de fehcidade, lograndose com hoseu Príncipe, unida em 
conversação do que lio mesmo Amor teve com a sua amada Psiches. 
Mal cuydava ella então a conjuração e maçada das fadas, as quaes che- 
gando a este passo tornaram a cantar lamenlosamenle lio seguiuie lío- 
mance. 



Soberbo eslaa Portugal 

em sua gloria enlevado, 
Yeese de hum rey sabedor 

mimoso e bem governado. 
O mundo tudo anda em guerr;is 

injustas muy baralhado : 
Elle soo eslava em remanso 

seguro e muy descançado, 
Plantando anlre os iníieis 

pendijes do crucificado, 
Per capitães animosos 

que os levam per seu mandado. 
E como Deos de taes obras 

folga verse penhorado, 
Cos os olhos em Portugal 

estaa sempre occupado. 
E como filho mimoso 

de que nam perde o cuydado, 



Porque não se ensoberbeça 

em se ver Iam [irospei^ado: 
Na força das suas glorias 

no tempo mais festejado, 
Dantre os olhos lhe tirava 

ho seu Principe estremado. 
Vendo no pay paciência 

pêra sei' mais apurado, 
Daa graças ao criador 

inda que desconsolado. 
A menina que seu Amor 

ein llor assi vio cortado, 
Vencida com solfrimento 

a dor do Amor encurtado. 
No peyto se abrasa em magoa 

ho rosto mostra esforçado. 
lio coração lhe dizia 

o mal de que era assombrado, 



DA TAVOLA REDONDA " 361 

Entende, soffre e gemia Ou animosa Princesa 

padece, e maldiz sen fado : quanto vos fica obrigado 

A si mesma se esforçava, Ilnni Reyno que destroydo 

e fazelo era forçado. por vos ficou restaurado. 

Por dar esforço e consolo Esforçate Portugal 

a hum pay desconsolado, pois te ves ja melhorado, 

E pêra poupar ho fruyto De hum Rey que antre os Reys 

do seu Amor desejado, estremo seraa chamado. 

Este canto entoaram as fadas tam lamentável e doridamente que en- 
lerneceo os corações de quantos ho ouviram com hum lastimoso senti- 
mento, entendendo a morte do desejado Príncipe, que sobre todos a lin- 
da menina Princesa padeceo com ho mais alto siso e animo que pode 
verse. Ca sendo ella hum raro estremo de virtude e fermosura, perdeo 
em breve, e chorou longamente ho seu fermoso Príncipe tenro na idade 
e no amor a que se lhe elle sacrificou, vidas e tudo se devia á gentil 
Princesa, tudo ella quisera pêra ao amado Príncipe, a ella e a todos era 
necessário vivo, ella ho sintio, todos ho padecemos, e como o Amor 
dambos era ygualmente determinaram as fadas que ho pranto que as 
Ninfas costiuuavam fazer cada anno em memoria da morte de Adónis, 
por a dor de Vénus, esse mesmo se fez ese ante el rey Sagramor em 
figura do que se deve fazer por ho desejado Príncipe: Por o que acaba- 
do ho seu canto entraram no sitio as três Charites, ou Graças, Aglaya, 
Eufrofina e Pasitea, donzelas de estremada gentileza e aprazível asseo, 
e tomadas das mãos vinham como dançando honesta e brandamente, e 
Iras cilas vinha Yenus cercada de muytos Cupidos pequenos, que sam 
os amores geraes. Ca Cupido seu filho ficava em braços de Psiches ano- 
jado, e com ella vinham outras Ninfas: as quaes tangiam huma rebeca, 
harpa e viola darco, com huma soada assaz triste, a qual começou Âglaya 
o suas companheyras que logo a ajudaram cantando este Elegia, repre- 
sentando ho pranto de Adónis no que se segue. 

Elegia Jcis Charites 

Choremos morto Adónis, ah morreo 
Adónis ho fermoso. 
Amores ah chorayme, pereceo 
ho meu gosto amoroso, 



302 RIEMORIAL DOS CAVALEIROS 

doce bom deleytoso, 

bo meu, ah, tenro Amor 

minha gloria e descanso, ah inda em flor, 

Não dormirás ja Vénus anlre ílores 
no manto de escarlata, 
de negra vestidura tinta em dores 
te viste, pois to mata, 
morte, que Amor desata, 
e rasgando bo teu peyto 
grita, morreo Adónis, ah despeyto. 

Adónis jaz ferido dalvo dente 
Vénus de dor eterna, 
perdida a cor rosada da excelente 
boca que não governa, 
saelhe d'alva perna 
negro sangue e tingio 
vermelho a lua rosa onde tingio. 

Mil beyjos Citherea Hic está dando 
quelle ja não sintia: 
de lagrimas as faces lhe regando 
sobrelle esmorecia: 
Amores meus, dizia, 
Adónis ah choremos 
pois nelle todo Amor e bem perdemos. 

No corpo Adónis tem mortal ferida, 
Vénus nalma a padece 
anojada de si porque tem vida 
quando a dalma perece 
bo viver a entristece 
maldiz a immortal sorte 
que lhe tolhe seguir Amor na morte. 

As Orçadas choram em cabelo 
bo ceo ferem com grilos, 
no pasto as vacas sentem ja perdello 
os touros dam atitos, 
vam berrando os cabritos 
trás as mãys, que de espanto 
polas serras lhe fogem, não sem pranto. 



DA TAVOLA REDONDA 363 

De toda parte as Ninfas acodindo. 
a tal desa ventura, 

com Vénus sobre ho morto estam carpindo 
lagrimas de amargura, 
que regavam a verdura, 
em flores convertidas 
e com vozes as ninfas muy sentidas. 

llum fermoso marido em verdes annos 
perdeo, e juntamente 
ho doce Amor tam puro sem enganos: 
e assi perder não se sente, 
mas deslroyr consente, 
a sua gentileza 
de suas próprias mãos com gram crueza. 

A sua fermosura ja estimada 
quando Adónis vivia, 
delle querida, e delia mal lograda 
parelle soo a queria, 
parelle se vestia, 
parelle se enfeytava 
como ho tinha contente, ai não cuydava. 

Perdeose com Adónis tudo junto 
o seu contentamento, 
e ho seu gosto, eniA donis he defunto 
mas vivo ho sentimento, 
do duro apartamento, 
de Adónis encurtado 
ah, choremos Adónis mal logrado. 

Morreo Adónis, ah, soam montanhas 
com temeroso som, 
com vozes Echo fere nas entranhas 
de Vénus, triste tom, 
pranto me deste em dom, 
diz ella. O Amor meu 
em pago de quem toda a ti se deu. 

Detente hum pouco Adónis, ah, de tente 
dame se quer ouvidos, 
ás ultimas palavras de presente 
recebe meus gemidos, 



364 MEMORIAL DOS CAVALEIROS 

c senão sani doridos, 

quanto a causa requere 

esta magoa também inda me fere. 

Nestes braços te tenho amor diante, 
ergue os olhos quebrados, 
toma os últimos beyjos desta amante 
os suspiros cansados, 
os soluços forçados, 
em quanto a alma le dura 
neste corpo da minha sepultura. 

Ho fôlego na boca te tomando 
beyços quentes com frios, 
que passe teu esprito a mim esperando 
os meus olhos sam rios, 
ah, que cruéis desvios, 
de todo gosto humano: 
fados immigos tem, ah, grave dano. 

lio doce amor estou assi bebendo 
ho desejo enganando, 
nas entranhas teu bafo recolhendo 
assi me está assoprando, 
ho fogo que queymando, 
consume ho coração 
que padece, e não morre de payxão. 

Trabalhas amor, ah, desconhecido 
apartarte de mi, 

e fugir, deste corpo tam querido 
ho teu esprito, e assi, 
arrastame após ti, 
não me leyxes tam soo, 
de quem te vence Amor, vençate doo. 

Tu desejado amigo morrerás 
contigo Amor perfeyto, 
que foy sombra e foi sono levarás 
eu flco a dor no peyto, 
viuva em triste leylo, 
em pranto e em saudade 
viva em seniila e morra na vontade? 



DA TAVOLA REDONDA 36,") 

Tam dorida era a soada que as charites davam a esta Elegia, que li- 
iilia toda a corte embayda em sentimento. Vénus banhada em lagrimas da 
sua magoa, ho mostrava tal que enterneceo os Cupidos pequenos qui' 
consigo trazia: de maneyra que tudo era pranto e dor, o assi se esvane- 
ceo tudo e desapareceo, leyxando huma dorida memoria de tanta desa- 
ventura? Aqui enmudece a lingoa, aqui nam se manda pena com ouíí a 
riiayor: Os espritos abafam, a pobre barca do íraco engenho metido antre 
Inílcões de altas ondas espantosas, em meyo da cruel consulta dos fados 
que a transtornaram as esperanças em magoas, os gostos em tristezas 
rota a vela da lingoagem, quebrado ho masto do estilo, e perdido ho 
leme da ordem entregase ao profundo silencio. E por quanto a divida 
dor, e a obrigação do amor causou ho divertimos algum tanto a histo- 
i'ia: não he sem propósito, porque tudo a sabia Merlinda fez vente a el 
Rey Sagramor a maneyra que atras ho ouvistes, aa íim de ho persuadir 
que se velasse da sua fortuna. Segundo se verá no segundo Libro que 
se segue na perigosa guerra que lhe tramou. Per modo que nisto se re- 
solveo ho encantamento que ouvistes. 



Âcabouse aos xn dias do mes de Novembro. Anno mdj.xvu 



LAIS DiuO. 



índice 



PAO. 

Algumas palavras do revisor desta obra v 

Prologo '. VI 

Capitolo primeiro— Como teve principio a Ordem da Cavallaria . 1 
Capitolo segundo — Como el-Rey Artur íbytrahido perMorderetseu 

filho 4 

Capitoio lerceyro— Da batalha que el-Hey Artur teve com Morderet 

seu filho <j 

Cai)iiolo quarto— Como Sagramor foy levantado por Rey, e vence- 
dor 13 

Capitolo quinto — Do que ordenaram os' filhos de Morderet sabida 

sua morte 16 

Capitolo sexto. Como el rey Sagramor armou cavaleyro hum donzel 

que veyo á corte 20 

Capitulo sèptimo — De huma aventura que veyo a Londres, a que 

foi Fidonflor de Mares . 2i: 

Capitolo octavo~De hum mouro spanhol que veyo á corte desafiar 

os cavaleyros da lavola redonda 30 

Capitolo nono — Como ho cavaleyro das armas cristalinas matou ho 

gigante do castello da estranha Torre 3.j 

Capitolo decimo — Em que ho mouro Espanhol acabou seu conto . 42 
Capitolo xj — Como ho cavaleyro das armas cristalinas topou com 

imma donzela que ho guiou a seu fado 40 

Capitolo xij — De huma dona que veyo á corte pedir socorro a el 

rey Sagramor o2 

Capitolo xiij— Como ho cavaleyro das armas cristalinas indo per mar 

chegou á ilha Corcega e ho que nela passou . . . . . . 59 

Capitulo xiiij— Do que passou no castelo da estranha torre, man- 
dando ei rey tomar posse delle 60 

Capit. XV. Do cabo que ho cavaleyro das armas cristalinas deu a 

aventura que achou na ilha Corcega 70 

Capit. xvj— Como Muleyzidão Miramolim de Africa determinou con- 

(juistar França induzido por Godifert Tf) 

Capitolo dezasete— De quem era ho sábio Telorique, e ho principio 

de Florismarte do Lago 84 

Cap. xviij— Como ho cavaleyro das armas cristalinas se desviou de 
' sua jornada, e o que lhe aconteceu 95 



TNDICK 3G7 

PAG- 

Cap. xix.— Em que se conla a clestroyção dei rey das iilias Bema- 
fortunadas 100 

Cap. XX— Como Arisbes negoceou em França, e lio que fez ho Mi- 
ramolim com seu recado {i;j 

Cap. xxj— Como Dorislão Daularixa a requerimento de liuma don- 
zela, soccorreu oulra HO 

(^ap. xxij— Doque aqueceo aos Gémeos que partiram de Londres, 
por se verem com ho cavaleyro das armas cristalinas. . . . 130 

(^ap. xxiij— Como Padragonle de Suz (oy a Espanha, e o que nelia 
lhe socedeo >. 1,37 

Capitolo xxiiij— Como ho cavaleyro das armas cristalinas salvou de 
morte Beífloris, com ajuda de Florisbel I4'(. 

Capitolo XXV — Do soccorro que el Hey Sagramor deu aa Raynlia 
Drusianda . lo.j 

{'.apitolo xxvj— Do que acaeceo a Deifilos de Xatra, e Pinallor. . ÍGI 

Capitolo xxvij — Do que aconteceo a Eidomílor de Mnves indo na 
rota da ilha Gocia . . . IGX 

CapUolo xxviij— Do que passou em sua viagem Leonces de Uenel. ]7() 

Capitolo xxjx— Como Padragonle de Suz matou os irmãos da ponte 
do Sacrillcio 18.3 

Capitolo XXX — Como Florisbel determinou jrse á Inglaterra com Beí- 
floris por conselho do cavaleyro das armas Cristalinas . . . lOÍ 

Capit. xxxj.— Como Doristão Daularixa chegou â torre de Laudi- 
sea 198 

Capit. xxxij — Do que socedeo a dom Brisam de Lorges com a don- 
zela Floresinda 207 

Capitolo xxxiij— Como FidomUor indo à ilha Gocia Oriental achou 
dous Donzeis, e o que com elles passou 21:i 

Cap. xxxiiij— Gomo Deyfdos de Xalra e Pinaflor livraram ho prín- 
cipe Arislandor 221 

Capitolo XXXV— De como ho Cavnieyro das armas Cristalinas fov á 
Gruta do Centauro " , 22(j 

Capit. xxxvj^Da alTronta em que se dom Brisam de Lorges vioem 
Damasco per causa de sua amiga 23í) 

Capit. xxxvij— Da batalha que Doristão Daularixa teve com Astribo- 
nio Duíjue de Milão ante Laudisea 2415 

Capitolo xxxviij— De como ho cavaleyro das armas cristalinas foy in- 
foi'mado do Gigante Argauçom '. . 2')i 

Capitolo xxxix — Como dom Brisam de Lorges foy a Damasco . .201 

Capitolo xl— Como Masilia se veyo com Laudisea aa corte dei rey 
Sagramor, c o que lhes aqueceo no caminho '. 270 

(Capitolo xii— Do que passava na corte dei rey Sagramor . . . 27.'i 

Capit. xlij— Como ho cavaleyro das armas cristalinas desencalou Ce- 



:iC8 



índice 



PAG. 

lidonia i281 

Capitolo xliij— Em que Corisaiicia conla a obrigarão que os Doiizeis 

tem de sens avos ^8í) 

Ca|). xiiiij— Das festas que se fezeram na corte dei rey Sagramor 

por as vodas de Doristão Dautarixa 21)8 

Capitolo xlv — Das justas que fez ho cavaleyro do Centauro na 

corte 01!) 

(^apit. x!vj— De huma maravilhosa aventura que veyo aa corte . . 3í2í 
Cai)it. xlvij— Do torneo que fez ho esclarecido Príncipe em idade de 

quinze annos 330 

Capitolo xlviij— Do remate destas festas. 357 



COLLECCÃO DOS CLÁSSICOS POUTUGUEZES 



ACHÃO-SE Á VENDA 



ÍLlucifiaiio (Ias palavras, lermos e frases 
que em Porlugal uiiligamente ?e usa- 
r.un, e iinje rofiularmeiíte se ignoiain, 
por Fr. Joaquim Sania Hosa de Viter- 
bo, 2 vol. iii folio a 2 col. 4^5000. 

Historia cie S.'Doming(;s, por l-r. Luiz de 
Sousa, G grossos vol. em í ", "t^itíú. 

Chroiiica da Conipaiiiiia de Jesus, pelo 
fadre Simão de Vascoucellos, 2 vol. 
em -i. , 1800. 



Trabalhos de Jesus, f.or Fr. 1 Iiomé de 

Jesus, 2 vol. cm l", 1800. 
Origem e Orthogiapliia da i.ingua pcr- 

tugueza, jior Duarte Nunes do Leão, 

1 vol. iiOU rs. 
iiellexões subre a lingiia portugueza, por 

iMancisco José Fifire, 15 vol. 7'.Í0 rs. 
.Memorial dos Cavalloiros da Tavola \\p.- 

(ionda, por jorge l''errena de Vascou- 

ccllos. i vol. 1^000 rs. 



^■^^@^ ^^^^^^;pL,^SSí 



Aulcyr.ifia, por Jorge Ferreira de Yas- 
conceilus. 

Ilisioria do Brazil. por Rocba Pila. 

Novíi Lusitana, (juerra Brasílica, por 
lirito Freire. 

(lorograpliia portugueza, pelo Padre Car- 
valho. 

ilappa de Portugal, por j. líaptisla de 
Las Iro, euutiiiuado até ao presente • 



Ivsfera, por Pedro Nunes. 

iNnbliarchia portugueza, [lor Villas l5oas. 
Sam|)aio. 

Memorias da mocidade, pelo Cónego Soa- 
res Kraiieo. 

Thesonro de Fafnir, legenda e.vtraliida 
das tradieções germânicas, sobre a 
morte deAttila, por Frneslo Marecos- 




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